ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, fevereiro 14, 2018

(DIA DE) SÃO VALENTIM – A HISTÓRIA REPETE-SE




1. Da Eterna Questão
Todos os anos, em ocasiões específicas, existem maus fígados acerca de datas ou supostas efemérides criadas para varrer o inventário das lojas da especialidade. A esmagadora maioria das menções e trabalho de marketing associado ao chamado dia de São Valentim são, no mínimo, desastradas e involuntariamente hilariantes. O marketing do “amor” é como os anúncios de higiene íntima. Não há um que resulte, é tudo pateta, algo constrangedor e sempre cómico. E andam atrás do euro? Claro.
Isto repete-se seja no Natal, na Páscoa, no Carnaval, etc, etc etc…
Mas vamos lá ver um par de coisas:
1.      É de facto assustador, ou triste, ou ambos, se alguém só se lembra de levar alguém a jantar neste dia. Ou a um filme, ou a um teatro, ou a uma espécie de massagem proscritas com óleos de flores esquisitas, ou a comprar velas que não sejam apenas para remediar a quebra de energia em casa. É verdade que em muitos casos parece existir uma espécie de obrigação procedimental, e em não raras vezes, um alívio de um sentimento de culpa de quem não sabe brincar o ano inteiro e acha que este dia equivale a pagar as quotas anuais para esse clube. E não nos enganemos quanto a uma coisa – esta tipologia de compensação canhestra está de ambos os lados da barreira de género. A preguiça não escolhe o tipo de genitália ou orientação que determina o que se deseja fazer com ela. É um fenómeno inclusivo.

2.      Se é certo o que disse acima, também o contrário é possível. Há malta que se diverte o ano todo e TAMBÉM neste dia. É o mesmo raciocínio que aplico ao Natal, época que me é cara. Se essas datas são apenas mais uma oportunidade para fazer algo que já é levado a cabo regularmente, e para brincar um pouco mais, porque não? Eu não sou partidário da festa de São Valentim porque a acho inerentemente Kitsch, mas isso não significa que todas as manifestações da coisa num dia como este sejam apenas e só picagem de ponto. Acredito que seja a maioria, mas isso é outra conversa. O ponto, parece-me, é que há uma diferença entre rir da piroseira dos peluches da Funny e um ódio figadal ao dia que me parece ter outros motivos…

3.      Talvez seja verdade que neste dia, os (arghh…) (românticos incorrigíveis - ou talvez muitas pessoas para as quais a medida de sucesso seja o “check” na quadricula “relação”, mas isso é também outra conversa…) – que se encontrem distanciados de um envolvimento mais significativo, e que sofram com isso (pois há quem esteja muito bem), terão muito a dizer sobre a esfrega de marketing que suportam num dia destes. Porque, como dirá qualquer pessoa que alguma vez teve uma sintonia especial com alguém, a piroseira, restrita a níveis mínimos bem aplicados, faz parte da capacidade de brincar que as reais empatias proporcionam. Há no amor, seja lá o que ele for, o atrevimento para sair da elegância e dar pequenos passos num universo de brincadeira parva. Faz parte, dizem.
Mas valerá a pena tanta bílis? Há assim tanta denúncia irada a fazer? A data é parva o suficiente para colocar o “raivómetro” no limite da escala? Se calhar mais vale brincar com a cena, e sim, fazer perguntas pertinentes acerca da sanidade mental de alguém que acha que perder um jantar neste dia é sinónimo de um crime de lesa-majestade para a tal “relação”. Para picar pontos já chega o trabalho, digo eu, mas caraças, vale a pena comparar isto a uma praga zombie? Eu cá acho a data pateta e canhestra, mas se a malta se divertir com a coisa, siga. Acho que estrear o terceiro filme da sopeira já é castigo suficiente, não acham?

4.      O que tem piada nesta altura? A história. E a História. O mito é delicioso, e tão pleno de ironia que daria um semestre de psicanálise. E segue abaixo. Divirtam-se. Neste e outros dias. E já agora, sem juizinho.


2. – Da História
1.      No dia 14 de Janeiro de 1929, Al Capone limpou o sarampo a 9 rivais, tendo-se enganado num, e usado uma táctica de dissimulação ao disfarçar dois dos executores como policiais. Este evento ficou conhecido como o “Massacre de São Valentim” e é demasiado delicioso na sua ironia involuntária face ao evento de massas ligado à data em questão. Tirem as vossas conclusões. Eu sei que tiro as minhas, e são umas quantas...
Tendo isto com pano de fundo, o próprio mito de São Valentim tem tido umas distorções para ajudar à efeméride. Há quem diga que o rapaz havia perdido a cabeça por causa de uma moça que o teria feito repensar a sua vida eclesiástica, mas a história é consideravelmente diferente. Não há aqui nada de Heloísa e Abelardo, mas mais de um mártir que terá perdido a vida por querer por juízo e ou moralidade numa sociedade estranha, onde o cristianismo tentava assentar arraiais, especialmente em matéria de costumes.Parece que a malta em Roma não achava piada ao casamento cristão, gente esperta e previdente lá está, e proibiu-o porquanto se dizia que a ligação de tal sorte poderia levar a que os soldados hesitassem aquando dos embates bélicos, por medo da sua família ou pelo seu próprio destino. No entanto, como a fé cristã lá ia penetrando a sociedade, (assim como um vírus – pois, o que estavam à espera?), o mártir foi casando o pessoal às escondidas, com grande risco pessoal para ele e para os cordeiros casadoiros do seu rebanho. Até que foi apanhado e submetido a algo semelhante ao que aconteceu a Rasputin, [que ao que parece, segundo a história e os Boney M (em anexo 😉 ) , era fresco e supostamente o John Holmes do seu tempo… ] ou seja, foi espancado, lapidado e decapitado.

2.      Dizem algumas versões que a confusão dos supostos intentos românticos do mártir se deve à mensagem que terá deixado à filha de Asterius (não confundir com o gaulês irredutível), um alto responsável judicial de Roma. Diz-se que o anto Valentim a terá curado de uma cegueira, e que o pai da pequena ter-se-á, em função disso, convertido à religião cristã, mas não a ponto de poder evitar a terrível sentença do safardana do imperador Claudio II.

3.      Em suma, o Santo Valentim, associado a este dia de pretensa celebração romântica e até mesmo um impulso de deliciosa carnalidade e chavascal, era afinal um rapaz que suou as estopinhas para acabar com essas badalhoquices imorais dos amigamentos, não raras vezes em grupo, dos romanos. Não mencionando a evidente e contínua ironia, não deixo de sentir uma certa pena pelo ícone desta efeméride, morto de forma terrível por celebrar casamentos numa sociedade onde se calhar valia tudo menos tirar olhos. E imaginem o que era se a malta gostasse?

4.      Assim, conclui-se que São Valentim não é o padroeiro do enamoramento, nem do erotismo, nem do chamamento romântico. Era um prelado responsável e dedicado a celebrar cerimónias de casamento, que perdeu a cabeça por querer fazer a vontade às pessoas que insistiam em meter-se em alhadas. Eu prefiro os mitos que diziam que ele tinha perdido a cabeça por causa de uma miúda. Mal por mal, era bem mais real e consentâneo com a natureza humana, e ao menos tinha-se divertido antes de bater a bota.

5.      Outra ironia para ficarmos a pensar. E como se sabe, a ironia faz bem ao sangue.

NAJ ™ – 14/02/2018 - Estações Diferentes™
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sexta-feira, fevereiro 09, 2018

A OBSESSÃO ÉTICA DO SEXO ARRUMADINHO E BEM JUSTIFICADO



 Se há coisas que irritam nos dias de hoje, é esta novilíngua segundo a qual qualquer manifestação de desejo tem de ter um enquadramento ético e arrumado. O desejo, o fenómeno da curiosidade, a simples animalidade que toca a todos, está no presente quotidiano sujeito a uma espécie de freio e molde organizador. O fenómeno erótico parece estar sujeito a instruções do IKEA – tem um diagrama e se não for seguido, a estrutura é instável, ou errada, ou nem sequer é um móvel!

Não há pachorra.

A quantidade de pessoas que, ao invés de cuidarem da sua própria vida insistem em regular o que outros, como adultos consensuais e anuentes, decidem ou querem fazer, leva qualquer pessoa a uma espécie de desespero. Pior, peroram sobre uma pretensa ética dessas escolhas, com um escantilhão moral tão exacto que corta o mundo em divinos e danados. Censuram-se artistas, confunde-se a obra com a pessoa, atribui-se uma certa profissão liberal a pessoas que não se enquadram no anúncio de cerveja ou da manteiga de pequeno-almoço, presume-se um destino, no mínimo “protoconjugal” a qualquer pessoa que queira ver outra sem roupa, por oposição a uma superficialidade que faria de Sodoma uma espécie de cúria romana, e outros dislates relativos a vidas que não são as suas.

Há uma obsessão ética em colocar o sexo numa prateleira do “certo” e “adequado”, ou melhor dizendo, como fenómeno digno apenas quando sustentado numa ideia de afeição maior que os anéis de Saturno. Se pensarmos na raridade que é conseguir sentir algo de realmente perene ou avassalador por alguém, penso na pobreza que será viver e considerar o fenómeno erótico tão entrincheirado em tais premissas. Deve ser lixado o sexo apenas em caso de amor verdadeiro e imorredouro. Acho que setenta e cinco por cento da população seria condenada a um tiro único ou nem sequer isso… É bem sabido que no universo erótico, a liberdade, pelo menos de pensar, não se coaduna com uma linearidade pacífica e ao mesmo tempo inquietante. Simplesmente não acontece. A porra das hormonas (no circuito neurológico) nem sequer aparecem todas ao mesmo tempo na esmagadora maioria dos casos. E ainda assim, há uma tentativa de dar boa reputação ao chavascal que nos inunda a cabeça a quase todos. Essa perspetiva tem muitos adjectivos, mas acima de tudo é ingénua.

A maioria das histórias de vida são feitas de solavancos tão fortes na perspectiva que tinham da mesma, que o espaço erótico e desarrumado é apenas uma daquelas que raramente corre na linha do dever ser. É uma sorte quando acontece, como é uma sorte ganhar o euromilhões ou nascer com a estrutura óssea da Isabel Goulart ou a voz da Agnes Obel. Mas a sede de “decência”, de arrumação, de encaixar o fenómeno do acto visceral de desejar numa espécie de manual de regras de certificação é, quanto muito, e mesmo aí duvido, um esforço individual. Como doutrina é uma merda pontificada com hipocrisia da boa, daquela passivo-agressiva que enterra os outros para limpar um suposto cadastro. Tudo errado, portanto.

Assim, censurar quadros, filmes, livros, fotografias, etc etc etc, é estupido. Fazer juízos morais e normativos sobre a vida de adultos que fazem o que lhes dá na bolha de forma voluntária, é prepotente. Acima de tudo, emprateleirar o erotismo na ética é como falar do desejo como uma receita infalível. Na maior parte dos casos o bolo queima-se, ninguém come nada, e resta a raiva associada ao que afinal deveria ter sido feito.
A mesma história de sempre, portanto.
Por isso, viva SCHIELE, BALTHUS, NABOKOV, MANN, etc, etc, etc…
Viva o reconhecimento da desordem que é querer ou imaginar alguma coisa. É que não há outra forma de o fazer…


P.S. – Obviamente que se exclui daqui todas as formas de violência não consentida, e todas as formas de ilícito ou crime associadas ao fenómeno erótico. Não vá a brigada da justiça social achar que se promove aqui a prática de crimes… Seria estúpido pensar isso, mas nunca fiando quando se trata de gente que quer corrigir o final da Carmen ou retirar do Balthus das paredes ou ainda dizer a recasados que pinar está fora de questão…  

NAJ ™ – 09/02/2018 - Estações Diferentes™
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quarta-feira, janeiro 24, 2018

DA CONSISTÊNCIA (S.F.F.)

 
É uma lapalissada especialmente evidente aquela que ilustra o facto de cada pessoa ter atitudes contraditórias. Estar confuso, além de ser natural, é a fase preparatória por excelência para qualquer decisão ou atitude importante. E nem todas as atitudes importantes são modificadoras de vida, para usar a terminologia anglófona. Algumas são tão simples como comprar sapatos de sola suave para compensar as dores causadas por um esporão calcâneo. Muda muita coisa mas o dia amanhã não nascerá com dois sóis por causa disso.

Ora a consistência é algo necessário para se poder entender a forma de lidar com o outro. Não a rigidez absoluta. Tenho muito receio de pessoas que nunca mudam de opinião em nada, bem como daquelas que nunca fazem asneira. Denuncia, em meu ver, não exactamente consistência, mas quase um calculismo obsessivo. Coisas assustadoras para quem já as viu em acção. No entanto, convém não parecer uma vela em Tarifa. Ventos permanentemente e excessivamente contrários não são charme ou complexidade, mas apenas uma espécie de ausência de noção de quem se é, recaindo esse fardo para aqueles que simplesmente gostariam que lhes explicassem ao que vêm. Uma atitude de acolhimento e entusiasmo, seguida imediatamente por uma neutralidade amorfa ou distância, deixam qualquer pessoa emersa numa dúvida que, mais do que qualquer outra coisa, é chata pelas atitudes desavisadas às quais pode conduzir. Quem é que quer estar sempre atrás seja do que ou de quem for? Ou sentir que está constantemente a pigarrear para ser notado numa sala para a qual até foi entusiasticamente convidado? Ou relembrar intenções veementes transformadas em silêncios constantes? Quem é que quer ser chamado para o meio do salão de dança e ficar lá, especado, porque afinal o par não era aquele, mesmo depois do gesto inequívoco? Quem é que quer por o pé na porta se não veio nem nunca virá vender coisa alguma?

Sem saber ou perceber, a elegância e mesmo o respeito é difícil. Pode ser-se intrusivo ou pesado por acidente, baseado nas palavras claras que afinal, de realidade pouco tinham ou têm. A rejeição ao retardador é ainda mais lixada que a originária, porque ao menos a primeira não teve nenhum “build up”, não se antecipa merda nenhuma. É o que é, obrigado e bom dia, e nem sequer se gera um mal-estar ou querer por erro de coordenadas causado por quem parecia apontar coisas claras num mapa.

A consistência ensina-nos a respeitar tudo. Sim é sim, não é não, e o resto não pode variar consoante a maré bate ou qualquer forma de reforço da reflexão leva a uma e outra e outra mudança de direcção, fazendo o caminho do “convidado” parecer uma volta à pendura num carro de choque guiado por alguém padecente de labirintite. É chato, chega a ser embaraçante, espatifa a mais encouraçada das autoestimas, e acima de tudo, é deselegante, roçando a falta de educação involuntária. E como sabemos, a educação é a única coisa não negociável. É onde a civilização e a civilidade começam e acabam. E podemos poupar os outros, senão a tudo o resto, pelo menos a isto. A consistência possível é, acima de tudo, uma forma de auto-preservação. Porque evita indesejado que, muitas vezes, é só produto de explicações defeituosas num dialecto incompleto.

É, diria eu, o mínimo. Mas eu cada vez percebo menos. Também dizem que é natural, portanto, nada de preocupante aí.

NAJ ™ – 24/01/2018 - Estações Diferentes™
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terça-feira, janeiro 09, 2018

TRANSPARÊNCIA




Façamos um exercício simples. Pensemos na última conversa tida com alguém. Se for alguém significativo, melhor. Pensemos agora nos últimos dias, ou mesmo meses da dinâmica com essa(s) pessoa(s). Agora voltemos à conversa tida e pensemos na dialética. Pensemos na quantidade de coisas que ouvimos em relação directa e comparativa com o que dissemos. Agora recordemos qual a proporção, e se de alguma forma essa quantidade de informação “oferecida” não terá, em muito, ultrapassado a que foi ouvida. Agora pensemos na tipologia dos temas e na sua importância. Agora peguemos num espelho e façamos a operação inversa. Recordemos a última vez que foi feita alguma pergunta com base naquilo que realmente interessava ao outro, ou o estado em que a vida o terá nos tempos correntes. Perguntemos se interessava, se era diferente da última vez que esses factos eram conhecidos.
Depois pergunte-se qual a última boa notícia que teve de ser partilhada com essa pessoa, porque era essa a natureza da sua ligação connosco. Perguntemos se fizemos o mesmo e quando. Recordemos se existiu uma conversa, se se comunicou um incómodo, se chamou à atenção, se deveria ter-se feito qualquer uma destas coisas. Se sim porquê, se não, para quê.
Pensemos um pouco e entendamos, se for possível, porque há uma imensa diferença entre sermos uma janela para alguém, ou a janela através da qual alguém vê seja lá o que for menos a mesma.
Façamos um exercício simples.
Se não virmos nada, se for transparência, mais vale deixar o ar seguir o seu curso. 


NAJ ™ – 09/01/2018 - Estações Diferentes™
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