ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com

segunda-feira, outubro 18, 2004

MUITOS CORPOS MAS POUQUÍSSIMA GENTE?
Depois de alguma reclusão forçada, resolvi dar um giro nocturno no Sábado, para ver, como é costumeiro dizer-se, como param as modas.
Graças á gentil companhia de uma amiga de longa data e mais outros amigos, pude descobrir aquele que supostamente é o local que esta na "berra". E verdade seja dita que o termo é bem aplicado, porque eram os mais variados berros que se ouviam por toda a parte.
Entrei no local graças ao assentimento que o porteiro deu ás moças que me acompanhavam, como é de resto costumeiro. Se tentasse entrar sozinho ainda a esta altura me encontrava na porta de entrada, junto ao restante rebanho forçado. Isso caso tivesse paciência, o que não aconteceria por certo, mas enfim, adiante.
subimos umas escadas que davam para uma divisão parca em espaço e que servia de acesso ás primeiras casas de banho, onde as moças se amontoavam, e a entrada para um suposto nirvana, com a tabuleta privado escrita nuns caracteres estranhos. O tipo que estava á porta era baixo mas largo que nem uma casa, como sempre, e olhou-nos de lado quando fizemos menção de entrar. Mas mais uma vez as moças fazem milagres e lá entrámos.
Confesso, talvez devido a um período de reclusão mais ou menos longo, que a urticária começou imediatamente a surgir. Os olhares não enganavam, e davam a entender que haviamos entrado numa espécie de clube privado. As minhas pobre calças e camisa denunciavam a ausência de status, e como tal, a estranheza por frequentar aquel local supostamente reservado á nata. valeu-me a decoração do local que era bem engraçada e original.
Recordei um acontecimento engraçado que se passou com os U2 na altura em que faziam a promoção ao "Joshua Tree". Tinham ido a Las Vegas ver o Frank Sinatra, que a páginas tantas lhe lança o seguinte: "you guys don't spend a dime on your clothes". Bono Vox, anos mais tarde, em plena entrevista acerca da digressão com o fantástico "Achtung Baby", recordava esta cena, dentro de uma limousine branca, com um fato de designer de alta costura, em sorriso de paródia, e que dizia "Well Frank, as you can see, times have changed!".
Saímos do privado e entramos num local semelhante a tantos outros. Bares cheios de filas, pistas de dança e acesso pejados de pessoas. Pessoas essas que quando não dançavam, passeavam do lado para o outro, para serem vistas e verem o que se passava. Cabelos, roupas e acessórios clinicamente arranjados para aquela que parece ser a actividade preferida nos locais de diversão noturna - ver e ser visto. Há mais calor e proximidade entre pessoas numa camara frigorífica do que havia naquele local, mas parece ser um código bem aceite por todos.
Há uma espécie de diversão estranha e manter a distância. Algumas mulheres perdem horas do seu dia, arranjam-se ao pormenor, para depois ter o prazer de passear qualquer coisa que desconheço e fazer a sua quota parte de rejeições perante as tentativas de aproximação. Chegou a pensar se algumas não mantêm uma espécie de marcador destas situações. Também sejamos francos, as abordagens normalmente não são felizes, o que nos leva a reflectir acerca da outra face deste fenómeno. Há tão poucos sorrisos que até faz impressão. Parece um jogo de tensão constante. Uma espera penosa, sei lá...
A minha perplexidade prende-se com algo que sempre me acompanhou noutras ocasiões, e que me parece mais acérrima em Portugal. Porque raio é que as pessoas procuram locais cheios, e rejeitam os vazios, se a intenção dessas pessoas não é interagir? Se o intuito é dançar, não será uma pista quase vazia um local muito mais propício do que uma casa cheia que nem um odre one cada ondulação do corpo significa um choque com o vizinho do lado? Se a inevitabilidade é repúdiar contactos ( e demonstrar o enfado que isso provoca), não seria mais lógico procurar locais onde isso fosse menos propício?
Pergunto - porquê ir procurar a companhia de estranhos, se o intuito é que permaneçam estranho, e por isso mesmo, se verifique a ausência de companhia?
Depois de deambular um tanto, conversar um pouco com os meus amigos na varanda e beber um whisky absolutamente mal servido, tentei trazer este tópico para a conversa, para saber se havia uma partilha de opiniões. Aparentemente toda a gente achava isto normal. O que era giro era ir para um local onde estivesse muita gente. Interagir nem sequer estava nos planos mais mediatos. É a norma maioritariamente aceite. As pessoas estão ali ao lado, mas aparentemente não servem outro propósito que não o de observadores e observados.
Volta e meia vê-se um sorriso á distância, e alguns olhares tristes.
Engulo o resto da minha bebida, e após algum tempo de conversa vou-me embora. A saída é mais um cabo dos trabalhos, já que a fila para as caixas é infinda. Vejo mais uns olhares, mais umas toilettes bem programadas, mais um enorme distanciamento entre estranhos. O local está à cunha e ninguém interage com ninguém.
Vou para casa cansado, e sobretudo, reflectindo sobre aquilo que não muda e parece cada vez mais incrementar-se. As metrópoles, ( pelo menos Lisboa assim parece), assemelham-se mesmo aquela velha ideia do isolamento no meio da multidão. Acho que é por isso que as pessoas não se arriscam a ir a locais destes sozinhas. Talvez porque voltem mais isoladas do que foram.
Os códigos são estranhos, e eu pessoalmente não os entendo. Procuram-se os números mas não a companhia.
Mas que diabo, eu saio pouco.
Para quem faz disto um hábito, com certeza as coisas serão diferentes...
Ou não?


Sem comentários: