A um Amigo...
Vou aproveitar para corrigir uma injustiça. Uma injustiça pequena, feita a um amigo , pelas críticas que por demasiadas vezes fiz às suas condutas. Não porque não mantenha algumas delas, mas porque de alguma forma as soluções apresentadas nem sempre conduziriam aos resultados pretendidos.
Sei que podia falar de Arafat, do congresso do PSD, da crise no médio oriente, nos dislates do Vasco Rato (ser-caricatura), etc, etc, etc.
Mas há já tanta gente a ocupar-se disso, gente que já leu pelo menos metade dos jornais do mundo sobre o assunto e documentos existentes desde a biblioteca de Alexandria á nossa do CAmpo Pequeno, que não vou repetir-me.
Vou apenas dizer a um amigo que entendo o que ele queria dizer com a ausência de alternativas. Que entendo que por vezes nem a melhor bateria de esforços consegue resolver ou combater um afogamento social espiralado. Que ás vezes parece de facto melhor aguardar pelos desenvolvimentos do acaso, já que a solidão urbana é de alguma forma desdenhada pela intelectualidade, apesar de sabermos que alguns dos melhores artistas de qualquer forma de arte foram espezinhados por essa realidade supostamente secundária.
Este é um tempo de individualismo. Alguém disse que não existiam causas, mas eu discordo. Há tanto contra o que reagir. Mas nos locais onde se juntam as multidões, onde as pessoas se agregam no intuito de fugir a uma lógica implacável de isolamento, os paradoxos multiplicam-se como ervas daninhas, e na vergonha da intimidade possível, as pessoas sussuram as queixas e confessam a sua tristeza.
Assim ele o faz. Muitas vezes em surdina. Basta-me olhar para os olhos dele e perceber até que ponto se sente encurralado, num universo social onde a individualidade e o comodismo tomam as rédeas, e se sente o impacto amargo da regressão cultural e cívica na qual caímos, e da qual todos os dias se dá conta. Consigo agora expressar uma empatia pelo que teve e tem de passar. Insto-o na mesma á acção, mas já não tenho a mesma crença na previsibilidade dos resultados.
Por isso tenho de lhe fazer justiça. Perceber até que ponto está sozinho é entender a dificuldade que terá em encontrar quem receba o que ele tem para oferecer. E é do melhor garanto-vos.
Nuno, fica lá com um abraço.
É talvez o máximo que possa fazer, mas pelo menos é sentido.
ESTAÇÕES DIFERENTES
"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Stephen King - "Different Seasons"
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