ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, março 31, 2005

Eleições "livres"(que piada) no Zimbabwe hoje, e o terrível esclarecimento e restabelecimento da realidade de Darfur ontem. Dá para arrepiar. No primeiro caso, falamos de um país com 80% (sim, não é gralha) de desemprego, uma inflação que cresceu mais de 400% (!) nos ultimos dois anos, e no qual um terço da população está infectada com o vírus da SIDA.
E pergunto-me... onde estão os líderes do mundo livre, tão atentos aos direitos humanos, a ponto de justificar intervenções armadas? Onde estão as necessárias intervenções, especialmente ao nível da observação internacional?
Pois, é uma questão oleosa... ou pensando bem, seca e pouco lubrificada...

quarta-feira, março 30, 2005

VERGONHA
Ontem ficou demonstrado o estado em que está o nosso país. A impunidade com que se cometem crimes, como alguns são claramente filhos da mãe e outros filhos da puta.
Ontem o Administrador da Vicaima mostrou a face do empresário médio nacional. Num simulacro de Avelino Ferreira Torres, o desmascarado importador de madeiras proibidas agrediu um repórter de imagem, proferiu injúrias, e demonstrou até que ponto pode ir o desplante, o descaramento e a falta de consciência.
Ontem as forças de segurança mostraram que, por vezes, tudo o que de mal se diz delas ainda é pouco. O argumento de que nada foi testemunhado em flagrante é uma mentira grosseira e repugnante, quanto mais não seja porque um dos GNR interviu momentos depois para impedir a continuidade da agressão, como foi visível na peça televisiva. Quando um dos repórteres faz um gesto para que o GNR identifique o agressor, ele limita-se a encolher om ombros, na expressão palpalva escondida por detrás do bigode e óculos escuros. Uma vergonha.
Achei especial piada ao facto destes energúmenos mandarem o repórter trabalhar, como se ele não estivesse ali em trabalho, como se a sua função fosse menos digna que a de importador de materiais proibidos por ser um claro atentado à conservação da natureza. Por motivos ornamentais, porra!? Madeira rara da floresta virgem para fazer móveis? É só a mim que isto parece absolutamente injustificável e incompreensível?
Bem sei que os jornalistas nem sempre são o mais imaculado exemplo de ética profissional, e muitas vezes cruzam o risco. Mas alguém viu ali um exemplo disso? Alguém viu ali senão a denúncia á opinião pública de um caso claro de violação da lei que passou impune?
E o melhor é ouvir certos sectores de opinião, que já não surpreendem, desculpar a atitude do administrador e mesmo da empresa...
Que país...
Já agora, a Vicaima e outras que tais que leiam este artigo. Não que lhes interesse, ou que sejam capazes de entender, mas enfim...
Duas excelentes postas do Tchernignóbil, a consultar aqui.

Como eu suspeitei, a
NRA deu uma resposta à altura da sua doutrina "red neck" e belicosa, segundo os quais a melhor decisão é toda a gente andar armada. Assim vive-se num estado de pré-guerra civil, e qualquer problema resolve-se por calibres.

Vão até lá e leiam. Vale bem a pena.

terça-feira, março 29, 2005

Se desejamos que algo seja diferente, por mais ridiculamente óbvio que pareça, só temos de contribuir para isso. Se for na nossa esfera pessoal, tudo o fica estático é produto da nossa inércia.
Os gestos não deve ficar para depois. O tempo não é mais adiante, é agora, desde que exista a motivação.
Porque pode sempre ser demasiado tarde.
E para quê correr esse risco?
Tempos de Ética

Como se pode ler neste interessante artigo do NY Times, parece que o positivismo jurídico dos tempos modernos está a dar que falar. Ao que se julga, as empresas em todo o mundo, mas especialmente nos EUA, estão a dar especial ênfase à ética como elemento necessário no desenvolvimento de qualquer actividade profissional, especialmente desde o escândalo Enron.
Funcionários são despedidos por brechas na ética que, há pouco tempo atrás, e graças a uma lógica quase darwinista, seriam qualificadas de instinto assassino e eficácia. Normalmente dariam direito a bónus, e não ao modelo 346.
Ora, correndo o risco de abusos, como de resto aconteceu com o moço da Boeing ao ser destituído por ter um relacionamento consensual com uma sua subordinada, será assim tão mau que se tenha uma atenção á ética? Será assim tão negativo que as regras criadas sejam mesmo para ser cumpridas?
Claro que o bom senso tem sempre de ter o seu dia de intervenção, mas a lógica da actividade empresarial sem regras ou ética é uma imagem que não deve perdurar nunca com a desculpa de ser um uso do sistema, ou um direito interno e consuetudinário das estruturas produtivas, ao qual a malta fecha os olhos porque, "é mesmo assim".
A ética é para respeitar. Sem puritanismos, sem exageros ou caças ás bruxas. Mas o respeito pelas regras de concorrência, laborais e quejandos é desejável. Mais do que isso, é exigível numa era de informação global.


segunda-feira, março 28, 2005

MAIS FINADOS?

Primeiro o Bloff, agora estes amigos...
Mas que raio aconteceu com a entrada em funções do Governo?
Judith Moore publica "Fat Girl"

Ao que parece, trata-se de uma reflexão ponderada mas brutal sobre o problema do peso na estrutura social, e nas suas relações correlativas.
Volta-se à velha questiúncula que divide a asserção que fazemos dos outros, na sua medida de alma e corpo, e até que ponto o equilíbrio é mesmo necessário.
Seria engraçado colocar esta senhora e Vinicius de Moraes numa mesma sala, discutindo a "Receita de Mulher" deste último. Adoraria ouvir os argumentos de parte a parte.
O problema do culto do corpo é o mesmo do costume. Até que ponto se justifica a necessidade da beleza dita "tipificada"? Mas até que ponto é que esses ideais não povoam os sonhos de todos? Considero a miopia corporal um dos maiores feitos que qualquer pessoa é capaz de executar. Alguém que consegue "olhar" única e exclusivamente para o valor interior de alguém, e ainda assim desenvolver sentimentos e emoções de cariz fortemente psico-sexual, tem a minha mais profunda admiração. Inveja mesmo. Porque tenho de reconhecer a minha limitação, e ter necessariamente de ver uma linha de silhueta numa mente que seja brilhante.
No fundo, como disse a alguém há pouco tempo, "In Media Res".
É aí que está o equilíbrio, e sinceramente, existe uma grande diferença entre a obesidade como questão hormonal, e a obesidade como resultado de uma determinada forma de preguiça. Esta última é inteiramente genuína, mas se for uma escolha assumida, preclude qualquer queixa relativamente aos efeitos da mesma, especialmente de cariz social. Porque quer queiramos quer não, o nosso corpo é também uma forma da nossa identificação enquanto seres humanos. E se é certo que se torna muito mais importante a forma como pensamos e até que ponto somos humanos, a nossa carcaça mortal não é dispensável ou dispicienda. Já a primeira, não depreende uma escolha, e pode ser um terrível fardo. Toda a gente se lembra dos putos gordos da escola e da inclemência que todos tínhamos. A idade pode libertar-nos do preconceito, é verdade, mas as Três Graças não têm o mesmo impacto no nosso mundo moderno. Não mesmo. E embora real, não deixa de espalhar um amargor a injustiça.
O equilíbrio. A medida de reconhecimento do que são os elementos estéticos, numa dose, ainda que mínima. E se a natureza pode ser mais ou menos generosa, há que ter em conta que assim como nos podemos aculturalizar e exercitar o nosso cérebro, o mesmo pode ser feito pelo corpo. E há tanto a fazer, tanto onde se pode chegar...
Tenho assim de dar alguma razão ao Vinicius. Porque assim respondo aos estímulos visuais, embora reitere claramente que substância sem espírito é apenas mais um elemento plástico impressionante, mas não vivo, e como tal, ignorável...
Nada tenho contra o culto do corpo.
Prefiro obviamente o culto do ser total. Até que a fronteira entre o que é pensado e corporizado se perde. Aliás, não se trata de preferir. É uma inevitabilidade...
Acorda-se com boa notícia...

É caso para dizer que o betão, desta vez, não foi armado...

quinta-feira, março 24, 2005

Foi neste dia, em 1989, que o Exxon Valdez espalhou milhões de litros de morte negra pelo Alaska. O mesmo Alaska que a administração Bush condenou a uma morte lenta recentemente ao permitir que sejam feitas extracções de petróleo num dos maiores santuários de vida natural no planeta.
O Jorginho não engana mesmo ninguém, e os americanos vêm, passo a passo, a concretização da sua decisão em dar o comando do mundo livre a uma administração inconsequente e economicamente voraz, liderada por um perfeito idiota.
Mas como dizia Robert E. Howard, desde quando ser doido ou estúpido é impedimento para que alguém se torne líder de homens?


"Não tens idade para essa merda, pá!"

Digo com sinceridade, não sei o que isto quer dizer exactamente. E não é pelo facto de ter visto a versão romanceada da vida de J.L. Barrie, no excelente "Finding Neverland" que ganhei algum síndroma de Peter Pan. Se o tenho, já é pré-existente, e fundamenta-se numa lógica muito própria de fruição da vida no que ela tem de melhor.
As pessoas confundem frequentemente o chamado crescimento com uma secagem interna, uma espécie de código de conduta que as impede de aceder a qualquer loucura, porque se acha que o estágio de vida a tingido só permite a deferência dos gestos brandos. Além de ser uma seca do cacete, deixem-me que vos diga, torna as pessoas cinzentas. Perdem-se as paixões porque já não se tem paciência ou tempo para as perseguir, porque há a porra das fraldas, e dos cortinados e dos jantares com as dentaduras dos sogros. Porque se encolhem os ombros juntamente com uma expressão de encurralamento, como se a vida a partir de um certo estágio fosse definida pelas responsabilidades pragmáticas e uma total ausência da maluqueira necessária para se ser feliz e completo. Para espremer o fruto da vida de forma a valer a pena o suster do seu peso.
Caraças, já não chega termos de viver a vida do Papalagui? Já não chega termos de sobreviver em meio a todas as complexidades de estruturas auto-alimentadoras?Dizia um autor de BD ( sim, essa coisa de putos, ao que ouço para aí dizer) famoso que a imaginação é a última coisa que nos resta antes de nos tornarmos autómatos com a ilusão de que nos auto-dirigimos. E se expressar vivamente a entrega a determinadas paixões é o sinónimo do síndroma do Peter Pan, podem ter a certeza que eu serei o cota que vai aos concertos de t-shirt, sem barriga, e até algo embriagado se isso se justificar. Porque no dia em que não existir nada pelo que ansiar, mas somente uma repetição mais ou menos movimentada do quotidiano, então mais vale dar à sola para a Terra do Nunca, porque esta aqui deixa de ser guarida segura ou satisfatória.
E ao contrário do que se costuma dizer, pela boca dos "adultos", tenham menos juízo!É que a vida não sabe a nada se se transformar nesse nada. E não somos só as nossas missões. Sejamos mães, pais, profissionais ou responsáveis. Nós somos feitos dos nossos disparates, das nossas criações, daquilo que nos distingue dos outros e que por vezes é até demasiado pessoal para fazer sentido.
Não cresçam.
Pelo menos não assim.
Não vale a pena...

quarta-feira, março 23, 2005

Manhã cinzenta.
Que caia um dilúvio nas gretas secas da terra.
Uma perplexidade que vos garanto ser honesta e desprovida ironia, assaltou-me hoje de manhã, ao ver o telejornal.
Ao que parece o papa não estão em recuperação como se pensava, e a saúde deteriora-se passo a passo. No mundo, ouve-se um coro de rezas pelas suas melhoras.
Ora, sendo este um homem supostamente santo, que há uma carrada de tempo que tem o céu garantido, e que será bem melhor que a agonia física que sofre neste momento, porque será este coro de preces fervorosas pedindo as melhoras?
Não estará o papa, de acordo com a própria doutrina da Igreja, prestes a passar para um local e plano de existência bem melhor? Não parece este medo da morte algo incongruente com a dita doutrina?
NY Times de hoje
RED LAKE, Minn., March 22
Before Monday, before his storm of bullets that left 10 people on this Indian reservation dead, Jeff Weise was rarely noticed here. But when he was, people saw a confused, brooding teenager with few friends, a peculiar attraction to Nazism and a lifetime, already, of family troubles.

He was a loner, in part, by happenstance, his parents having vanished from his life because of quieter tragedies. Emily Parkhurst, who like many other residents of the Red Lake Indian Reservation knew nearly everyone killed or hurt in the shootings, said Mr. Weise's father shot himself to death four years ago. Not long after that, Mr. Weise's mother was in a serious car accident that left her using a wheelchair and living in a nursing home.

"It was a lot to handle for a kid with no one to guide him or help him," Ms. Parkhurst said. "Nobody took the time to get to know him either."



Bem, pelos vistos as histórias que antecedem tragédias têm um cunho comum. A miséria humana não raras vezes descamba em violência.
Claro que para certas facções mais conservadoras, isto resolve-se com segurança e vigilância. Pelo afunilamento das liberdades pessoais e direitos cívicos. Os mesmos tipos que no entanto acham bem que se comercialize armas como se fossem pacotes de cereais ou pensos rápidos.
Mas este tipo de coisas resolve-se com educação, com inserção social. Porque a violência na sociedade é nada mais que um produto do seu próprio peso, apoiado nos seus excluídos. Que como cobras, mordem mortalmente quando pisadas.
É o pior massacre desde Columbine, a avaliar pelos jornais norte-americanos. E deve dar que pensar aos defensores da venda liberalizada de armas. E a muito mais gente...
Finou-se... Mas porquê???????????

terça-feira, março 22, 2005

Certo.. É oficial.
Para além dos pipocadores alarves, e comentadores de sala de cinema, duas espécies que nunca mais entram em extinção, surge-me uma nova praga social que é vista com inexplicável simpatia.
A escrita sms e a sua generalização.
Não há coisa mais absolutamente irritante que ver pessoas a escrever num dialecto próprio de alunos repetentes em cursos de terapia da fala aplicada à ortografia.
Ainda posso entender que se escreva nesse dialecto em real cenário de sms, porque estas são caras, e um tipo tem de poupar caracteres para dar recados à malta. Eu pessoalmente fico com vontade de lançar o telemóvel ao rio quando leio coisas como...
"Então bom fdx", ou
"Axo k n vai dar p nos enkontrarms p o kafé".
... mas entendo a política da economia. Afinal de contas, podemos já ter emergido um pouco da crise politica profunda, mas as provas só se verão daqui a uns tempitos.
Agora quando as pessoas escrevem textos inteiros nessa linguagem, seja em carta, post, telegrama, lembrete, panfleto da associação municipal de apanhadores de cães disléxicos, fico com algo parecido a urticária mental. É mais irritante que o Vasco Rato, e porra, isso é ser irritante...
Num país onde se lê pouco, onde se trata a lingua portuguesa a pontapé, é complicado ver mais esta tentativa de golpe de estado ao nosso idioma, disfarçado de linguagem cool porque é usada pela malta jovem numa demonstração da sua capacidade para se unificar e falar a uma voz. Mesmo que essa voz, quando lida em voz alta de acordo com os caracteres utilizados, mais pareça um estrangeiro a tentar falar por detrás de uma parede compacta de gosma.
Sinceramente, e isto não é ser fariseu ou cota, ou seja lá o que for, mas qual é a necessidade de escrever propositadamente mal? Será porque assim qualquer erro de ortografia passa despercebido, porque o autor simplesmente se escuda neste novo dialecto?
Será que as miudas gostam realmente de ler coisas como "Mo-te krida!" ou "éx mto bunita"? Não passará um tipo a figurar no sector dos pacientes de lobotomias mal sucedidas?
Há quem defenda que a sociedade inventa os seus próprios códigos de comunicação, e que essas derivações de linguagem são também a riqueza da cultura de um povo. Bem, a mim irrita-me solenemente, e cheira-me a preguicite aguda, escudada de novidade cool.
Inovação?
Inovação o caraças! Porque a mim não me chateia nada os "bués", os "nices", até mesmo o "ya"entre outras. Foda-xe, quero dizer, foda-se, eu também os utilizo. Mas quando os escrevemos e soletramos, pelo menos que o façamos como deve de ser. É que os calões devem ser respeitados igualmente. Um cu é um cu, não um Ku, grafismo que obviamente está conotado com a designação de uma associação secreta, assassina e xenófoba que claramente não vale um karalho, perdão, um caralho.
E já agora a quem domina e supostamente vai inovando esta linguagem, porque milagre da linguistica é que o "x" tanto vale "s" como "ch" ou "j"? Não parece um bocado promíscua essa utlilização? É porque está ligado aos filmes e material de conteúdo XXX (Xexual, claro....)? É isso?
A escrita sms não é um sinal, mas um furúnculo dos tempos.
Para quando a excisão?
Lisboa é um milagre, quando a luz solar se resolve aliar ao calor. É uma imensa encosta de luz. Um sonho. E um pesadelo. Demasiado grande, a macrocéfala só poderia ser mesmo conotada como mulher, por uma beleza e complexidade que por vezes é indefinível. Especialmente numa mesa no Chapitô, a ver o sol que banha a cidade num beijo lento.
Tenho, como podem ver, uma casa nova.
Porque em certos momentos, mesmo contra a nossa vontade, tornamo-nos mais extensos, e rearranjamo-nos, se queremos de facto sobreviver.
Por ora ficamos assim.
Espero que não afaste a generosa franja de leitores que tem aparecido.
Obrigado pela paciência, mais uma vez.
Em última instancia, quase todas as pessoas tendem a tomar uma decisão de auto-preservação. Seja ela justa ou não, há momentos nos quais nem sequer a nossa consciência entra. Focalizamo-nos em nós próprios e transformamos a energia que nos circunda numa espécie de carapaça omnipresente, onde tudo nos surge justificado.
Torna-se injusto, é um facto, até porque tende-se a trocar as prioridades e a esquecer o valor de certas preciosidades que são, em grande parte, irrepetíveis. Depois damos connosco a tentar experimentar a lógica de tais escolhas, e não há fórmula que as desmonte.
O silêncio mata. Mas no fundo não há grande opção a tomar ou verificar. Se a importância existir, acabamos por tentar preservá-la a todo o custo. Se não existir, reflectimos até que talvez seja tarde demais, e passamos tempos infindos a tentar recuperar aquilo que nunca deveríamos ter deixado ir.
E por mais histórias que ouçamos deste género, o enredo repete-se. E o desfecho é imprevisível, como são as mudanças de maré da pessoa interna. Aquela que poucas vezes aparece, por medo, por fragilidade, mas que constitui o real mundo pessoal.
Aquela que tende a ignorar-se até que o estrago seja demasiado grande para qualquer remédio.

sexta-feira, março 18, 2005

Julgo que podem existir milhares de formas para se lidar com aquilo que nos vai acontecendo. Aquilo que acontece e que nos muda a vida não tem propriamente um arquétipo definido. Não pede opinião. Não faz grandes apresentações. Escorregamos pelos acontecimentos como um reflexo falhado de equilíbrio, conscientes da queda, mas sempre com a esperança de que o impacto não se dará. Claro que quando a dor se instala, e percebemos que a previsão estava certa, a surpresa instala-se sempre. Há algo de estranho e sempre intrusivo na dor pessoal. Aparece, sorri com dentes afiados, deixa as marcas e desaparece, fazendo com que o tempo em que a alojámos pareça sempre perdido, ao contrário de umas quantas e interessantes teorias de construção pessoal.
Tretas.
As dores de crescimento nem sempre são necessárias ou fazem sentido. É ao contrário, por acaso. As dores de crescimento e dita construção pessoal que se justificam como tal são poucas, e têm um sabor misto. E são normalmente aquelas que esquecemos porque as transformamos no esforço necessário para ter atingido alguma felicidade a espaços.
As outras?
As outras ficam, fazem estragos, e desdramatização alguma consegue reparar alguns dos fragmentos que se soltam. Gostaria de dizer o contrário, é verdade, mas nunca recuperamos de algumas coisas. Nunca.
We've come to bring you home
Haven't we, Cassiel?
To cast aside your loss and all of your sadness
And shuffle off that mortal coil and mortal madness
For we're here to pick you up and bring you home
Aren't we, Cassiel?
It's a place where you did not belong
Where time itself was mad and far too strong
Where life leapt up laughing and hit you hear on and hurt you
Didn't it hurt you, Cassiel?
While time outran you and trouble flew toward you
And you were there to greet itWeren't you, foolish Cassiel?
But here we are, we've come to call you home
And here you'll stay, never more to stray
Where you can kick off your boots of clay
Can't you, Cassiel?
For death and you did recklessly collide
And time ran out of you, and you ran out of time
Didn't you, Cassiel?
And all the clocks in all the world
May this once just skip a beat in memory of you
But then again those damn clocks, they probably won't
Will they, Cassiel?
One moment you are there
Then strangely you are gone
But on behalf of us all here
We're glad to have you home
Aren't we, dear Cassiel?

Nick Cave - Cassiel's Song

Faraway, So Close, a Banda Sonora.
Depois de dois anos á procura da mesma, uma alma caridosa vendeu-me um CD em segunda mão em perfeitíssimas condições. O filme, juntamente com o que o precede, foram para para mim uma experiência intensa. A ideia pareceu-me sempre brilhante, e sobretudo, representa o melhor período de Wenders.
A cores ou a preto e branco, que venha a humanidade.

quinta-feira, março 17, 2005

" A thing of beauty is a joy forever"

John Keats
Por lapso, coloquei duas vezes o post relativo a Harper Lee e o seu Atticus Finch.
Mas rapidamente conclui que faz mais sentido deixar assim.
Hoje 27 graus.

Que mais a dizer senão uma prece india por chuva.

A porra é que não sei dançar...
"Mockingbirds don't do one thing but make music for us to enjoy. They don't eat up people's gardens, don't nest in corncribs, they don't do one thing but sing their hearts out for us. That's why it's a sin to kill a mockingbird."




Todos nós, desde garotos até à idade adulta, temos heróis, personagens que nos inspiram e que se alguma forma nos levam a querer ser melhores. Nunca nos conseguimos colocar na pele desses seres porque a insubstancialidade da sua rectidão e coragem parecem intangíveis. Mas tendemos a chegar lá. Da melhor forma que pudermos.
Embora tenha mais alguns, imaginários ou não, Harper Lee mostrou-me uma das mais pungentes e tocantes noções de heroísmo. Ainda por cima na pessoa imaginária que saiu da sua caneta e lhe deu o Pullitzer em 1961.
Nas suas palavras:

"But there is one way in this country in which all men are created equal - there is one human institution that makes a pauper the equal of a Rockefeller, the stupid man the equal of an Einstein, and the ignorant man the equal of any college president. That institution, gentlemen, is a court. It can be the Supreme Court of the United States of the humblest J.P. court in the land, or this honorable court which you serve. Our courts have their faults, as does any human institution, but in this country our courts are the great levelers, and in our courts all men are created equal." - Atticus Finch, o dito herói de ficção, na defesa a Tom Robinson.
"Mockingbirds don't do one thing but make music for us to enjoy. They don't eat up people's gardens, don't nest in corncribs, they don't do one thing but sing their hearts out for us. That's why it's a sin to kill a mockingbird."




Todos nós, desde garotos até à idade adulta, temos heróis, personagens que nos inspiram e que se alguma forma nos levam a querer ser melhores. Nunca nos conseguimos colocar na pele desses seres porque a insubstancialidade da sua rectidão e coragem parecem intangíveis. Mas tendemos a chegar lá. Da melhor forma que pudermos.
Embora tenha mais alguns, imaginários ou não, Harper Lee mostrou-me uma das mais pungentes e tocantes noções de heroísmo. Ainda por cima na pessoa imaginária que saiu da sua caneta e lhe deu o Pullitzer em 1961.
Nas suas palavras:

"But there is one way in this country in which all men are created equal - there is one human institution that makes a pauper the equal of a Rockefeller, the stupid man the equal of an Einstein, and the ignorant man the equal of any college president. That institution, gentlemen, is a court. It can be the Supreme Court of the United States of the humblest J.P. court in the land, or this honorable court which you serve. Our courts have their faults, as does any human institution, but in this country our courts are the great levelers, and in our courts all men are created equal." - Atticus Finch, o dito herói de ficção, na defesa a Tom Robinson

quarta-feira, março 16, 2005

On March the 16th...

"A diplomat is a man who always remembers a woman's birthday but never remembers her age."
Robert Frost

"The older the fiddler, the sweeter the tune. "
English Proverb

"Age is strictly a case of mind over matter. If you don't mind, it doesn't matter."
Jack Benny

"It takes a lot of time to grow young"
Picasso
Já é sabida a preguiça generalizada da qual muita malta padece e que impede que se pegue num livro, jornal ou revista no sentido de aprender ou descobrir alguma coisa. Mas existem fenómenos que levam a incredulidade a extremos complicados. É ler e ainda continuar a não crer...
Sim, bem sei que é talvez pedir demais que se vá buscar inspiração a Edmond Rostand, Drummond de Andrade ou mesmo W.H.Auden para meter conversa com aquela pessoa especial que se deseja conhecer um pouco melhor, mas os serviços de mensagens e cartas de amor/flirt pré - feitas parecem retirados de um filme de terror série Z.
Ao deambular por locais onde estas pérolas abundam, é perceber um novo mundo de comédia, onde o inenarrável espreita a cada esquina, disfarçado de intenção bem humorada que por algum milagre de Santa Joana se pode transformar na frase mágica capaz de virar a face daquela pessoa que interessa.
Se pretende passar por humor não estratégico, a coisa ainda piora...
Vejamos alguns exemplos magníficos, e tentemos dissecá-los...

1 - "Oi! O seu pai é um pirata? é que você é um tesouro... "
Repare-se aqui na brilhante e inédita metáfora a relembrar R.L. Stevenson. Se bem que sendo "A Ilha do Tesouro" um romance juvenil, é bom que a PJ não esteja á escuta...

2 - "Tu és uma estrela que caiu do céu e para la não voltas mais, pois estás ao meu lado onde brilhas muito mais "
Máxima certamente submetida por um apoiante da expansão do mercado ibérico da energia e consequente fim do monopólio da EDP, onde a rima auto confiante brilha como a árvore de Natal que recentemente esteve junto ao CCB.

3 - "Vem me resgatar meu amor, meu amor, meu principe. Tu podes nem saber mas tu és o meu principe encantado e eu estou pronta para ser a tua Cinderela, tua princesa dedicada e apaixonada..."
Aqui está mais elaborada a ideia. Primeiro, note-se que a pessoa em causa tem claramente uma preferência pelo sangue azul e mostra-se desencantada com a estrutura republicana/constitucional do nosso Estado. Depois remonta ao clássico de Perault, cuja inspiração original remonta ao conto popular registado por Giambattista Basile denominado "La Gatta Cennerentola". Duas buchas certeiras. Um bom partido, aristocrata, e com conhecimento de literatura do Sec. XVII. Só se vislumbram coisas boas para o utilizador desta ferramenta...

4 - "O teu pai deve ser terrorista... Saiste cá uma bomba! "
La piece de resistance. Domínio da actualidade internacional aliado a uma noção de que o objecto de desejo dificilmente tratá os problemas inerentes á convivência mais longa, já que se aprestará a explodir mais cedo ou mais tarde. Como os autores destas coisas, de preferência...

5 - "Se a tua perna esquerda fosse Sexta-feira e a tua perna direita fosse Segunda-feira, que belo fim-de-semana eu passaria."
Para médicos. A especialidade é que me recuso a referir, sob pena de ferir a subtileza comovente desta máxima de conquista.

Já lá dizia o Cardeal Gonzaga, como é diferente o amor em Portugal....
16 de Março...

- Em 1850, Nathaniel Hawthorne publica "A Letra Escarlate". Passada na America puritana, a intriga assenta numa exploração da culpa e do legalismo em detrimento das realidades humanas intrinsecas á vida em sociedade. É considerada uma das obras de referência da literatura norte-americana, embora o filme com a Demmi Moore seja uma pessegada completa...

- Em 1926 nascia Jerry Lewis, um dos reis da slapstick comedy. Durante a sua carreira acabaria por sofrer um acidente num dos seus gags físicos, o qual quase o deixaria paralisado, e com dores nas costas para o resto da vida. Participou em quase 50 filmes, alguns deles bem presentes na nossa memória. Jim Carrey é claramente o seu sucessor na comédia física e expressional.

- Nasce uma das melhores e até mais assustadoras actrizes da cena contemporânea - Isabelle Hupert, capaz de transformar um olhar dengoso em puro gelo, para depois cair em delírio, e sempre de forma convincente. Genial, multifacetada, talvez a actriz francesa mais renomada e reconhecida da actualidade. E com justiça, diga-se. Ainda tenho na memória a sua hilariante composição em "8 femmes" de François Ozon.

- Em 1898 morre Aubrey Beardsley, ilustrador de obras, entre outros, de Oscar Wilde. Autor de gravuras a tinta negra, ilustrou (de forma fantástica e hilariante) igualmente uma versão de da peça erótica e de sátira social de Aristofanes - Lisístrata.Ver aqui algumas das suas obras.

- Em 1521 Fernão de Magalhães chega às Filipinas, onde viria a morrer na batalha de Mactan, ás mãos de indigenas. Embora Magalhães nunca tivesse completado a circunavegação, 52 dos seus homens conseguiriam chegar a Espanha, em 1522, completando assim a volta ao mundo.

- Em 1916, é criado o Ministério do Trabalho.

- Em 1825 nasce Camilo Castelo Branco, em Lisboa. Dos mais desgraçados e brilhantes escritores portugueses.


No dia 16 de Março, o sol nasceu tímido e as nuves resolveram passear com pés de gente junto às estradas e caminhos. Alguém anunciou a vida de calor, de temperaturas que sobem, apesar do cinzento do céu.
Talvez augúrios bons. Esperemos que sim. Para além da seca e da hecatombe política da qual esperemos estar agora a emergir, existe todo um mundo de pessoas individualmente consideradas. Toda uma expectativa. Todo um mundo lá fora. Cheio de gente.
Vamos a ele.

terça-feira, março 15, 2005

Morte assistida pode de facto ser um direito. Daqueles que não têm outra solução senão enfrentar um destino lento e horrível, e decidem que não querem senão apressar aquilo que é já inevitável.
A Eutanásia está na ordem do dia. Gera discussões acaloradas. E entende-se que seja difícil tomar uma posição clara sobre o assunto.
No que me diz respeito, desde que haja lucidez para escolher, e a condição física seja de tal forma extrema que o justifique, não vejo a razão pela qual se deve prolongar um sofrimento excruciante até que o corpo expire por si.
Não menosprezando os cuidados paliativos, a verdade é que existem realidades nas quais, por exemplo, as pessoas vivem um pesadelo consciente de imobilidade, solidão e total falta de esperança, já que o corpo nunca mudará de situação.
Não haverá um direito a dispor da própria vida, quando esta se torna uma jornada de agonia constante? Os analgésicos não têm o condão de apagar a consciência. A mente presa dentro de um cofre orgânico que se vai deteriorando até ao impensável. Não sei, nem desejo saber, mas caso fosse comigo, penso que preferiria saber que poderia dispor da minha própria vida, caso o desejasse ...
Claro que é uma discussão a ter de forma profunda e ponderada, e ouvindo especialmente aqueles que alguma vez desejaram ou tiveram parentes que recorreram à morte assistida. Porque são esses que podem providenciar todos os argumentos pertinentes. É o que se chama reflectir com conhecimento de causa, creio eu...
As promessas que fazemos todos os dias, as resoluções e todos os elementos de decisão que determinam os nossos passos têm uma lógica muito própria.
Porque ao longo do dia cremos nelas com intensidades diferentes.
Às sete e cinquenta de uma manhã de sol somos capazes de esquecer tudo. De por para trás das costas todas as vulnerabilidades e mistificações da nossa estrutura affectiva e sensorial.

À hora do almoço o sol ganha o meio do céu e tudo é sujeito a uma escolha. Damos por nós a verificar que o esquecimento afinal não apareceu, e que mais vale fazer a triagem daquilo que pode ficar para trás. O peso da primeira metade do dia de trabalho assenta num misto de fome e expectativa pelo decorrer do tempo. Sente-se aquela pequena e omnipresente perda de um dia irrepetível.

Quando a tarde se instala, e a luz começa a fraquejar, uma salada de sensações começa a instalar-se na cabeça. O esquecimento prova-se, ou desmistifica-se, já que é nesta altura que as saudades seja lá do que for se instalam. O cansaço torna-nos mais analíticos, por um lado, mas monta a primeira tenda de resignação no que ficou para trás, perdido no deserto das decisões adiadas. E então podemos apreciar a luz que cai em cascata vermelha no céu, e reparar nos recortes de tudo o que significa o retorno ao tempo que é nosso. Aguçam-se os amores, fazem-se as chamadas, encontram-se aquelas deixas perdidas para a continuidade de uma história.

À noite aparece tudo quanto existe. As promessas escudam-se para dormir, ou estão realizadas. Tudo estremece. Tudo é um manancial apurado de emoções contraditórias, porque o dia finda, e algumas coisas ameaçam os sonhos, ou mesmo o dia seguinte. Mantemos a esperança intacta que o sono não mais é que a antecâmara de certas realizações.
E sonhamos com elas.
Com sorte, que raramente há, até passam á realidade.
Ontem encontrei uma velha amiga dos tempos de faculdade.
Uma pessoa com quem já não falava há muito tempo, mas que conservou a frescura que os anos de trabalho subsequente não lhe conseguiram retirar. Alguém que mostrou o mesmo gosto pela vida, a mesma noção de que andamos cá para viver o mais que pudermos.
A mesma facilidade no riso, a mesma simpatia e inteligência aguçada.
É sempre bom reencontrar amigos que desta forma nos demonstram que não nos esqueceram. São pessoas que até se podem afastar por razões que a vida pragmática determina, mas que ainda assim quando retornam, demonstram que estiveram apenas alguns minutos afastadas.
Foi bom ver uma pessoa que após mil e uma chatices, conseguiu encontrar um equilibrio que lhe permite viver a vida de uma forma consentânea com os seus desejos. Sem grandes filmes e voracidades próprias desta febre meritocrática.
Marta, foi uma lufada de ar fresco rever-te.
Que continue tudo a correr pelo melhor.
Já é mais que merecido. :)

segunda-feira, março 14, 2005

Ameaça de chuva.
Que venham monções de proporções bíblicas.
Se tiver de ser...
Grande...

... grande, grande Clint, Hillary e Morgan...
Fui ver o fantástico Million Dollar Baby este fim de semana, e devo dizer que, embora não tenha visto alguns dos oscarizados, o prémio parece-me tremendamente bem atribuído.
Este filme, uma absoluta pérola, tem o condão de mostrar até que ponto alguém pode circundar em volta de temas complicados, como a dor extrema, a recordação, a inquetude de um passado que não se torna isso mesmo, a injustiça, o triunfo, a perseverança, o desencanto, a maldade. Embora haja quem discorde de mim, certamente, este filme é inteiramente acerca da maldade e da violência, e curiosamente, a pior de todas é precisamente aquela que se passa fora do ringue. Aquela de que todos são capazes por apenas um detalhe, se apenas um pequeno elemento se tornar uma realidade no esquema da vida de cada um.
Fala igualmente do triunfo, daquilo que nos pode levar a chegar mais adiante, da irreprimível capacidade do espírito humano em resistir. Fala igualmente do amor, da suprema capacidade que este tem em imbuir-nos de uma coragem sobre-humana, para fazer aquilo que talvez ninguém seja capaz. Fala da incondicionalidade, da dedicação para além do ditado pelas comodidades da dinâmica relacional entre as pessoas. Fala em ir mais além, em estar onde somos necessários, em amar com tudo o que temos sem os floreados da intenção elegante. Fala também da morte, da dignidade da mesma, de escolhas terríveis, da capacidade de amar para além, e através dela.
Como se vê, este filme fala de tudo, e ainda por cima, é magistralmente realizado e intepretado. Morgan Freeman, um dos meus favoritos de sempre, vê aqui recompensada uma interpretação inesquecível e apenas precedida de vários triunfos merecedores de um reconhecimento que lhe escapava há demasiado tempo.Clint, obrigado por transformares a minha ida ao cinema numa experiência...
"Mo cuishle." It means "my darling. My blood."
"I have no one but you Frankie...""Then you've got me..."
...inesquecível...

sexta-feira, março 11, 2005

A teimosia dos nossos amores é a descoberta da sua repetição
Se recordamos ou descobrimos, é sempre afeição
E de de alguma forma eles nos surpreendem
E em formas elípticas nos fazem voar
Mais vale aceitar que sempre existem
Feitos má notícia, sempre que se fazem notar.
Tenho de decorar isto, se algum dia quiser vir a ser pai. É a cartilha necessária, e digam-me lá o que quiserem, ninguem me convence do contrário....

"Yet here Leartes? aboord, aboord, for shame,
The winde sits in the shoulder of your saile,
And you are staid for, there my blessing with thee
And these few precepts in thy memory.
Be thou familiar, but by no meanes vulgare;
Those friends thou hast, and their adoptions tried,
Graple them to thee with a hoope of steele,
But do not dull the palme with entertaine,
Of euery new vnfleg'd courage,
Beware of entrance into a quarrell; but being in,
Beare it that the opposed may beware of thee,
Costly thy apparrell, as thy purse can buy.
But not exprest in fashion,
For the apparell oft proclaimes the man.
And they of France of the chiefe rancke and station
Are of a most select and generall chiefe in that:
This aboue all, to thy owne selfe be true,
And it must follow as the night the day,
Thou canst not then be false to any one,
Farewel, my blessing with thee."

Polonio a Laertes - Hamlet - W. Shakespeare
Porque somos o que fazemos.... também...


"They That Have Power

They that have power to hurt, and will do none,
That do not do the thing, they most do show,
Who moving others, are themselves as stone,
Unmoved, cold, and to temptation slow:
They rightly do inherit heaven's graces,
And husband nature's riches from expense,
They are the Lords and owners of their faces,
Others, but stewards of their excellence:
The summer's flower is to the summer sweet,
Though to itself, it only live and die,
But if that flower with base infection meet,
The basest weed out-braves his dignity:
For sweetest things turn sourest by their deeds,
Lilies that fester, smell far worse than weeds."

William Shakespeare


quarta-feira, março 09, 2005

Dizem que a sociedade esta pejada de sexo. Por todo o lado, em todas as circunstancias.
Ora, a mim parece-me que isso pode ser encarado de duas formas.
Por defeito, ou excesso, de quem o vê, pratica, ou deseja.
Sinceramente, penso que embora se fale muito nele, há pouco sexo na sociedade, no seu quotidiano e no funcionamento do mesmo. E isto porque se vê pouca alegria em situações onde poderia haver pelo menos alguma. Porque o mau humor no trânsito matinal talvez não tenha necessariamente a ver com pouco sono, mas talvez o que conduziu ao mesmo, que não terá sido o que deveria.
Porque há uma avidez clara em ver o conceito, nem que seja de longe. E desengane-se quem pensa que esse fenómeno se resume a uma lógica de género... As mulheres há muito, ou na minha opinião, desde sempre que marcaram a sua posição na linha da frente desta matéria.
Por isso, náo concordo com esse grito de Aqui Del Rei.
Sinceramente, acho que há pouco sexo na sociedade. Como há pouco afecto, preocupação e iniciativa para com os outros. Assim como há pouca vontade de combater um certo comodismo.
Sexo a mais é uma contradição em termos...

terça-feira, março 08, 2005

Mulheres


Bem, pelo teor deste blog, não é surpresa nenhuma que são conceito que raramente abandona a minha esfera de cogitação. E bem sei que algumas pessoas julgam este dia como uma espécie de benesse condescendente, o que não me parece de forma alguma o caso.

Existe efectivamente desigualdade no mundo presente, e alguma dela até mesmo mantida pelas próprias mulheres relativamente às suas congéneres. E essa desigualdade tem de terminar, não significando obviamente a renúncia do direito á diferença que caracteriza ambos os universos de género.

As mulheres são uma unidade conceptual complexa, cheia de caminhos intrincados e fenómenos de sensibilidade. São uma unidade feita de silhueta que nos melhores casos se mistura com a essência interna até que uma coisa não seja passível de distinguir da outra. São a expressão máxima da sensualidade, porque a natureza assim as criou, e muitas vezes não têm a noção da forma como podem ser enaltecidas na imaginação da "parte contrária".

Sim, são a expressao máxima do sexo, ou não tivessem mais vinte e tal zonas erógenas que os homens, e fossem dotadas de um órgão cuja unica finalidade (que sorte!) é precisamente a estimulação e criação de prazer. Além disso, são multiorgásmicas e possuem um contorno de harmonia que, quando existe, é insuperável. São o contraponto de mistério necessário, por vezes enredado em demasiada complexidade auto infligida. São afinal de contas, a outra metade da sociedade, do mundo, e a fundamentação para uma série de comportamentos e criação artística.

O dia da mulher não significa condescendência, mas o reconhecimento da necessidade de tratar de forma igual o que é igual (direitos e deveres sociais, jurídicos e políticos) e de forma diferente o que é diferente (o direito e a necessidade da diferença para que sejamos todos mais completos). Mães, namoradas, amigas, amantes, eudcadoras, seja lá quem forem, no dia em que a igualdade perante o Estado de Direito for efectiva, então justifica-se o fim deste dia. Até lá, recorda-se a metade do mundo que tem direito a isso mesmo. A ser metade. Nem mais nem menos. Igual.

segunda-feira, março 07, 2005

As mulheres odeiam a insegurança. Mas pedem sensibilidade.
Odeiam fraqueza ou vulnerabilidade. Mas pedem acessibilidade.
Odeiam obstinação. Mas pedem dinheiro e poder.
Odeiam cabotinismo. Mas pedem uma assumpção clara das qualidades, envoltas numa espécie de segurança blaze, como alguém que é demasiado modesto para saber que é perfeito. (*)

Além de não ser fácil, é cansativo, e mesmo injusto. Porque sinceramente, nunca achei as inseguranças de alguém como uma espécie de alvo a abater. Fazem parte daquilo que há de mais íntimo, e que quando confiado a alguém, deve ser tratado com o máximo cuidado, tentando ajudar ao máximo. Mas essa não é claramente a visão do sucesso requerido. E é por isso que por vezes temos tantas demonstrações de força que não passam de ataques perante a necessidade imperiosa de defesas...
Ainda vou pensar melhor sobre isto...
Mas o que vejo não me deixa total ou exactamente satisfeito...
Sinceramente.





(*)Nas palavras da Andie Macdowell no excelente "Groundhog Day" ( uma sequência de tentativas de suicídio e uma fuga de carro absolutamente hilariantes...)
Tendo andado este Sábado na noite lisboeta, e depois do encarceramento forçado anteriormente referido, é engraçado verificar como não é possível estabelecer um padrão de coisa alguma.
Em Lisboa, raras são as pessoas e os locais onde a malta se junta para interagir. Amontoam-se para se observarem, para dardejar olhares curiosos ou simplesmente cheios de intenção qualificativa, mas fica-se por aí.
Talvez porque se identifique a interacção com uma espécie de rótulo de contacto necessariamente sexuado. Se for consensual, porque não? As pessoas devem sempre ter a satisfação inerente á sua liberdade pessoal, e consigo imaginar coisas bem piores que encontrar alguém que até nos provoca alguma coisa e nos leva seja a que experiencias for.
Mas caraças, é possível interagir. Trocar algumas palavras, ou quem sabe, iniciar seja lá o que for. Não é?
Seremos sempre mandatários do estigma social que identifica a noite como uma antecâmara de espécies complicadas de entrega? Algumas até confundidas com desespero?
Noutros países onde estive, especialmente Espanha, a coisa não se passa assim. Há de tudo, e as pessoas interagem nessa perspectiva. Aquela que simplesmente diz, "vamos ver que pasa..."
Acho que o termo é este:
Em Portugal falta descontracção e sobeja pré-intenção.
Depois de três semanas enterrado em trabalho até ao pescoço, eis-me de volta ao mundo dos vivos.
Tantos filmes para ver, tanto para ler, tanto para ouvir, e sobretudo, tanta companhia para desfrutar.
Dificuldades à parte, e acreditem que são muitas, é sempre possivel simplificar as situações, com base na ideia de que é possível pegar pelo melhor, pelo mais prazenteiro. Bem sei que muita gente adora chatear-se por dá cá aquela palha, e que encontra na embirração uma génese para recortes de feitio e personalidade, mas sinceramente, não há paciência para tanta auto embirração.
Se nos podemos rir, para quê colocar um chapéu negro na cabeça, que nem sequer protege do sol?
Optimismo imbecil? Talvez.
E creiam-me, a esta altura, não há muita justificação para tal.

sexta-feira, março 04, 2005

Tirando a lata descomunal de Santana Lopes em voltar á Câmra Municipal de Lisboa ( há pessoas cuja falta de vergonha é embraraçosa até para os observadores), não há nada a registar hoje senão o brilho do sol e o corte laminar do frio.
errado.
Há o mundo inteiro. Há a promessa de sexta feira. Existem as solidões alheias e os entretenimentos da cultura.
Sim, há um mundo inteiro.
Vamos a ele?
MY PHOTOBLOG
Porque ninguém vive de palavras, e como semi-voyeur confesso da multiplicidade de fenómenos da vida em geral, criei um photoblog, ou em português, fotoblogue, aqui.
Só me falta a máquina digital, que está por dias, para deixar as imagens "emprestadas", para passar ás próprias. E há tanto que ver... excepto o autor, claro.
Até breve... aqui ou lá.

quinta-feira, março 03, 2005

No dia 3 de Março de 1923, nascia a revista TIME.
Que bom seria que o tempo ao nascer para todos, se mantivesse assim ao longo de tantos anos. Estático e mergulhado na qualidade...
Nunca li nada deste senhor , mas depois de ler o artigo de Gore Vidal sobre ele, tenho de confessar que me despertou a curiosidade... Se bem que a avaliar pelos avisos, vou deixar para dias mais soalheiros, pois a minha reserva de serotonina anda muito baixa...
O perigo vem novamente do Oeste...

"Quietly though, a few districts around the country, from Indiana to Connecticut to Long Island, have begun to integrate breath-testing devices into the regular school day, a move that adds a new wrinkle to the ongoing struggle between students' privacy rights and a school's duty to limit drug and alcohol abuse. "

Bem, sou só eu, ou isto tem uns contornos muito Orwellianos para o meu gosto?...

Se bem que o direito á privacidade nos EUA ameaça tornar-se cada vez mais um luxo e não uma prerrogativa absoluta da cidadania livre e própria de um Estado de Direito...
Já não surpreende, mas assusta sempre...

quarta-feira, março 02, 2005

Vamos até onde podemos.
E acho que é precisamente por isso que existe um esforço tão grande em relativizar tudo. Desde perspectivas a valores. Porque falhar é o posicionamento da primeira, face ao enquadramento do segundo. Ser bem sucedido é exactamente a mesma coisa.
É por isso que vamos até onde podemos. É por isso que a real bondade, é sempre a possível.
É por isso que se calhar não devemos ser as melhores das pessoas, mas as melhores pessoas possível.
Digam o que disserem, certas coisas nunca saem de moda, mesmo que sejam só confessadas quando o exosesqueleto de pretensa elegância está pendurado no cabide.
No fundo, esse é que só vão até onde podem. E não raras vezes, podem muito pouco.
O cinismo puro é uma estrada sempre muito curta.
Rain

It's hard to listen to a hard hard heart
Beating close to mine
Pounding up against the stone and steel
Walls that I won't climb
Sometimes a hurt is so deep deep deep
You think that you're gonna drown
Sometimes all I can do is weep weep weep
With all this rain falling down

Strange how hard it rains now
Rows and rows of big dark clouds
When I'm holding on underneath this shroud
Rain

Its hard to know when to give up the fight
Two things you want will just never be right
Its never rained like it has to night before
Now I don't wanna beg you baby
For something maybe you could never giveI
'm not looking for the rest of your life
I just want another chance to live

Strange how hard it rains now
Rows and rows of big dark clouds
When I'm holding on underneath this shroud
Rain
Strange how hard it rains now
Rows and rows of big dark clouds
When I'm holding on underneath this shroud
Rain
Strange how hard it rains now
Rows and rows of big dark clouds
When I'm still alive underneath this shroud
Rain
Rain
Rain

Patty Griffin - "Rain"
A Kiss in Time

Ouçam esta música...
Só vos digo isto...
Quando nos ausentamos do mundo, ele não nos perdoa.
Porque é ciumento, porque se move adiante sem nos pedir licença
Porque ainda tem riso no ar e deixa de nos ligar
Quando nos ausentamos do mundo, e sentimos a falta das suas faces
Tentamos tornar-nos em linhas e fios do se tecido
Para que não fiquemos mortos vivos num conceito esquecido
E quando dou por mim a ver o retorno ao longe
Como se ele me chamasse em metáforas de alegria perfeita
Temo pelo fim do meu uso, a minha utilidade circunscrita
Porque não faço ideia se sou o que faço, ou porque o faço
Mas quando me tive de ausentar do mundo
Esperei sempre que ele não roubasse o meu pequeno espaço.
Depois de assistir à salganhada de sermões mal disfarçados que foi o debate sobre Maria Madalena na RTP 1, especialmente pelo nosso amigo César das Neves, que tem um desejo fervoroso de pregar, surgem algumas perguntas que me parecem pertinentes:
- De que cor ficou a face e barba do nosso César quando um dos interveninentes, sacerdote de profissão e vocacão, falou contra a lei do celibato e deu o dito por não dito quanto ao preservativo?
- Onde estavam os representantes da tal minoria que pelos vistos deu origem a tanta má informação relativamente aos evangelhos e sua aplicabilidade à doutrina social da Igreja?
- Quando César das Neves falou das vidas perdidas e do sangue que as pessoas ligadas á Igreja tinham dado e sacrificado para conseguir levar a mensagem de Cristo até aos tempos modernos, será que se esqueceu do sangue que a Igreja derramou em quase quatro séculos de impunidade social, de torturas, perseguições, castramento ao conhecimento e evolução, sonegação dos recursos informativos, segregação social, racial, exploração económica das populações mais frágeis, etc, etc, etc...?
Pois... essas ninguém perguntou... Faz pensar naquelas merdas do contraditório, e tal, e o camandro...
Aumento de consumo dos enganadores de infelicidade preocupa o país


Bem, sendo esta uma preocupação em termos de saúde pública, será no entanto descabido temer o que a origina?
Estamos a falar da subida exponencial de uma classe de medicamentos para o combate às chamadas "doenças psicológicas", que derivam normalmente de traumas, sofrimento psicológico intenso, e ansiedade. Algo que, e aqui os peritos poderão desmentir-me à vontade pois falo baseado apenas em análise empírica do quotidiano circundante, dá uma mensagem clara e alarmante acerca das condições a que nos colocamos uns aos outros nas relações sociais e afectivas.
Os factores de pressão são imensos, e a ânsia de chegar a qualquer lado ou local, mesmo que não se saiba bem qual é, provoca desiquilibrios perigosos, embora a mentalidade nacional ainda considere o sofrimento psicológico como uma coisa de "malucos" e "desilquilibrados", ou pior, uma mariquice perfeitamente resolúvel com uma boa dose de dobrada e seis ou sete imperiais. Aliás, em Portugal associa-se qualquer maleita á falta de desejo e concretização pelo alarvamento alimentar. Especialmente o mental ou psíquico.
Mas as informações estão aí. E o tecido social estala, volta e meia, porque as pessoas só prestam atenção ao acumular de sofrimentos quotidianos, quando normalmente é já tarde para os remediar.
Sinais dos tempos, ou tempo para prestar atenção aos sinais?
Façam as vossas escolhas...

terça-feira, março 01, 2005

Dizem que quem dá, fá-lo porque quer, e não pode exigir de volta.
Uma merda.
É precisamente porque se querer dar, que se pode exigir.
Só quem dá para poder exigir, é que não o pode fazer.
Porque os que desejam dar, exigem na medida da necessidade que têm do afecto e suas demonstrações, porque de alguma forma já se renderam ao seu objecto de desejo e emoção.
Isto é assim tão difícil de perceber?
Não.
Mas pouca gente o demonstra.
Os umbigos andam saturados de guarda-chuvas e mimo...
"Clementine: Joel, I'm not a concept. Too many guys think I'm a concept or I complete them or I'm going to make them alive, but I'm just a fucked up girl who is looking for my own peace of mind. Don't assign me yours.
Joel: I remember that speech really well.
Clementine: I had you pegged, didn't I?
Joel: You had the whole human race pegged.
Clementine: Probably.
Joel: I still thought you were going to save me. Even after that. "

Eternal Sunshine of The Spotless Mind


Sem dúvida Joel... sem dúvida...
Conheço essa teimosia apenas bem demais... E a vida não sabe a nada sem ela, ainda que ocasionalmente.
Frase do filme que ganhou o melhor argumento original (maravilhoso!) "Eternal Sunshine of The Spotless Mind", e que se tornou para mim um modo ou lema de vida, como preferirem. Como deveria ter sido desde sempre...

"I'm telling you right off the bat I'm high maintenance."

Clementine, obrigado pela insofismável dica!
Um beijo a um conceito pelo qual é possível apaixonarmo-nos.