COMO?
Como é que se consegue não ser suficiente.
Como é que se vive com isso?
Como é que conseguimos enfrentar a ideia de que tudo aquilo que fazemos, baseado numa lógica de positividade e afecto não serve de nada? Como é que se consegue de alguma forma racionalizar que o contributo das nossas acções não produz efeitos a qualquer nível?
Como é que se aprende a não bastar? A ser aquilo que não chega? A não perceber o mínimo sentido para as coisas precisamente porque as reacções dos destinatários surgem absolutamente diferentes daquilo que pedem?
Como é que se interioriza a futilidade dos nossos esforços? Como é que se consegue não ganhar importancia, não importa o esforço, a abnegação, a entrega? Como é que se lida com a indiferença injustificada? Como é que nos tornamos capazes de encarar qualquer generosidade como intrinsecamente boa, mas factualmente inútil?
Como é que conseguimos deixar de sentir alguma vergonha pelo que somos? Pela ingenuidade colocada em cada gesto tendente a dar alguma coisa? Como é que se aceitamos que uma certa linha condutora da vida quotidiana, assente num principio básico de não fazer mal e fazer bem se possível a alguém, seja insignificante?
Como é que deixamos de nos sentir insignificantes? Como é que ganhamos um espaço á base dos esforços benignos, se de alguma forma acaba por nada significar?
Como é que se propaga uma ideia contrária ao neo-realismo feiosos em que vivemos, através do simples acto de querer fazer mais que manter a elegância no contacto? Como é que se faz isso, se existe uma esquizofrenia clara na dinâmica da vivência entre as pessoas?
Como é que ultrapassamos o egoísmo se chegarmos á conclusão de que ele é uma falsa, mas necessária ferramenta de sobrevivência?
Como é que vivemos com o facto de nos envergonharmos por defender algo que parece perdido algures numa moderna e quixotesca cabeça? Como é que aceitamos e não cobramos a nós próprios a imensa tristeza de saber que não somos suficientemente importantes?
Como é que se faz tudo isto?
Como é que aceitamos tudo de todos e não somos aceites por quase nada? Como é que se consegue não ser alvo da mínima contemporização?
Como é que se organiza uma vida? Como é que podemos de alguma forma deixar o mapa para o coração secreto, se somos somente sujeitos à pilhagem e exposição?
Como é que se pode ser tão ingénuo?
Como?
ESTAÇÕES DIFERENTES
"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Stephen King - "Different Seasons"
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