ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, fevereiro 15, 2005

Embora não seja o meu tema preferido nos dias que correm, até porque ando de candeias às avessas com ele e com o conceito que representa, não poderia deixar de dar algumas palavras a abater sobre o amor, e sobretudo, relativamente ao dia de ontem.
Deixando a lenga-lenga de denúncias relativas ao aproveitamente comercial, (com a qual concordo em parte, mas julgo só ter aplicabilidade de nos restantes dias do ano o número de gestos para com a cara metade for zero(!). Quem tiver atenções, neste dia tem apenas mais uma, o que não me parece mal...), há que fazer uma reflexão ao estado do amor nos dias de hoje. O que ele significa. Os problemas que pode acarretar. As dificuldades que parecem disseminadas um pouco por toda a parte.
Sinceramente, julgo que a grande maioria das dificuldades associadas ao amor e á convivência assentam na excessiva complicação. As pessoas tendem a complicar. Pura e simplesmente. Os chamados "complicómetros" carburam demasiado, quando provavelmente a simplicidade é a resposta mais directa. Arranjam-se milhares de desculpas, de pequenos problemas, que quando aliados à reais e necessárias chatices, fazem transbordar o copo. Esquece-se um detalhe importante que mais não é que aproveitar os tempos de bonomia urbana para poder desfrutar da pessoa, rir com ela, e fazer alguns disparates necessários.
No entanto, os sacrifícios com a paternidade, os cansaços multiplicados, a inércia que deles resulta, e uma espécie de regra de conduta "adulta", vão descascando os relacionamentos até que a carne viva que daí resulta se transforma em pequenas mas inumeras feridas. Não há como escamoterar as pressões de uma vida em meio ao frenesim da urbe, é verdade, mas ao contrário do que se julga, a diversão, especialmente aplicada ao amor, também dá trabalho. Não trabalho/sacrifício, mas trabalho na óptica das atitudes, dos esforços, da procura da surpresa e reinvenção do outro. Por vezes um pequeno gesto pode significar um mundo de diferença, e o cansaço não pode ser uma desculpa recorrente. Especialmente porque conduz a uma indiferença, aos dias que passam sem darmos por eles, e depois, instala-se a modorra, e com ela, a procura de coisas alternativas.
O Amor é em si mesmo um amante exigente. É conceito que exige alta e permanente manutenção. Não vive do ar nem dos raios do sol, como as plantas. Necessita que o façam viver em meio á diversão, a um senso de preenchimento e pertença que torna a vida mais engraçada e isto quanto haja alguém com quem partilhar as manifestações de beleza ou alegria que nos estão destinadas. O Amor não é meiguinho nem muito complacente. É um sugador de energia, uma atracção gravitacional da nossa essência única e que se expressa numa irracionalidade invisível, mas que nos condiciona como nenhuma outra. O Amor tem dentes. Garras. Tem um humor sarcástico de ocasionais maus fígados e ondas de ironia, mesmo quando misturado com as tais asas de que tanto se fala.
No Amor temos que se mutuamente como a Amazónia. Conhecidos, mas nunca totalmente explorados ou cartografados, porque a dinâmica da relação amorosa é precisamente ir descobrindo mais um planaltop escondido, mais uma planta rara. E isso só se faz pela simplicidade da abordagem pelo desejo de descobrir, pela ausência de negação ao prazer.
No fundo, para se viver o Amor, tem de se agir amorosamente, actuar no seu âmbito e de acordo com as idiossincrasias que o caracterizam.
Há que mexer o outro. Mesmo quando não parece possível. Porque, por exemplo, quanto mais nos rirmos com aquela pessoa, mais ela vai crescendo no nosso tempo, e nos mostrando mais clareiras escondidas, com a promessa de continuidade.
O Amor nunca está garantido. E é nesse medo doce que reside a sua continuidade.
Pelo menos é o que eu julgo.
Por isso, espero que ontem tenham tido um excelente dia. Uma nova posição sexual, um segredo escabroso, uma marotice compartilhada, um disparate divertido á vista de todos.
Espero que ontem quem ame e tenha companhia tenha descoberto mais um bocadinho, e celebrado por isso mesmo.

Felicidades a todos.
Talvez um dia eu volte a esse clã... Quem sabe?

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