ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, setembro 17, 2003

A CIGARRA E A FORMIGA - CARTA A PACHECO PEREIRA


“Já se notam os efeitos das férias: isto vai dividir-se entre as cigarras e as formiguinhas.

E lá vão as formiguinhas ganhar, como ganham sempre, ignoradas , gozadas , sem bronze , sem o sinistro toque dos Algarves , com aquela fome ancestral , de gerações , que as leva a trazer mais uma pedrinha , mais um raminho , a não se dispersarem , a terem disciplina , a pouparem .

Os outros levam os livros , mas depois há tanta areia , e está tanto calor , e deitei-me tão tarde …

E vai começar a silly season.”
in abrupto - junho 2003




Caro Pacheco Pereira:

Embora discordemos em muitas coisas e situações da realidade circundante, penso que de uma forma geral o seu modus operanti face à distribuição de opinião é algo que muito me agrada, e que sinceramente esclarece e interessa.
No entanto não consegui deixar sossegada a consciência e uma certa forma de indignação, que espero divertida, perante esta ideia acima transcrita. Ou seja, a glorificação e prática de algo que se pareça com divertimento saudável, com um descanso da mente e do corpo, com a diversão que não procura incessantemente um distanciamento cultural e pretensamente ecléctico, é metaforicamente apelidado como “a cigarra”. São a tradução conceptual, em termos de fábulas, da preguiça total, da ausência de capacidade, imprudência e ignorância sem causa nem porquê. Em suma, aqueles que procuram algo nas férias que não seja eminentemente relacionado a um actividade de militância cultural ( pelo que entendi, essencialmente livresca), são os pobres de espírito que não puxam pelo mundo, que andam cá a gastar oxigénio. Ao invés de aproveitarem o sol, o calor, a praia, os desportos, deveriam provavelmente atacar a versão trilingue do Tempo Reencontrado do Proust, ou fechar-se em casa e pensar em na forma de traduzir o Ulisses do Joyce ( que alguém já apelidou do romance mais incompreensível de sempre – na minha opinião, penso que relativamente a esse livro será aplicável o que disse Umberto Eco, ou seja, que a interpretação de qualquer livro ou obra equiparável é uma liberdade absoluta do leitor) para mirandês.
Já para não falar na questão da poupança, ou seja, há como que uma espécie de teoria da contenção e do sofrimento regrado, resultando numa modéstia de existência que coloca completamente à parte a ideia de uma pretensa necessidade que o ser humano tem de se divertir, movimentar, de gozar o corpo, a natureza, as diversões talvez mais leves. Ou seja, há uma culpa inerente ao facto de não sermos formigas, mais um no meio da populaça que verga a mola até as costas sangrarem, em detrimento de gozarmos o direito inalienável e a necessidade irreprimível de gozar o ócio.
Peço desculpa pelo tom algo hiperbólico, que sinceramente tem algo de brincadeira, mas confesso-me profundamente discordante com esta noção, que infelizmente grassa muita da nossa cultura, de um elitismo mais preocupado em cavar as diferenças entre aqueles que lêem e se preocupam com as coisas supostamente sérias, e a pretensa cambada de otários que nem sabe bem em que mundo se encontra.
Não sei porquê, mas tem algo de cabotinismo e falta de senso pedagógico, porque o quão bom seria encarar a cultura como algo também polvilhado de hedonismo, chamando as pessoas até ela, e não esta espécie de muralha dos sapientes versus os idiotas da aldeia.
Eu, que sou uma pessoa largamente ignorante perante o seu saber e cultura, não me julgo por isso menos consciente da proporção equitativamente necessária de todas as componentes da vida. Sou um fervoroso apoiante da “mens sana in corpore sano”, porque penso que só nessa complementaridade se encontra um equilíbrio. Acho tão importante uma pessoa conseguir sentir um arrepio, como me sucede, ao ler um magnífico parágrafo, como a desfrutar de uma cerveja gelada num pôr do sol, ou sentir que consigo correr e mexer-me com agilidade.
Além disso, a cultura não é só feita do acumular de saber, mas dos pensamentos criados perante os enunciados que a vida de todos os dias fornece. É feita da forma como se quer e deseja pensar, na capacidade de fazer perguntas, e não somente na acumulação de informação. Aliás, era Conan Doyle que dizia que a mente é como um sótão, de espaço limitado e onde só podemos guardar um certo montante de informação sem que toda ela se torne uma massa desarrumada e impassível de estar à disposição aquando da necessidade real.
Não será igualmente digno de chacota uma pessoa que nem sequer consegue dar três passos de corrida, ou que é destituída de qualquer agilidade física? Aliás, recordo que a ideia do homem da Renascença era precisamente um ser completo, física e mentalmente.
Não era Giordano Bruno um atleta formidável?
Não me leve a mal, ou talvez eu tenha interpretado as suas palavras de forma incorrecta, mas julguei este seu post um pouco inconsciente da variedade de formas de trilhar caminho na realidade quotidiana.
Eu sou, nessa lógica, uma formiga no ano inteiro, e uma cigarra leitora quanto baste no período de férias ou silly season. Além disso, estou como Yeates… cheirar as flores enquanto posso.

Continue o bom trabalho

Abraço Sincero







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