Sim, conforme tinha dito, cá estou eu a morder a língua.
Portugal deu ontem uma demonstração de qualidade, classe, mas sobretudo, de vontade, de querer, de "ganas", sem querer ironizar em demasia com os nossos vizinhos e amigos espanhóis. E desde já devo dizer que as declarações dos jogadores espanhóis foram bastante diferentes das proferidas pela imprensa de Castela. Declarações elegantes, desportivas e sobretudo realistas. Portugal foi de facto melhor. Sim, melhor, jogou mais à bola, foi mais capaz, quis mais. E por muito que este léxico aparente andar afastado das bocas tugas, a verdade é que aqueles moços mostraram ontem como a vontade e o empenho simplesmente varrem cansaços e birras para longe. Que grande jogo de futebol.
Digo morder a língua porque eu fui um daqueles que disse que Portugal dificilmente passaria da primeira fase. Parecia-me haver demasiada desreponsabilização, demasiadas desculpas, fosse pela pressão, pelo ambiente, ou pelo estado da relva. O primeiro jogo parecia uma continuação da paupérrima campanha de preparação para esta competição. E com base nisto, julguei sinceramente que Portugal iria sujeitar-se a mais um rosário de desculpas e motivos aparentes ou factuais para explicar mais um desaire.
Para quem pratica e aprecia desporto há tanto tempo e apreende o conceito do que é a competitividade, embora em moldes muito mais modestos como é o meu caso, foi possível perceber a mudança de atitude, a entrega ao jogo e a urgência em dar um recital de habilidade e vontade. E quero eu pensar, de retribuição ao país, à sua manifesta e eterna simpatia e apoio.
Mordo a língua e tenho em mente que numa conjuntura tão complicada, o Euro será tão somente uma espécie de copo a mais numa sexta à noite depois da exaustão. Mas ainda assim, e na lógica contrária que tanto se propala por aí, há espaço para osesforços, os triunfos e para o gozo destes últimos. Esperemos que a nação esteja num caminho semelhante, em que aquilo que é importante venha a ser glorificado, após tantos esforços, para que o gozo de lograr as vitórias seja ainda maior pela derivação necessária de um merecimento colectivo.
Ontem à noite a taquicardia mostrou-me que o senso de pertença é de facto a mais instintiva das emoções. Aquela a que, aposto, ninguém está alheio, por muito que o professe. Os partidários da Neura 2004 também estão a pular, nem que seja um bocadinho, porque esta é a noção de identidade, de "nós", do conjunto que de alguma forma espero que preconize outra espécie de triunfos.
Olhem a Grécia. Supostamente à nossa frente, mas entre piscinas sem cobertura e infraestruturas simplesmente abandonadas, tudo lhes vai acontecendo.
A verdade é que dez estádios continuam a ser demasiados, que talvez o investimento que se faça em futebol no nosso país seja excessivo, que os verdadeiros problemas não se escondem por detrás de um sonho c0lectivo que se baseia simplesmente na magia de pertencer, de fazer parte, de partilhar. Ainda estamos em maus lençóis apesar de tudo.
Mas que diabo, deixem-nos saborear.
Mostrar que por uma vez, a vontade e humildade foram de facto a chave para que fossemos melhores.
Como podemos realmente ser.
Mordo a língua, e penalizo-me a mim mesmo por ter sido descrente. Nunca um acto de contrição me soube tão bem.
Viva Portugal!!!
Viva o país de bandeira à janela!
ESTAÇÕES DIFERENTES
"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Stephen King - "Different Seasons"
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