ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, novembro 27, 2003

Bem sei que a Associação Nacional de Cínicos, caso lesse este cantinho desconhecido, iria chamar todos os nomes possíveis e imaginários a este vosso amigo. Junte-se a Tertúlia dos Críticos Esclarecidos e o Movimento Contemporâneo da Cultura Acertada e Real, e teremos um coro de protestos.
Especialmente porque quando a grande parte são misantropos, o assunto de que falarei em seguida irritá-los-á ainda mais devido á quadra. Aliás, devem estar neste momento ocupados com os textos de arraso á quadra natalícia, sempre defendidos por aquilo a que chama o "esclarecimento social e cultural", leia-se, uma crise maus fígados por um período do ano em que, seja lá porque automatismo social for, acicata os sentimentos das pessoas, para bem, ou para mal, dependendo da situação da própria vida. Alguns têm razão para experienciar essa raiva, e normalmente não são aqueles que tanto espumam contra o período em causa. Enfim, adiante...

Falo-vos de um filme que fui ver ontem.
Richard Curtis, de quem sou um fã empedernido devido á magnífica saga Black Adder, entende que de alguma forma se pode brincar com a sociedade de duas formas. Com uma lâmina afiada e arguta, por um lado, e mantendo essa argúcia em nome de algo mais positivo, por outro.
Love Actually é um filme feito de nove pequenas histórias que talvez não tenham nada de inovador, mas são construídas com um charme e ternura tão genuína que se torna impossível não nos revermos em algum daqueles momentos, quando tomamos atitudes imbecis por causa de uma coisa que não se vê, não se cheira ou toca, mas que anda por cá e faz estragos para cacete.
Os actores entregam-se, as histórias funcionam, e há uma espécie de rodeio em torno da profundidade que é comum a todos os estados de inebriamento emocional. É na ilusão que todos pairamos quando nos encontramos naquele estado, quer queiramos, quer não. Pode combater-se, mas não negar-se. E é precisamente isso que Curtis ali mostra. A capacidade para nos iludirmos, a fantástica viagem que é o nascimento do amor, e a outra face mostrada pelas suas vicissitudes.
O filme tem falhas claras, obviamente. A cena no restaurante português é dispensável ( para não dizer má), e eu pessoalmente trataria a resolução final do cantor envelhecido de outra forma, mas tudo o resto está imbuido de um genuíno afecto pelas personagens, pelos seus percursos, pelas coisas que fazem de ambas as ilusões algo que não é passível de ser ignorado por ninguém. Não há profundidade na génese do amor, mas tão somente um pairar por cima da ilusão, onde tudo se transforma numa sensação de imortalidade. Na minha modesta opinião, se não fosse assim, nunca chegávamos á profundidade. A força do amor mede-se pela exacta e proporcional comparação ao discernimento. Se ambos conseguem crescer, algo de sólido se passa. Mas o nascimento da emoção ou sentimento, como lhe quiserem chamar, é feita do material que constrói as horas de espera infantil até á abertura das prendas.
Duas ilusões. Dois nascimentos. Duas hipóteses.
É uma comédia romantica? Pois é. E qual é o problema?
Talvez esteja a ficar sentimental com o passar dos anos, mas não vi ali facilidade alguma, nenhum truque narrativo sujo, e sinceramente, conseguiu comover-me a espaços. Atenção ao miudo de dez anos, e ao que se pode fazer com alguns cartazes e um rádio da Worten!!!

Feel Good Movie. Se não forem preconceituosos, talvez vejam ali pedaços de algo que com certeza já fizeram por alguém que amaram, que perderam não obstante o esforço que tenham feito, ou que ainda tentam alcançar por todos os meios, rídiculos ou não. E é na inteligência e ternura com que tal é revelado que reside a força de um filme que talvez não seja não ser profundo como a génese do amor nunca o pode ser.

Diivirtam-se e deixem a magia da quadra derreter algum desse cinismo.
É que sinceramente, não serve para nada.
Justiça para quem pode...


Eis o que fizeram do principio do acesso á justiça. Mais uma vez, quem tem dinheiro pode ter direito a recorrer aos tribunais, quem não tem, aguente-se... o que significa a existência de cidadãos de primeira e de segunda, algo extremamente claro em toda a política social da actual administração. É só uns emeplos atrás dos outros...
É o que dá. Um tipo deixa o cariz umbiguista do blog e dá logo de caras com esta desgraça...




Custas judiciais aumentadas para moralizar acesso aos tribunais

Catarina Gomes
PÚBLICO
O novo regime de custas judiciais, cujo projecto é hoje aprovado em Conselho de Ministros, pretende dissuadir as grandes empresas de inundar os tribunais com pequenas dívidas e encaminhar cada vez mais os cidadãos para meios alternativos de resolução de conflitos, como os julgados de paz. A Ordem dos Advogados discorda do aumento sem alternativas das custas das acções de menor valor e a Associação Nacional de Jovens Advogados vê a medida como "desacompanhada".

O novo Código de Custas Judiciais, que deverá entrar em vigor no início do próximo ano, parte de um pressuposto: cerca de 85 por cento das acções para cobrança de dívidas são interpostas por empresas. As acções de pequenas dívidas (até 500 euros) predominam e são sobretudo intentadas por empresas de transportes, armazenagem e comunicações, como as operadoras de telemóveis. Já os cidadãos individuais escolhem cobrar as suas dívidas em tribunal em cerca de dez por cento destas acções.

O novo regime de custas, que se traduz num aumento de 2,6 por cento (o projecto original previa aumentos de sete por cento), agrava a taxa de justiça sobretudo nas acções de menor valor, o que pretende ter um efeito dissuasor sobre as empresas. Mas irá afectar os cidadãos particulares, defende a Ordem dos Advogados (OA).

O bastonário da OA discorda sobretudo do "aumento sem alternativas das custas das acções de menor valor". Júdice afirma que o merceeiro tem tanto direito a cobrar 500 euros como uma grande cadeia a cobrar 50 mil euros. Por que há-de o primeiro ser prejudicado?

"É intolerável que o Acesso à Justiça prejudique os direitos dos menos favorecidos, apenas porque tais direitos têm valor económico baixo em termos absolutos, embora muito elevado para o valor patrimonial e os rendimentos de amplas camadas da população", lê-se na moção contra o projecto de Código de Custas Judiciais aprovada pela OA, em Novembro, que espelha a posição do órgão sobre esta questão, afirma Júdice.

Em resposta a esta crítica, fonte oficial do Ministério da Justiça afirma que os cidadãos deverão cada vez mais levar acções de pequena monta aos julgados de paz - meios alternativos de resolução de litígios com competência para julgar acções até cerca de 3700 euros. Hoje fazem-no cerca de 200 mil pessoas, com a expansão da rede pretende-se que sejam 1.600.000 cidadãos, reforça.

Para Miguel Alves, vice-presidente da Associação Nacional de Jovens Advogados, o aumento das custas é uma medida de "aplicação solitária" porque "desacompanhada de medidas de aumento da eficiência do sistema". "Aumentar as custas é o caminho mais fácil", o critério económico devia ser a última forma de combater a pendência processual, diz. Na sua opinião, deveria apostar-se em medidas de cariz positivo. "Pensem duas vezes antes de ir para tribunal [devido ao preço] não nos parece a mensagem correcta", ainda mais numa altura em que os cidadãos aumentam a consciência dos seus direitos.
REVOLTANTE!!!


Não há palavras para descrever algo como isto...
Mas afinal de contas o que faz falta são os submarinos e os estádios de futebol. Coisas como a AMI são dispiciendas para este Governo. Aliás, tudo o que tenha a ver com as pessoas é supérfluo...
Que tristeza...

No DN de hoje...

Estado asfixia as ONG
LICÍNIO LIMA
As Organizações não Governamentais para o Desenvolvimento (ONGD) correm o risco de fechar as portas, abandonando projectos em curso nos quatro cantos do planeta de apoio à educação, agricultura, saúde, etc. Em causa está a mudança abrupta de metodologia do Governo, que, ao contrário do que sempre fez, deixou de adiantar verbas para co-financiar as iniciativas, alegando que tal prática viola a lei, nomeadamente as regras da despesa pública. É que a partir de agora só receberão dinheiro mediante a apresentação de facturas ou de uma garantia bancária.

A plataforma representativa das ONGD, as quais traduzem o rosto da solidariedade portuguesa no mundo, considera esta norma contrária ao espírito das suas actividades, frisando que a cooperação com os povos mais desfavorecidos «não se enquadra nem na compra nem na venda de serviços». E, neste sentido, já manifestou a sua indignação ao primeiro- ministro, ao ministro dos Negócios Estrangeiros e aos deputados, através de carta.

A situação é desesperante. «Se as novas regras forem impostas, as ONGD mais pequenas terão de encerrar as suas actividades», garantiu ao DN Fernando Nobre, presidente da AMI. tendo esclarecido, no entanto, que sobre o assunto só sabe o que foi veiculado pela plataforma e pelos meios de comunicação social. O presidente da AMI garantiu mesmo não ter recebido qualquer informação oficial do Instituto de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD) - entidade dependente do Ministério dos Negócios Estrangeiros responsável pela atribuição dos subsídios. Por isso, Fernando Nobre adverte que espera que aquele organismo governamental cumpra o compromisso assinado para quatro projectos que a sua organização está a desenvolver na Guiné-Bissau, Timor, Angola e São Tomé e Príncipe. «Quero crer que o Estado é uma pessoa de bem e vai honrar o que assinou», disse.

Segundo apurou o DN, em causa estão alguns milhões de euros, precisamente 1,6 milhões (320 mil contos), que deveriam ser disponibilizados pelo IPAD. Por exemplo, a Grécia distribui por esses organismos não governamentais cerca de 40 milhões de euros.
Isto significa que as dádivas do Executivo são pouco significantes, comparadas com os financiamentos da Comissão Europeia (CE), que rondam os 75 por cento do valor de cada projecto. Porém, o dinheiro europeu apenas é disponibilizado se as instituições de solidariedade garantirem os restantes 25 por cento através de fundos públicos e privados.

Neste contexto, a palavra desespero ganha sentido, tal como explicou ao DN Pedro Krupenski, dirigente da Plataforma das ONGD. «É que já há 28 ONGD que assinaram contratos com o IPAD, com o compromisso de que iriam receber os co-financiamentos, tendo os documentos servido para provar junto da CE que os 25 por cento estavam conseguidos». Por outro lado, adiantou aquele responsável, «alguns dos projectos são plurianuais, dependendo dos subsídios anuais.

As consequências são óbvias: «Se o IPAD não adiantar as verbas, as ONGD não têm como provar à CE a sua utilização, podendo perder, ou ter de devolver, os subsídios europeus. E os projectos em curso correrão o risco de serem abandonados, afectando, nalguns casos, populações inteiras», disse.

Tudo isto, frisou, porque o IPAD resolveu mudar a política de atribuição de subsídios, apesar de a CE manter a norma de adiantar os financiamentos e de os fiscalizar depois para saber se os projectos foram ou não realizados, como se fazia em Portugal.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Aos que não sei onde andam...


Num mundo onde tantas pessoas se ocupam em determinar a verdadeira noção do que é dizer alguma coisa, onde parece que alguém finalmente inventou uma espécie de código da elegância para as mensagens ditas importantes, criou-se um novo mito. A ilusão do dito por não dito, a lógica da parecença, as frases pressupostas, as lógicas intermédias.
A conversa está perra. Existe uma correria para a colocação na ordem suposta das relações humanas e os mecanismos da imaginação cedem perante o rosário certinho do adequado. Instila-se a noção de progressão, do abandono do que se torna anacrónico em direcção a uma consciência que mais parece um prato composto. Cinismo quente como carne ou peixe, e esperança mal disfarçada como conduto fumegante. E é nesta lógica que o escapismo surge como sobremesa. Porque no fundo é apresentado para cada um não como o fim, mas como uma etapa do que realmente já deveria ter começado.
Embora haja uma argumentação baseada nas elaboradas lógicas da doença civilizacional, as paragens para medição da infelicidade são, não raras vezes, tragédias pequenas cuja acumulação produz outras maleitas, como afluentes a uma corrente avassaladora de que toda a suposta normalidade é feita.
A verdade é que a busca das identidades, o combate à alienação quotidiana está radicado numa forma muito primária de tristeza. Não se fala nela, porque não se falam nas coisas evidentes. Encontram-se formas de expor essas fragilidades do chamado equilíbrio em demonstrações artísticas que falam sempre no mesmo conceito, através de consequências mais ou menos devastadoras. Em muitos dos filmes ou livros que experimentei ao longo de uma curta e inculta vida, a ideia da denuncia da alienação está retratada, como disse acima, num escapismo que varia entre a brutalidade e um cinismo crónico. Os dentes afiados da vergonha recusam um estertor que seja de positividade, embora num local solitário, quando as circunstâncias o permitem, as perguntas são sempre as mesmas. As certezas do negrume esclarecido perdem igualmente o vigor argumentativo, e volta e meia aparecem as fragilidades.
Não se fala em coração porque é piroso. E já agora cientificamente incorrecto. Não se fala em bondade porque a denuncia da intenção oculta paira como uma espécie de código de posicionamento cultural (e até mesmo político). Esse código indica uma verdade supostamente inalienável. Ninguém dá nada a ninguém.
Ouço psicólogos aferirem isto com base em explicações que, embora bebam na lógica verificável, não são nunca passíveis de generalização. Mas a convicção é outra. As histórias que se contam nunca podem reflectir a verdadeira dimensão da fragilidade, porque o conforto dado, a mais das vezes, assenta num assentimento simpático.
As pessoas hoje em dia confiam numa espécie de posição de principio. Os relacionamentos surgem e funcionam nos seus inícios, e existe uma convicção clara de que os compromissos construídos funcionam por si, como um perfume colocado na pele que nunca desaparece. Essa posição de principio torna-se um código. E de alguma forma, os pólos de resistência que se vão formando assentam em mecanismos de pertença que bebem precisamente desse saber mudo. Está tudo definido. As coisas questionam-se, mas a normalidade surge como a panaceia naturalística. Os gestos são feitos daquilo que é intuído, para desgraçada da vaga de insegurança que assola todas as pessoas em qualquer momento dos seus dias ou vidas.
Os formatos aparecem então como o best seller para o combate ao desespero imperceptível. Os códigos, os manuais de procedimentos, a falta de perguntas, os divertimentos provocados por objectos ou realidades alheias.
A doença civilizacional surge como o bode expiatório, mas que de alguma forma está para além do castigo. Os contactos perdem-se, arrefecem. As perguntas morrem. As curiosidades tornam-se, em certo campo, obscenas, incómodas ou alvo do maior assassinato possível – o anacronismo. E o dito por não dito surge como a farda da mente. A técnica do silêncio como o cartão de visita dos desejos de cumplicidade, a normalidade como o termo de responsabilidade da pertença.
Quando se envia uma mensagem aos que têm de partir, no entanto, tudo isto desaparece. Seja um amante que se vai, um amigo que viaja ou alguém que dá um passo para o mundo da morte. Surge a válvula de segurança, a expressão do desejo contido e o medo que lhe está relacionado. A dignidade e o dispêndio de atenção tornam-se mais correntes, e por algum tempo, a alternância dos comportamentos aparece como deveria ser. Porque a alternância é tudo. Caraças, olhem para a própria cadência do sexo. Alternância. São as idas e vindas do conceito de vida. Daquela que interessa, pelo menos. O nada nunca chega a ser alguma coisa se não estiver lá num segundo, e desaparecer no seguinte.
No fundo é tudo um problema de importância. A importância da atenção devida versus a comodidade dos estados supostamente adquiridos. E no entanto, o código de silêncio permanece como uma tradição que não parte.
Conceptualizar em voz alta a noção de pertença é acicatar presenças inimigas junto a esta espécie de contra-código social moderno. Seja porque o tempo nos escapa, porque o conforto é encontrado numa presença pressentida, ou porque a necessidade do avivar da pertença é demasiado parecido com um pedido. E sabemos o problema que isso representa, certo?
Uma outra coisa curiosa é precisamente a familiaridade tangível através da ternurenta falta de cuidado. Não escapa a ninguém como o insulto e a graçola saltam com frequência quando existe uma verdadeira cumplicidade e senso de pertença entre pessoas. Pensem lá bem.
Imaginem a diferença que existia no tratamento dos amigos realmente próximos, ou da cara metade, antes de existir o senso de pertença. O cuidado com as palavras, com o uso do à-vontade. Será uma raridade suspeita se alguém for capaz de mandar à merda um amigo recente ou um projecto de relacionamento com pernas para andar. E não é só porque a má educação possa ficar desagradavelmente à espreita, mas porque o nosso lugar ainda não está verdadeiramente fixo. A insegurança dá uma espécie de noção bem clara de vontade. Vontade de ser, de pertencer, de poder caminhar num carreiro demasiado estreito para muitas pessoas.
No fundo, a ausência das pessoas que vão desaparecendo, as culpas atribuídas à referida doença de civilização, são formas menos elaboradas destes cuidados ou pruridos. E são formas incompletas, porque se referem à pertença a meio gás, tratando-a como uma planta imortal que nunca senão de uma autodeterminação que arrisco a dizer que ninguém deseja absoluta.
A alienação do próprio, a busca dos elementos de uma qualquer outra forma de contacto com o mundo que a todos pertence, pode levar a extremos. E muitas vezes esses extremos são implosões, vendavais de sofrimento interno forçado a ser calmo e pacífico, inaparente. O contrário chama-se pedido, e em muitas das linguagens relacionais entre pessoas, só tem sonoridade familiar quando a cumplicidade já existe. No fundo, o grande problema é a iniciativa. A fuga para a frente. A tomada de pequenas decisões que podem formar uma carapaça interactiva mas resistente com uma universalidade de pequenas agressões. É uma escolha.
A saudade daqueles que devem ficar, deve ser traduzida nos actos que levam ao mesmo risco que a conquista oferece. Com a vantagem de se saber que o receptáculo já reconhece o código, e que raramente sabemos exactamente a razão pela qual há alguma incerteza. Aquela que é feita da perseguição aos afectos. A melhor de todas.
É algo difícil olhar para a nossa vida e achar que as falhas subtis podem ter repercussões muito mais graves que as que previmos. Ou perceber porque razão essas mesmas falhas acontecem, sem que sejamos o seu agente activo.
No fundo andamos sempre à procura daqueles a quem queremos. Mas são as formas de o fazer que não têm um arquétipo. E talvez nem o devessem ter. Torna-se é necessário agir. E talvez o desconhecimento da melhor forma de o fazer, seja o mais adequado a algo que não tem instruções.
Existem poucas coisas melhores que procurar aqueles a quem queremos. Fazer as pequenas coisas, criar pequenos objectivos, solucionar mágoas com pequenas surpresas.
E quando perguntamos o que se passa, o que há, o que alguém quer, ter a noção de que realmente queremos ouvir. Que o espírito que nos impulsiona, nos atrai, mostra nas suas contracções o quão completo é. E quão total é a nossa motivação em querer um pouco ou fazer parte dele.
Quando se envia uma mensagem aos que têm de partir, desejamos sempre que a motivação seja outra. Que a mensagem seja falsa porque não existe partida. Que as chegadas sejam espontâneas, que a saudade seja apenas uma alternância dos afectos, necessárias à sua sobrevivência. Porque o gosto da solidão é um engodo, e a sua argumentação, uma ilusão argumentativa.
Por isso, onde estão todos?
Ao alcance das minhas mãos, se os meus actos ilibarem a culpa da minha inércia.
Aos amigos e mais além.
Aos que importam.
Aos que gostaria tanto que não tivessem de partir, ainda que estejam por cá.
Hoje vi, através da simpatia do site metter, que ultrapassei as 800 visitas. E vejo que normalmente encontro sempre as mesmas caras, cuja gentileza imensa lhes permite ainda passar por aqui e não sentir o aparecimento de um enorme bocejo.
Ou se calhar aparecem devido ás insónias...

Deve ser isso...
Seja como for estou-lhes tremendamente agradecido, e espero de alguma forma que esta letargia me passe e as coisas passem a ser mais movimentadas por aqui...

Abraço Forte
Hoje vi, através da simpatia do site metter, que ultrapassei as 800 visitas. E vejo que normalmente encontro sempre as mesmas caras, cuja gentileza imensa lhes permite ainda passar por aqui e não sentir o aparecimento de um enorme bocejo.
Ou se calhar aparecem devido ás insónias...

Deve ser isso...
Penso que ninguém ignora o quão difícil é racionalizar uma perda. Obviamente que a dimensão e importância contam, mas a fúria e desorientação pode ir da perda da carteira (leve), ao desaparecimento de um ente querido (pesadíssima). Julgo que é a falta de explicação. Sinceramente. A racionalização da perda é impossível precisamente porque não se encontra uma explicação para tal. É um facto cuja origem remonta a algo aleatório, comandado por uma vontade alheia à vitima da perda.
Claro que existem aquelas que pessoas que encolhem os ombros, soltam uns praguejos, e a coisa lá vai. No fundo a aceitação surge como uma explicação parcial – o velho – "estas merdas acontecem."
Outros esbracejam e disparam com fúria de encontro ao mundo. Julgam-se traídos e feridos de morte no orgulho, porque afinal perder algo é perder, é ficar numa posição de fraqueza ou vulnerabilidade.
E existe ainda um grupo que mistura as duas coisas, sendo que a segunda cresce consoante a importância da perda.
Aqui há dias mandei uma carta com uma espécie de puxão de orelhas aos que desaparecem. Um puxão cheio de saudades e embebido num licor de um abraço distante.

Nem uma coisa nem outra resultaram...
Começo a fazer perguntas que não agradam a ninguém...

sexta-feira, novembro 07, 2003

Existem poucas coisas piores que a saudade intensa de quem está bem perto.
E é sentimento que não deve continuar, caso essa saudade não poder ser reiteradamente satisfeita e recriada.
CHANGE

I don't feel the suns coming out today
It's staying in, its gonna find another way
As I sit here in this misery I don't think I'll ever see the sun from here
And oh as I fade away, they'll all look at me and say,
Hey look at him I'll never live that way
But that's ok their just afraid to change

When you feel your life ain't worth living, you've got to stand up and
take a look around you then a look way up to the sky
And when your deepest thoughts are broken, keep on dreamin boy cause
when you stop dreamin its time to die
And as we all play parts of tomorrow
Some ways we'll work and other ways we'll play
But I know we can't all stay hhere forever
So I want to write my words on the face of today
.....And then they'll paint it

And oh as I fade away they'll all look at me and say,
hey look at him and where he is these days

When life is hard you have to change


GALAXIE


Is this the place that i want to be
Is it you who i want to see
Holding on, Hold it high, show me everything

And you're leaving me me
Yeah you're leaving me
You're leaving me with hated identity

But i just keep on a comin' here and standing in this place
And I'm never really sure if you'll take
What I'm saying the right way
But i'm never apalled or afraid verbal pocket play
Is as discreet as I can muster up to be
Because the Cadillac that's sittin' in the back
It isn't me
Oh, no, no, no it isn't me
I'm more at home in my galaxie

Can i do the things I wanna do
That I don't do because of you
And I'll take a left then I'll second guess into a total mess

And you leaving me
Yeah you're leaving me
You're leaving me with hated identity

Chorus

I'm more at home in my galaxie

Blind Melon

Esta era uma das bandas que poderia ter sido bem maior do que foi. Grande amigo de Ax'l Rose,embora tenha feito musica radicalmente diferente, Shannon Hoon morreu a 21 de Outubro de 1995. Um jornalista da Rolling Stone diria que a sua voz soava fantasmagoricamente a Janis Joplin, e ao ouvir, podemos comprovar isso mesmo.
Provinda de um período de música que marcou uma geração de então adolescentes e jovens adultos. A minha. Os anos noventa serão para mim a génese da música que marcou a minha vida. Do Seatlle Sound a todos os derivativos.
A saudade que fica da descoberta da musica dessa altura é comparável á primeira leitura dos Maias ou do Senhor dos Anéis. Maravilhas que se podem repetir, mas nunca reiniciar. Como um primeiro beijo.
A vida por vezes é boa.
Walk Away


Oh no
Here comes that sun again
That means another day
Without you my friend

And it hurts me
To look into the mirror at myself
And it hurts even more
To have to be with somebody else
And it's so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away

With so many people
To love in my life
Why do I worry
About one

But you put the happy
In my ness
You put the good times
Into my fun
And it's so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away
And head for the door

We've tried the goodbye
So many days
We walk in the same direction
So that we could never stray
They say if you love somebody
Than you have got to set them free
But I would rather be locked to you
Than live in this pain and misery

They say time will
Make all this go away
But it's time that has taken my tomorrows
And turned them into yesterdays
And once again that rising sun
Is droppin' on down
And once again you my friend
Are nowhere to be found
And it's so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away
And head for the door
You just walk away
Walk away


Ben Harper - Welcome to the Cruel World

Esta é provavelmente uma das mais belas peças de música que ouvi até hoje. E se a letra promete, ouçam a instrumentalização e deixem-se arrasar pela beleza simples e intangível desta faixa.
Mestre Ben, és um génio!!!

quinta-feira, novembro 06, 2003

Prevejo uma avalanche de currículos...

PARIS, France (Reuters) - Want to learn how to strip?

A Paris department store is offering women free "lessons in seduction" this week as it opens what it calls the world's largest underwear store.

Those feeling inspired by the hundreds of silk bras, colorful knickers and G-strings displayed over more than 2,500 square meters (27,000 sq ft) in Galeries Lafayette's new underwear section can retreat to a quiet area for striptease lessons Saturday.

"A professional demonstration lets you discover the gestures it takes to unveil your pretty underwear," the store lures the curious on its Web site, adding classes are for women only.

Striptease teacher Lea said the classes will not be vulgar but artistic. "These classes are for women who want to play seducer -- to spice up their relationship or to surprise their partner -- but who don't know how to do it," she said.

"We will teach them to always unbutton their shirts from the bottom up when wearing trousers and how not to get their stilettos stuck in their skirt," the instructor was quoted as saying in Le Parisien daily Wednesday.

The striptease lessons come amid a heated debate about G-strings in France, as teachers try to deal with a fashion craze among teenagers to expose their midriffs and wear thongs designed to peek out above low-cut trousers.

Fueling the controversy, a French advertising sector association a few weeks ago called on underwear manufacturer Triumph to withdraw a billboard campaign for its Sloggi range of thongs which was condemned as widely offensive to women.






Como se já não bastasse a falta a Kyoto...

Segundo o NY Times, Bush soma e segue na sua cruzada pelo disparate.
Aliás, a sua administração peca novamente pelo autismo perante o óbvio. E a vítima é mais uma vez o ambiente...
Agora é criada a pior espécie de acto legislativo possível, a chamada "lei medida", que despenaliza as companhias com a maior taxa de emissão de poluentes. Isto implica igual e indirectamente que estas empresas não estão obrigadas a instalar anti poluentes.
A E.P.A. foi avisada pela equipa de Cheney para "deixar cair os casos", porque estes tinham sido processos instaurados graças a "uma interpretação errada e restrictiva da lei".
Ou seja, os contribuintes para a campanha do idiota da aldeia acharam que era um abuso serem obrigados a ter responsabilidades e cuidados com oambiente, por isso puxaram o cordão do lobby da energia e agora estão livres para dar cabo do canastro ao planeta. Alías, as empresas estão despenalizadas "ainda que aumentem" a emissão de substâncias poluentes.
É realmente de génio.
Que diria Lomborg sobre isto?
Uma coisa é certa. Luis Delgado arranjaria uma desculpa qualquer, que ainda por cima seria mais uma justificação para a intervenção iraquiana.
Leiam
aqui a notícia completa.

Que tristeza de mundo este. Mas como é que alguém ainda consegue apoiar esta administração?????

terça-feira, novembro 04, 2003

Dirty Pretty Things.

Stephen Frears.
Um dos melhores filmes do ano, uma perturbadora história de sentimento, redenção e quebra de ilusões.
Ainda estou tão tomado pela narrativa e a imagem que lhe deu corpo, que não sou capaz de fazer uma análise escalpelizada. E escalpelizada talvez seja a palavra certa, mas para aferir isso terão de ver.
Uma coisa no entanto tenho que dizer.
Mais uma vez alguns dos defensores do realismo a toda a prova conseguem encontrar neste filme um engulho a essa seita que parece crescer cada vez mais. Segundo estes amigos, não podem existir histórias de amor bem contadas, ou o emergir de humanidade mesmo no meio do Inferno.
Eu pergunto-me se essas pessoas têm tiradas dignas de Casablanca ou o final do Henrique V do Shakespeare quando se confrontam com uma pessoa que lhes faz tremer os joelhos e entaramelar a fala. Ou se a pungência do amor pode simplesmente levar a que uma pessoa, em meio ao mais complicado dos sacrifícios e renúncias, deixe sair uma palavra repetida á exaustão, mas que é tão inevitável como o passar do tempo.
Os protagonistas dizem que se amam, num dos cenários mais tocantes e bem construídos de amor contido que já pude testemunhar, e alguém acha que isso é fugir ao realismo.
Querem realismo e contundência? Vejam o assombroso Chiwetel Ejofor, que arranca uma interpretação magnífica quase só á custa de um olhar que deveria valer 30 Óscares.
Vejam Audrey Tatou, maravilhosa como turca, e Sergi Lopez brilhante na composição da repugnância de um anti-grilo falante.
Claro que amínima possibilidade de retratar estas pessoas como seres humanos com sentimentos reais é ofensiva para quem acha que o realismo deve ser feio, porco e mau até á exaustão.
Não compreendo porque essas pessoas não agarram numa faca e acabam com a sua própria miséria. Mas quem é que quer viver num mundo se o vê dessa forma? É por isso que o cinismo é uma cobardia incongruente.

Abraços
Vão ao cinema ver este filme!!!
Cartas a Sónia III




Deixa entrar uma brisa…
Não é fácil. Lá fora o vento faz corridas com as árvores estáticas
Mas toca no lancil da janela e anseia pela expectativa
Deixa que a mortalidade do teu ânimo se renda ao escuro
E saboreia as mãos da luz no teu pescoço
Como uma promessa surda ou uma tentativa vã
Feita à medida das expectativas de felicidade que fazem sonhar
E antevê… com a força de querer

Sai lá para fora, ainda que só em sonho
Agarra os feixes de ar corrido e sente a temperatura
Bebe os contornos e faz promessas incompletas
Aceita os desmandos e traz para a frente as recordações
Do que então parecia difícil e vagamente inexplicável
Como degraus da subida e ritmos das dores
Prevendo um voo como as folhas que passam à tua frente

Dás os primeiros passos, ainda que com pés descalços
Faz perguntas ao panteão natural que saltita à tua volta
Acolhe os viajantes da crueldade nova
E escreve um poema de redenção, ainda que te pareça impossível
Atreve-te. Desafia as consequências como se já não as sofresses
Dança um tango com a dignidade e desenha novas constelações
Chora lágrimas falsas pela beleza, e interioriza a verdade fugidia

Perde-te com os mapas todos. Escolhe não vê-los
Disseca as estradas e pergunta as direcções para todos os locais
Principalmente aqueles para onde não queres ir.
Apercebe-te da diversidade de sangue nas mãos
Rasga um bocadinho da tua roupa e faz uma bandeira
Desfila perante o silêncio das hostes. Ouve.
Avança e deixa que cheirem o desespero.
Apanha a dignidade naquele carreiro que ela tomou sem querer.

E depois retorna. Faz um mapa da viagem, mas apenas em desenhos abstractos
Diverte-te a explicar o que ficou para trás em língua desconhecida
Vence com a percepção do caminho percorrido, e sobe ao terraço do mundo
Desfia a história lentamente. Constrói-a. Cria paralelos e metáforas
Diverte-te com os teus absurdos, troça com os teus simbolismos
Porque afinal de contas, a voz da tua dor é tua.
Reverbera numa canção estranha e dissociada do real
Apoiada numa solidão necessária, como todas as que se tornam boas histórias

Volta então e conta-ma da forma que desejares.
Espalha o espólio inimigo e informa-me.
Gesticula mostrando como lhe cuspiste.
Mostra-te consciente que a tradução só vai até certo ponto.
Conformada, saberás claramente que é tempo de avançar
A espaços, em momentos, em histórias pequenas
É o teu mundo.
No fim da tua guerra.
O riso perante as pretensões e a pauta explicativa
Fecha a janela. E é então que o mundo fica cá dentro.