ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, setembro 30, 2004

Pensando numa amiga, vejo esta situação da colocação de professores, com a barracada da Compta e o diabo a quatro, e imagino o que deve ser a angústia daqueles que dia a pós dia ligam o pc, vão á página do Ministério e encontram aquela mensagem.
Ainda há erros, segundo consta, mas parece que a coisa arranca.
Não sei onde é que ela vai ser colocada, mas espero que tenha sido poupada aos ultimos erros.
E pensando bem, acaba por ser o clima que enganou a organização do ano lectivo. Com 30º de temperatura em Outubro, mais parece que as aulas começam em Agosto...
Está então tudo explicado.
Acessor de Comunicação de Santana ganha mais de 10 000 € por mês, segundo o Público de hoje.
Mais que ele (Santana), mais que o Presidente, mais do que o país pode suportar.
E os aumentos propostos de 2,5% são supostamente para dar o exemplo de contenção.
De quê?
De que uns são filhos da mãe, e outros claramente filhos de outra coisa qualquer...
De que não há limites para a vergonha...

Recordo agora o personagem Lenny no filme Strange Days.
Um homem perdido, com uma noção bem clara do que tinha mais valor que qualquer outra coisa. Despedaçado, tenta remar contra as evidências, tentando recuperar um amor que perde sem merecer, numa lógica implacavelmente prática e fria que lhe mostra que o exercício virtuoso do altruismo traz sempre mais chatice que compensação.
Ainda assim, o salve-se quem puder nunca deve ser o axioma para a dita realidade.
Até porque em ultima instância, nem os conservadores mais cínicos acreditam nela. Não passam de míudos que regurgitam as citações dos seus mais queridos, e depois se refugiam num sofrimento surdo, baço, cheio de protesto.
A maldade tem muitas gradações, e isso não é novidade para ninguém.
Mas se Bush for reeleito, que mensagem é que fica no ar senão a prevalência da estupidez e da impunidade?


Hoje estreia Sharks Tale.
Amanhã lá estou eu, na sessão da meia noite, a rir-me com o Martin Scorcese a dar voz a um peixe balão.
Este filme parece prometer, segundo dizem, uma resposta aquática á altura do magnífico Finding Nemo.
Vamos lá ver isso.
Recentemente tive a felicidade de escrever para cinema.
Um pequeno guião para uma curta metragem.
Ainda está em fase de acabamento, mas em breve estará completo e seguir-se-á a transformação em imagem.
Raras vezes na minha vida senti uma realização tão grande. É de facto um privilégio poder criar algo, ter uma visão por, muito modesta que seja, alguém sentir que alguém quer espreitar para dentro do local onde andámos a alucinar.
Obrigado.
Sinceramente.
PROCURA-SE..? MAS COMO????
Devido a acontecimentos recentes, vejo-me numa posição privilegiada para analisar um certo fenómeno. Algo que deriva da imensa distância que as metrópoles colocam entre as pessoas, mas também das chamadas estratégias de aplicação prática para combate à solidão ou coisa análoga. Senão vejamos...
Qual dos vosso, meus, amigos é que está solteiro(a)? E digo solteiro no sentido da ausência de relação minimamente estável, porque o papel passado é somente uma convenção socio-contratual que a mim ainda me arrepia.
Existem provavelmente três casos tipo, embora saiba de antemão que existem provavelmente mil variedades de razões para o mesmo fenómeno.
Existe o caso mais paradigmático. O homem ou mulher eterna e divertidamente perdido no estado estético "Kieerkgaardiano". São aquelas pessoas cujo charme, imagem e condição económica permitem um distanciamento mediato relativamente ás outras pessoas. Ou seja, são aqueles que marcam os outros, deixam impressão, e esse poder permite-lhes pura e simplesmente ir colhendo as flores quando lhes apetece, tendo em conta que o prado parece estender-se indefinidamente. No fundo as suas qualidades fazem deles pessoas com a capacidade de requisitar os outros quando querem, mantendo um distanciamento honesto e feito de independência cuja qual os mais enamorados ou persistentes teimam em querer quebrar. poder-se-ia argumentar que essas pessoas acabarão por sentir o vazio da falta de pertença, mas talvez não seja assim. Talvez porque quando desejem, acabam por pertencer a qualquer lado. Normalmente são aquelas pessoas que olhamos à distancia, louvamos o seu riso livre e espirito de independencia absoluta. Se tivermos sorte, conseguimos não nos enamorar destas pessoas, evitando assim cicatrizes de escaramuças emocionais impossíveis. Não é Azincourt ou Aljubarrota. Não há esforço heróico que valha, ou abnegação. No fulcro, essas pessoas acabam por ser inconquistáveis, porque talvez esperem um espelho da sua própria perfeição. Acredito que com o tempo acabarão por pagar a factura da sua própria vida, mas até lá talvez tenham vivido o suficiente para encher três tempos dos restantes tipos de vida.
Depois existe o celibatário(a) teimoso. Seja por devoção e entrega a um trabalho específico, ou porque a exigência requer um encaixe absoluto nos seus hábitos celibatários, este é um ser que crê profundamente num determinismo emocional. É o maior defensor do destino, e de alguma forma acredita que todo o seu esforço resultará num arranjo automático, por suposto merecimento, da sua vida emocional. É o tipo que não procura, que não arrisca, que de alguma forma carrega o seu paradigma ou protótipo na mala mental, e só retira a proposta da mesma quando o projecto é feito de encaixes perfeitos. Leva talvez a vida mais complicada porque acaba por sofrer imenso. A solidão desgasta-o, esfarela a sua resistência como um jacto de areia contra um osso velho. Mas ainda assim não há meios termos. De alguma forma, a determinação do seu objectivo é um código de identificação. E de aplicação universal.
No fim existem as pessoas que de alguma forma andam perdidas e não possuem qualquer das estratégias acima referidas. Levam o seu dia a dia com um ouvido atento ao mundo. O seu percurso social leva-as a ver as mesmas pessoas dia após dia, e o isolamento urbano da multidão impede uma convivência alternativa bem sucedida. A noite, como se sabe, não providencia essas possibilidades, já que os objectivos estão bem traçados. Ver, ser visto, partilhar o mesmo espaço, mas não interagir. Na noite não se conhece ninguém. No entanto, quando tal acontece, trata-se de um felicíssimo acaso, ou de uma estratégia bem definida que por acaso encontra feedback do outro lado. A própria falta de uma certa qualidade de vida impede a criação de espaços pessoais para experimentar a companhia de estranhos. É só entrar num local qualquer e ver que as pessoas estão todas num mesmo local, mas não interagem, não se conhecem. Vêm e são vistas, e as coisas por aí ficam, na grande maioria dos casos.
Eu pergunto-me se as pessoas têm a noção da dificuldade que é conhecer alguém a partir dos tempos em que se abandona a faculdade. É impressionante como o universo se comprime, e o circuito social começa a ser feito de casais, de gente que se identifica num conceito de união, seja ela mais ou menos coesa. Ao contrário do que se diz, o terror de ficar sozinho ou de comparecer a jantares e copofonias sem a cara metade está destinado a todos aqueles que até fazem por isso, mas que não conseguem que alguém com o mínimo de caracteristicas exigidas gravite na sua esfera.
Ao falar com a maioria dos meus amigos e conhecidos, e partilhar e experimentar a sua companhia e contributo humano, verifico sempre que a esmagadora maioria tem uma situação amorosa constituida, por mais desiquilibrada que seja. Sinceramente, alguém encontra uma pessoa bem parecida, culta, humana e com uma dose de desvario provocatório/sensual que esteja sozinha? ( tirando aqueles dois primeiros grupos?) O relacionamento até pode ser um desastre, e as trocas e baldrocas uma realidade, mas como e onde é que alguém que esteja perto dos trinta consegue realmente conhecer alguém?
Recordando dois amigos meus nesta situação, e ouvindo as suas angústias, recordo aquela frase de Carrie Fisher no filme "When Harry Met Sally".
"Ainda bem que já não ando perdido lá fora na selva"...
Será assim?
O que faz a saudade por alguém que está temporariamente longe...
Como é que eu faria para a encontrar, se tivesse de o fazer hoje em dia?

quarta-feira, setembro 29, 2004

VAI SER UMA ROMARIA ÁS COMPRAS!

A malta do Gato Fedorento vai editar um DVD em Novembro!
Para mim é uma certeza absoluta e consumada. Vai lá para casa, bem junto ao magnífico Fawlty Towers, Black Adder, Monty Python e por aí fora.
Agora só me resta perguntar uma coisa.
RTP, para quando também a edição em DVD do TAL CANAL????
Quando?????
Vá lá, tratem disso! Acreditem que vende!



segunda-feira, setembro 20, 2004

Bem, requiem para o único momento de humor matinal da rádio portuguesa.
Sim, tirando o Markl, os outros estavam a perder alguma da qualidade que os tinha afamado. Pedro Ribeiro deve ter-se esquecido que a piada do John Cleese, por exemplo, esteve sempre naquela magnífica capacidade de manter a (falsa compostura), para depois explodir com um par de cuecas na cabeça, o impagável Gumby, ou suar as estopinhas em fatos de gosto discutivel, (O fabuloso Fawlty Towers). Nos ultimos tempos, Pedro Ribeiro, com os seus gritinhos, estava a tentar ser engraçado á força, o que era confrangedor. Basta ver agora o ser registo mais sóbrio na RCP, e percebe-se porque é que vale a pena ouvi-lo em detrimento dos inenarráveis locutores da MEGAFM (argh!), ou mesmo da insuportável Arroja com as suas "grandes malhas" e os seus "do best".
A Maria era simpática, inteligente, e cheia daquela irreverência própria das mulheres que são giras, sabem-no, mas nunca usam esse mecanismo para olhar os outros com sobranceria. Algumas das gargalhadas eram um bocadinho excessivas, mas caraças, ninguém é perfeito, verdade? E em compensação tinha uma veia certeira para as piadas sexuais subtis.
Markl sempre em grande. É num estilo Monty Pythoniano, cheio de nonsense, mas é o tipo responsável pelo gag da Ultima Ceia e do julgamento que opõe o Pai Natal ao Menino Jesus. Dois clássicos absolutos, imortalizados pelo Herman. ( Quando ele ainda era um comediante inteligente, e não este mutante apimbalhado que por aí deambula. O Gato Fedorento é o sucessor do humor inteligente e irresistível em Portugal.)
Nuno Markl sempre teve, e penso que continua a ter, aquela veia nonsense do tipo que conta as maiores anormalidades com um tom sério. Em televisão não funciona, temo dizê-lo, mas em rádio é imbatível.
Vai fazer falta aquela piada nonsense a caminho do trabalho.
Como o que resta nem vale a pena comentar, só espero que consiga comprar a porcaria do leitor de CD para o carro ( que custa uma pipa de massa) e voltar a ouvir os meus audiobooks ou cd de música.
A rádio matinal simplesmente não oferece nada que valha a pena nos dias de hoje... o que é uma pena.
Impinge-se a fórmula Big Show Sic e siga o baile. As playlists são uma porcaria absoluta. A rádio cada vez mais se parece com a TV, o que é uma pena, realmente. Os bons programas são como as series - ficam para a madrugada e afins...


A CRIANÇA REI

Já sei que vou ser espancado por isto, mas olha, que se lixe. Se é diário, é diário, e além disso, nem protestos tenho nos comentários, portanto mais vale abrir o cesto e ddeixar os gatos esgatanharem-se à vontade.
O tópico é a criança-rei. A criança que manda. O mundo que se construiu em torno de uma qualquer sacralização excessiva do papel da paternidade, e uma espécie de doutrina feliz do auto-abandono. Ou seja, que mais me importa se tenho lá os ratos de tapete em casa? ( rug-rats - culpem os anglófonos)
A verdade é que cada vez ais vejo as pessoas dizerem com um ar alegre que não lêm um livro, que não vão ao cinema, que não cuidam do corpo, que não fazem praticamente nada na sua esfera social, porque há os petizes, e os petizes são tudo e mais alguma coisa.
Longe de mim colocar isso em causa, já que não sou pai e não tenho a dimensão do fenómeno bem segura. Mas caraças, quando ouço pessoas dizer que já nem a sua dimensão erotizada exercitam porque entre as fraldas, as comidas, as escolas e mais o diabo a quatro, já não resta energia para nada, eu pergunto se as pessoas abraçam esta espécie de deserção completa da vida própria com um absoluto sorriso nos lábios. E uma vez que as mães, por recorte biologico, estão mais sujeitas a isto, pergunto-me igualmente se existe uma admiração muito grande perante situações que correm mal, precisamente porque o elemento masculino se tornou o "provider" e pouco mais.
A verdade é que há este endeusamento dos míudos, e sobretudo, uma espécie de transferência absoluta, em muitos casos, ( não em todos, claro), da totalidade do ser individual. Há quem diga que se encontra um objectivo ultimo e fundamental na vida. Não duvido. Mas há tanta necessidade de auto-abdicação? Será que o destino é tornarmo-nos inexistentes em detrimento de alguém?
E principalmente nesta geração, onde não se doseia nada, onde ou se dá tudo, ou não se dá nada, onde se confundem as capacidades de provisão material com o processo de conhecimento e criação de laços entre os indivíduos, produto desta cada vez mais mecânica e fria sociedade moderna da meritocracia.

Aguarda-se o espancamento dos pais extremosos....

quinta-feira, setembro 16, 2004

Como já disse no passado, não sei quem são os meus leitores, se é que os há. É por isso que isto mais se presta a ser um diário para relembrar momentos do meu tempo, do que um espaço realmente dialéctico.
Mas tenho muita pena que não seja ao contrário. Digo, não sem alguma vergonha, que tenho uma inveja (saudável acho eu) daqueles blogs onde alguém chega, comenta, e por vezes se ergue uma salganhada divertida.
Pode ser que qualquer dia...
Estou a matutar num projecto... VAmos ver se com ele, as coisas arrancam

Abraços!
Há algo na anatomia feminina que acho simplesmente delicioso.
Há muito, mas este é um detalhe que, sem prejuízo de alguém já o ter chamado a si como preferência, guardo como se fosse meu.
A forma como o pescoço se desdobra nos ossos da clavícula, acabando nos ombros nús, faz das camisolas abaixo da linha destes um pequeno milagre estético . Os ombros nús , como a linha das costas nuas, são um tesouro estético da imagem feminina.
Eis como está o país...
Quod erat demonstrandum, Jorge Sampaio....
A solidão e o medo são dois conceitos equiparados.
Porque ambos vivem da ausência de um fim à vista.
E porque essa ideia, ainda que ilusória, acaba por recriá-los.
SÃO DOIDOS ESTES BRETÕES...

Ontem uma mancha da população inglesa, da mesma laia que os defensores de touradas e lutas de cães e galos, ( ou seja gente que se diverte a ver sangue, morte e tortura de animais inocentes ), irrompeu pelo Parlamento Inglês a pedir justificações à Câmara dos Comuns a propósito de uma lei que proibirá uma das práticas mais bárbaras de que há memória, ou seja, a caça á raposa. O argumento é a mesma palhaçada de sempre, ou seja, a tradição.
Quando comento isto com defensores das touradas, aparece sempre o argumento falacioso de que também matamos animais para comer e blá, blá,blá... Falacioso porque encerra em si mesmo a resposta contrária, ou seja, para comer. Não por desporto, não pelo desejo de ver o animal sofrer, não pela visão do sangue disfarçado de uma qualquer contenda divertida ou galharda.
Mas ainda que este argumento pudesse alguma vez ter cabimento, pergunto qual então a aplicação do conceito na caça á raposa. Alguém a come? É gourmet algures, sem ser para lobos?
Não. É apenas a questão do "desporto". Persegue-se e retalha-se um animal até à morte porque alguns imbecis se cham entediados e resolvem fazer a sua versão da Cavalgada das Valquírias ou da carga do General Custer.
Exemplo desta estupidez inqualificável são as declarações de uma mulher ao lado do seu cavalo que diz:
"Well, for one, it's a sport I have been practicing all my life, and that I love, and that because of this bill, It's going to be taken away from me. Secondly, me and my hunsband have a business. We produce riding boots and this bill will automaticaly have impact on our business. "
1º Argumento - Estúpido e de uma inconsciência ambiental que custa a crer. Na antiguidade também existiam outros desportos que geravam tradição, mas foram abolidos. O imperador Nero era fã de alguns dos mais radicais. A fundamentação para perseguição e morte de uma espécie protegia é o "desporto". Repugnante.
2º Argumento - Ainda mais idiota. Esta senhora quer fazer-nos crer que a botas de montar só se vendem para a caça à raposa, privilégio para quem tem cavalos e propriedades, o que está bem claro, se trata de da maiora da população. Aliás, a dita senhora, vestida num fato que deve custar mais que o ordenado de muita gente naquele país, ao lado de um cavalo que deve custar tanto ou mais que a minha casa, quer-nos fazer crer que vive de botas para montar exclusivas para a caça á raposa.
Sinceramente, há alguém que ache realmente piada a perseguir um animal do tamanho de um cão pequeno, até à exaustão, para depois lhe espetar um balázio e vê-lo a ser retalhado pelos cães de caça? Há alguém que ache graça a este horror?
76% dos britânicos acham que não, e a lei vai ser aprovada.
Mas há gente que resiste a isto em nome da "tradição", como se ela justificasse este ou outros actos.
Que mundo de merda este....

quarta-feira, setembro 15, 2004

COITUS.. ININTERRUPTUS...?
Embora seja um assunto que se presta a muitas piadas, ou a um olhar sobranceiro por parte de quem enche o peito e afirma que tem coisas mais importantes em que pensar, há algo que passa pela cabeça de quase toda a gente. E esse algo prende-se com as disfunções sexuais entre casais, especialmente no que diz respeito aos comportamentos, ás iniciativas e sobretudo, à chamada frequência. Para quem está absolutamente casado, junto ou enamorado da sua vertente prática ou para/profissional, isto de nada serve. Para quem não se preocupa com isso por outras razões, entenda-se líbido bem comportadinha, a mesma premissa se aplica.
Mas confesso que me interessei.
Existe uma tonelada de informação, provavelmente alguma mais fidedigna que outra, a qual mostra perspectivas completa e diametralmente opostas. A questão prende-se com as perspectivas que são demonstradas, e que de alguma forma criam uma espécie de código ou corrente de opinião sobre estas coisas.
Dos mais identificativos deve ser o código Cosmo. Caraças, uma espécie de filosofia pós moderna e caótica, cheia de dúvidas que assentam mais nas fixações de cada um do que propriamente no desejo de realmente ver o que se passa do outro lado. A geração Cosmo fala de mulheres que, afastando as capas vermelhas que têm nas costas, fazem tudo e mais alguma coisa, levam a assertividade profissional e social a um ponto inimaginável e são uma espécie de manual ilustrado acerca da teoria geral do erotismo e seus componentes. São amantes perfeitas, preocupadas, exigentes com o seu prazer e atletas de treino e iniciativa constante. Olhando para pérolas como a criação de Candace Bushnell e quejandos, são mulheres cuja líbido está ligada a um reactor de alta potência, com abastecimento quase ilimitado. O mais engraçado é que essa espécie não se vê frequentemente. Falando com amigas e conhecidas, toda a gente se ri e interioriza algumas das parábolas, mas os contos da sua vida de dia a dia em nada se assemelham ao protótipo veiculado pela sociedade. Se formos a fazer um inquérito realmente honesto, talvez nos surpreendamos com facto de que a maioria das mulheres inteligentes e sexys que conhecemos não tem uma actividade sexual que encaixe minimamente nos padrões da informação veiculada. Os mitos grassam por todo o lado, mas o relato diário pouco difere dos demais.
Surgem as justificações do stress, do cansaço, da altura do ano, da desconformidade dos apetites, e por aí fora. Os relatos de seres estupendamente sexuados e activos parecem uma espécie de abstracção provinda de um video de ginástica da Jane Fonda ou da Carmen Electra. E as disfunções e desencontros levam a muitas coisas, entre as quais mesmo ao termo das relações, porque cad uma das partes julga a sua reinvindicação como justa.
E a questão sobrevém.
O que é a normalidade, se é que tal coisa existe?
Qual é a chamada frequência? Seremos sempre vitimas do quotidiano?
Se a expontaneidade não tem respostas absolutas, será que se pode encarar como um treino para atingir um bom resultado posterior e melhoria das reacções instintivas e automáticas?
Porque será que genericamente parece existir relatos de um desencontro entre a libido masculina e feminina?
O sexo poderá realmente ser só um detalhe entre muitos outros numa relação, seja ela mais ou menos séria, ou é mesmo a bitola pela qual se mede a saúde ( e já agora a satisfação) do envolvimento? Não será o sexo uma das expressão máxima da diferenciação afectiva e sensorial de uma ( ou mais que uma, para os imaginativos mais liberais) pessoa perante as outras? Não é o impulso que temos expresso na atracção sexual pelo outro que o diferencia de qualquer outra pessoa que nos leve a produzir um juízo estético?
No fundo, o que é que as pessoas, homens e mulheres podem esperar? Ou devem?
Será que na sociedade do sexo e do trabalho, o primeiro só pode realmente competir com o segundo em férias?
Não será a resignação perante essa desaquação uma espécie de comodismo perigoso?
Sinceramente, a disparidade de opiniões é tão grande, que cabe a quem pode definir o seu cenário, e pouco mais.
Mas a ideia que tenho é que os cenários ideiais apresentados, que atravessam desde publicações periódicas á literatura, não identificam sequer quem os apresenta, mas são uma espécie de cartão de visita indicativo, e quiça, programático. Wishfull thinking, talvez?
Sei lá...
COMPLETO ASCO

Se querem ter o estômago às voltas aqui têm!
Lixo mental, racismo, ignorância, etc, etc... há lá de tudo.

Já agora alguém avise aqueles (ausência de qualificação possível aqui - preencha como quiser) que os advérbios aos quais se junta o sufixo mente á forma feminina do adjectivo nunca levam acento...

Como é que possível?
The Temperance Card
You are the Temperance card. Temperance is the
blending of elements to produce stability. We
say that someone is temperate when they are
pleasant and easy going. Temperance achieves
balance through merging, so a temperate person
is one who feels whole. Creative genius is
often found in the ability to unite two
previously unconnected ideas. Aleister Crowley
considers this one of the most important facets
of this card and names the card Art. He refers
to a generation of a third element out of two
previously existing elements. In the same way,
the artist has the ability to create a painting
from canvas and some tubes of coloured paint.
The temperate person is also inclined to think
about philosophy. Temperance leads to a calm
and rational logic but can also look beyond
everyday knowledge for the truth. Image from
The Stone Tarot deck.
http://hometown.aol.com/newtarotdeck/
Which Tarot Card Are You?
brought to you by

MALTA SIMPÁTICA II....

terça-feira, setembro 14, 2004

Não falei do 9/11 propositadamente.
Porque perante a magnitude de certos horrores, e o aproveitamento que deles se faz para desencadear a pior política externa de que há memória, e que redunda na co-responsabilidade nesta crise petrolífera que nos assola, não há muito a dizer.
Eu estive no alto do Empire State Building, consideravelmente mais pequeno que as duas torres do WTC, e não consigo imaginar, ou talvez não queira, o que será o horror visto de dentro daquelas janelas, do alto daqueles edifícios.
E como não imaginando, nada consigo dizer, foi por isso que me abstive de relembrar.
Porque o esquecimento não agracia todas as coisas.
"MANDONNA"

Virgem, Sevilhana, Erótic,a agora cabalista... ufff... A mulher não pára.
O problema é conseguir separar todas estas formas de "expressão" de uma campanha de marketing bem planeada. A menina agora reinventou-se, mas como dizia um cronista de rádio no outro dia, parece já não haver muito por onde inventar.
Pessoalmente a senhora nunca me disse nada, especialmente porque a música parecia ser sempre a ultima preocupação da sua actividade. Mas como não sou fã de POP, e muito menos de Super Pop, a rainha deste género passa-me ao lado, como alguém que efectivamente mostrou garra enquanto mulher de negócios, mas pouco mais.
É um triunfo da perseverança, mas sinceramente, a histeria é-me incompreensível...
"Parnabens!"

Um ano de Barnabé, ou seja, de qualidade, de humor, de investigação, denúncia e sobretudo, resistência fundamentada ao neoliberalismo selvagem.

Parabéns Amigos!


sexta-feira, setembro 10, 2004

PERGUNTAS, PERGUNTAS....

Eu sei que é uma perplexidade algo... bem...

As senhoras que esclareçam.

A chamada Cueca Fio dental ou tanga, oferece algum conforto que não seja (para nós) visual? Para uma peça de vestuário ( ou deveria dizer peça de estético e atraente "desnudário") que hoje em dia move milhões na industria de confecção, acho que a pergunta se justifica...

Que querem? Por (muitas) vezes estas coisas também me passam pela cabeça...


HUMOR INVOLUNTÁRIO... OU TALVEZ NÃO...


O New York Times tem, na sua página de abertura, um link onde se pode ler Personalize your weather. Deve ser bem prático para a agricultura ou as férias de Verão, se bem que este ano muita gente deve ter baralhado os comandos de HTML.

Ainda na primeira página desse diário (por vezes sisudo) de referência, surge um artigo sobre o incremento fantástico que têm tido as autobiografias de celebridades. A celebridade agraciada com uma foto na primeira página é nem mais nem menos que a renomadíssima diva do circuito dos filmes para adultos-Jenna Jameson- que tem conhecido um sucesso considerável com a sua autobiografia chamada "How to Make Love like a Porn Star".
Dentro deste mesmo artigo, informam-nos de que alguém vai publicar um livro chamado "Very Naughty Origami" que ensina, entre outras coisas, a construir uma orgia em pequenas figurinhas de papel. Lá se vão as pombas e dos dragões feitos de guardanapo ou extracto multibanco, dando lugar aos pénis, malta na ramboiada geral e sabe-se lá que mais... Ora, tendo em conta que a "Manga" também é japonesa, penso que os nossos amigos do sol nascente não porão objecções a esta expansão temática da sua arte milenar.

Melhor que tudo isto só mesmos estes amigos!!!





DA PRÓXIMA VEZ QUE NÃO FIZER UM TELEFONEMA OU NÃO RESPONDER A UMA MENSAGEM...


Algumas pessoas teimam em queixar-se que os telefonemas escasseam, que as missivas morrem e que os rostos parecem desvanecer-se.
Algumas têm razão no seu protesto, porque de alguma forma os seus esforços parecem não ter qualquer efeito.
Outras repousam num status quo que de alguma forma parece representar um constante estado de desculpa, de razão plausível, o que, mesmo que seja verdade, retira qualquer razão ao que clamam. É que nestas coisas do ritmo urbano, mais do que nunca, só angariamos dos outros metade daquilo que damos, e mesmo assim, com esforço.
Certas coisas nunca estão garantidas.
Não existe piloto automático para a presença. Ou a afeição material.
AINDA A MERITOCRACIA

Antecipando as respostas inflamadas do infeliz liberal que por algum acaso cá vier parar, expresso apenas algumas angustias quanto o tema em epígrafe.
A meritocracia cresce, e a passos largos. O exponencial crescimento do acesso aos cursos superiores, a criação e vinda de teorias de eficiência que pouco se afastam de uma escravatura a soldo, a competição desde idades demasiado tenras para entender que o outro nem sempre tem de ser nosso concorrente, tudo são elementos de uma atitude que se pode comparar aos hábitos de um hamster. Correr rápido, ter a ilusão de ir a qualquer lado e morrer com a noção de brevidade iluminada nos ultimos pensamentos.
Não tenho dúvidas de que a ambição de crescer e progredir enquanto ser humano, produtivo e cultural é valiosa e em certa medida, inestimável. Mas não é isso que se pede. Pede-se o "overachievment", o corredor de maratona que tem de atravessar as sucessivas metas nem que tenha de o fazer num cambaleio agonizante. Pede-se aquela palavra odiosa que mascara o abuso de muitas exigências - "a (absoluta) disponibilidade.
Em face a este statuos quo, tenho várias perguntas:

  1. Alguns dos argumentos aventados prendem-se com o facto de se querer ganhar dinheiro para ter coisas, ou para providenciar à pessoas amadas uma vida melhor. Será que tudo isso substitui a presença da pessoa, o seu contributo, a sua carne e espírito junto dos que dele gostam? Será que vale a pena ver a alegre cifra do extracto multibanco, que permite a casa de multiplos quartos constantemente vazia, o carro dos anúncios selectos para ir e voltar do trabalho e quase nada mais, a roupa da moda para as reuniões e viagens,os restaurantes finos para jantar quase exclusivamente com clientes?
  2. Outra das razões apresentadas prende-se com o bem estar da prole. E aqui sou insuspeito para falar,jaque a paternidade não me fascina por aí além (embora espere que isso mude, a sério!). Será que a conta bancária, que paga os colégios, as roupas da Sacoor e quejandos, os brinquedos caros e anestesiantes, substituem a presença, a intervenção dos progenitores, o seu papel educador e emocional? Será que as desculpas para os horários impossíveis, entram na percepção de um petiz que não faz ideia porque raios é que o pai/mãe passa dias sem o ver? É engraçado como os liberais aqui baixam sempre a bola. Não tem resposta para esta situação, porque lidam com uma incompreeensão que é genuína e se está a cagar para estatísticas. A incompreensão de quem só deseja a contrapartida do afecto que lhes é entregue.
  3. Porque razão é que gente casada com a carreira tem famílias? Sinceramente, para quê? É pelo estatuto? É porque ficabem perante o conselho de administração? É que na minha óptica, quem tem objectivos desses, perfeitamente legítimos, não tem espaço, nem desejo de ter família, amigos ou a chamada vida pessoal. Mas no entanto, tenta ter tudo, mesmo sabendo por onde é que a corrente quebrará. É igualmente legítimo ter esse desejo, até porque me custa a crer que, ( excepção de talvez Jardim Gonçalves e quejandos) essas pessoas não acusem o vazio no seu dia a dia, mas até que ponto será justo sujeitar os entes queridos a esse malabarismo do tempo?
  4. Embora não seja novidade para ninguém, a verdade é que o dinheiro acaba por ser a resposta. Não há tempo para ver um filme enroscado no sofá, uma noite de Inverno e com um alguidar de pipocas á frente, mas de quando em vez lá dá para ir ao restaurante onde os empregados até sacodem a gravilha das solas recortadas dos sapatos e fazem uma limpeza a seco ao casaco da senhora enquanto ela janta. Não se lê um livro, ou se procura uma musica, mas porra, quem é que tem tempo e cabeça para ler essas merdas complicadas quando toda a energia mental foi simplesmente espremida como um limão inchado, precisamente para ter este ecran de plasma de 1,5m, onde curiosamente, nunca se vê filme algum porque nao há tempo.
  5. Será que alguêm vê mesmo um valor intrinseco em ser definido pelo seu trabalho?Não ter espaço para ser humano, para ser preguiçoso, sexual, curioso, hedonista, ou partede uma família, seja ela de sangue ou amizade?
  6. Já nem vou falar no sexo. Porque se eles não comerem as secretárias no 234ª serão do ano, ou elas não derem uma volta com o diletante que por acaso tem tempo e dinheiro para fazer desportos radicais na Gronelandia ou no deserto de Gobi, o cansaço é sempre muito, e "há sempre coisas mais importantes em que pensar".
  7. A verdade é que dita família nuclear está em declínio, e quem mais torce para que ela viva, é quem menos condições dá para que isso seja possível. São aqueles a quem repugna os direitos laborais, o direito enquanto ser cultural e mesmo desportivo. A contradicção essencial é por demais óbvia. São os que compram as famílias com o tal "bem estar".
  8. Os sinais de tristeza e perturbação social são alarmantes. A depressão, a obesidade e as demais doenças relacionadas com o stress estão a arrefecer e estilhaçar todas as chamads estruturas gregárias modernas. A obsessão do"conseguir para mostrar"está a ultrapassar em larga escala"o criar para ser". As pessoas crescem num impulso de ambição competitiva selvagem, onde a ambição que se instila não é ser melhor ou mais sustentado, mas conseguir um espaço de poder onde gravitem aqueles que potencialmente criticam.

A meritocracia é uma realidade, e cresce cada vez mais. As pessoas cada vez menos desculpam um distanciamento perante um escalão de elasticidade economia/social. A humildade é confundida e acusada de preguiça, e o estatuto consegue-se pelo betão, a chapa e os circuitos integrados.

E a minha pergunta mantem-se a mesma.

Porque tentam algumas dessas pessoas ter uma família? Um(a) namorado(a)? Ou alguns amigos? Ao contrário do que dizia Ovídio, nem sempre nos mantemos vivos, ainda que não estejamos presentes.

Digo isto em tom de tristeza, e não de acusação. Em tom de expectativa, de um oxalá, porque a esta altura, é tudo quanto me(nos) parece restar.

quinta-feira, setembro 09, 2004

SIMPÁTICOS OS MOÇOS...





U2.jpg
You're in touch with the world, and you have a very
strong opinion on things like politics and war.
Even if you do end up changing your image in
the future, most of us will still like you.


What band from the 80s are you?
brought to you by Quizilla

quarta-feira, setembro 08, 2004

AOS VISITANTES


A consistência é uma coisa engraçada.
Durante muito tempo, e posso dizer, que nos ultimos seis meses ou mais, a minha média de visitas ronda as dez ou quinze diárias. O que significa que em média, devem existir certa de oito pessoas que se dão ao trabalho de visitar este estaminé com alguma regularidade.
Não sei quem são, á excepção de uma ou duas que comentam regularmente, nem que seja para me cumprimentarem, mas ainda assim agradeço aos dez pacientes peregrinos que deambulam por aqui todos os dias, cheios de uma paciência homérica para passar os olhos nesta prosa.
Não concordo com ele muitas vezes, mas o amigo PAcheco Pereira dizia algo que julgo acertado ao referir que quando escrevemos algo, é sempre para alguém, porque a exteriorização deseja sempre alguma espécie de eco. Sinceramente, e contra mim falo, não acredito que exista algo como escrever para o próprio. Se está cá fora, então sinceramente, espero que alguém leia. E acho que toda a gente é assim, talvez á excepção do Sallinger, mas enfim...
Seja como for, obrigado pelos poucos fieis que pacientemente acompanham este diário.
Bem hajam.


quinta-feira, setembro 02, 2004

Não sei se o Verão acabou.
Mas a cidade começou.
Seja como for, o panorama é algo cinzento... para já.
EM RONDA AOS BLOGS

Ainda sobre a IVG, a minha amiga Ana dá um toque da sua classe. Como habitualmente, de resto.
Realce-se ainda a resposta ao J. , relativamente á questão do racismo e anti-semitismo em França. Igualmente esclarecedor, interessante, de argumentação estruturadíssima, embora hajam alguns pontos, pequeno, com os quais não concordo inteiramente.
Vale bem a pena ler.

quarta-feira, setembro 01, 2004

http://www.petitiononline.com/mod_perl/signed.cgi?19592c11&901

Assine a petição contra a ilegalidade praticada pelo Estado Português contra o movimento "Women on Waves".
Contra a pouca vergonha e a hipocrisia.

COM A(S) "PORTAS" NA CARA

Nem vou entrar numa discussão sobre a interrupção da Interrupção Voluntária da Gravidez. Bastou ver ontem o debate na SIC Notícias para ver até que ponto o autismo e a contradicção inquinam o discurso dos chamados "defensores da vida". Achei especialmente interessante a afirmação da deputada presente que afirmou que a grande parte das IVG em Portugal não são feitas em consequência da ignorância das pessoas. Isto vindo de uma representante de uma facção política que achou que a educação sexual nas escolas não é importante, e que a instalação de máquinas de preservativos ou a distribuição dos mesmos nessas escolas não deve ocorrer porque esse não é o papel das mesmas, e por mais algum argumento que de tão ridiculo que deve ser, nem vem à praça pública. Isto vindo de quem com certeza não conhece o retrato do país que temos. Isto vindo de quem não tem a mínima ideia do que significa uma caixa de preservativos para o orçamento de familias que passam fome, o que significa que esta senhora também deve achar que as pessoas além de não comer, também não têm direito a f.... !!!!
Isto vindo de quem acha que as pessoas recorrem ao aborto como meio anti-concepcional, como quem faz uma limpeza de pele, o que sendo esta pessoa uma mulher, não sei o que fará dela, sinceramente...
Desculpem o vernáculo, mas a hipocrisia, a ignorância consciente e a total falta de vergonha na cara tiram-me do sério...
Mas essa não é a discussão.
A decisão de Paulo Portas é ilegal. Não há qualquer forma de justificar a restricção á livre circulação de cidadãos comunitários com base no argumento de um juízo de prognose quanto á probabilidade de eventualmente se vir a cometer um ilícito criminal. É uma espécie de sanção preventiva sem elementos, indicios ou mesmo actos preparatórios para o dito ilícito. Nem justifica uma providencia cautelar ou mesmo medida de coacção. É, antes de mais, um disparate jurídico, e um disparate político, que mostra bem o calibre do Ministro da Defesa.
Só num país como este é que um ministro gay e homofóbico (!) que professa uma religião que condena e discrimina a minoria a que o mesmo faz parte, poderia atentar contra os direitos, liberdades e garantias dos seus cidadãos.
De Santana, nem um pio...


CARTAS A SÓNIA VIII
(POSTAL DE ANIVERSÁRIO)

Aniversário.
Hoje completas mais um ano, uma jornada em volta do sol. Uma órbita. Uma passagem pelo céu.
Existiam tantas coisas que poderia dizer-te, tantas citações de pessoas bem mais hábeis que eu passíveis de celebrar numa frase um evento de renovação e recordação de vida.
É engraçado pensar numa jornada, em tantas coisas que foram feitas, vividas, e construidas. Nos teus detalhes, nas ocasiões em que te riste das minhas piadas ou mais frequente e merecidamente, das minhas idiotices.
Falar em delícia dos sabores. Das brincadeiras da reinvenção. Do engano feito á anedota do tempo. Da teimosia da tua silhueta, assim como das tuas fantásticas e propositadas ingenuidades. Do aroma das tuas promessas sem palavras, das tuas concretizações sem recuos.
Relembrar o teu poder, a tua intenção, a glória da tua independencia, o sofrimento nunca comiserado pela verificação necessária das injustiças sem camuflagem.
Relembrar a tua escolha, a tua paciência, as insistências e perguntas por fazer.
Hoje é o teu aniversário. Não que ele seja necessário para recordar o que disse acima, mas porque ele representa mais um ano de tudo isto. Mais um ano de ti. Mais um ano ganho.
Parabéns.
A ti porque fazes anos.
A mim porque os vejo contigo, porque assim o teimas em continuar a escolher.
E a toda a gente que partilhe o mundo contigo, por isso mesmo.

Teu

JACK THE RIPPER VS PATRICK BATEMAN


Ontem ( 31 de Agosto), em 1888, Jack The Ripper ( que acho sempre prefer�vel a Jack o Estripador) fez a sua primeira vítima. Mary Ann Nichols. Morta e esventrada.
Embora fosse prática horrivelmente comum os ataques com armas brancas a mulheres no cenário urbano da Londres Vitoriana, e especialmente entre as classes sociais mais desfavorecidas e geralmente adstritas aos trabalhos mais duros e mal pagos, este homem, que muitos clamam saber quem era, deu talvez início ao que hoje em dia é falado com alguma naturalidade. O chamado assassino em série, O psicopata. O predador patológico que incute o medo da violência sem razão aparente.
Pensando em Vlad e outros personagens ( gaita, qualquer comandante do exército espanhol de Pizarro deveria ser um psicopata da pior espécie, assim como a maioria dos inquisidores medievais), Jack não é o percursor dessa ideia, mas foi o primeiro que deu ao mundo uma mostra de violência descontextualizada, de uma espécie de missão cujo propósito se desconhecia e bebia do medo próprio do imaginário colectivo. Foi o primeiro a ser conhecido e empolado como um monstro que caminhava com pés de homem. Uma estrela dos media, tal como Wilde já tinha sido, embora por motivos bem diferentes. ( em Maio de 1895 fora condenado a dois anos de trabalhos forçados).
Jack the Ripper forçou o olhar do mundo moderno para o seu lado negro, pelo fascinio do voyeurismo talvez no seu pior lado. A nação convulsionou-se, a Rainha Vitória suou um bocado, mas sobretudo, nascera o objecto conceptual capaz de gerar reflexão, literatura, avanço na ciencia, e mesmo uma estranha consciência de que os nosso medos são igualmente uma fonte de atracção. Provou, como Poe já aflorara, que a mente humana tem camadas estranhas, terríveis, e que em ultima análise, importa saber como funcionam, para entender e em ultima análise, combater.
Recordo o livro de Brett Easton Ellis, e sinceramente, além de ter achado um livro estranho e a espaços maçador ( gaita, quem é que tem paci�ncia para ler a biografia completa de Hughey Lewis and the News ???), está inserido numa tentativa de desmistificação do elemento medo associado à psicopatia violenta, no meio do principal interesse de denúncia social ao vazio do movimento huppie. Mas Patrick Bateman não é Jack The Ripper, e não só porque o primeiro existiu e o segundo não passa de uma personagem literária. Penso estar mais assente na ideia de que ao passo que Jack tinha uma aura de incompreensão e mistério, Bateman é produto da racionalização extrema que em última análise se propõe demonstrar a relação causa-efeito em qualquer situação.
E sem querer parecer ingénuo ou sequer pouco rigoroso, penso que Jack mostrava ou dava a ideia, cronologica e socialmente condicionada é certo, de que o mal podia existir, como uma tendência desviante mas tão impulsiva e natural como as emoções que lhe são antagónicas. Bateman mostra uma espécie de racionalização extrema, apoiada na explicação de um mundo condicionador que pode levar a estados de desiquilibrio capazes de produzir atrocidades que eu nem gosto de pensar.
Sinceramente, penso que ambas são correctas.
Acho que o mal consciente, e não originário em qualquer desiquilibrio psicologico, existe. Basta pensar em tantos actores da história para tirar essa conclusão. É só imaginar os tormentos pequenos e mesquinhos a que algumas pessoas votam outras todos os dias, para chegar a essa conclusão.
No entanto, também acho que a maioria das suas manifestações são criações da pressão social nos seus piores vectores - da pobreza, ignorância e medo, e violência consequente.
Digamos que é uma distinção entre o mal de génese endógena, e aquele que tem génese externa, induzida e reactiva.

O que Jack The Ripper expôs há 106 anos atrás, foi afinal não mais do que uma demonstração pública e vociferada do que o ser humano é capaz de fazer ao seu semelhante. Ele próprio dizia que iria parir o Século XX, e de uma certa perspectiva, foi isso mesmo que acabou por fazer...
E quando olho para o que temos aprendido com isso, não fico lá muito tranquilizado.
Nunca sei até onde as pessoas querem realmente ver, e o quão dormentes podem sentir-se...