Ontem revi um daqueles filmes que muita gente adora detestar para manter aquela postura de ser aculturado e esclarecido, pertencente á elite que engolfa Hanneke e que julga que tudo o resto deve ser queimado em autos de fé crítica.
Como fã de Shakespeare, acho o filme uma deliciosa reinvenção, uma homenagem justa e até tocante a vários temas, entre eles o amor pela arte e sua integridade. Sim, não tem o toque cinzento e frio do realismo puro, duro e feio, mas desde quando é que isso é sinónimo de qualidade? Se assim fosse, o cinema era só documentário, porque tudo o resto é imaginação.
No entanto que me ficou daquele filme é igualmente um senso de admiração. De contemplação até um pouco rendida e que me demonstra algo indesmentível. É impressionante até que ponto a mulher é mais bonita, mais intensa e complexa. Até que ponto a forma como ri pode transformar tudo e dar-lhe uma solenidade e poder imensos.
Conforme li noutro dia numa revista, é na pele que tudo começa, pois é através dela que chegamos ao Céu ou ao Inferno. Curiosamente, isto vinha de um senhor (Paul Valery) o qual afirmou a certa altura que o cinema era um desperdício de inteligência...
Ironias á parte, há de facto fragmentos da vida que por vezes escapam ao inexorável buraco negro característico de uma importante parcela da natureza humana. São momentos belos, únicos, e sobretudo, mostram-nos até que ponto a criatividade pode ser um bálsamo que dá valor a preciosos minutos. E não é isso que vale a pena, afinal?
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