É a velha história da protecção das práticas ilícitas defendidas com o argumento de que dentro da empresa, a hierarquia pode determinar tudo, em todas as circunstâncias, porque a suposta autonomia privada assim o permite.
Obviamente que os mais liberais dirão que a empresa não pode admitir ser prejudicada pelos seus próprios funcionários, mas quando estamos a falar de jornalismo, e sobretudo quando esse suposto dano é merecido porque as práticas que lhe deram origem são efectivamente ilícitas e reprováveis não só pela lei mas pelo juízo social, então julgo que o primeiro argumento é falacioso e sobretudo incorrecto. Seria a mesma coisa que dizer que um funcionário que fosse maltratado e sujeito a toda a espécie de irregularidade laboral só pudesse dar conhecimento dessa situação depois de se despedir.
Além disso, como muitos saberão, a credibilidade de alguém que é despedido e depois relata as ilicitudes dá precisamente a imagem de alguém que compactuou com a situação e só porque foi despedido a revela, por despeito.
Mas é a lógica empresarial a dar a nota dominante, como de resto, e infelizmente, começa a ser cada vez mais comum nos dias de hoje. Lamentável.
"Conflito entre o dever de lealdade e a liberdade de expressão
Blogue Provocou Despedimento de Jornalistas
´Jornal Público de Segunda-feira, 26 de Abril de 2004
Pedro Fonseca
Três jornalistas do diário "O Primeiro de Janeiro" foram, na semana passada, despedidos por terem participado num blogue e nele descreverem algumas práticas comerciais do diário nortenho. Trata-se do primeiro caso em Portugal de despedimento motivado pela escrita em blogues, apesar de o mesmo já ter sucedido noutros países.
Sérgio Moreira criou o blogue "Diário de Um Jornalista" (diariodeumjornalista.blogspot.com) em 30 de Março e rapidamente o abriu a colegas para ali relatarem em público alguns procedimentos internos do jornal - nomeadamente no departamento responsável pelas chamadas edições especiais (suplementos temáticos). Joel Pinto e uma outra jornalista juntaram-se a um grupo de seis pessoas, no total, que passaram a animar o blogue. Foram os três despedidos na semana passada.
O "Diário" chamou a atenção para o facto e gerou alguma discussão nos últimos dias nalguns blogues interessados no jornalismo pelas práticas ali descritas. O seu aparecimento levou mesmo à criação do "Diário de Uma Jornalista no Desemprego" e, num tom mais irónico, ao "Diário de Um Jardineiro".
Manuel Pinto, provedor do "Jornal de Notícias" e um dos membros do blogue "Jornalismo e Comunicação" (webjornal.blogspot.com), chamou-lhes os "novos proletários do jornalismo" e, noutro texto, considerou que "os materiais como o destes blogues vão ser importantes nos estudos que se vierem a fazer sobre os caminhos que trilha hoje o jornalismo".
Para Sérgio Moreira, a criação do "Diário" blogue "foi o culminar de um crescendo de frustrações e preocupações" destes jornalistas, "e que, infelizmente, não tinham correspondência por parte dos editores". E assume que todas as situações relatadas "são verdadeiras", como explicou por E-mail a Computadores.
Segundo Joel Pinto, aquele espaço na Web servia para revelar as "experiências pessoais no jornal" e, "como era um blogue inocente, nem nos preocupámos com o facto de ser público ou privado". "Até mencionamos qual era o jornal em questão, tal a simplicidade com que encarávamos o blogue".
Foi para "denunciar determinadas situações e também - porque não? - brincar com as coisas", refere Ricardo Simães, outro dos "bloggers" do "Diário" e que trabalhou no jornal entre Setembro de 2002 e Julho de 2003.
Os jornalistas não deram conhecimento aos seus superiores da criação do blogue, até porque sabiam "de antemão que as chefias não iriam gostar"; mas o seu criador assume saber que se tratava de "um local de acesso público e, mais cedo ou mais tarde, iria ser descoberto". E salienta que o problema "não está no que escrevemos" mas "na coragem de denunciar estas situações".
As situações, segundo explicam, estão relacionadas com o facto de o departamento comercial combinar a escrita de artigos com o fecho de contratos publicitários. "O nosso trabalho era em função dos contratos de publicidade que eles assinavam; não havendo contratos, não havia entrevistas marcadas", salienta Joel Pinto. "Os delegados comerciais contactam as empresas ou as instituições ou entidades a estarem presentes num determinado trabalho e, em troca de um valor pago em publicidade, o jornal oferece-lhe um espaço redactorial, no qual os responsáveis dessas empresas podem falar do trabalho que fazem e dos projectos que têm". Para a direcção da empresa, "o interesse imediato é o de celebrar contratos de publicidade e não o de vender jornais", refere.
Reclamando ainda das exageradas condições de trabalho, Joel Pinto - que afirma ter tido um contrato de estagiário de 1º ano durante dois anos e meio -, salienta que "nem o próprio Sindicato [dos Jornalistas] se interessa por estas questões, tanto mais que eles não reconhecem o nosso trabalho como sendo jornalismo". O blogue "foi o único meio que encontrámos para nos exprimir livremente".
Quanto ao dever de lealdade que gere as relações entre empregador e funcionários (ver caixa "O que diz o sindicato"), o mesmo jornalista questiona, entre outras queixas, "qual é a lealdade de existir um departamento editorial que não correspondia às exigências fundamentadas dos seus profissionais", lembrando que "o comportamento de um funcionário perante a empresa reflecte o comportamento da empresa perante o funcionário".
Os autores do blogue mantiveram o anonimato e não nomearam as pessoas criticadas nos seus textos, até ao passado dia 21, quando falaram directamente de José Freitas, o responsável do departamento de publicações especiais do diário.
Joel Pinto foi despedido "apesar de ter um contrato de trabalho em vigor há mais de um ano", não vai receber qualquer indemnização nem sabe se receberá o vencimento de Abril. O blogue "vai continuar a crescer e todas as situações reais serão diariamente denunciadas", refere Sérgio Moreira. "Talvez dessa forma o nosso esforço seja recompensado e os que ficaram possam ter melhores condições".
As "chefias deveriam, desde sempre, ter criado condições para que não fizesse sentido existir um blogue como o 'Diário'", refere Ricardo Simães. E "deveriam aproveitar esta celeuma para repensar o que tem sido a prática do 'Janeiro' desde há algum tempo; deveriam reconhecer os erros", refere.
Computadores tentou - repetidamente mas sem sucesso - contactar, por via telefónica e por E-mail, José Freitas. Apenas conseguiu chegar à fala com Carla Marques, uma das editoras dos referidos suplementos, que remeteu o assunto para o seu superior. Nassalete Miranda, directora editorial de "O Primeiro de Janeiro", estava indisponível na sexta-feira e Eduardo Costa, administrador da empresa, como os restantes, não respondeu às tentativas de contacto telefónico."
ESTAÇÕES DIFERENTES
"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Stephen King - "Different Seasons"
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