MUITOS CORPOS MAS POUQUÍSSIMA GENTE?
Depois de alguma reclusão forçada, resolvi dar um giro nocturno no Sábado, para ver, como é costumeiro dizer-se, como param as modas.
Graças á gentil companhia de uma amiga de longa data e mais outros amigos, pude descobrir aquele que supostamente é o local que esta na "berra". E verdade seja dita que o termo é bem aplicado, porque eram os mais variados berros que se ouviam por toda a parte.
Entrei no local graças ao assentimento que o porteiro deu ás moças que me acompanhavam, como é de resto costumeiro. Se tentasse entrar sozinho ainda a esta altura me encontrava na porta de entrada, junto ao restante rebanho forçado. Isso caso tivesse paciência, o que não aconteceria por certo, mas enfim, adiante.
subimos umas escadas que davam para uma divisão parca em espaço e que servia de acesso ás primeiras casas de banho, onde as moças se amontoavam, e a entrada para um suposto nirvana, com a tabuleta privado escrita nuns caracteres estranhos. O tipo que estava á porta era baixo mas largo que nem uma casa, como sempre, e olhou-nos de lado quando fizemos menção de entrar. Mas mais uma vez as moças fazem milagres e lá entrámos.
Confesso, talvez devido a um período de reclusão mais ou menos longo, que a urticária começou imediatamente a surgir. Os olhares não enganavam, e davam a entender que haviamos entrado numa espécie de clube privado. As minhas pobre calças e camisa denunciavam a ausência de status, e como tal, a estranheza por frequentar aquel local supostamente reservado á nata. valeu-me a decoração do local que era bem engraçada e original.
Recordei um acontecimento engraçado que se passou com os U2 na altura em que faziam a promoção ao "Joshua Tree". Tinham ido a Las Vegas ver o Frank Sinatra, que a páginas tantas lhe lança o seguinte: "you guys don't spend a dime on your clothes". Bono Vox, anos mais tarde, em plena entrevista acerca da digressão com o fantástico "Achtung Baby", recordava esta cena, dentro de uma limousine branca, com um fato de designer de alta costura, em sorriso de paródia, e que dizia "Well Frank, as you can see, times have changed!".
Saímos do privado e entramos num local semelhante a tantos outros. Bares cheios de filas, pistas de dança e acesso pejados de pessoas. Pessoas essas que quando não dançavam, passeavam do lado para o outro, para serem vistas e verem o que se passava. Cabelos, roupas e acessórios clinicamente arranjados para aquela que parece ser a actividade preferida nos locais de diversão noturna - ver e ser visto. Há mais calor e proximidade entre pessoas numa camara frigorífica do que havia naquele local, mas parece ser um código bem aceite por todos.
Há uma espécie de diversão estranha e manter a distância. Algumas mulheres perdem horas do seu dia, arranjam-se ao pormenor, para depois ter o prazer de passear qualquer coisa que desconheço e fazer a sua quota parte de rejeições perante as tentativas de aproximação. Chegou a pensar se algumas não mantêm uma espécie de marcador destas situações. Também sejamos francos, as abordagens normalmente não são felizes, o que nos leva a reflectir acerca da outra face deste fenómeno. Há tão poucos sorrisos que até faz impressão. Parece um jogo de tensão constante. Uma espera penosa, sei lá...
A minha perplexidade prende-se com algo que sempre me acompanhou noutras ocasiões, e que me parece mais acérrima em Portugal. Porque raio é que as pessoas procuram locais cheios, e rejeitam os vazios, se a intenção dessas pessoas não é interagir? Se o intuito é dançar, não será uma pista quase vazia um local muito mais propício do que uma casa cheia que nem um odre one cada ondulação do corpo significa um choque com o vizinho do lado? Se a inevitabilidade é repúdiar contactos ( e demonstrar o enfado que isso provoca), não seria mais lógico procurar locais onde isso fosse menos propício?
Pergunto - porquê ir procurar a companhia de estranhos, se o intuito é que permaneçam estranho, e por isso mesmo, se verifique a ausência de companhia?
Depois de deambular um tanto, conversar um pouco com os meus amigos na varanda e beber um whisky absolutamente mal servido, tentei trazer este tópico para a conversa, para saber se havia uma partilha de opiniões. Aparentemente toda a gente achava isto normal. O que era giro era ir para um local onde estivesse muita gente. Interagir nem sequer estava nos planos mais mediatos. É a norma maioritariamente aceite. As pessoas estão ali ao lado, mas aparentemente não servem outro propósito que não o de observadores e observados.
Volta e meia vê-se um sorriso á distância, e alguns olhares tristes.
Engulo o resto da minha bebida, e após algum tempo de conversa vou-me embora. A saída é mais um cabo dos trabalhos, já que a fila para as caixas é infinda. Vejo mais uns olhares, mais umas toilettes bem programadas, mais um enorme distanciamento entre estranhos. O local está à cunha e ninguém interage com ninguém.
Vou para casa cansado, e sobretudo, reflectindo sobre aquilo que não muda e parece cada vez mais incrementar-se. As metrópoles, ( pelo menos Lisboa assim parece), assemelham-se mesmo aquela velha ideia do isolamento no meio da multidão. Acho que é por isso que as pessoas não se arriscam a ir a locais destes sozinhas. Talvez porque voltem mais isoladas do que foram.
Os códigos são estranhos, e eu pessoalmente não os entendo. Procuram-se os números mas não a companhia.
Mas que diabo, eu saio pouco.
Para quem faz disto um hábito, com certeza as coisas serão diferentes...
Ou não?
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