Get busy living, or get busy dying...
Stephen King - Rita Hayworth and The Shawshank Redemption - 1982
Donativos para stephenking07@gmail.com
Thursday, November 19, 2009
Nos dias que correm, a mastigadíssima ideia do Sartre anda às voltas na moleirinha, talvez pela diametralidade de demonstrações que tenho encontrado. Por vezes, numa estranheza impossível muito difícil de encaixar despreparadamente, dou comigo a abrir a boca em incredulidade. Ok, em ingenuidade, porque não é por falta ...de avisos que me façam, mas acho que, teimosa e desconhecidamente, nunca acho que seja possível. Acho sempre que as pessoas pensam bem no que dizem, pesam minimamente o que fazem, obedecem mais ou menos ao que os instinto humano (com todas as nuances de afecto e lealdade que isso implica) lhes vai ditando. E invariavelmente, encontro quem o faça, quem o faça alternadamente, que nunca o faça, quem siga o plano mesmo que seja alérgico a folhas de projecto. E choco-me não com os erros, ou as asneiradas, porque sou praticante activo e proficiente dos mesmos, mas com a convicção profunda, a falta de capacidade de auto-questionar, a inderimível lógica de socialização. As pequenas crueldades, ou as grandes, e os pequenos crimes que vão sendo cometidos, sem se ter a noção dos seus impactos, envenenam as normalidade, os reflexos afectivos , as quedas suaves nos raros estados de graça que existem porque outros existem connosco. E no entanto cá andam elas, na descontracção dos dias que se querem cómodos, e como tal, em muitos casos, sem recorte que os faça únicos. É tudo sem stress, tudo calmo, tudo sem consequências. Sem questões, sem compreensão ou mínimo denominador comum. E se é certo que não podemos evitar fazê-lo parcelarmente, tenho dificuldade em entender todo um passar de vida, de dias, de tempo, assente numa simples falta de eventualidades... Não sei sinceramente como se faz.
Gabriel recordava-se da primeira vez que vira a Paula.
Recordava-se melhor do período em que ela aparecera. Um período complicado, entre empregos, como dizia – o que era sempre uma forma simpática que ele encontrava de esconder o medo que tinha por se encontrar naquela situação pela primeira vez na vida – com a vida do pai por um fio após um acidente estúpido – o que também era uma estreia. Tudo era uma novidade naquela altura, uma novidade feita de medo, de horror, de ausência. Não havia para onde fugir, não havia porta para fechar, amor para compensar aquilo que ele imaginava como costas nuas perante todas as formas de mau tempo. Nada de intermediários ou protectores. Só insegurança, medo, amanhãs sem resguardo. A mãe encontrava-se num caos de incredulidade, a irmã refugiava-se nas depressões cíclicas que coincidiam sempre com qualquer questão mais complicada, normalmente finais de namoros acintosos, contas para pagar ou esforço de monta, designadamente nos trabalhos que ia perdendo.
No meio desse dia a dia que nada anunciava senão a brevidade do seu porvir, Gabriel foi jantar a casa de uns amigos. Um jantar feito exclusivamente para “o animar”, mas que ele sentia que apenas serviria para realçar o que lhe faltava naquele e noutros momentos. Primeiro recusou, inventando uma gripe de última hora. Depois lembrou-se que um deles era seu colega de trabalho, e que a coisa era complicada de explicar. Pensou, como sempre pensava, que valeria a pena fazer um esforço para não ferir susceptibilidades, vestiu uma roupa menos macambúzia e dirigiu-se à casa do casal de amigos. Felizmente era o único casal são que ele conhecia nos tempos que corriam.
Ao entrar em casa deles reparou numa mulher jovem, esguia e alta, de cabelo loiro e escorrido que lhe cobria as feições. Reparou nela enquanto esta retirava uma bebida de um bar de carrinho ridículo que a Joana, a dona de casa, trouxera de casa dos sogros. Tinha as unhas compridas, mas não excessivamente, o que se comprovava pela destreza e rapidez com que mexia nos copos e garrafas. Ela virou o rosto e sorriu-lhe. A expressão era confiante e até algo petulante, e cobria o destemor de uma aparência que Gabriel julgou imediatamente fora do seu campeonato. Sorriu internamente, como por vezes sorria quando folheava revistas de mulheres impossíveis. Era um sorriso de alívio. A mente fazia-lhe o jeito. A Paula era parecida com aquilo tudo tão irreal que nem sequer conseguia criar substância para sentir qualquer agulhada de desejo. A emoção ensurdecia perante tão alto grito de improbabilidade, de forma que ele nunca chegava a desejar nada. E olhando para ela, agradeceu a imediata percepção desse facto. Bons augúrios, pensou. No segundo em que tudo isto se passou Gabriel arregalou a sobrancelha, num gesto que lhe era típico e inconsciente.
No segundo seguinte olhou em volta para cumprimentar os outros. Três casais e quatro solteiros, sendo Gabriel o único homem. Achou tudo aquilo algo invulgar, mas ficou mais descansado. Ninguém se tinha lembrado do arranjinho ridículo, o que ele tinha temido durante toda a viagem até à casa. No meio de todo o caos daqueles dias, não havia energia para dourar a conversa, para participar quando nem lhe apetecia muito. Não lhe apetecia ser delicado, ou elegante, ou até achar alguém interessante e começar a colocar argamassa nas imensas rachaduras que o atravessavam enquanto pessoa. Queria, no fundo, o absoluto comodismo de alguém que levasse tudo, que puxasse a carroça ou o deixasse em paz no meio da miséria da insegurança, do medo e dos dias correntes que custavam tanto a passar.
Mais tarde recordar-se-ia do perigo que era desejar alguma coisa, porque por vezes os desejos até se realizavam.
Naquela noite a Paula fez isso mesmo. Carregou a conversa, foi encantadora, potenciou o encanto com uma candura que parecia fazer com a beleza explodisse baixinho, sem estilhaços. Ela fez com que ele brilhasse, que diabo, recordava ele, fez com que toda a gente brilhasse. Era arguta e com um senso de humor destemido, o que a deixava à vontade em todos os tópicos, fossem eles quais fossem. Compensava a sua ignorância acerca de um tópico com uma honesta curiosidade em aprender. E dissertava acerca das suas exigências, quereres e sonhos confessáveis com uma fluidez de quem surfava pela vida embalada num gosto pela mesma. Naquela altura nem parecia um profundo complexo de superioridade. Paula conseguia disfarçar de forma brilhante o seu profundo ódio a qualquer espécie de falha, fraqueza ou menor capacidade. Era o mesmo que dizer que a vulnerabilidade a repugnava. Gabriel nunca percebeu se seria porque teima a sua própria, ou porque vendo-se incapaz, lhe gerava um ódio por inveja. Fosse como fosse, naquela noite, e em várias seguintes, ele simplesmente conheceu alguém com tanto para mostrar que nem sequer sabia exactamente onde tinha ido parar. Ela não dava também tempo aos porquês, tal era a omnipotência daquela luz bem direccionada que carregava. E Gabriel, que se sabia tão parcialmente quebrado como uma estátua antiga, não desconfiava que ao ver-se num amor também por vulnerabilidade, criaria um monstro feito do vício do domínio, de inexplicável fixação sexual e ressentimento pela sua capacidade em ser incapaz de sequer desejar a perfeição.
Sim, Gabriel recordava-se da Paula. Demasiado bem.
Acho que era a Mary Schmich que dizia: "Accept certain inalienable truths:
Prices will rise. Politicians will philander. You, too, will get old.
And when you do, you'll fantasize that when you were young, prices were reasonable, politicians were noble, and children respected their elders."
Esta verdade é um ponto de partida para um par de ideias muito claras acerca do status quo daquilo que eu julgava ser um mundo tendente à inclusão, ao respeito pela diferença e à clareza de ideias quanto o que é a vida em sociedade, ou em meu modesto ver, o que deveria ser na óptica dessas mesmas lógicas.
E tendo em conta que a política tem uma carraça agarrada que é a corrupção, os jeitos e arranjos, a falta de sentido de estado e honestidade em todas as facções ideológicas, a verdade é que prefiro, e fico contente, que a franja (ainda) vencedora seja uma que tenha em conta o respeito pelos direitos civis, pela diferença, por aquilo que diverge da chamada "maioria".
Prefiro um Estado de Direito onde a descriminação seja abolida do enquadramento legal, onde a argumentação para sectarizar minorias sejam argumentos boçais e primários como as qualificações de "anormalidade". Prefiro um Estado que tem tem mais consciência do que é estar calçado com outros sapatos, que respeita o que surge normal para uma pessoa numa coisa tão intocável como é aquilo de que e de quem se gosta. Prefiro um Estado que procura incluir e proteger aquilo que é uma realidade tão digna como outra, que dignifica aquilo que faz parte de algo tão estruturante como a organização familiar por laços de afecto e não desconchavadas lógicas nostálgicas agarradas a letras da lei que nada mais fazem que estabelecer uma "tendência" que o mundo provou desajustada. Prefiro um Estado que permita que alguém que sofre de "locked-in Sydrom" possa morrer condignamente.Prefiro um Estado no qual pessoas do mesmo sexo que se amam e como tal (e sou insuspeito para falar porque não acredito minimamente no casamento e sou profundamente heterossexual) desejam solenizar e proteger patrimonialmente os seus escolhidos, o possam fazer, não aceitando esse Estado, e bem, que essas pessoas possam ser descriminadas em razão da sua orientação sexual, que é algo que lhes pertence, lhes é natural e próprio de uma liberdade que deve ser respeitada a todo o custo. Prefiro um Estado que realmente não dá ouvidos a argumentos como "não são normais", ou "põe em risco a família" ou "a continuidade da espécie", que são claramente argumentos vazios, sem sustentação real. Gostava que me explicassem porque raio é que se uma pessoa resolver casar com outra do mesmo sexo, a espécie vai estar em risco? Será que, por força desse casamento, os heterossexuais deixarão de o ser? Ou será que esses mesmos, por um truque mágico estranho, deixam de ter vontade de ter filhos, mesmos que não se casem? Hummm esperem, se calhar acham que o casamento gay vai criar uma espécie de vontade irreprimível que toda a gente mude de orientação sexual, ou que deixe de querer ter filhos, ou pior ainda, um crime de lesa-majestade certamente, que o casamento seja o único método para perpetuar a espécie... (pois, a Manelinha tinha dito um disparate desses, claro...)
A verdade é que prefiro um Estado que respeite, tente incluir e consagrar direitos iguais a quem apenas tem uma diferença de gostos, de opções, na naturalidade de afectos que lhes surge e que é tão digna de respeito como a "normal". Portanto partindo do princípo que (some) politicians will (always) philander, gosto de pensar que se caminha cada vez mais para uma lógica de inclusão, de entendimento, de respeito pela diferença e encontro de pontos de contacto.
Fico feliz por um lado que os conservadores estejam mais uma vez afastados e as suas ideias segregacionistas, e tenho muito medo que cheguemos novamente a um estado de coisas nas quais estas liberdades e garantias sejam vistas como sonegáveis porque alguém acha que o casamento gay vai inexplicavelmente por em causa os outros casamentos, como que por osmose. Tenho muito medo que argumentos como a "anormalidade" ( e nem entremos na religião) sirvam para privar as pessoas de direitos que lhes são devidos e para cuja sonegação não há qualquer justificação possível senão um preconceito já vetusto.
E envergonha-me, sinceramente, pensar que partilho o mundo com pessoas para quem a "ghetização" de situações diferentes da sua, que para o seu modo de vida directamente, e para qualquer outro, não representam qualquer ameaça que seja, seja perfeitamente defensável pela simples incapacidade de pensarem como seria se fossem eles os alvos deste tipo de segregação e desrespeito só porque gostavam de poder casar com uma pessoa do mesmo sexo porque era com ela que queriam dar esse passo de vida, ou porque estavam fartos de ser vegetais deitados a morrer lentamento numa cama.
Para mim a inclusão e o respeito não são nem negociáveis, nem debatíveis, especialmente quando esse debate, para uns, se centra apenas num incómodo e nunca numa justificação factual apenas fantasiada por preconceitos e medos que em nada diferem de descriminações raciais que foram e ainda são uma vergonha no século passado e neste em que vivemos.
Prefiro pensar que se alargam direitos, que incluem pessoas e realidades dignas do chapéu do Estado de Direito. Mas isso sou eu, e felizmente, uma grande fatia de pessoas. Bem hajam.
A verdade é que a conversa continuou, a reunião foi uma merda – desculpe – daquelas nas quais nada se resolve, à boa maneira da “reunite” portuguesa, mas ainda bem, porque se não tivesse sido o caso, não tinha prestado qualquer atenção. Ela falara comigo como se não houvesse nada de anormal, como se eu fosse mais uma p...essoa num qualquer local. Ao vê-la tamborilar com os dedos no tampo da mesa, enquanto um idiota qualquer tecia grandes elogios ao seu próprio plano de marketing, nem fiz esforço algum para olhar para outro lado. Ela olhava para cima, abrindo e fechando os olhos. Por vezes abria-os demasiado. E estava sempre a soprar naquela farripa de cabelo azulado. Parecia um animal pequeno escondido no escuro a abrir muitos os olhos cada vez que aparecia uma luz. Além disso tinha um sorriso aberto, e o pior, era um sorriso… como dizer-lhe… cruel.
O que me caiu logo no goto.
Ignorei, como tentava ignorar praticamente todas as coisas, ou melhor dizendo, todas as pessoas que queria, mas não conseguia deixar de a ver, de olhar para ela. Coisa estúpida, fixação estúpida, para um tipo com um plano tão bem arranjado. Pueril, ridículo, olhe, invente, deite cá para fora os adjectivos que eu não conseguir. Até porque nada tinha a ver com emoção. Era só uma curiosidade. Uma curiosidade terrível, uma coisa sedenta, até incomodativa. Para mim era novo, e o pior que me podem fazer, ou melhor, dependendo da perspectiva, é colocarem-me perguntas. Como é tão raro ouvir uma que realmente me intrigue, quando isso acontece tenho simplesmente que ir lá ver o que se passa. Um bocado como os portugueses e os acidentes de carro, sabe como é. Fascínio pelo medo, curiosidade pelo sarilho, soma de estupidez. Nada de novo, nada de novo, bem lhe dizia.
A verdade é que ela nos deu o cartão de visita no final da reunião, exibindo cada um dos dentes do sorriso malévolo numa cordialidade que lhe digo, era tão à prova de bala que nem os tipos com os fatos escuros conseguiram levar a mal o cabelo azul. Acho que toda a gente sabia que ela significava problemas, e mantiveram as suas distâncias cordiais. Ainda por cima, ela era boa no que fazia.Ninguém parecia querer muitas misturas. Além disso, era notório que não parecia apertar os parafusos todos. Sei que explica pouco, mas não tenho uma forma melhor de explicar os olhos esbugalhados de quando em vez e aquele sorriso de quem simplesmente não queria saber. Era a plataforma de saltos para uma piscina com a ocasional enguia eléctrica. Tristemente típico...
"When you’re used to face the denial of your desires, things get easier. I usually sense that I don't need to protect myself, but in most cases what one really needs is protection from one self. If there is such a thing as love, it begins with the miserable inability you have copping with your desires, and then that incapability is transformed into a sense of admiration and wanting, that you simply can’t or won't ignore. Falling in love is, at least partially, one’s own fault. We create our loved ones, as much as they show themselves to us, I guess. That’s the wonder of it. To find out how much of our construction is destroyed by the person, and to what extent that makes us love her even more than we fabricated. At this time you either smell the trouble, or get ready for the travel. And your chances are only average. Some say that’s the ride’s rush and what makes it worthwhile. Others are simply more logical and see a path. And, of course, there is luck... And don't get me started on that one..."
Tinha uma ideia concreta acerca do que julgava ser uma atitude normal nas pessoas. Quando sujeitas a uma situação onde estejam outras, ou à formação de grupos, espontâneos ou não, julgava eu que procuravam as afinidades. Concretizando, julgava que as pessoas procuravam preocupar-se com aquilo que as poderia ligar aos outros, do mais frequente e numeroso, ao mais remoto, mas sempre com ênfase na ideia do construtivo, do estabelecimento nem que seja de uma cordialidade mais distante. No fundo, pensar "ora o que é que de bom se pode retirar daqui?"?
No entanto essa ideia é, pelo menos numa parte significativa, um erro. Constato que as pessoas, muitas que vou encontrando pelo menos, concentram-se em encontrar, (pelo menos na mesma dimensão que as empatias embora desconfie que em maior volume), coisas para embirrar, para chatear, para apontar. Fraquezas, desagrados, formas de proferir juízos, defesas de confortos pessoais e conceptuais, you name it. Há um olhar cirúrgico à procura do gajo que manca ou da voz histriónica, ou do que quer que seja. Há uma sôfrega tentativa de ver a merda em cima do bronze, de encontrar a rachadura na parede, de disparar contra o descarado que teve o desplante de correr em direcção à cerca farpada ou mesmo à saída. Encontro, demasiadas vezes, um esforço realmente pródigo em procurar aquilo com que discordar, e o forjar de dissociações como uma espécie de demarcação quase prazenteira daquilo que "não lhes serve".
Não se procura ver onde se concorda e a partir daí forjar uma ponte possível, mas saber até que ponto aquele gajo me irrita os cornos para saber quando e de que forma o posso despachar. Oh, não tenho qualquer veleidade em pensar que não embirro com ninguém, ou que de repente vesti um sari branco e coloquei óculos redondos. Mas o que sei é que essa não é a questão primordial, ou tento que não seja, a primeira reacção perante as pessoas, até porque calculo que chateio muita gente que me veja pela primeira vez. Mas faz-me de facto muita espécie que de facto o sinónimo de conforto para muitas realidades que vou vendo seja um distanciamento afiado de outras perspectivas. Que a imobilidade, nem que seja apenas de conceptualização mental, passe por cartão de maturidade, por inevitáveis da vida adulta nos quais apenas vejo o definhar de tantos planos felizes.
Não colocando em causa que haja mesmo muita gente que mutuamente se irrite, não entendo isso como posição de princípio ou o cão que pomos para defender o nosso quintal até de qualquer espécie de Primavera que o possa de alguma forma colorir...
Muitas vezes não sabemos porque nos importamos. Porque prestamos um pouco mais de atenção nos pormenores. Porque entramos numa sala e reparamos primeiro na sombra ao canto. Porque olhamos não para as gotas da chuva mas o espaço que as intervala. Porque ansiamos pelo hiato entre o estacionar dos ponteiros, pelo segundo antes do mais radioso e simples dos sorrisos. Acho que as ansiedades, as procuras, são desconhecidas em parte.
Como os apetites, descrevem as tendências que são os baixos relevos da personalidade. Julgo, em certa medida, que mesmo correndo o risco de parecer desagradável, tenho uma total incompreensão relativamente a quem não se questiona. A quem nada ocorre senão uma sucessão de dias em que nada os assalta, persegue ou contesta nas ditas normalidades. A quem nada parece estranho, deslocado, "perseguível" ou intrigante. Para quem a originalidade mais parece uma coisa perdida ou uma veleidade de juventude anacrónica.
E por vezes é assim. Tudo é algo que se passa em volta, algo que se observa, algo sem som ou impacto.Até que pé ante pé lá reconhecemos onde está a estrada de Frost e vale a pena dar mais um passinho em ramo verde, por razões que não se sabem, como se desconhece o porquê da necessidade de perguntar, ou a angústia pelo facto disso ser uma necessidade...
Quando ouço coisas como "eu gosto, eu quero, e por isso tem de ser assim" é como sentir que há gente que realmente crê que se dialoga com o eco. Não existem salvo-condutos em razão da tirania do sentir, nem os quereres constituem imunidade ...vivencial. É prático porque surge como identificação, é simples porque não deixa dúvidas, mas é também, em alguns casos(*), demasiado próximo do egocentrismo ou da auto-preservação a todo o custo. Custo alheio, claro... E ainda por cima é vox populi, e em casos extremos, significado de beleza superlativa.
(Por alguma razão aquela cena do Henry and June, quando Anais Nin inveja uma vida alheia em caos, me irrita um pedaço, porque, às vezes, a malta simplesmente não sabe o que está a pedir, desejar ou pior, a qualificar como legítimo...)
(*) Para evitar a esperada invectiva por causa das generalizações... alguns, alguns, não todos, han? ok?
Por razões distintas, há muito que não vinha a esta casa.
Sejam elas relativas a trabalho, a vicissitudes várias, a escrita noutras paragens e suportes, a questões pessoais, o "meu diário" foi negligenciado.
Talvez por boa razão, sei lá.
A verdade é que até há umas coisas a debater, mas essencialmente presas a experiências empíricas dos últimos tempos. E o mais curioso, talvez possa pensar que até chega a ser mais ou menos genérico ou "normal", é cada vez se chegar a um menor número de conclusões. Não que eu seja fervorosamente socrático, mas a verdade é que, como discutia no outro dia com alguém, a persistência das perguntas incrementa quanto mais não seja a procura de conhecimentos parcelares que podem não descansar-nos, mas ao menos movimentam-nos.
Também me falaram há pouco tempo sobre sermos ou não boas pessoas. Estarmos ou não em consonância com aquilo que cada um considera a sua parcela humana a partilhar e disseminar. Saber, ou ter a obrigação de saber o que é ser alguém para além do afastamento necessário por choque directo com a exigência.
Dou comigo a fazer exames de consciência, a recrutar as memórias para uma inspecção firme e dura, a perseguir as penalizações de cada uma das opções, ou falta delas, perante os cenários de vida que envolvem outras pessoas, outras realidades, outras formas de ver.
Pesado tudo isso, queimada a pele com a vergonha das claudicações, dos erros, das falhas, sobra também a noção da reconstrução, das tentativas, dos esforços, das dádivas, das descobertas. É tudo balanceado num equilíbrio precário, no qual cada pessoa me surge como uma unidade precária de coisas que funcionam e outras que embatem nas necessárias protecções que constituem a nossa forma de ser mais vulnerável e/ou preciosa.
No fundo serve toda esta reflexão para perceber até que ponto uma predomina sobre a outra, até que ponto a tentativa de fazer melhor não é engolida pelo erro inevitável, a crueldade das naturalidades, o tempo das intenções não feito acção. Serve igualmente para perceber o que serei capaz de fazer sem instruções, ou o que adivinhei com meia dúzia de indícios repartidos entre o desejo de conhecer e a verificação quase antecipada.
E as conclusões a que se chega são imensas.
Chego à conclusão que algumas realidades podem passar, mas outras permanecem. São como organismos latentes que perante a fagulha de qualquer vida reconhecível, funcionam novamente como um organismo competente. Ganham vida e carregam-me com ela, no seu entusiasmo, no reconhecimento das suas vertentes de luz bem como no reconhecimento respeitoso do seu enegrecer. E são raros. Muito raros. Por culpa minha, muito provavelmente.
Tenho muita dificuldade em desculpar-me de algumas coisas. Em aceitar que certos acontecimentos são feitos o normal ondular de qualquer personalidade complexa. Da múltipla palete de cores que pintam minutos dos meus dias, entre tons primários de afectos regados a surpresa, e as mesclas de tons neutros próprios das tristezas que não consigo evitar porque são tanto parte de mim como os dedos que martelam estas teclas. São reflexos, inevitabilidades, combatidas ferozmente como outras sensibilidades, mas que no fim, vencem pelo menos em parte, como as baixas necessárias do conflito interno de cada um.
No fundo, rendo-me perante as persistências de afectos assim solidificados, e entristeço-me com a capacidade que tenho de reunir para resistir ao reconhecimento da sua, cada vez maior, escassez.
Mas em certa medida, correndo o risco de que soe a algo quase auto-promocional, mas se o for, temos pena, a verdade é que ainda há coisas, pessoas, personalidades, gestos, singularidades que persistem como parte do meu edifício afectivo e da forma como tento incessantemente entendê-lo. Em parte é uma estupidez, por outro lado é uma das únicas coisas que impede a totalidade de muitos cinzentos na paleta.
Acho que me sinto feliz por perceber que algumas coisas, "pequenas" realidades, sobrevivem na minha inevitabilidade afectiva, perspectivam-se em teimosa perenidade, e impedem o domínio de uma auto-suficiencia que em si mesma é já muito maior do que eu desejaria.
Atrevo-me a pensar ou a temer o que acontecerá a quem o não tenha, a quem não reúna na mente parcos rostos e vozes perante os triunfos, desgraças, maravilhamentos, desejos de partilha universalizante. A quem não saiba, ainda que não possa ou não lhe seja autorizado, a quem gostaria de contar a sua melhor história. Ou ter vontade de encontrar ouvintes...
Claro está, isto vindo de uma besta reservada, mas no entanto com bons intentos de auto-correcção. Valha-me isso.. acho...
E finalmente, antes de entrar nas conclusões(???), falo nos casos de sucesso.
O que são casos de sucesso? Bem, na linha daquilo que talvez tenha moldado o meu discurso nestas coisas, são sucessos na disfuncionalidade, ou seja, pessoas que conheço que conseguiram encontrar nas saus linhas tortas uma continuidade nos balanços, e sobretudo, uma empatia dos seus espaços e falhas.
Concorde ou não com os processos, são formas encontradas de fazer funcionar, relações onde o que salta é a capacidade de fazer alguma coisa como motor da vida diária e não o relato de mais um peso, ou um segundo emprego, que é o que muitas vezes surge do discurso e vivência de muitos casais que vejo.
São casos de sucesso porque encontram uma forma de se sentirem acompanhados sem a sonegação da sua individualidade. Porque arranjam forma de se provocarem e rir, de tornar os insultos da paródia num bom rastilho para a cumplicidade. Casos de sucesso porque por vezes, no meio da incapacidade em agir sempre bem, encontram um qualquer mecanismo para divergir a atenção e manter algo parecido a ressentimento bem ao largo.
São casos de sucesso porque embora pareçam uma sociedade, os membros dormem descaradamente um com o outro, há promiscuidade nas funções, confusão nas responsabilidades, confiança na metodologia necessariamente incompleta que cada um encontra para ser quem é.
São pessoas que misteriosamente percebem que a sua voz interior, a mais esconsa, embaraçosa e primitiva surge como caligrafia fina aos olhos de um qualquer atrevido que não tinha nada que perceber meia dúzia de coisas complicadas. São também aqueles que por vezes não sabem bem o que andam a fazer, metem a pata na poça mesmo no extremo do cuidado. São amigos meus que conseguem descascar a sua parede, mostrar o traço baço e mais feio da estrutura, e sem darem por isso.
Casos de sucesso são a minoria daqueles que conheço. Gostaria de partilhar algumas histórias, mas não são minhas para que o possa fazer. Posso apenas dar algumas ideias genéricas sem que lhes fira a esfera pessoal.
Um deles começou de forma improvável, teve uma separação e um reencontro anos mais tarde. Acho que o mais notável nesse caso foi a percepção de que os caminhos que trilhavam, de alguma forma, continuavam a esbarrar um no outro, pelas mais diversas motivações. Sabem rir-se em conjunto, especialmente das suas disfuncionalidades. Estão cientes do mundo lá fora, da imperfeição do seu e das incapacidades de que padecem. Têm a capacidade de rir, e nunca, mas nunca se furtam a fazer coisas. A diversificar dentro do que podem, a ver em conjunto fenómenos inéditos para eles. Concorde-se ou não, vivem com percepções talvez menos agradáveis e mais realistas no que concerne a uma vivência conjunta. No entanto, há algo ali. Ninguém, incluindo eu, percebe exactamente o que é, mas há alguma coisa que quase se pode tocar. Será amor profundo? Sei lá, nem me atrevo a qualificar. Talvez sim, talvez não, mas o que me parece é que eles se invadem mútua e despudoradamente, e no riso das histórias partilhadas surge o sucesso feito da vontade de as ter vivido assim, e talvez não de outra forma. Há o medo da perda, mas não o terror da posse.
Existem outros (poucos) casos de sucesso. Mas este parece-me o mais significativo porque assenta numa premissa que me parece insofismável. A longevidade do amor é feita de riso e da capacidade de acompanhar. De aceitar talvez coisas menos boas, menor convencionalidade, porque, e eu próprio não estou bem convicto disto, talvez o amor se faça apenas e só de uma priorização nunca totalmente exclusiva. Alguns entendem isto como flirts fora da união, outros como obsessões com o trabalho ou o coleccionismo. Outros com a oscilação entre a solidão e o toque ardente da companhia, como se a saudade funcionasse à guisa de fio de prumo. Sei lá.
Talvez, estranhamente, nos casos de sucesso, aqueles que observo nunca saibam exactamente o que estão a fazer. Perguntam e tropeçam muitas vezes, e ao descobrir seja o que for, continuam a viagem. Sentem que chegam a qualquer lado.
Mas só gente com muita sorte consegue estar tanto tempo a viajar.
Sei lá, só podemos adivinhar o que sucede nesses casos de triunfo. Mas justiça seja feita, ainda que eivados pela raridade, eles acontecem. Nunca sei é exactamente porquê. Por muitas desconfianças que tenha, e palpites, ao não saberem exactamente, não são uma teoria, mas uma hipótese de conhecimento que mais não é que encontrar sempre um passo seguinte no que seja a vivência do Amor.
Seria possível que uma coisa assim não fosse rara?
Este é talvez um dos elementos mais complicados de lograr numa dinâmica relacional. O chamado espaço pessoal, a individualização, o local para respirar e a noção da pessoa que existia antes da relação e a que continua a existir.
E aqui há profundas clivagens. No meu modesto ver, modelos muito diferenciados nesta forma de estar provocam divergências insolúveis, porque vão bater directamente ao elemento necessidade (do outro). Mas também não é exclusivamente assim, e num território onde a racionalidade parece maldita, talvez esta acabassem em certa medida por dar uma ajudita.
Ora vejamos.
Há pessoas que passam literalmente a ser uma para ser uma metade siamesa. Passa a haver algo de incomodativo na individualidade da outra pessoa e ao invés de termos Bonnie and Clyde passa a haver Bonnie a sua lingerie. Brincadeiras à parte, a verdade é que para algumas pessoas, os amigos, os rituais, os hobbies, o espaço onde a pessoa normalmente se manifestava enquanto indivíduo passam a ser contendores, e não é preciso ter uma imaginação muito fértil para determinar onde a coisa vai parar. A ligação ao ciúme é quase óbvia, e não são raras as histórias de pessoas que simplesmente desaparecem quando certo tipo de amor lhes bate à porta. É perniciosa a armadilha, porque quando as coisas não correm bem, e sejamos realistas, ou são ambos assim, ou alguém vai correr para a vedação não tardará muito, e se retorna ao mundo, esse retorno parece uma espécie de prisioneiro de Calais, com a corda ao pescoço a pedir misericórdia ao ambiente que talvez nunca devesse ter deixado.
Parece um erro crasso que a pessoa deixe de ter os seus amigos, deixe de conversar com aqueles melhores amigos, ainda que do sexo oposto, abandone os seus hobbies, ou simplesmente deixe de ter uma parcela do dia ou da vida quotidiana que lhe pertença. Primeiro porque essas pessoas deixam de ter histórias para contar, visões e pequenas singularidades para colocar à discussão, descobertas para trazer, como pequenos segredos que são um prazer infindo quando partilhados com quem quer saber como os nossos olhos viram qualquer pedaço de realidade.
É um erro as pessoas não entenderem que há confidentes, pessoas a quem talvez, se tivermos sorte, podemos mesmo dizer tudo. E não há nunca possibilidade de partilha absoluta seja com quem for, mas especialmente com a pessoa de quem se gosta realmente. Porque ninguém tem capacidade de ver ninguém na integralidade, em meu ver, e há coisas que só o afecto intenso mas unicamente fraternal pode assimilar. Claro que, na outra medida, há coisas que só o destinatário do amor terá acesso, e essas muito menos susceptíveis de mimetizar por aí, mas que diabo, há na vida de cada, pelo menos na minha há, poucas pessoas que sabem tudo o que há de escabroso, de talvez menos nobre, menos puro, e podem evitar a torção do nariz.
E poderia continuar, mas a verdade é que a sonegação do espaço pessoal encurrala uns, isola outros, mas em muitos casos, ao fim de algum tempo, acicata o pior que a reacção de liberdade tem. E quando ela surge, acaba por levar muita coisa à frente. Normalmente leva. Eu ouço muitas pessoas desejarem um pedaço de tempo para si, para aquelas coisas que talvez sejam mesmo necessárias no silêncio da auto-conversa. E esse desejo é uma espécie quase de reconhecimento de um peso na vivência. O tom de voz é de um mal necessário, e sinceramente, o amor não pode ser um mal necessário, nem necessariamente mau. Picos e vales sim senhor, mas algo parecido com Estrasburgo, onde não se vê um relevo a quilómetros, bem... para quem não se cansa da pasteleira...acho que está bem...
Os amigos não tiram pedaço. Quando conheceram as pessoas, já gostavam dos seus hobbies e interesses. Pelo menos toleravam a ponto de não interferir quer na dinâmica relacional quer na predominancia daquilo que era amável na pessoa. De um momento para a o outro achar que o mundo acaba porque o vórtice relacional tudo suga, é, me meu modesto ver, receita para a desgraça e em muitos casos, o primeiro calhau no edifício da separação.
Se pelo que se ler, se chegar á conclusão de que vale a pena saber, perguntar não ofende...
Por favor "clique" na musica abaixo deste perfil para juntar à leitura dos textos e completar a experiência.
Obrigado.