ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, fevereiro 18, 2005

A igualdade entre homens e mulheres, que e meu ver é condição de qualquer regime democrático e baseado nos fundamentos do estado de Direito, é um conceito talk-show.
E porquê?
Bem, porque quando confrontado com plebiscito, as opiniões tendem a limar as arestas farpadas constantes dos choques injustos entre os dois géneros, porque não são apoiados em elementos objectivos da natureza própria de cada um deles. Ao assistir-se a uma discussão entre um grupo de homens e mulheres, como eu ontem tive a opportunidade de fazer, tem-se a noção de que tudo vai bem, e que o esclarecimento quanto às formas de discriminação e promoção de desigualdade dos géneros (entre si) é suficiente para determinar mudanças e reformas.
Mas depois apagam-se as luzes, as pessoas retornam aos seus grupos, á discussão sem o crivo crítico de quem avalia cada palavra dita em público, e as barricadas são erguidas.
Os olhares condescendentes, a avaliação da falta de determinado talento para determinada função ou actividade, as dificuldades de relacionamento, voltam ao discurso como a linguagem de um computador socialmente programado.
As ideias pré-feitas estão lá, na honestidade do instante em que são livres junto de outros.
E depois voltamos ao "talk-show", e o discurso retoma a sua clareza, a cristalina noção de que se é capaz de identificar o que está mal, e corrigir.
A igualdade de géneros tem de ser uma percepção imediata e subtil. Não podemos dar por ela. É como um árbitro num jogo. Se nem sequer dermos pela sua presença, é sinal de que o trabalho está ser bem feito.
Mas a verdade é que as pessoas acabam por alimentar um pouco a fogueira conceptual do feudo a que pertencem. A reeducação necessária para alterar isto parte não do reconhecimento dos problemas do próprio género, mas na capacidade de se colocar na pele do outro. Em ver a medida exacta em que se desconsidera o género oposto pelas suas supostas debilidades historica e socialmente comprovadas. É, no fundo, querer descobrir, e isso vai desde o universo sexual ás idiossincrasias ao nível sensorial e de interpretação de qualquer juízo crítico.
As diferenças existem, e ainda bem. É uma das componentes da sensação de integralidade que o potencial humano encerra. Os contributos de parte a parte, quando juntos, acabam por constituir algo muito mais completo, na realização do potencial humano nas ssua mais variadas vertentes.
Mas tem de se querer. A pressão entre pares tem de deixar de reagir pavlovianamente aos gatilhos sociais de reprovação pela diferença.
E sinceramente, em meio ao desejo de mudar, verifiquei uma grande preocupação em guardar e proteger elementos que contribuem directamente para a desigualdade, mascarados sob a capa do chamado senso comum.
Em suma, a desigualdade é muitas vezes mantida pelos próprios géneros, e mesmo no que diz respeito ao que eventualmente os prejudique.
Muitas mulheres continuam a achar que os homens não realizam as suas tarefas domésticas com o mínimo de competência. Que devem ter um poder económico considerável, ainda que ambição não signifique exactamente realização.
Muitos homens continuam a achar que as mulheres devem refrear a quantidade e intensidade das suas iniciativas, que o facto de tomarem as rédeas das sus proprias vontades, por exemplo, na aproximação ao sexo oposto, deve ser moderado. Continuam a achar que de alguma forma, a sua superioridade sexual ( alguém duvida disto?) lhes confere um certo papel subalternizado nas organizações e instituições.
Para mudar, tem de se querer. Para depois se esquecer, e se tornar natural.
Mas acho que ainda não se quer o suficiente.
E isso é algo triste...

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