ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, julho 22, 2004

Segundo as generalidade das estatísticas, a depressão afecta cerca de 5% da população mundial. Se somos cerca de seis biliões e meio de alminhas isso resulta em qualquer coisa como 319 milhões de pessoas que não sabem o que fazer perante o túnel negro que se vai fechando em torno delas.
O sofrimento inerte cresce a cada dia em ritmos alucinantes, e é necessário ter em conta que estes montantes dizem respeito apenas aos casos declarados. Nestas coisas, devido ao preconceito social, a vergonha encerra muitos casos graves em casa. À semelhança da violência doméstica e da imigração ilegal, estes são números de referência que fazem antever uma realidade muito mais preocupante.
Nos Estados Unidos, terra dos estudos e análises, calcula-se que 35 a 40 milhões de pessoas, (10% da população, portanto) sofre ou já sofreu pelo menos um episódio daquilo a que chamam depressão “major”, que se caracteriza por um desenvolvimento intensificado da distimia, doença psíquica que se caracteriza por uma patologia mais suave e duradoura no tempo. Esta é também conhecida pelo temível epíteto da depressão crónica. Estudos revelam que podem ser necessários dois anos até que as terapêuticas consigam efeitos que perdurem no tempo. Em Portugal, três milhões de pessoas sofrem de doenças mentais, entre elas a depressão nas suas várias espécies.
Esta maleita não é sexualmente discriminatória, já que embora haja mais prevalência nas mulheres (4,5 a 9,3%) comparativamente aos homens (2,3 a 3,2%), não é raro o especialista que denuncia o manto de secretismo em que as pessoas envolvem estas patologias. Aliás, no caso masculino, a maior parte dos casos passa despercebido e protegido da onda de vergonha e estranheza com que a sociedade presenteia este tipo de fenómenos, especialmente em Portugal. E isto ocorre por duas razões. Em primeiro lugar porque as doenças do foro psíquico são encaradas como preguiça, capricho ou egocentrismo. Em segundo lugar, porque existem muitas pessoas que de facto usam uma simulação da sintomatologia para defenderem as suas próprias agendas pessoais, afastando a necessária atenção dos reais problemas.

De acordo com um estudo elaborado pelo INFARMED e publicado em Setembro de 2002 , “ (…) se se mantiverem as tendências da transição demográfica e epidemiológica, a carga da depressão representará, em 2020, 5,7% da carga total de doenças, tornando-se a segunda maior causa de AVAI (anos de vida ajustado por incapacidade) perdidos ”. Em termos de consequências, conclui o mesmo estudo que “ (…)os antidepressivos, a terceira classe terapêutica a nível mundial, tiveram em 2000 um aumento de 18%, representando 4,2% do mercado farmacêutico global.”
Sendo a doença com a 4ª maior taxa de incidência e incapacitação em todo o mundo, e a 2ª no chamado “mundo desenvolvido”, a depressão, na sua escala ascendente, tem provocado desequilíbrios tremendos a nível social, e mesmo económico. O custo económico é tremendo, seja em termos de absentismo ou perda de produtividade. Nos Estados Unidos, mais uma vez, a depressão clínica custa às estruturas produtivas mais de 36 biliões de dólares anualmente. No Reino Unido ascende ao bilião de libras no mesmo período de tempo.
O chamado “mal obscuro”, muito recorrente nas obras de Edgar Allan Poe Virgínia Woolf, Sylvia Plath, William Faulkner, William Blake, Edvard Munch, ou dos nossos Camilo Castelo Branco, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca e Antero de Quental , acabou por ser uma realidade também nas suas vidas, ou na forma como terminaram, em alguns casos.
Segundo os especialistas, e reduzindo obviamente o espectro de análise às múltiplas morfologias do fenómeno, pode dizer-se que as causas das chamadas “doenças afectivas” não estão absolutamente determinadas, já que podem ser concorrentes ou podem surgir isoladamente.
Nesta óptica, a depressão pode ser endógena - de cariz biológico e normalmente derivada do património genético que padece de desequilíbrios ao nível das funções do cérebro e sistema nervoso ( o mau funcionamento dos dois principais neurotransmissores, a serotonina e a noradrenalina, sendo que, a título de exemplo, a falta da primeira resulta em altos níveis de agressividade).
Pode no entanto ser reactiva, ou seja, depender de condicionantes do meio ambiente. É a desgraça imposta do exterior que simplesmente dizima as defesas e mergulha a pessoa num estado de desesperança. É um intenso cavalgar na onda da tristeza. Alguns definem como um crescendo de ideias que começam a soterrar outras mais positivas debaixo de uma avalanche de pessimismo quotidiano.
As origens deste tipo de problemas são apenas avançadas através de uma série de teorias de morfologias dispares. É quase unânime a ideia de que ninguém conseguiu isolar um único processo de causa-efeito, não biológico, que explique o facto de algumas pessoas conseguirem suportar o seu horror existencial e outras não. No entanto, uma das teorias avançadas como causa provável é realmente interessante. Arrisco a dizer que nos é familiar, e provavelmente tão velha como a história dos maus tratos físicos e mentais. Se pensarmos que muitas mulheres sob o jugo determinados regimes ou práticas sociais teocráticas não conseguem entender outra realidade senão a sua, podemos arriscar uma conclusão. Quando não se conhece mais nada senão a dor, a indignidade e a violência perante tudo aquilo que alguém é, o que quer ou representa, não parece estranho que se comece a deslocar o senso de responsabilidade para o próprio, encarando a negatividade e a violência como algo merecido em virtude da incapacidade própria. Estas mulheres encaram os espancamentos diários como algo de normal e próprio da sua condição. Crêem firmemente numa suposta inferioridade, induzida desde a infância tenra por um circuito social que desculpa tais práticas no escudo do relativismo cultural. Aprendem a ser indefesas e a tolerar a violência como um enquadramento do seu papel na vida social.
Este conceito, que se pensa poder ser uma das origens de algumas das mais comuns e perigosas formas de depressão, designa-se “learned helplessness”, ou seja, qualquer coisa como “aprendizagem do vulnerabilidade absoluta” ou o “cultivo do indefeso”. No fundo é um processo pavloviano, e sendo o homem um animal de hábitos, como provavelmente serão todos os animais, esta ideia de inferioridade gera uma tristeza inultrapassável pelos próprios meios, indutora de estados depressivos e suas correspondentes consequências. As pessoas aprender a crer e a justificar a sua suposta inutilidade e ausência de valor, e agem com o despojamento próprio da ausência de amor próprio ou dignidade pessoal. Nestes cenários, a própria vida alcança preços bem baixos.
As pressões do mundo actual e a progressão do doutrina da meritocracia estão a desenvolver uma patologia que em breves anos será a segunda maleita mais incapacitante do mundo. Um clima de terror está instalado, traduzido em cargas de stress inimagináveis, ocultas por baixo da linguagem do progresso e da evolução, embora muito boa gente não aparente sequer saber para onde vai.
O distanciamento entre famílias é uma realidade, assim como entre as pessoas e os seus receptáculos de afeição e convivência. A ignorância de outros factores de existência que não assentem nas provas a dar em qualquer sector ou matéria são encaradas com reprovação e escárnio. A ideia não é aprender ou progredir no conhecimento. É ganhar. Vencer. A contemplação e humanismo simples são devorados pela aplicabilidade da teoria selectiva darwiniana. As flores de Yeates morrem, e as estatísticas assustam por meio minuto, acompanhadas pelas lágrimas de crocodilo próprias de sistemas políticos dominados pela insanidade de progressão para um objectivo raramente definido.
No Japão, suicidam-se mais de 30 000 pessoas por ano. Ali as pessoas não vão de férias com medo de serem substituídas ou engolidas pela máquina do utilitarismo puro. O stress e ansiedade são monstruosos e formam este cenário dantesco feito de números que cinco minutos depois são prontamente substituídos pelo anúncio ao iogurte magro no qual a mulher esbelta e perfeita, de pele bronzeada e olhos cobiçosos faz a apologia da vida em prol da saúde e da defesa do individuo. Tecem-se encómios ao crescimento e poder económico, mas as mortes ficam como uma espécie de mal necessário, o preço do ideal. São as peças de desgaste que a engrenagem rejeita para prosseguir na sua caminhada circular e sem alcance.
A tristeza mata. Directa ou indirectamente, mas os dados começam a ser irrefutáveis. E é a comunidade médica e cientifica a concluí-lo, ao falar em epidemia mundial. Portugal não está isento de incidência ou de responsabilidades, embora detenha em grande medida um olhar sobranceiro e desconfiado relativamente a estes fenómenos.
Cada um dos mundos pessoais e interiores é terrivelmente único, provavelmente susceptível e necessitado de uma adaptação interpretativa. Porque as explicações, por vezes, são tão despidas de forma interpretável à semelhança da imaginação própria da unicidade de cada pessoa. Como dizia uma amiga minha, "por vezes as coisas são demasiado pessoais para fazerem sentido". Mas isso não significa que podem ou devem morrer encarceradas.

Assim testemunhava uma outra vítima do “mal obscuro”:

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia...
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!
E nem flor de lilás tenho que enfeite
A minha atroz, imensa nostalgia!...
A minha pobre mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a mágoa no seu leite!


Florbela Espanca
 
Paul Thomas Anderson, numa entrevista a propósito de Magnólia, quando um jornalista o acusou de ter realizado um filme moral, disse somente que não entendia a acusação, quando ele tinha feito um filme na tentativa de demonstrar que provavelmente não andamos a fazer o que deviamos uns pelos outros. Mas devíamos fazer. Pelo menos o mínimo. Não se trata de moralização. Trata-se de sobrevivência.
 
Eu, com honesta esperança, subscrevo,
 
 

 
 
 Condicionado por aquilo que é a vida quotidiana, as responsabilidades e a necessidade de sobreviver em substância, não tenho acesso a toda a informação que desejava.
 Não me posso dar ao luxo de ler obras completas, saltito entre livros de vários autores e de variados assuntos, de Stephen King, a Eça, passando por Henry James e acabando recentemente em Coetzee ou DBC Pierre.
 E sei que é de uma ingenuidade tremenda, mas julgo que as ideias e tormentos de quem deseja expressar algo são muito mais simples e tocantes do que as discursos entrelaçados herméticos dos supostos analistas querem fazer crer.
 Nunca tinha lido Coetzee, lá está, e fiquei maravilhado com "Disgrace" .  É daqueles livros, como outros há, que nos enchem de desespero quando temos de enfrentar a página em branco. Magistral na sua simplicidade, no destilamento da dor, na originalidade da redenção possível, na universalidade. Mas sobretudo na honestidade. Na pungência de uma história sem alçapões que acaba por ser estranhamente tocante. 
 É a honestidade que faz uma boa história. A técnica demonstrada de coração fechado é uma impostura cínica, apenas defensável no campo científico.
 Por isso vou continuar a arriscar. Tenho histórias para contar. Talvez interessem, talvez não. A segunda hipótese é a mais provável. No entanto é a honestidade, ou o desejo desta que as faz emergir. Tenho de expirar. Nada posso fazer quanto a isso.

 

segunda-feira, julho 19, 2004

VATICANO FAZ A PRIMEIRA ENCOMENDA
 

Bom artigo do New York Times que explica uma evidência clara, ou seja, que qualquer forma artificial de limita uma liberdade ou põe em causa o livre arbítrio, cria uma uma clara falsidade na relação entre as pessoas. Existem estudos para a criação de uma substancia que inibe a acção de neurotransmissores que provocam a infidelidade, ou seja, criando um condicionamento químico  para cumprir um ditame moral e social que deverá sempre partir do livre arbitrio e do desejo de cada um em assumir compromissos ou tomar opções. Porque se o livre arbítrio não existe, o resultado está sempre inquinado por uma falsidade inamovível. Se alguém não me trair, não porque não o deseja fazer, mas porque o cérebro está quimicamente alterado no sentido de não o permitir, acho que ficaria muito mais chateado com a segunda premissa do que com a primeira.

Como diz o jornalista:

  "Then again, the study was done on voles. I don't know that I've ever seen a vole, but if they're like moles, only smaller, with pointier noses (which for some reason is how I picture them), I doubt that they're subject to the inner agonies that human males feel regarding sex and love. Most of us -- me, for example -- are good boys, basically, who occasionally ''huddle around'' and then feel awful about it. Or maybe we never stray, yet we still feel awful because we wish we had. Human beings are a self-conscious mess. Even if our sexual inclinations could be realigned through genetic tinkering, we'd still be free to decline the treatment, counteract it with another procedure or regret it once we'd had it. The voles didn't know what was being done to change them, and they had no choice about whether to let it happen. One day, the temptation to stray just vanished as if by divine intervention. But we'll have to freely decide whether to circumscribe our own forbidden desires -- a mental trap no rodent needs to fear. " 
 


Para quê dizer mais....

quarta-feira, julho 14, 2004

Pois... é bem verdade

Ao ver o estado do país, é incrível como me mantenho um optimista incorrigível...



You are DORY!
What Finding Nemo Character are You?

brought to you by Quizilla
Bem o génio falou novamente.
Está morto, mas isso toda a gente sabe. Custa a aceitar, como várias derivações da chamad lei da vida.
E diz algo que eu creio ser a razão para determinar se uma obra vale ou nao a pena.
Claro que a inteligência cultural portuguesa, e não só, acha que a qualidade está encerrada debaixo de definições herméticas e um jorro de citações obscuras.
Mas a sinceridade, o desejo de dizer a verdade mesmo dentro da mentira (que é, por exemplo a ficção), a capacidade de ser sincero, são as coisas que garantem o respeito a uma criação, mesmo que a estética própria não se sinta apaixonada pela morfologia dessa obra.
Sinceramente, julgo que a falta de qualidade de muitas coisas deriva da sua incapacidade de querer ser sincero. De tomar como assente qual o desejo presente e claro em contar de uma história, tocar uma musica ou pintar o quadro.
De que vale o apuro técnico se tudo é cinismo?
Bem, é a velha história do embrulho oco, julgo eu.
Mas o mestre é que sabia, mais uma vez...


In 1991, Ray Charles was asked what he would like listeners to take from his music. "What would please me," he replied, "is if people would say, 'One thing about Ray's music, it's sincere. You may not like everything he does, but it's real. It's always genuine.' If I got that kind of accolade for the rest of my career, or even after I'm dead, that would please me very much."
Bem o génio fala novamente.

E diz algo que eu creio ser a razão para determinar se uma obra vale ou nao a pena.
Claro que a inteligência cultural portuguesa, e não só, acha que a qualidade está encerrada debaixo de definições herméticas e um jorro de citações obscuras.
Mas a sinceridade, o desejo de dizer a verdade mesmo dentro da mentira (que é, por exemplo a ficção), a capacidade de ser sincero, são as coisas que garantem o respeito a uma criação, mesmo que a estética própria não se sinta apaixonada pela morfologia dessa obra.
Sinceramente, julgo que a falta de qualidade de muitas coisas deriva da sua incapacidade de querer ser sincero. De tomar como assente qual o desejo presente e claro em contar de uma história, tocar uma musica ou pintar o quadro.
De que vale o apuro técnico se tudo é cinismo?
Bem, é a velha história do embrulho oco, julgo eu.
Mas o mestre é que sabia, mais uma vez...


In 1991, Ray Charles was asked what he would like listeners to take from his music. "What would please me," he replied, "is if people would say, 'One thing about Ray's music, it's sincere. You may not like everything he does, but it's real. It's always genuine.' If I got that kind of accolade for the rest of my career, or even after I'm dead, that would please me very much."
Uma demonstração, feita de forma clara e engraçada por um génio.
Assim fica demonstrado que qualquer forma de preconceito é produto de uma estupidez para além do mensurável.
Espero que César das Neves seja obrigado a ver os Anjos na América e La Mala Educacion 2500 vezes, para perceber o quão afastado está das noções básicas de justiça, igualdade e simples humanidade.

Ray Charles dixit:


Such accomplishments are all the more remarkable given the crushing poverty of his childhood and the blindness, seemingly caused by the glaucoma he contracted at age six. Born Ray Charles Robinson in Albany, Georgia, in 1930, he grew up in Greenville, Florida. His mother insisted that there was nothing he could not do if he set his mind to it, telling him, "You're blind -- you ain't stupid." She sent him to the Florida School for the Deaf and Blind in St. Augustine. The vicious racism of the segregated South did not escape him there. "Imagine separating kids according to color when we couldn't even see each other," he said later. "Now ain't that a bitch!"

Leiam o resto do magnífico artigo aqui.

terça-feira, julho 13, 2004

Ontem terminou um dos melhores blogues nacionais.
Uma voz tremendamente informada que contestava com factos e razão a prosápia neo-realista de quem acha que a economia de mercado é de facto a única força orientadora do mundo.
No meio de tanta desgraça política, cala-se uma voz importante.
Espero que reconsideres, J.
Com quem é que eu vou falar de Alan Moore ou Robert e Howard?
Estou com esperanças que reconsidere.

Abraço forte.

segunda-feira, julho 12, 2004

Da situação política

Em primeiro lugar, e talvez isto surpreenda alguns daqueles que me conhecem, sou que caso as personagens a indigitar para a governação fossem outras, sobretudo não Santana Lopes ( por alguma razão é que Cavaco Silva nunca lhe deu um ministério), julgo que a melhor solução fosse mesmo a continuidade, essencialmente pelos custos económicos de uma estagnação do país. Se o novo Governo fosse constituído por alguém mais digno do cargo, e se rodeasse de pessoas capazes, como por exemplo Laborinho Lúcio ou Angelo Correia e quejandos, penso que a solução pela continuidade da legislatura teria sido a correcta.
Assim, com o playboy capa de revistas como Caras e Lux, conhecido por ter estoirado a Figueira da Foz deixando-a individada até ao ano 2050 ( á semelhança de outro aneurisma cerebral chamado Alberto João Jardim), parece-me um castigo injusto para o país que sofreu o que sofreu para cumprir um pacto de estabilidade idiota( que a França e Alemanha simplesmente não cumpriram), e ainda assim não viu a consolidação orçamental ocorrer como previsto.
Santana Lopes é um homem com capacidade para eleições, e a segunda metade da legislatura será precisamente o caminho para o segundo mandato deste partido, à custa do estoiro do que mal e porcamente se terá amealhado. A imbecilidade que é o projecto do túnel do Marquês mostra bem o calibre do rapaz.
Sinceramente, talvez até seja preferível deixar este pandemónio, e esperar que António Vitorino pegue nisto e dê a coça necessária a Santana daqui a dois anos. Aí a alternativa de Governo será mais credível e alicerçada em qualidade do que seria agora, com Ferro Rodrigues. É um homem tecnicamente capaz, mas sem estaleca para estas andanças. Espero voltar a vê-lo como Ministro.
A decisão de Sampaio acaba por ser algo inesperada, mas dentro de uma lógica que sempre mostrou nos seus mandatos. As legislaturas devem ir até ao fim, e ele levou esse princípio á prática. Embora perigosa, é uma decisão legítima e dentro do escopo dos seus poderes constitucionais.
O que vai acontecer agora é uma vigília ainda maior sobre a actuação do Governo, e nessa óptica, vamos lá ver como é que Santana vai descalçar a bota.
Quanto á reacção da esquerda, eu pergunto-me o que teriam feito os direitistas se a coisa fosse invertida. Ou querem fazer-me crer que se Sampaio tivesse optado por eleições, que aquelas expressões de deferência pela decisão presidencial se manteriam? Pois, claro que não...
A verdade é que a esquerda reagiu mal, como seria de esperar, e é verdade que algumas coisas poderiam ser evitadas. Não concordo com a mistura entre relações pessoais e alinhamentos políticos. A racionalidade da decisão assentava numa alternativa que fosse menos gravosa, e na legitimidade democrática, não em concordâncias partidáras. Aí estou de acordo.
Mas uma coisa é certa, a decisão de Ferro Rodrigues é correcta. Esta derrota na alteração da tendência governativa tem responsabilidade políticas, e como tal, por não ter logrado o objectivo demite-se. Como qualquer líder que assaca responsabilidades políticas em alturas cruciais... excepto o Portas, claro...mas alienígenas não contam, bem sei...
Outra coisa que não é escamoteável é a responsabilidade política que a direita afirma não ter. Depois de levar uma sarabanda em eleições, e de ter um primeiro ministro que dá á sola porque lhe é mais conveniente ( e tenham lá paciência e não me digam que como P. da Comissão Europeia ele será mais fundamental ao país do que era como PM nesta fase da legislatura - recordem que o PM do Luxemburgo recusou o mesmíssimo cargo), ninguém assaca responsabilidades políticas nenhumas ao nível da maioria governativa. Os sinais do eleitorado passaram ao lado da arrogância típica de direita porque como qualquer bom elitista, julgam que a malta que vota não sabe o que faz. E este governo, independentemente de eu achar que a solução encontrada foi talvez a possível face à encruzilhada situacional do país, está ferido de ilegitimidade, porque não foi nestes governantes que o país votou. E há muito eleitorado de centro-direita que me diz que não votou neste gajo e que nem sabe o que ele vai para lá fazer.
Mas é a lógica lapa ao poder, da qual Portas é um exemplo claro. Depois de ter o nome badalado mais de mil vezes no caso Moderna, acha-se ainda e sempre legitimado e acima de suspeita. Duarte Lima e António Vitorino, em casos bem menos graves, demitiram-se. Portas ficou porque como qualquer boa lapa, só á facada é que se descola da rocha de poder. Triste.
Sinceramente, penso que qualquer das decisões teria custos, e que esperemos ser esta a melhor, tendo em conta a necessidade de concluir ciclos económicos. Uma paragem de meio ano poderia ser uma facada no coração do país.
Mas a verdade é que a falta de legitimidade democrática vai espicaçar muito a vida política nos anos que se seguem, e concensos importantes que poderiam ser conquistados poderão estar fora de cogitação, como disse a minha querida Polly Jean. E a responsabilidade política dessa situação cabe inteiramente à maioria e especialmente ao líder demissionário. Apesar de eu achar que até será bom para Portugal ter um presidente da comissão Europeia português, por muito fantoche que ele se apreste a ser, segundo todos os analistas políticos.
Para terminar, vejo indignação perante as reacções à esquerda, mas ninguém comenta as boçalidades de João Jardim, que bem ao seu estilo monarca de trazer por casa, comentou desta forma a situação:
"Não quero saber da reacção do PS para nada!"
"No fundo lamento, porque ele era tão fraco que era precisamente o adversário que calhava ao PSD!"
"Cumprimento o P:R: pelo seu patrotismo!!!"
As boçalidades de um palhaço que por uma benesse partidária, foi o único que não viu a bolsa fechar cordões, que constrói túneis de dez metros com o meu dinheiro e detracta o território Continental a torto e a direito, pedindo independencia, mas sempre convicto de que os EUROS lá vão cair.
Não vejo qual a diferença entre este sapo gordo e asqueroso, e as tendência totalizantes de Bloco de Esquerda e quejandos. É que ao menos estes agem como contra poder e reguladores, ao passo que Jardim é rei d única monarquia existente dentro de um sistema republicano e constitucionalista. Caso único no mundo!
Vamos ver o que faz Santana.
Mas tenho muito medo, e acho que mais pessoas deveriam ter.
O populismo assusta-me sempre.
Existem momentos que nos deixam completamente sem palavras, corroídos por um senso de repugnância e revolta que chega a causar marcas físicas. O meu estômago que o diga, porque a noite passada foi complicadíssima.
Em primeiro lugar, uma extensíssima vénia a Peter Mullan. Ainda não tinha visto o seu grande "Magdalene Sisters", e fiquei estarrecido.
Por vezes questionava algum do meu ( não vale a pena ser hipocritamente meigo) desprezo e repugnância por religiões institucionalizadas, pelos seus atentados á liberdade pessoal e ao pensamento livre e esclarecido, pela manutenção de dogmas à custa de uma ameaça de tormento no pós-vida, ou seja, pelo medo e não pela iluminação. E isto porque até partilhava alguns dos valores em conceito, especialmente no que dizia respeito ao cuidado pelos mais fracos, pelos indefesos, e o desejo de paz e entendimento relativamente ao próximo.
(Claro que para mim o que interessa é estimar e respeitar o próximo, e não uma qualquer entidade supostamente superior que munida de um berbequim mágico supostamente terá criado a cosmogonia como a conhecemos. Ainda ninguém me explicou como é que se baniu a teoria da evolução de muitas escolas, em troca de uma palhaçada primordial feita de maçãs e serpentes e coisas que tais. Só uma pergunta - e a consanguinidade? Bem, se calhar é por isso que o mundo está como está, mas a verdade é que a consaguinidade também causa danos físicos além da demência, pelo que o facto de existir tanta gente em boas condições físicas, deita esta hipótese por terra. Mas adiante... )

Mas a verdade é que as páginas feias acerca das religiões institucionalizadas são cada vez maiores e mais numerosas. Desde Inquisição, à aplicação da doutrina radical do Corão (transformando as mulheres e pessoas em geral em animais acéfalos e sem direito a liberdade intelectual e muitas vezes física) , a "Hell House" ( a minha preferida e das mais horripilantes de todas) , a atitude passiva e ou mesmo criminosamente cúmplice do Vaticano na II Guerra Mundial , e agora, as lavandarias ou ou Asilos de Madalena.

O filme em causa tem um enredo romanceado, mas baseia-se no depoimento de algumas das sobreviventes, que graças a uma sociedade criminosamente pactuante, eram submetidas a um regime de escravatura, violência psíquica e não raras vezes física, além de humilhação. Esse regime era aplicado em dezenas de instituições a cerca de trinta mil mulheres consideradas como "perdidas" graças ao código religioso implementado na sociedade irlandesa. Sociedade esta que de alguma forma apoiava este tipo de situações, e que era o seu sustentáculo, em plena segunda metade do século vinte. As Lavandarias de Madalena era uma espécie de tapete para onde se varriam as manchas incomodativas de uma sociedade que aplicava rigidamente um código dogmático cada vez mais incompreensível e fechado sobre si mesmo.
Quand contactados para comentar, os responsáveis pela religição institucionalizada no país responderam da seguinte forma:

The association that represents the nuns, or the Conference of Religious of Ireland, declined an interview. It, however, provided CBS a statement saying, the Sisters accept the part they played in this regrettable era and asked that it be examined in context(1). The statement also admits that many former Magdalenes had painful memories and welcomed the opportunity for them to speak with us.

But when the CBS reporter knocked on the door, he was told, "There's no one to speak." CBS NEWS, 3 de Agosto de 2003 (1) Qual contexto? Estávamos em 2000 na altura da entrevista e em 1970 na altura dos relatos! Muito longe da idade média, parece-me...


De resto, não surpreende esta atitude, porque como tem sido feito ao longo dos séculos, a atitude das instituições que usam o código dogmático de uma qualquer religião tem sido esta. Uma espécie de autismo e arrongância próprias de quem não tem de facto qualquer explicação. Porque ela não existe, claro.

Eu entendo a religião, apesar de agnóstico, como uma experiência individual, baseada na liberdade pessoal de criar e viver de acordo com determinados valores, crenças e sobretudo, algo que deveria servir para o crescimento da mente e psique humana, ao invés de se manifestar por uma doutrina assente em dogmatismos que raramente têm alguma coisa a ver com a natureza humana e a sua diversidade, e que apresentam um ódio visceral e mal sustentado pela expressão da liberdade individual. A sustentação de um código de conduta com base no medo a uma entidade superior que nos pode mandar para dentro de uma panela como ingredientes eternos para uma caldeirada á fragateira, ao invés de sustentar o amor ao próximo pela compreensãoda sua natureza e a benevolência em conceito própria de um imperativo categórico, mostra bem a natureza desse código.
Será possível que não haja uma falsidade intrínseca a uma doutrina que estatui a superioridade de algo que comanda o amor porque ele quer, e não porque aquele é bom em si? Ame-se por medo a algo, e não porque amar em si é positivo? Isto não faz confusão a ninguém?
A verdade é que as atrocidades se têm vindo a repetir ao longo dos séculos, e chegam aos dias de hoje, como neste caso concreto. E obviamente que os culpados são os que usam da pior forma os desde logo discutíveis dogmas. O problema é que se multiplicam os fenómenos desta natureza, e têm sempre por base a doutrina em causa. Se as disposições fossem de outra natureza, talvez as coisas fossem diferentes. Se acompanhassem os tempos, por exemplo, sem perder de vista obviamente a matriz. Trata-se tão somente de ser tolerante, de evoluir. De ser, no fundo, humano, porque já lá dizia o outro, "divino é aquele que sabe ser humano".
Aconselho a ver este filme por todas as razões e mais alguma. Por ser bom cinema, porque os actores são óptimos, e porque não obstante ser perturbadora, a história é real, ilustrativa, e sobretudo, pedagógica e denunciante.
E perante isto pergunto-me, com a pele arrepiada. Que mais haverá por aí?
Por trás de bourkas, e muros, e hábitos e lenga-lengas?
Só pode ser assustador.

sexta-feira, julho 09, 2004

Bem, talvez seja hoje que o nosso P.R lá diga de sua justiça. A verdade é que se trata de uma decisão penosa, que de alguma forma poderia ser resolvida se qualquer um dos contendores apresentasse gente de qualidade nas suas fileiras.

No lado laranja, porque não António Borges? Ou Catroga? Ou Laborinho Lúcio?

Do lado Rosa, porque não Vitorino? Ou Jorge Coelho? Ou mesmo Sócrates?

Talvez porque os nomeáveis sejam demasiado espertos para se atolarem na miséria franciscana que é a classe politica portuguesa dos dias de hoje. Mas ainda há gente de valor por aí, que talvez se chegue á frente. Dos dois lados, julgo eu.
Excepto do PP. Daí, como se provou pela maravilhosa administração de Portas e o sorvedouro financeiro de submarinos e tanques, pela estupidez constrangedora e difícil de esconder da Ministra Cardona, e pela Secretária de Estado da Educação Mariana "Bíblias manuscritas Cascais".

Vejamos o que faz Sampaio.
Imaginem o que faria Portas na pasta dos negócios estrangeiros. Já imaginaram? Pois, se calhar eleições antecipadas é provavelmente a melhor opção. A não ser que Cavaco se chegasse á frente... Ou Vitorino, o meu preferido desde já.

Boa sorte, Sr. Presidente. Em ultima instância, que se devolva á democracia a capacidade de escolher o seu destino.
O Regime mais execrável do Mundo volta a dar o arda sua (des) graça...

O gigante chinês cresce á custa da opressão do seu povo, perpetrada por um governo totalitário que despreza quaisquer ideias de direitos humanos e cívicos, que se desenvolve económicamente á custa de trabalho (quase) escravo, que considera a liberdade de expressão como uma maleita vinda dos Infernos, e nada numa poça fétida de corrupção.
Mas ao que parece é um exemplo de desenvolvimento económico.
É realmente o mundo ao contrário.
Uma vergonha mundial que passa incólume...

terça-feira, julho 06, 2004

Ontem terminou uma das melhores séries que vi nos ultimos tempos. Penso que teria resultado melhor em filme completo, mas dada a extensão não se tornava exequível.
Bem sei que muitos dos homofóbicos e Cesares das Neves que por aí andam devem ter benzido a televisão ou pendurado uns quantos terços nas arestas protuberantes do aparelho, mas a verdade é que, para mim, é uma obra fantástica, cheia de diálogos e situações que marcam e deixam memória, e sobretudo porque se trata de uma reflexão profunda acerca do preconceito sem cair em discurso panfletário.
A lógica é sempre a mesma. Acho que a imensa falta de humildade de que sofrem certas pessoas resulta precisamente da ausência de capacidade de perspectiva. De tentar interiorizar e perceber as motivações, gostos e visões do outro. Aquilo que para mim é mais que tolerância, mas sim, humanidade básica.
Anjos na América mostrou um cenário que o "Philadelphia" de Tom Hanks já mostrara, mas em meu ver, de forma muito mais contundente, irónica e crua, sem deixar de ser terno ou comovente.
Deve ser chato para alguns tipos que se faça uma reflexão profunda sem cair naquele fatalismo nihilista e enegrecido de que nada tem solução. Foi isso que Kushner fez. Revelar uma realidade que, muito á semelhança do discurso de Almodovar, recai numa verdade universal. Se o amor existe, em todas as suas formas, tudo acaba por gravitar em torno dele, sendo dispicienda a forma como se revela.
Não sei porque é que o facto de existirem seres humanos que gostam uns ds outros, por vezes independentemente de sexo ou forma, chateia tanta gente.
Talvez porque para uns, o facto do pai da família nuclear encher de porrada os petizes é mais aceitável que outras formas de família.
Mas o mundo muda. A irracionalidade de ódios subjectivos não vence sempre. Infelizmente para eles.

Excelente.
Bem, quanto ao Portugal X Grécia, não vou alongar-me no óbvio.
A eficácia e o jogo pobre e feio ganharam sobre uma tentativa de fazer do desporto aquilo que deve ser. Uma competição que dê prazer a quem vê, porque é destes que ela depende.
Isto não significa que se retire o mérito aos jogadores gregos. Muito pelo contrário. Podemos não gostar dos seus métodos, mas a eficácia e a contundência objectiva com que abordaram cada jogo efectuado mostram uma vitória da táctica, do jogo de cérebros.
O futebol fica mais feio e a crise de afluência pode incrementar-se. A Grécia foi a Itália deste Europeu.
Ganhou merecidamente? Sim, porque levou o seu esquema a sério e não cometeu erros.
Mas foi bonito de ver? Jogam mais á bola?
Acho que não.

De qualquer forma, não sei como se redije em grego, mas fica provado que lá para as bandas helénicas, a melhor ataque é mesmo a defesa.

Parabéns rapazes! Demos uma mostra de brio, categoria e esforço. Chegamos muito mais longe do que eu me atrevi a pensar.
Viva Portugal!

O país segue dentro de momentos.

quinta-feira, julho 01, 2004

Estou neste momento a terminar o livro de DBC Pierre - Vernon God Little.
Além de ser uma maravilha, escrito numa prosa furiosamente irónica mas sem cair em cinismos inanes e, felizmente!, sem o fedor do pós-modernismo, é estranhamente comovente. Lê-se de um sopro, e só lamento não ter mais tempo diário para ler como gostaria, mas a verdade é que, no meu modesto ver, vem cada vez mais na senda de uma corrente de opinião que diz algo muito acertado.
Se falarmos/escrevermos com o coração aberto, procurando ver e dizer o máximo da verdade mesmo que dentro da necessária mentira que é a ficção, então o resultado só pode ser bom e ter qualidade.
Quanto aos arautos da desgraça que dizem que a ficção está morta, só posso lamentar a sua escolha e ter alguma pena deles. São pessoas que simplesmente acham que imaginar e sonhar, contando ou ouvindo histórias, não serve para nada. Pobres Diabos...
Já quase toda a gente falou na questão da sucessão governativa.
E para além do folclore esquerda vs direita, onde uns simplesmente acham que a legitimidade democrática está garantida porque se mantém a cor partidária, e outros julgam que existe uma crise política instalada que retira aquela referida legitimidade a quem seja indigitado por preferência interpartidárias, existem algumas questões que eu julgo ser importante questionar:

1 - A ida de Barroso para o seu novo cargo é prestigiante para Portugal. Se Vitorino era melhor? Obviamente, de longe, mas ainda assim é um lugar que nos prestigia. A juntar a essa circunstância, se ganharmos o Euro, andamos na boca do mundo durante muito tempo. Tornamo-nos visíveis. E isso é sempre bom, especialmente num cenário de "quase pós-recessão económica".

2 - A ida de Barroso significa uma perda de legitimidade democrática? Sem dúvida. A maioria foi decapitada, e á semelhança da Hydra de Lerna, despontam outras cabeças por todos o lados, cabeças essas que não demoraram um segundo para ser morderem e atacarem com ferocidade. A crise política está instalada, e como tal, qualquer que seja o grupo indigitado, terá sempre o presente envenenado próprio da falta de reconhecimento democrático. As pessoas não votaram naqueles projectos de governantes, não há qualquer expressão volitiva numa reestruturação que deveria estar a cabo de um acto eleitoral. Embora muitos deliberadamente se esqueçam, a demissão de Durão Barroso constituiu um acto voluntário da sua parte, e está quebrado o compromisso com o país. Não parece existir outra forma que não a consulta sufrágica, porque se o problema foi criado por quem governa, a solução é, por outro lado, dividida entre quem lá está e quem os lá colocou. Se o povo tornar a sufragar esta maioria, então ela terá mais 4 anos para provar o que quiser, e governar em posse de toda a legitimidade democrática necessária ao desempenho de tais funções.

3 - O cenário de eleições antecipadas também não é o ideal para mim por várias razões:

a) Preferiria um líder socialista que não Ferro Rodrigues, que em meu ver não tem estaleca para estas lides, e sobretudo, que esse líder fosse António Vitorino ou Jorge Coelho, ou talvez Sócrates. Mas os dois primeiros, com grande destaque para Vitorino, parecem-me ser os únicos capazes de liderar a oposição talvez na sua posição de Governo.

b) Eleições antecipadas vão paralizar o país durante três meses. Tudo o que sejam reformas e atracção de investimento vão parar á arca frigorífica para um período criogénico de meses, o que de alguma forma vem barrar o ciclo de fim de recessão/princípio de retoma. No entanto muitos dos analistas, até mesmo Vitor Constâncio na sua qualidade de Governador do Banco de Portugal diz que a instabilidade pode surgir de qualquer dos quadrantes, por isso, o risco é equitativo. Eu prefiro um risco sufragado, sinceramente.

c) Temo que de algumas reformas, como é hábito neste país, seja feita tábua rasa. Algumas destas medidas são idiotas e devem ser remodeladas imediatamente ( hospitais S.A., passes sociais pagos segundo o IRS, a reforma elistista e absurda da justiça), mas outras fazem parte de um ciclo que tem custos ao ser interrompido.

4 - No entanto, e tendo em conta a essência do principio da representatividade democrática, penso que a nomeação de um governo de substituição, especialmente com Santana (show-off) Lopes á frente, é algo que não respeita esse princípio e é feito na base de uma descricionariedade que embora não esbarre na legalidade, parece-me destituído de legitimidade política.

5 - Se o Primeiro Ministro resolveu evadir-se, o que é um direito que lhe assiste, e que penso que também tem benefícios, a verdade é que não o pode fazer sem ter em mente as consequências políticas desse acto, especialmente num momento de fragilidade pós-Europeias. Esta passagem de testemunho automático e em sede de bastidores não faz muito sentido, e embora seja uma prerrogativa constitucional, espero que o Presidente da República tenha em mente que em última instância, quem escolhe os governantes são os eleitores, os cidadãos, os Portugueses.
E que aí ganhe quem tem de ganhar, de acordo com a manifestação de vontade sufrágica de quem tem de a emitir.
Embora esteja longe de ser a solução ideal neste momento, é bem melhor que a alternativa.
Por isso inclino-me para eleições antecipadas, pela simples e directa racionalidade ínsita no princípio da legimitidade democrática.
Inclinações e convicções políticas à parte, pois fora ao contrário e eu teria exactamente a mesma opinião, como tive a quando da queda do Governo de Guterres.

Sr. Presidente, boa sorte.
Portugal, mais sorte ainda.



Mais uma vez venho expressar publicamente a reforma do meu discurso, porque eu era um dos descrentes na campanha da selecção em 2004. Como português e amante de desporto em geral, estaria sempre com a selecção, mas mais uma vez confesso que a minha expectativa não era com certeza esta que agora grassa pelo país. Era mais pessimista, principalmente porque o futebol em Portugal está cada vez mais parecido com um circo de vaidades que outra coisa qualquer.
Mas este brasileiro, como disse um amigo meu, é "macaco". É um estratega e sobretudo, é macaco velho. Ontem Figo calou todas as vozes dissonantes, ao mostrar como é que a vontade e a humildade fazem parte da pessoa e só se perdem se as pessoas assim o quiserem. Fez sprints de 50 metros, jogou, fez jogar, cortou e recuperou bolas e ia fazendo um golo de antologia, ou como diria o Tio Gabi, um golo de bandeira. Figo expressou aquilo que é a atitude segundo Scolari, e aquela que normalmente significa vitória. A atitude, a raça e o desejo de ganhar. Figo fez um jogo de raiva, e Portugal um jogo de confiança. Todos ganharam no final, e Scolari tem aqui uma influência muito importante.
Como um daqueles que (ainda) acha que dez estádios foram um disparate, mas que tem de morder a língua mais uma vez quanto ás suas expectativas relativamente á equipa da quinas, venho por este meio penitenciar--me, expresssando no entanto uma imensa alegria por fazer parte do país cuja selecção vem mostrando a melhor forma de ganhar seja o que for - através do esforço, da humildade, da luta, do desejo, da excelência, que se traduz num pleno merecimento.
As vedetas foram todas para casa. Sobraram aqueles que querem jogar á bola.
Portugal, peço-te desculpa e anseio vivamente por uma vitória histórica no Domingo, para que possa celebrar ainda mais o facto de viver em tempos tão interessantes.

FORÇA PORTUGAL!!!!!
VAMOS DAR-LHES O CHECO-MATE!