ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Eh pá que pouca sorte...

Talvez corra melhor da próxima vez...
Sexta-Feira...
Sol, com possibilidade de alguma nuvem no horizonte.
As pessoas que passaram por mim hoje sorriam na sua grande maioria, e isso surpreendeu-me. Acho que estas semanas de trabalho alucinante toldaram a minha visão, ou então é este assomo de liberdade que faz tudo parecer um pouco diferente.
Acho que é um pouco como os índios Xuar. Temos de desaparecer para depois se tornar tão bom voltar. Para que a satisfação da saudade seja mesmo um prazer máximo, uma necessidade na dinâmica de continuidade das relações humanas.

Bom fim de semana!!!
É preciso ter lata...
Até que ponto pode ir a incoerência...


" Estar fechado a outras possibilidades foi sempre o maior obstáculo à descoberta da verdade." - César das Neves - DN - 3/01/2005

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

John Constantine

Para aqueles que já conhecem Alan Moore há alguns anos (Swamp Thing Saga - excelente!) esta figura não é inédita, e representa uma espécie de anti-herói confuso que aparece para desenrascar o dia quando as coisas se complicam, ou para lixar esse mesmo dia se assim lhe convier.

Ainda não vi o filme, mas ao que parece é uma das estrelas do Fantasporto, e se respeitaram integralmente a visão de Moore ( coisa que não fizeram no pútrido Liga de Cavalheiros Extraordinários - fabulosa BD, inenarrável adaptação...) entao preparem-se para uma viagem no minimo acidentada, e despida de maniqueismos simples. Constantine é a materialização humana do cinzento, herói e estupor, ocasionalmenbte abnegado e um safardana da pior espécie. Embora as minha expectativa seja de que o produtor e realizador não tenham tido os tomates para colocar a real forma de pensar de Moore no ecran, chamo a atenção para a série de BD chamada Hellblazer, e essa sim, é um deleite absoluto para apreciadores e não só.



Meus amigos, este senhor é o responsável por aquela que talvez seja a melhor BD que já alguma vez li, e garanto-vos que li muitas coisa neste segmento de literatura. E sim, chamo-lhe literatura ( já estou a ver os puristas a contorcerem-se na cadeira), porque então no caso de Neil Gaiman, é arte pura. Na senda de Allan Moore, outro monstro sagrado da BD, responsável por coisas magníficas, entre elas o insuperável "Watchmen", que ao que parece, finalmente vai ser filme, Gaiman, trouxe ao imaginário fantástico uma densidade e qualidade próprias de quem destila talento e sobretudo, de quem preza o acto de imaginar com inteligência, intensidade e sobretudo, coerência e estrutura narrativa.



Sandman, ou Orpheus, Ou Dream, ou Oneiros e os seus irmãos, "Os Eternos" (Endless) - Desire, Despair, Delirium, Destiny, Destruction and Death" são a sua criação máxima, e de uma originalidade desarmante. Os dois melhores talvez sejam mesmo Dream e a irmã Morte, sendo esta última uma pérola absoluta de humor negro e sagez.
Gaiman fala do amor, da morte e sobretudo, da capacidade de criar e viver de acordo com os nossos monstros, fazendo o melhor possível com a dualidade que a todos toca.

Recomendo absolutamente, e para os farisaicos que qualificam a BD como algo de menor, deixo a sugestão de abrirem um destes livros, e surpreenderem-se. E se ainda não estiverem convencidos, abram e leiam esta absoluta obra de arte deste outro senhor.

Have fun!
Ontem falei com uma pessoa muito próxima a mim que está em Paris. E ao que parece, a cidade está coberta de neve, e varrida por um frio de rachar. A neve, segundo muitas e sábias tiras do Calvin, faz brotar algo de menino nas pessoas. Uma propensão para a brincadeira (sim infantilizada, mas há alguma que assim não seja?), para fazer um ou dois disparates, porque afinal de contas é óptimo rir com as coisas menos estruturadas, ou com um bocadinho da perda da face.
A verdade é que ela, em meio aos colegas, viu-se a brincar na neve sozinha, porque as pessoas simplesmente não podiam perder a compostura construída e associada á sua imagem e face. Em suma, estavam demasiado arranjadas, e preocupadas com isso mesmo, para aceitar uma bola de neve no cocuruto, ou simplesmente patinhar um bocadinho no manto branco.
O que nos diz isto? É apenas um acontecimento inconsequente, mas de alguma forma parece que as pessoas simplesmente já não se divertem. Já não se tomam atitudes menos compostas, já não se arrisca, já só existe rendição ao "adequado". Em suma, as pessoas são cada vez mais uma seca desmarcada, uma pasmaceira de rituais e procedimentos e adequação á normalidade. Se é isto que significa ser "adulto" e "responsável", podem rasgar o meu formulário de inscrição.
Só tenho pena que não neve aqui em Lisboa. Ou se calhar não...
Quanto a ti, só te posso dizer que deverias esperar no alto de uma árvore ou numa varanda escondida e despejar uma boa "pazada" de neve nos cabelos arranjados, nos batons e no cabelinho com gel. Just for laughs...

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Apenas um acrescento...
O alívio pelo abandono de Portas...
Se bem que o seu périplo pelas feiras e mercados deixará saudades...
Há alturas em que temos de saber desistir...
Bem, não se trata de saber desistir, mas ter a noção de que aquilo que até poderíamos fazer não nos é permitido. Aquilo que significa argumentação pessoal e emocional acaba por ser apenas uma espécie de subentendido que fica lá nos locais escondidos da reflexão.
E existem essas alturas. Em que não temos outra opção senão mostrarmos a identidade que nos caracteriza, e esperar apenas que isso seja suficiente, que bastemos, que alguma da nossa qualidade possa ser um dístico daquilo que nos torne únicos, como afinal consideramos aqueles poucos a quem mostramos isto.
E essa torna-se a forma de não desistir. Ir em frente. Ser nós próprios porque em bom rigor, não há mais nada que possamos aspirar a ser, pelo menos no plano daquilo que constrói a nossa vida, e faz valer a pena cá andar.
Bonne chance para todos... e mesmo para mim, acho eu...
Não estando de forma nenhuma em causa que a qualidade da classe política, incluindo a vencedora, não é dos melhores, a verdade é que aconteceu história ontem. História que muitos e bem mais versados nestes meandros da política dissecarão com a habitual eficiência e desdramatização jornalistica (espero!), mas ainda assim, dá que pensar a qualquer cidadão, especialmente aqueles que estão nas facções "derrotadas".

A descida da abstenção, não tão intensa como se previa ao início, mas que registou quase 3%, quer dizer alguma coisa. E quereria dizê-lo independentemente da força política que, através desse fenómeno, atingisse o melhor resultado. As pessoas mobilizaram-se, e de alguma forma, quiseram demonstrar o desejo de mudança, de que alguma coisa tem de ser feita, e com rapidez, sob pena de colapsarmos debaixo deste vendaval de instabilidade e trapalhadas que marcaram o último ano.

A alegria dos socialistas vai brevemente ser substituida pela percepção do que há a fazer. E é bom que o cheque de continuidade passado pelo povo sirva para por em pé um projecto, seja lá ele qual for, para que efectivamente se chegue a algum lado. Têm uma grande responsabilidade nas mãos, e este é um tempo em que a melhor gestão das dificuldades não é só desejável, como imperativa. A corda do país não mais se pode esticar.

Quanto ás facções derrotadas, penso que a reflexão é necessária e desejável. Sou sincero, e digo que talvez tenha sido o melhor que pudesse ter acontecido ao PSD. Talvez agora a escumalha santanista possa ser deportada para um oceano longínquo, e em alternativa surjam os homens realmente capazes e que de alguma forma dêem a face e competência certa a um partido tão necessário á democracia nacional como é o PSD. E isto porque uma oposição competente é tão necessária como um bom governo. É no confronto de ideias nas instituições que o equilibrio democrático se garante, julgo eu.
Mais uma nota para Portas, que caso confirme a sua saída, mostrou um sentido de responsabilidade politica de louvar, e ao contrário de Santana, teve a atitude correcta perante os circunstancialismos.

E agora o que vem aí? Nunca gostei de maiorias absolutas, porque são terrivelmente arriscadas. Mas no presente cenário, talvez seja a única solução para que os projectos não se fragmentem a meio, e para que deixemos de andar nesta dança dos cortes e interrupções. Portugal ainda não maturou politicamente para permitir a existência de um pacto de regime, o qual tornaria desnecessária qualquer maioria absoluta. Talvez quando se perceber que a politica não é uma luta de facções futebolísticas, mas um caminho para servir os cidadãos e o país, o tal pacto seja possível.

Esperemos que o optimismo seja possível.
Sem euforias, vamos lá ver o que vem. É que há mesmo muito por onde melhorar.
Boa sorte Portugal... Que a escolha feita não te morda os calcanhares.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

A igualdade entre homens e mulheres, que e meu ver é condição de qualquer regime democrático e baseado nos fundamentos do estado de Direito, é um conceito talk-show.
E porquê?
Bem, porque quando confrontado com plebiscito, as opiniões tendem a limar as arestas farpadas constantes dos choques injustos entre os dois géneros, porque não são apoiados em elementos objectivos da natureza própria de cada um deles. Ao assistir-se a uma discussão entre um grupo de homens e mulheres, como eu ontem tive a opportunidade de fazer, tem-se a noção de que tudo vai bem, e que o esclarecimento quanto às formas de discriminação e promoção de desigualdade dos géneros (entre si) é suficiente para determinar mudanças e reformas.
Mas depois apagam-se as luzes, as pessoas retornam aos seus grupos, á discussão sem o crivo crítico de quem avalia cada palavra dita em público, e as barricadas são erguidas.
Os olhares condescendentes, a avaliação da falta de determinado talento para determinada função ou actividade, as dificuldades de relacionamento, voltam ao discurso como a linguagem de um computador socialmente programado.
As ideias pré-feitas estão lá, na honestidade do instante em que são livres junto de outros.
E depois voltamos ao "talk-show", e o discurso retoma a sua clareza, a cristalina noção de que se é capaz de identificar o que está mal, e corrigir.
A igualdade de géneros tem de ser uma percepção imediata e subtil. Não podemos dar por ela. É como um árbitro num jogo. Se nem sequer dermos pela sua presença, é sinal de que o trabalho está ser bem feito.
Mas a verdade é que as pessoas acabam por alimentar um pouco a fogueira conceptual do feudo a que pertencem. A reeducação necessária para alterar isto parte não do reconhecimento dos problemas do próprio género, mas na capacidade de se colocar na pele do outro. Em ver a medida exacta em que se desconsidera o género oposto pelas suas supostas debilidades historica e socialmente comprovadas. É, no fundo, querer descobrir, e isso vai desde o universo sexual ás idiossincrasias ao nível sensorial e de interpretação de qualquer juízo crítico.
As diferenças existem, e ainda bem. É uma das componentes da sensação de integralidade que o potencial humano encerra. Os contributos de parte a parte, quando juntos, acabam por constituir algo muito mais completo, na realização do potencial humano nas ssua mais variadas vertentes.
Mas tem de se querer. A pressão entre pares tem de deixar de reagir pavlovianamente aos gatilhos sociais de reprovação pela diferença.
E sinceramente, em meio ao desejo de mudar, verifiquei uma grande preocupação em guardar e proteger elementos que contribuem directamente para a desigualdade, mascarados sob a capa do chamado senso comum.
Em suma, a desigualdade é muitas vezes mantida pelos próprios géneros, e mesmo no que diz respeito ao que eventualmente os prejudique.
Muitas mulheres continuam a achar que os homens não realizam as suas tarefas domésticas com o mínimo de competência. Que devem ter um poder económico considerável, ainda que ambição não signifique exactamente realização.
Muitos homens continuam a achar que as mulheres devem refrear a quantidade e intensidade das suas iniciativas, que o facto de tomarem as rédeas das sus proprias vontades, por exemplo, na aproximação ao sexo oposto, deve ser moderado. Continuam a achar que de alguma forma, a sua superioridade sexual ( alguém duvida disto?) lhes confere um certo papel subalternizado nas organizações e instituições.
Para mudar, tem de se querer. Para depois se esquecer, e se tornar natural.
Mas acho que ainda não se quer o suficiente.
E isso é algo triste...
Pronto. Fica aí.
Fica onde quiseres, e como quiseres.
Já não está nas nossas mãos... o que é pena...

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Embora não seja o meu tema preferido nos dias que correm, até porque ando de candeias às avessas com ele e com o conceito que representa, não poderia deixar de dar algumas palavras a abater sobre o amor, e sobretudo, relativamente ao dia de ontem.
Deixando a lenga-lenga de denúncias relativas ao aproveitamente comercial, (com a qual concordo em parte, mas julgo só ter aplicabilidade de nos restantes dias do ano o número de gestos para com a cara metade for zero(!). Quem tiver atenções, neste dia tem apenas mais uma, o que não me parece mal...), há que fazer uma reflexão ao estado do amor nos dias de hoje. O que ele significa. Os problemas que pode acarretar. As dificuldades que parecem disseminadas um pouco por toda a parte.
Sinceramente, julgo que a grande maioria das dificuldades associadas ao amor e á convivência assentam na excessiva complicação. As pessoas tendem a complicar. Pura e simplesmente. Os chamados "complicómetros" carburam demasiado, quando provavelmente a simplicidade é a resposta mais directa. Arranjam-se milhares de desculpas, de pequenos problemas, que quando aliados à reais e necessárias chatices, fazem transbordar o copo. Esquece-se um detalhe importante que mais não é que aproveitar os tempos de bonomia urbana para poder desfrutar da pessoa, rir com ela, e fazer alguns disparates necessários.
No entanto, os sacrifícios com a paternidade, os cansaços multiplicados, a inércia que deles resulta, e uma espécie de regra de conduta "adulta", vão descascando os relacionamentos até que a carne viva que daí resulta se transforma em pequenas mas inumeras feridas. Não há como escamoterar as pressões de uma vida em meio ao frenesim da urbe, é verdade, mas ao contrário do que se julga, a diversão, especialmente aplicada ao amor, também dá trabalho. Não trabalho/sacrifício, mas trabalho na óptica das atitudes, dos esforços, da procura da surpresa e reinvenção do outro. Por vezes um pequeno gesto pode significar um mundo de diferença, e o cansaço não pode ser uma desculpa recorrente. Especialmente porque conduz a uma indiferença, aos dias que passam sem darmos por eles, e depois, instala-se a modorra, e com ela, a procura de coisas alternativas.
O Amor é em si mesmo um amante exigente. É conceito que exige alta e permanente manutenção. Não vive do ar nem dos raios do sol, como as plantas. Necessita que o façam viver em meio á diversão, a um senso de preenchimento e pertença que torna a vida mais engraçada e isto quanto haja alguém com quem partilhar as manifestações de beleza ou alegria que nos estão destinadas. O Amor não é meiguinho nem muito complacente. É um sugador de energia, uma atracção gravitacional da nossa essência única e que se expressa numa irracionalidade invisível, mas que nos condiciona como nenhuma outra. O Amor tem dentes. Garras. Tem um humor sarcástico de ocasionais maus fígados e ondas de ironia, mesmo quando misturado com as tais asas de que tanto se fala.
No Amor temos que se mutuamente como a Amazónia. Conhecidos, mas nunca totalmente explorados ou cartografados, porque a dinâmica da relação amorosa é precisamente ir descobrindo mais um planaltop escondido, mais uma planta rara. E isso só se faz pela simplicidade da abordagem pelo desejo de descobrir, pela ausência de negação ao prazer.
No fundo, para se viver o Amor, tem de se agir amorosamente, actuar no seu âmbito e de acordo com as idiossincrasias que o caracterizam.
Há que mexer o outro. Mesmo quando não parece possível. Porque, por exemplo, quanto mais nos rirmos com aquela pessoa, mais ela vai crescendo no nosso tempo, e nos mostrando mais clareiras escondidas, com a promessa de continuidade.
O Amor nunca está garantido. E é nesse medo doce que reside a sua continuidade.
Pelo menos é o que eu julgo.
Por isso, espero que ontem tenham tido um excelente dia. Uma nova posição sexual, um segredo escabroso, uma marotice compartilhada, um disparate divertido á vista de todos.
Espero que ontem quem ame e tenha companhia tenha descoberto mais um bocadinho, e celebrado por isso mesmo.

Felicidades a todos.
Talvez um dia eu volte a esse clã... Quem sabe?

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

UMA REALIDADE - UMA EVOLUÇÃO?

De acordo com o Púlico de hoje, a população masculina anda a invadir as linhas de apoio á disfunção sexual, em busca de ajuda, de uma palavra de esclarecimento, e não duvido, de apoio.
Desconsiderando desde logo o ruído de fundo feito de chacota ( dir-se-ia um estertor de nervosismo e medo disfarçado de ridicularização), penso que é uma evolução fantástica aquela a que assistimos, porque de alguma forma está patente nesta busca de apoio uma preocupação com o outro, com a pessoa que está do lado de lá na dinâmica da relação sexual e, adaptando a cada caso, das mais variadas morfologias de afeição.
A verdade é que aparecem os preocupados, aqueles que de alguma forma tentam combater, por necessidade ou não, o estigma de que a sexualidade masculina é composta de dois estados bem diferenciados - ou se põe de pé, ou não.
Existe um universo da intimidade no masculino que pode gerar uma multiplicidade de situações e reacções, que constituem afinal a complexidade própria da nossa sexualidade, que não é, nem de perto nem de longe, tão aparente e translúcida nos seus elementos como muito se apregoa.
Embora seja algo que preocupe, porque é gerado em grande parte pela doença civilizacional e a sua correspondente maluqueira pela meritocracia, a verdade é que existindo esta preocupação significa que as mentalidades evoluem, e que a preocupação com o outro lado/metade da relação sexual é uma realidade.
E aqui tenho de chamar um pouco à atenção o público feminino, porque se é certo que uma percentagem significativa tem uma preocupação em entender e ajudar, tentando melhorar, outra talvez desconsidere a realidade que nos indica que a sexualidade masculina tem a sua complexidade, e os seus problemas, que, adianto já, podem ser bem complicados. A começar pela responsabilidade que está associada. A performance, quer se queira, quer não, é sempre uma preocupação. E quem diz que está livre dessa ideia, provavelmente não está a ser honesto consigo mesmo, quanto mais com os outros. E este é apenas um dos problemas...
No fundo, trata-se apenas de celebrar a liberdade, tentando entender o outro, tentando chegar mais longe, ao melhor, ao que vale mais a pena. Simplificando, mas indo á essência das coisas, para que estas melhorem!!!
No dia de hoje, desejo que todos aqueles que se vão poder amar ou tocar não passem por qualquer dificuldade, e celebrem um dia que, no melhor, faz pensar sobre o que se tem.
E que as conclusões a que se cheguem, sejam as melhores.
Felicidades!

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Tudo é sempre muito mais complicado do que parece.
Não há qualquer espécie de dúvida relativamente a isto. Podemos esperar quanto muito fazer o melhor possível. Só isso.
Existem pessoas que habitam os nossos espaços obscuros, interessam-se pelos nossos tons negros, e procuram ver, de forma deliciosamente impiedosa, até que ponto a nossa identidade resiste às influências que a pode fazer oscilar ou mostrar as costuras do seu tecido.
Existem pessoas que com a maior honestidade, oferecem o melhor de todos os mundos, e com isso, engrandecem a nossa pequenez. Existem pessoas que sorriem para nós como deve de ser.
Existem pessoas que brandem a sua identidade com a coragem de quem viu e ainda assim não recaiu em descrédito. Existem pessoas em constante os terrenos onde pisam, porque a sua vivência é tão genuína que envergonham as estratégias intermédias relativas á facilidade dos dias, ao descanso da apatia, à tranquilidade podre da falta de questões.
Existem pessoas que perseguem por modo de vida. Com e sem objectos de afeição ou desejo realmente presentes.
Tudo é mais complicado do que parece.
Mas acabará por existir alguém que, ainda que não nos salve, traz um sorriso nessa ideia, e dá muito mais do que seria possível imaginar pela realidade simples. Sem clemências, com todo o mundo num esgar positivo. Alguém que não se rende porque o ridiculo do vazio é a própria definição deste. Acho que as pessoas que inspiram vivem desta forma. E temos a felicidade de nos cruzarmos com elas, em esquinas de altíssima improbabilidade.
Obrigado...

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Existem instantes que simplesmente param o tempo. O nosso, claro.
Os cinco sentidos misturam-se numa espécia de amálgama sortida, aparecendo á vez, como voluntários á força.
Recordamo-nos daqueles que não conseguimos salvar num gesto, e amamo-los numa desculpa e fraca promessa. Paramos tudo até ouvir o corpo que se detém. O mundo sem a respiração é um inferno de silêncio barulhento. O mundo não respira quando a razão da dor alheia se instala.
E isto porque a vergonha da inércia inevitável é compensada por abraços feitos de culpa não intencional.
Damos connosco a absorver inutilmente o peso do mundo exterior através de um olhar. Entendemos, e a compaixão cola-se ao peito como um dístico.
Esses instantes são aqueles em que nos tornamos maravilhosamente inúteis.
Param o tempo porque não conseguimos nunca salvar quem devemos.
Justamente aqueles que não pedem, os que são cheios de uma dignidade construida á custa do que não poderia nunca ser posto em causa.
Existem instantes que param o tempo. Porque o percurso deste nem sempre se suporta.
Ou justifica.
Perguntei-me se a pergunta estava certa.
Existem universos num simples respirar, e as memórias não poupam ninguém.
E depois inventamos uma lógica de continuidade, falando aos outros
dizendo-lhes do que não vale a pena, da futilidade da persistência
e a teimosia dos desejos inventados que simplesmente não se vão embora.
A verdadeira face do poder são as dores extraídas numa recorrência.
Ficam ali, como madeira de sândalo que navega sem rumo por entre ondas de mar quente,
e baixamos os olhos, porque não há como enfrentar o fim invisível da estrada.
E depois vem a noite. Aparecem os finais das coisas irrepetíveis, e surge um beijo
perdido na tua magnificência. E depois sou insuficiente porque são memórias.
Memórias da cólera tornada necessária pelo medo.
É então que me torno o teu aleatório carrocel, e tudo é insuportável.
Porque há um mundo lá fora, e perguntei-me se a pergunta estava certa.
Passou o sorriso com asas, demasiado livre para ser suportável.
A graça que ficou como uma cinza á deriva no vento.
O silêncio do poder. A corrente feita do aço de ti.
Deixando poucas perguntas.
Ou saídas...

A raiva é apenas uma outra forma de vergonha
E se tu já não tens as asas
Explica-se a falta de sorriso dos anjos
Tragam-me a casca mortal
O som da morte em tambores e banjos
E porque os lábios estão selados,
e o brilho ilusório do espaço é nada
é apenas silêncio que nunca ouvi,
são recordações de uma manhã de inferno
Do vazio que se ameaça eterno
E depois falo contigo no silêncio dos passos
dos vizinhos que entram e saem
As vozes variam entre a prisão e a ausência
Entre o peso e a leveza
e fico sozinho com as perguntas
a raiva, que é apenas outra forma de vergonha
pelo amor do qual se tem a certeza.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

COMO?

Como é que se consegue não ser suficiente.
Como é que se vive com isso?
Como é que conseguimos enfrentar a ideia de que tudo aquilo que fazemos, baseado numa lógica de positividade e afecto não serve de nada? Como é que se consegue de alguma forma racionalizar que o contributo das nossas acções não produz efeitos a qualquer nível?
Como é que se aprende a não bastar? A ser aquilo que não chega? A não perceber o mínimo sentido para as coisas precisamente porque as reacções dos destinatários surgem absolutamente diferentes daquilo que pedem?
Como é que se interioriza a futilidade dos nossos esforços? Como é que se consegue não ganhar importancia, não importa o esforço, a abnegação, a entrega? Como é que se lida com a indiferença injustificada? Como é que nos tornamos capazes de encarar qualquer generosidade como intrinsecamente boa, mas factualmente inútil?
Como é que conseguimos deixar de sentir alguma vergonha pelo que somos? Pela ingenuidade colocada em cada gesto tendente a dar alguma coisa? Como é que se aceitamos que uma certa linha condutora da vida quotidiana, assente num principio básico de não fazer mal e fazer bem se possível a alguém, seja insignificante?
Como é que deixamos de nos sentir insignificantes? Como é que ganhamos um espaço á base dos esforços benignos, se de alguma forma acaba por nada significar?
Como é que se propaga uma ideia contrária ao neo-realismo feiosos em que vivemos, através do simples acto de querer fazer mais que manter a elegância no contacto? Como é que se faz isso, se existe uma esquizofrenia clara na dinâmica da vivência entre as pessoas?
Como é que ultrapassamos o egoísmo se chegarmos á conclusão de que ele é uma falsa, mas necessária ferramenta de sobrevivência?
Como é que vivemos com o facto de nos envergonharmos por defender algo que parece perdido algures numa moderna e quixotesca cabeça? Como é que aceitamos e não cobramos a nós próprios a imensa tristeza de saber que não somos suficientemente importantes?
Como é que se faz tudo isto?
Como é que aceitamos tudo de todos e não somos aceites por quase nada? Como é que se consegue não ser alvo da mínima contemporização?
Como é que se organiza uma vida? Como é que podemos de alguma forma deixar o mapa para o coração secreto, se somos somente sujeitos à pilhagem e exposição?
Como é que se pode ser tão ingénuo?
Como?

domingo, fevereiro 06, 2005

Anda tudo ao contrário...
Não restam dúvidas.
Quando surge a ideia de que alguma coisa está a ser bem feita, as pessoas tendem a optar pela solução alternativa, pelo previsível e não tão positivo desfecho. Pelo que não reclama, por aquilo de que previsivelmente se mostram disposíveis para afastar...
Conforme diria esta senhora, (com a qual eu provavelmente deveria discordar 9 em cada 10 vezes), "no good deed goes unpunished".
Não é novidade, mas custa sempre muito mais do que se esperaria.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Por vezes vemo-nos a tomar as atitudes que nunca conjecturámos.
Aparecemos como o actor daquele filme que nunca realizaríamos.
E depois procuramos o sentido até encontrá-lo, construímos o arquétipo que é necessariamente auto-explicativo.
Depois doutrinamos em surdina, e arranjamos a sustentação.
Por vezes temos de ser o que não acharíamos possível.
Por vezes somos a nossa outra face.
Para que tudo chegue a um ponto em que podemos retornar a local de onde provavelmente nunca deveríamos ter saído.
Isto não faz de nós seres multifacetados, e si, carrascos para aqueles que escolhem não aguardar pela transformação do enredo em mensagem.
Mas quem é que os pode culpar?
Os que teimam em escapar-nos, seja lá porque cinrcunstância for, não sabem o que deixam.
Pode parecer a criação do gozo de perseguir o mundo.
Mas a realidade é muito mais negra.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Ucrânia tem Primeira Ministra com preocupações relativas ao equilíbrio social como fundamento para a evolução do país.

À semelhança de outros países, onde o crescimento não é significado de desumanização, fica esta intenção. Será a senhora capz de o fazer? Não faço ideia, mas a ideia de que o crescimento deve ser feito com as pessoas e não apesar das pessoas é algo que deveria ficar bem retido na cabeça de alguns arautos da mensagem económica desumanizada.
(Começa a verificar-se que os efeitos da deslocação dos centros produtivos irá provocar, a médio prazo, uma convulsão social terrível, e isto só para citar um exemplo.
A pergunta que faço é a seguinte. Que importância terá o preço (baixo)dos produtos, se ninguém os puder comprar?)
Para quem tinha dúvidas que em Portugal a política é encarada como um confronto de simpatias, lealdades clubisticas e não análise das ideias ou projectos., aqui fica a triste prova.

Logo, como é óbvio, a política assemelha-se muito ao futebol, no seu pior.

Se, analisando rapidamente, virmos o Estado em que está o futebol percebemos porque raios estamos isolados na curva descendente do "sentimento económico" em toda a União Europeia.

Onde é que se apanha o avião?

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

"A daydream is a meal at which images are eaten. Some of us are gourmets, some gourmands, and a good many take their images precooked out of a can and swallow them down whole, absent-mindedly and with little relish. "

W. H. Auden

Novamente, para um Amigo
A gravidade.
A sensação de peso.
O esclarecimento agudo e afiado como uma lâmina.
Nas palavras de alguém que não descansa. Que teima em achar que não precisa.
Ao ouví-lo, senti um certo desgosto em razão do sangue e afeição.
Existem poucas coisas piores que a incapacidade de confortar alguém de quem se gosta.
Sentímo-nos traidores. Eleitores da escolha para não viver. Arautos de sobrevivência árdua, sabendo de antemão de alternativas.
Sentímo-nos parte do arranjo. Da lógica. Da pior forma de aceitação.
Há demasiado tempo que não consigo confortar aqueles de quem realmente gosto. Especialmente porque a única forma que tenho de o fazer, é gostando deles. Sem dever. Sem missão. Só com vontade.

Quem nos safa senão a diferença?

Um simples ornamento.
Cabelo comprido, olhos escuros e um sorriso rasgado.
Passou e o vento calou-se.
Atrás das lentes, as íris procuravam curiosas uma esperança mal disfarçada de feedback.
E ela olhou e coçou o rosto. Sentiu as marcas que iam para além da pele. Penso que sorriu e olhou para o chão.
Quando as tabuletas apareceram, lá estava ela. Algo gasta, mas firme, a extremidade pontiaguda de madeira indicava a familiaridade de um sentido em cada um dos destinos.
E ela lá ficou. O ornamento voou e os olhos agigantaram-se.
Não li, como nunca faço, qualquer pensamento. Mas adivinhei cada pergunta e aproveitando a redundância de atitudes, questionei-me a mim mesmo.
O tempo que passe trará um outro ornamento.
Mas nunca uma imagem diferente.
E é aí que gosto de pensar. Que ela manteve o sorriso. Que o alargou. E que ao recordar, os passos a conduziram inconscientemente, enquanto a tabuleta caía...
Onde é que se vai buscar tanta energia para contrariar?
Onde é que a independência absoluta ganhou este estatuto divino na récita dos mitos urbano/sociais?
Onde é que se foi angariar fundamentação para o "umbiguismo" dos trejeitos e hábitos?
De que é que tanta gente anda atrás?
O dinheiro tem assim tanta força? Claro que sem ele pouca coisa se faz, mas o processo de substituição começa a bordejar uma lógica de busca infrutífera.
E o mundo dá sinal.
Ouvimos o ecos de sofrimentos surdos e células furiosamente desviantes no tecido social. Deambula-se entre a reacção violenta, ou a tristeza paralisante que arrasta tantas pessoas emersas no pragmático para uma necessidade absoluta do genuíno, do vivo, do presente, do sensível.
Os sinais passam incólumes e sem serem notados.
A depressão, também económica, grassa por todo o lado. Porque de alguma forma toda a gente se recusa a simplificar, criando objectivos que nem sequer estão certos de querer perseguir.
E depois esquecemos a simplicidade.
Esquecemos o que faz falta?
Não. Julgo que não.
Criamos manobras de diversão até rebentar a frágil válvula de contenção.
E depois cresce-se. Depois seca-se.
Depois encolhe-se os ombros, mata-se a vida no rio interno.
Sorri-se, quanto muito, mostrando o sol de uma manhã de puro inverno.
E lá vamos. Pé ante pé.
Prestes a revelar segredos acerca do que queremos, e que ingloriamente julgamos esquecer a cada passada pragmática.
A pertença não é bem uma escolha, julgo eu.
Sei lá... se calhar é.


Saúde do Papa Deteriora-se...

Bem, a minha posição sobre a Igreja católica, especialmente o Vaticano, e provavelmente sobre todas as religiões organizadas em geral é sobejamente conhecida, pelo que não vale a pena, pelo menos aqui, reforçá-la.
Não tenho grande simpatia pelo Papa, especialmente pela sua cruzada moralista e conservadora que caracterizou o pontificado, embora reconheça que é um homem empenhado e que ao contrário de se ter refugiado no palácio dourado do estado-chupista do mundo, viajou e levou a sua palavra além fronteiras, numa demonstração de algum pluralismo. A mensagem que levava era, em alguns pontos, para além do discutível, mas enfim...

Agora falo no homem. Um homem que há muito deveria ter descido do "trono" que ocupa. Eu pergunto-me como raios é que os benvolentes católicos conseguiam ver, uma e outra vez, o sofrimento agudo de um homem sem condições de saúde mínimas, que se exaure em viagens, comunicações e compromissos. É desumano e confrangedor ver aquele homem, nos mais variados púlpitos, a recitar uma ladainha arrastada, em padecimento evidente.
Alguns argumentam que assim o faz porque quer. Bem, isso parece-me um falso argumento, próximo das correntes mais radicais de qualquer religião.
Apesar de não gostar lá muito dele, nem daquilo que representa, o Papa é um ser humano, e como tal, tem direito á sua dignidade, ao recato e descanso dos seus ultimos anos sem estar constantemente lançado num "tour de force" que o mergulha num sofrimento e esforço que custa ver.
Espero que seja desta vez que deixem o homem descansar, e que se acabem as quesílias internas quanto ao sucessor. Ou então talvez só se satisfaçam quando ele sucumbir em plena actividade, o que me parece, no mínimo, macabro e inexplicável.

Carol, meu velho, espero que te deixem descansar. Apesar de tudo, acho que o mereceste.