ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, setembro 30, 2004

PROCURA-SE..? MAS COMO????
Devido a acontecimentos recentes, vejo-me numa posição privilegiada para analisar um certo fenómeno. Algo que deriva da imensa distância que as metrópoles colocam entre as pessoas, mas também das chamadas estratégias de aplicação prática para combate à solidão ou coisa análoga. Senão vejamos...
Qual dos vosso, meus, amigos é que está solteiro(a)? E digo solteiro no sentido da ausência de relação minimamente estável, porque o papel passado é somente uma convenção socio-contratual que a mim ainda me arrepia.
Existem provavelmente três casos tipo, embora saiba de antemão que existem provavelmente mil variedades de razões para o mesmo fenómeno.
Existe o caso mais paradigmático. O homem ou mulher eterna e divertidamente perdido no estado estético "Kieerkgaardiano". São aquelas pessoas cujo charme, imagem e condição económica permitem um distanciamento mediato relativamente ás outras pessoas. Ou seja, são aqueles que marcam os outros, deixam impressão, e esse poder permite-lhes pura e simplesmente ir colhendo as flores quando lhes apetece, tendo em conta que o prado parece estender-se indefinidamente. No fundo as suas qualidades fazem deles pessoas com a capacidade de requisitar os outros quando querem, mantendo um distanciamento honesto e feito de independência cuja qual os mais enamorados ou persistentes teimam em querer quebrar. poder-se-ia argumentar que essas pessoas acabarão por sentir o vazio da falta de pertença, mas talvez não seja assim. Talvez porque quando desejem, acabam por pertencer a qualquer lado. Normalmente são aquelas pessoas que olhamos à distancia, louvamos o seu riso livre e espirito de independencia absoluta. Se tivermos sorte, conseguimos não nos enamorar destas pessoas, evitando assim cicatrizes de escaramuças emocionais impossíveis. Não é Azincourt ou Aljubarrota. Não há esforço heróico que valha, ou abnegação. No fulcro, essas pessoas acabam por ser inconquistáveis, porque talvez esperem um espelho da sua própria perfeição. Acredito que com o tempo acabarão por pagar a factura da sua própria vida, mas até lá talvez tenham vivido o suficiente para encher três tempos dos restantes tipos de vida.
Depois existe o celibatário(a) teimoso. Seja por devoção e entrega a um trabalho específico, ou porque a exigência requer um encaixe absoluto nos seus hábitos celibatários, este é um ser que crê profundamente num determinismo emocional. É o maior defensor do destino, e de alguma forma acredita que todo o seu esforço resultará num arranjo automático, por suposto merecimento, da sua vida emocional. É o tipo que não procura, que não arrisca, que de alguma forma carrega o seu paradigma ou protótipo na mala mental, e só retira a proposta da mesma quando o projecto é feito de encaixes perfeitos. Leva talvez a vida mais complicada porque acaba por sofrer imenso. A solidão desgasta-o, esfarela a sua resistência como um jacto de areia contra um osso velho. Mas ainda assim não há meios termos. De alguma forma, a determinação do seu objectivo é um código de identificação. E de aplicação universal.
No fim existem as pessoas que de alguma forma andam perdidas e não possuem qualquer das estratégias acima referidas. Levam o seu dia a dia com um ouvido atento ao mundo. O seu percurso social leva-as a ver as mesmas pessoas dia após dia, e o isolamento urbano da multidão impede uma convivência alternativa bem sucedida. A noite, como se sabe, não providencia essas possibilidades, já que os objectivos estão bem traçados. Ver, ser visto, partilhar o mesmo espaço, mas não interagir. Na noite não se conhece ninguém. No entanto, quando tal acontece, trata-se de um felicíssimo acaso, ou de uma estratégia bem definida que por acaso encontra feedback do outro lado. A própria falta de uma certa qualidade de vida impede a criação de espaços pessoais para experimentar a companhia de estranhos. É só entrar num local qualquer e ver que as pessoas estão todas num mesmo local, mas não interagem, não se conhecem. Vêm e são vistas, e as coisas por aí ficam, na grande maioria dos casos.
Eu pergunto-me se as pessoas têm a noção da dificuldade que é conhecer alguém a partir dos tempos em que se abandona a faculdade. É impressionante como o universo se comprime, e o circuito social começa a ser feito de casais, de gente que se identifica num conceito de união, seja ela mais ou menos coesa. Ao contrário do que se diz, o terror de ficar sozinho ou de comparecer a jantares e copofonias sem a cara metade está destinado a todos aqueles que até fazem por isso, mas que não conseguem que alguém com o mínimo de caracteristicas exigidas gravite na sua esfera.
Ao falar com a maioria dos meus amigos e conhecidos, e partilhar e experimentar a sua companhia e contributo humano, verifico sempre que a esmagadora maioria tem uma situação amorosa constituida, por mais desiquilibrada que seja. Sinceramente, alguém encontra uma pessoa bem parecida, culta, humana e com uma dose de desvario provocatório/sensual que esteja sozinha? ( tirando aqueles dois primeiros grupos?) O relacionamento até pode ser um desastre, e as trocas e baldrocas uma realidade, mas como e onde é que alguém que esteja perto dos trinta consegue realmente conhecer alguém?
Recordando dois amigos meus nesta situação, e ouvindo as suas angústias, recordo aquela frase de Carrie Fisher no filme "When Harry Met Sally".
"Ainda bem que já não ando perdido lá fora na selva"...
Será assim?
O que faz a saudade por alguém que está temporariamente longe...
Como é que eu faria para a encontrar, se tivesse de o fazer hoje em dia?

1 comentário:

Gala Dmitrievna disse...

não faças nada diferente
porque assim estarás a ser tu mesmo, e só isso é que poderá interessar a longo prazo