Existem momentos que nos deixam completamente sem palavras, corroídos por um senso de repugnância e revolta que chega a causar marcas físicas. O meu estômago que o diga, porque a noite passada foi complicadíssima.
Em primeiro lugar, uma extensíssima vénia a Peter Mullan. Ainda não tinha visto o seu grande "Magdalene Sisters", e fiquei estarrecido.
Por vezes questionava algum do meu ( não vale a pena ser hipocritamente meigo) desprezo e repugnância por religiões institucionalizadas, pelos seus atentados á liberdade pessoal e ao pensamento livre e esclarecido, pela manutenção de dogmas à custa de uma ameaça de tormento no pós-vida, ou seja, pelo medo e não pela iluminação. E isto porque até partilhava alguns dos valores em conceito, especialmente no que dizia respeito ao cuidado pelos mais fracos, pelos indefesos, e o desejo de paz e entendimento relativamente ao próximo.
(Claro que para mim o que interessa é estimar e respeitar o próximo, e não uma qualquer entidade supostamente superior que munida de um berbequim mágico supostamente terá criado a cosmogonia como a conhecemos. Ainda ninguém me explicou como é que se baniu a teoria da evolução de muitas escolas, em troca de uma palhaçada primordial feita de maçãs e serpentes e coisas que tais. Só uma pergunta - e a consanguinidade? Bem, se calhar é por isso que o mundo está como está, mas a verdade é que a consaguinidade também causa danos físicos além da demência, pelo que o facto de existir tanta gente em boas condições físicas, deita esta hipótese por terra. Mas adiante... )
Mas a verdade é que as páginas feias acerca das religiões institucionalizadas são cada vez maiores e mais numerosas. Desde Inquisição, à aplicação da doutrina radical do Corão (transformando as mulheres e pessoas em geral em animais acéfalos e sem direito a liberdade intelectual e muitas vezes física) , a "Hell House" ( a minha preferida e das mais horripilantes de todas) , a atitude passiva e ou mesmo criminosamente cúmplice do Vaticano na II Guerra Mundial , e agora, as lavandarias ou ou Asilos de Madalena.
O filme em causa tem um enredo romanceado, mas baseia-se no depoimento de algumas das sobreviventes, que graças a uma sociedade criminosamente pactuante, eram submetidas a um regime de escravatura, violência psíquica e não raras vezes física, além de humilhação. Esse regime era aplicado em dezenas de instituições a cerca de trinta mil mulheres consideradas como "perdidas" graças ao código religioso implementado na sociedade irlandesa. Sociedade esta que de alguma forma apoiava este tipo de situações, e que era o seu sustentáculo, em plena segunda metade do século vinte. As Lavandarias de Madalena era uma espécie de tapete para onde se varriam as manchas incomodativas de uma sociedade que aplicava rigidamente um código dogmático cada vez mais incompreensível e fechado sobre si mesmo.
Quand contactados para comentar, os responsáveis pela religição institucionalizada no país responderam da seguinte forma:
The association that represents the nuns, or the Conference of Religious of Ireland, declined an interview. It, however, provided CBS a statement saying, the Sisters accept the part they played in this regrettable era and asked that it be examined in context(1). The statement also admits that many former Magdalenes had painful memories and welcomed the opportunity for them to speak with us.
But when the CBS reporter knocked on the door, he was told, "There's no one to speak." CBS NEWS, 3 de Agosto de 2003 (1) Qual contexto? Estávamos em 2000 na altura da entrevista e em 1970 na altura dos relatos! Muito longe da idade média, parece-me...
De resto, não surpreende esta atitude, porque como tem sido feito ao longo dos séculos, a atitude das instituições que usam o código dogmático de uma qualquer religião tem sido esta. Uma espécie de autismo e arrongância próprias de quem não tem de facto qualquer explicação. Porque ela não existe, claro.
Eu entendo a religião, apesar de agnóstico, como uma experiência individual, baseada na liberdade pessoal de criar e viver de acordo com determinados valores, crenças e sobretudo, algo que deveria servir para o crescimento da mente e psique humana, ao invés de se manifestar por uma doutrina assente em dogmatismos que raramente têm alguma coisa a ver com a natureza humana e a sua diversidade, e que apresentam um ódio visceral e mal sustentado pela expressão da liberdade individual. A sustentação de um código de conduta com base no medo a uma entidade superior que nos pode mandar para dentro de uma panela como ingredientes eternos para uma caldeirada á fragateira, ao invés de sustentar o amor ao próximo pela compreensãoda sua natureza e a benevolência em conceito própria de um imperativo categórico, mostra bem a natureza desse código.
Será possível que não haja uma falsidade intrínseca a uma doutrina que estatui a superioridade de algo que comanda o amor porque ele quer, e não porque aquele é bom em si? Ame-se por medo a algo, e não porque amar em si é positivo? Isto não faz confusão a ninguém?
A verdade é que as atrocidades se têm vindo a repetir ao longo dos séculos, e chegam aos dias de hoje, como neste caso concreto. E obviamente que os culpados são os que usam da pior forma os desde logo discutíveis dogmas. O problema é que se multiplicam os fenómenos desta natureza, e têm sempre por base a doutrina em causa. Se as disposições fossem de outra natureza, talvez as coisas fossem diferentes. Se acompanhassem os tempos, por exemplo, sem perder de vista obviamente a matriz. Trata-se tão somente de ser tolerante, de evoluir. De ser, no fundo, humano, porque já lá dizia o outro, "divino é aquele que sabe ser humano".
Aconselho a ver este filme por todas as razões e mais alguma. Por ser bom cinema, porque os actores são óptimos, e porque não obstante ser perturbadora, a história é real, ilustrativa, e sobretudo, pedagógica e denunciante.
E perante isto pergunto-me, com a pele arrepiada. Que mais haverá por aí?
Por trás de bourkas, e muros, e hábitos e lenga-lengas?
Só pode ser assustador.
ESTAÇÕES DIFERENTES
"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Stephen King - "Different Seasons"
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