ESTAÇÕES DIFERENTES
"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Stephen King - "Different Seasons"
Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com
Stephen King - "Different Seasons"
Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com
terça-feira, junho 22, 2004
A Noite e os Noctívagos.
Há algum tempo que não saio à noite
E digo-o com alguma saudade, pelo menos parcialmente, mas com um senso de estranheza perante a ausência de necessidade de ir por aí dar umas voltas.
Nunca tive uma ideia muito clara sobre a noite. Parecia-me uma divisão clara entre o alardear de um claro instinto de caça, e um desejo claro de diversão,embora alicerçado na bebida e num maior ou menos desejo de dançar. Julgo que o intuito principal era ver alguém, perceber quem ali andava de um lado para o outro, numa lógica de possibilidade, fosse ela qual fosse e quão remota pudesse ser. Digo era porque me refiro ao passado claro, porque julgo que as coisas ainda não devem ter mudado muito. Bolas, só passaram seis meses...
Brincadeiras à parte, e pegando nesta última ideia da caça, entrar num local noturno relativamente popular é verificar toda a espécie de artimanhas, mais ou menos subtis, para chamar qualquer tipo de atenção aos restantes membros da reunião acidental. A evolução do vestuário feminino, que em muitos casos me permito louvar, trouxe uma espécie de código estético que acentua o interesse masculino num automatismo. Já quanto às mulheres, arrisco a dizer que ninguém sabe muito bem do que gostam nem para onde olham, e é certinho que num grupo de mentes livres e pensantes, não existirá uma única opinião dominante. Isto torna o sucesso masculino em locais como este, bem como na maioria dos outros, uma absoluta lotaria.
A verdade é que o cenário é sempre o mesmo, ou quase sempre.
As mulheres caminham ou dançam, mostram a graça e a morfologia do corpo mais ou menos ajudado pela natureza ou roupas lisonjeiras. Há uma segurança inerente à linguagem corporal que simula comunicação, embora a mensagem seja a maior parte ds vezes errónea.
Os homens observam de longe, com olhares mais ou menos tímidos, gestos mais ou menos trapalhões, incapazes de conter a honestidade dos seus impulsos através de um simulacro de elegância ou contenção. Há uma tensão constante, uma lógica de desconhecimento onde os homens arriscam tudo num instante completamente adverso. Não há forma de sussurar uma frase bonita em meio ao barulho, e ainda que este não existisse, sem predisposição não existem abordagens inteligentes. Há uma consciência clara por parte das mulheres de que neste jogo pouco ou nada arriscam, já que a instituição como a conhecemos joga a iniciativa para as mãos dos seres hesitantes que evitam dançar e procuram rapidamente o fundo do copo, quiçás á procura de coragem líquida.
Nos locais que frequentei, ou frequento, as coisas não são fáceis. Oito ou nove em cada dez tentativas de contacto redundam numa humilhação rápida mas brutal, perpetrada com uma mestria gelada por parte da mulher abordada. Grande parte delas são educadas e declinam qualquer inciativa com um sorriso e um pedido de desculpas, mas uma mancha significativa percebe o cheiro a sangue e não hesita em espezinhar o animal se assim puder. Trata-se de um jogo de poder, como em tantas outras coisas. Há quem não se intimide e mantenha uma postura ainda mais altiva em resposta. E normalmente essa afronta produz resultados, vá lá saber-se porquê...
Este tipo de informação é omnipresente. Olhamos á distância para aqueles que rodeiam o bar e não é difícil perceber a razão pela qual muitos não arriscam, ou desistem depois da primeira miserável tentativa. Há uma espécie de inacessibilidade, que não sei se é própria das metrópoles, através da qual as pessoas concluem coisas sem ouvir a primeira palavra, e onde não há compaixão ou simpatia para quem traz o que não foi pedido. Muitas mulheres partem do princípio que quem se lhes dirige traz logo uma espécie de carregador sexual a rebentar pelas costuras, ao passo que muitos dos idiotas que por acaso têm a sorte rara de ser abordados por uma mulher colocam-lhe uma etiqueta de mercadoria em saldo e passam á frente. Ou então por cima, se é que me faço entender.
As pessoas não se tentam conhecer. Há uma agenda muito clara, rituais impiedosos em que as forças são contantemente medidas, em que os tremendos esforços(, grande parte deles dispendidos em ginásios e coisas que tais,)para produzir o elixir corporal da atracção redundam apenas no gozo pela capacidade de exercer poder. Na noite as palavras que se trocam são as necessárias, e não as essenciais para comunicar.
Pode perceber-se a contenção e retraimento de uns, e a implacável gestão de proximidade de outras. O que não entende são as queixas mútuas de parte a parte, e o queixume quase murmurado de que é cada vez mais difícil conhecer alguém, especialmente na noite.
Eu posso ser parcial realmente, mas quem é que se quer arriscar a falar com alguém que muito provavelmente aproveitará a oportunidade para destruir aquele universo de coragem que foi necessário criar?
Como vos tinha dito, nunca entendi bem a noite. A cortina que separa os dois sexos, os jogos de poder, as atenções desejadas e descartadas, como marcas de presença numa caminhada rápida e longa. "Agora que já vi que me viste e quiseste, podes passar adiante", é a versão moderna do analogamente dizia Moliére.
Um dia destes vou sair à noite. Para ver como andam as coisas. Para me perceber da imobilidade de que são feitos locais onde as pessoas vão para se verem umas ás outras, mas que nunca comunicam entre si.
E se alguém me oferecer uma palavra, isso será o melhor impulso.
E uma surpresa, porque até gosto de conversar.
Para quem?
Se alguma vez acontecer, contar-vos-ei.
Mas não contem muito com isso...
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Publicar um comentário