A noção de triunfo pessoal radica numa lógica necessariamente comparativa. No universo da meritocracia contemporânea, as pressões deixam de ser exclusivamente económicas para se tornarem uma espécie de selo identificativo. Há uma expectativa relativa aos elementos objectivos da vida de cada um, uma espécie de verificação de galões, de desejo de identificação. No fundo, há um retorno à lógica de confronto de expectativas versus a panóplia de façanhas. E mais notório ainda, é como isso cresce dentro de nós, como as exigências se tornam autocráticas para o próprio. No fundo, encontrar o caminho é complicado, e não ter uma noção clara de que caminho é esse acaba por ser uma reformulação do conceito de pecado social, mas mais de dentro para fora do que o oposto.
E depois há a vida pessoal. Aquela que assenta no que provavelmente justifica as nossas andanças por aqui enquanto espirito finito. Há, e já dizia DAvid Kelley, uma convicção de que a nossa vida pessoal cuida de si mesma. Que é um direito adquirido e que acaba por materializar-se mais cedo ou mais tarde, porque a função social objectivo-produtiva está cumprida.O tempo é queimado sem piedade, os livros ficam por ler e as cores do dia por ver. Aguarda-se pela compaixão emocional dos que nos amam porque está craida a convicção de que essa é uma obrigação que veio com a embalagem. A de fixar uma afeição e depois simplesmente lidar com ela num reforço de intenção, e cada vez menos de facto.
Mas a verdade é que sendo a depressão e as doenças mentais a praga social do século, associada à galopante transformação do modelo social, esta teoria mostra as suas fraquezas e incoerências. Mostra a tristeza mal escondida de quem está a ser empurrado mas simula uma marcha volitiva entusiástica. Há demasiados ecos de Huxley e Orwell neste cenário.Ou mais Darwin que Lorenz, sei lá...
A nossa interacção afectiva com o mundo que nos rodeia não é um luxo. As emoções podem ficar esquecidas até um certo ponto, mas cedo ou tarde cobram a sua parte. E fazem-nos de forma quieta. É complicado pensar que pode não haver amor para todos aí fora. Que não há necessariamente um texto para cada panela, que as pessoas podem efectivamente encontrar-se mais por necessidade de resistência que por uma qualquer epifania afectiva. Sinceramente, o crescimento das taxas de separação entre as pessoas ( dizer só divórcios é redutor), para mim, assenta nesta premissa. São dois focos de pressão. Não há milagres.
Talvez julguem que estou a ser pessimista, mas pelo contrário. A minha ideia é bem simples. A resistência verificada é que fornece um gozo na esperança a que cada um de nós se pode permitir. Pelo menos no meu caso. Amor e quejandos acontecem, felizmente. Mas não é a sobrevivência objectiva que garante a sua existência, e muito menos um direito a esta.
Preparar o futuro tem mais que um significado...
A mim , no fundo, falta-me fazer o caminho inverso, julgo eu.
ESTAÇÕES DIFERENTES
"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Stephen King - "Different Seasons"
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