Ontem á noite vi o filme "Irreversível", e sinceramente não sei o que pensar.
Sim, bem sei que a chamada crítica letrada e auto intitulada especialista em condicionamento de subjectividades dirá que se trata de uma porra de uma obra prima, mas eu cá mantenho a minha. Não sei o que pensar.
Para começar, se eu fosse o Christopher Nolan, ficava lixado, porque a lógica de progressão regressiva da narrativa é copiada a decalque dessa obra genial que dá pelo nome de "Memento". É que tirando as piruetas da câmara, a premissa é exactamente a mesma, ou seja, as cenas entrelaçam-se numa progressão para trás. Tem algo de deja vu, verdade seja dita.
Os actores entregam-se, é verdade, se bem que Vincent Cassel ofusca todos os outros, incluindo a ex-esposa Belucci. A empatia é excelente, e até os figurantes fazem um trabalho credível e envolvente. Arrepiante, diria eu, mas isso é outra história.
No entanto aqueles tiques de realização que é suposto criar uma qualquer envolvência tornam o início do filme confuso e determinados planos são esticados para além daquilo que considero integrado no ritmo de um filme. A observação torna-se errática, e dei comigo a olhar para o lado porque já estava cansado de ver a câmara dar voltas e mais voltas, como se o operador tivesse caido de uma escada abaixo. É uma tentativa de criar estilo mas que até um certo ponto leva a que me pergunte qual o intuito.
E se a ideia é dar a noção de desorientação, inquietação, mal estar e stress, porque é que a cena da violação está filmada num plano estático? Padece de falta de coerência, se é que era esta a intenção do realizador.
Depois é a implausibilidade de imensas premissas e decisões dos protagonistas. A decisão dela de andar sozinha num local supostamente perigoso da cidade, ainda por cima já se sabendo grávida. A forma como o marido consegue entrar tão agressivamente num local que mais parece um sector do inferno mais carregado que já vi em cinema, é forçada.
A própria premissa do argumento está assim algo fragilizada pela plausibilidade de alguns acontecimentos.
E finalmente o choque. A brutalidade. A intenção claríssima de castigar o espectador até ao limite do suportável. E a minha pergunta é a mesma. Qual o intuito? É suposto ser um extremo exercício de realismo? Mas quem é que rebenta a cabeça de alguém com a mesma expressão de leve enfado com que se limpa um dejecto canino no passeio? Caraças... Eu sempre embirrei um bocadinho com aqueles que confundem o poder do choque e do desagradável com profundidade e sentido de comunicação de ideias. Eu posso sugerir uns sites com imagens parecidas e ainda mais brutais, que nunca mais na vida quero ver, e que nem por isso são considerados cinema de autor.
Noe resolve castigar-nos com algumas das cenas mais brutais e asquerosas que eu já vi em cinema ou qualquer outro local, e a minha questão é só esta. Qual é o intuito? A subtileza também conta para alguma coisa, certo?
E no entanto, para além disto tudo, não se pode dizer que o filme não funcione. Não tenciono vê-lo novamente, e não é um filme que tenha gostado. Mas não pode de forma nenhuma ser considerado um mau filme. Tem força e uma certa forma de atrevimento que torna o seu visionamento marcante.
Não sei se é mau ou bom.
Eu sinceramente não gostei, pelo mesmo motivo que detestei Saló do Pasolini. É daqueles filems que nem sequer percebo porque foi feito, nem qual a virtude senão uma tentativa de denúncia num contexto politico e histórico determinado. Acho que neste domínio, certas coisas absolutamente gratuitas são confundidas com sentido artistico e denuncia realista. Não sei que propósito servem, mas a mim nenhum com certeza.
Por estranho que pareça, recomendo e não recomendo.
Se forem sensíveis, este filme é uma absoluta tortura. Impiedoso mesmo. Uma jornada de nervos nos primeiros 50 minutos.
Se a curiosidade vos levar a melhor, preparem-se. É, acima de tudo, uma experiência.
Para mim, está lado a lado com Saló - de Pasolini, o Homem Elefante - de Lynch e SAving Private Ryan - de Spielberg, como um dos filmes mais difíceis de ver.
São os chamados filmes bigorna, pela pancada que nos dão na cabeça e a dor e incómodo que lá deixam.
Boa sorte.
Abraços
ESTAÇÕES DIFERENTES
"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Stephen King - "Different Seasons"
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