ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, setembro 18, 2003



Da MulherA Mulher é , para mim, uma fonte inesgotável de pensamento, irritação, fascínio, curiosidade. Por isso criei este post, ao qual voltarei em tempos futuros. Porque acho que nunca terei dito tudo o que posso sobre ela.

É uma homenagem trapalhona mas que é pelo menos sentida.
Se entenderem alguma coisa como generalização gratuita, peço desde já desculpa, dizendo também que se tratam de ideias e conclusões com base numa experiência e percurso pessoal junto das mulheres, a saber, o meu.

Apetece-me falar um bocadinho dessa eterna tensão entre os dois sexos, que até hoje ainda andam a ver exactamente o que pretendem um do outro.
Começando por termos mais práticos, a igualdade que deve ser defendida mais veementemente é a de vertente jurídica, ou seja, a que concede direitos, oportunidades e legitimidade para todas as coisas do mundo humano.
Mas quando se entra no relacionamento interpessoal, no domínio da abordagem do "eu" perante o mundo, as diferenças são mais que um objecto de estudo, uma evidência.
Somos iguais em muitas coisas, como somos diferentes.
Presumir certas igualdades será um exercício optimista pelo desejo de compreensão, mas talvez complicado devido ao plano de diversidade da natureza. porque realmente acho que a Natureza tem um plano. Não estivéssemos nós tão empenhados em dar cabo dele, e talvez víssemos a sua concluão, mas adiante...

E porquê?
Bem, a começar pela forma como a natureza desejou ordenar as coisas, ou seja, pela construção dos sexos, dos corpos e a função que desempenham nesse eterno jogo de suposições que é o relacionamento homem mulher.
Segundo as leis da natureza não racional, ou seja, dos animais ditos não racionais ( atenção que isto do não racional tem o que se lhe diga, mas para facilitar a discussão fiquemos por aqui) a beleza, a cor, aquilo que chama a atenção ficou por conta dos machos. São eles que detém as jubas, as penas coloridas, os cantos mais altos, as danças mais vigorosas. No fundo, os mecanismos de atracção dita evidente ficaram por conta dos machos na sua feroz luta por chamar a atenção.
Mas alguém resolveu pregar uma partida ao género humano, e baralhou as cartas todas.
À mulher foi concedida a beleza. A capacidade de exteriorizar um prolongamento do seu género que origina um fenómeno imediato de contemplação. Há algo na beleza, no simples facto de se tornar presente a presença feminina que desafia todas as subtilezas masculinas.
A pele lisa, os cabelos compridos, as curvas subtis, ao arranjo mágico do rosto, os trejeitos sensuais do corpo? tudo foi dado à mulher, ainda por cima numa lógica de (aparente) controlo do jogo da atracção.
Parece tudo menos justo!
A natureza pode ser sábia, mas nem por isso aparenta ser justa nesta situação em particular.
Face a tudo isto sempre achei a mulher um ser fascinante. Não só pelo seu carisma sexual, pela força da sua essência sensível, mas também pelas suas contradições, pelas suas fraquezas, pela sua tendência feroz para a territorialidade.
Quanto mais vou andando, mais percebo que menos sei, e que a melhor forma de se comunicar com o espírito feminino é desdramatizando a sua suposta complexidade, simplificando os conceitos, e realmente ouvindo o que ela pode ter a dizer. É ficar quieto, ouvir mais do que falar, mas ser firme.
A nossa suposta fraqueza hormonal é um mito. Porque ela é em si também um acto de vontade. É por isso que é tão engraçado estudar as mulheres. Especialmente para alguém como eu que nada sabe sobre elas, mas que tende sempre a querer descobrir.

O universo sexual feminino é um poço de originalidades e idiossincrasias. Tudo parece diferente de pessoa para pessoa, e não existem limites para os universos de interpretação social.
Mas digo desde já que discordo da ideia tão propalada da tendência recatada e monogâmica da mulher. Pode ser um elemento cultural, incutido profundamente, mas julgo que não radica em noções de inatismo. Este é um universo no qual penso que o corpo feminino grita tão alto como o masculino.
A natureza dá-nos a pista inicial.
A mulher tem mais 43 pontos erógenos, se não me falha a memória, e possui um órgão cuja utilidade é única e exclusivamente o prazer.
O facto de ter tantos pontos erógenos leva a duas conclusões. A primeira, que quase toda a mulher é em si um ponto erógeno, sendo que a pele pode ser veículo quase total para a ideia de toque e excitação. E a segunda é que talvez assim se explique a razão pela qual o toque é muito mais poderoso na mulher que a estimulação visual. Penso que se os homens se atrevessem a tocar mais, as coisas seriam diferentes. Mas a sociedade ordena-se por esses mecanismos de prudência, e de uma certa forma, é o que mantém uma certa ordem.
Já quanto ao famoso órgão, denominado por clítoris, ou "clit" nas designações "anglo-urbano-modernas", tem mais de oito mil fibras nervosas numa superfície externa de dois centímetros. Se considerarmos que o pénis tem 3 mil, a conclusão tira-se por si mesma.
Ou seja, o corpo da mulher foi construído para o prazer. Dela mesma, não do homem, reafirme-se já. A sensualidade que a mulher é capaz, endeusando-se, é um mistério. É uma extensão fantástica desta bomba de potencial sexuado, onde as imagens criadas emanam de uma capacidade para a recepção do toque. Talvez seja por isso que as mulheres seja curvas, sejam suavidade. Porque elas são toque, e para si mesmas, este é o rei do contacto com o exterior.

Ao contrário do que dizem alguns sectores mais prudentes, especialmente deste ressurgimento do dito neoconservadorismo, não julgo que haja, ou deva haver qualquer distinção na atitude perante a glória do corpo entre homens e mulheres.
Durante séculos existiu uma repressão das manifestações da libido feminina precisamente por receio da superioridade sexual. Os próprios instrumentos de tortura tinham um pendor de destruição dessa mesma superioridade. Como demonstração de que a força bruta teria sempre a ultima palavra, em todas as formas de subjugação conhecidas.
Sem surpresa, o género humano tende a destruir o que não entende por preguiça e comodismo mental. Depois do medo, claro.

Como havia dito, penso que a iniciativa na mulher não fica mal, ou não dá qualquer imagem de baixeza. Porque aquilo que é feito de forma gratuita fica mal a ambos os sexos, ao contrário do que se propalava há uns tempos. O conceito da mulher fácil é apenas uma espécie de muleta psicológica para explicar uma timidez mal aliada a um desejo de intimidação e domínio da caça. Qual é o tipo de arma ao ombro que quer andar a fugir dos coelhos? Tenho amigos que olham para a mulher como algo esquivo, que deve fugir para provar a sua qualidade. Eu, com o devido respeito, acho isso uma idiotice.

O grande problema é a falta de cedência de parte a parte. Ou seja, os hábitos e territórios separados por uma espécie de código de automatismos, e a desconsideração do que são os rituais alheios.
Há toda uma enorme série de códigos, signos e significados que atraem os dois sexos ao mesmo tempo que pressupunham clivagens. Porque penso que há um grande desejo de entender, de perceber, de interiorizar, ainda que seja pela pior razão do mundo, ou seja, o exercício de controlo.
A única coisa que digo é que se a mulher domina claramente o universo da sensualidade e sedução, então pergunta-se o que sobrou para os homens?
Sobram os milhões de páginas de poesia, literatura, de partituras, de telas, de objectos transformados.
Sobram os cantos de inspiração, as modificações do discurso, as mentiras encantadoras, as verdades rendidas. Sobram os passos no encalço do mistério. Sobramos nós, a tentação, a cobiça e um fascínio por vezes ressentido.

As hormonas podem explicar muita coisa. E explicam. Assim como o juízo estético. Por muito doloroso que seja, a beleza traz uma facilidade à imaginação. Um par de olhos ou uma curva perfeita da mama enche a taça da criação do olhar e engenho masculino. Era pelo menos isso que dizia Vinicius de Moraes e eu tendo a concordar com ele.

Mas o universo feminino, naquilo que tem de exasperante e por vezes aparente e gratuitamente complexo, tem uma outra face de riqueza e multifacetação que surpreende porque à medida que vamos crescendo e visualizando, menos vamos entendendo. E é a atitude que desarma, a vivência expressa em trejeitos que empresta à beleza um senso de fundamental mas simultaneamente apenas parte de um todo.

É uma crença que tenho, sinceramente, o que talvez explique muito do que não entendo, e ainda mais a falta de um senso de sedução eficaz.
Mas ainda assim, vale a pena ir aprendendo, penso eu.
ou pela lógica a mim aplicada, ir sabendo cada vez menos.




Abraços!




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