Ao que parece, trata-se de uma reflexão ponderada mas brutal sobre o problema do peso na estrutura social, e nas suas relações correlativas.
Volta-se à velha questiúncula que divide a asserção que fazemos dos outros, na sua medida de alma e corpo, e até que ponto o equilíbrio é mesmo necessário.
Seria engraçado colocar esta senhora e Vinicius de Moraes numa mesma sala, discutindo a "Receita de Mulher" deste último. Adoraria ouvir os argumentos de parte a parte.
O problema do culto do corpo é o mesmo do costume. Até que ponto se justifica a necessidade da beleza dita "tipificada"? Mas até que ponto é que esses ideais não povoam os sonhos de todos? Considero a miopia corporal um dos maiores feitos que qualquer pessoa é capaz de executar. Alguém que consegue "olhar" única e exclusivamente para o valor interior de alguém, e ainda assim desenvolver sentimentos e emoções de cariz fortemente psico-sexual, tem a minha mais profunda admiração. Inveja mesmo. Porque tenho de reconhecer a minha limitação, e ter necessariamente de ver uma linha de silhueta numa mente que seja brilhante.
No fundo, como disse a alguém há pouco tempo, "In Media Res".
É aí que está o equilíbrio, e sinceramente, existe uma grande diferença entre a obesidade como questão hormonal, e a obesidade como resultado de uma determinada forma de preguiça. Esta última é inteiramente genuína, mas se for uma escolha assumida, preclude qualquer queixa relativamente aos efeitos da mesma, especialmente de cariz social. Porque quer queiramos quer não, o nosso corpo é também uma forma da nossa identificação enquanto seres humanos. E se é certo que se torna muito mais importante a forma como pensamos e até que ponto somos humanos, a nossa carcaça mortal não é dispensável ou dispicienda. Já a primeira, não depreende uma escolha, e pode ser um terrível fardo. Toda a gente se lembra dos putos gordos da escola e da inclemência que todos tínhamos. A idade pode libertar-nos do preconceito, é verdade, mas as Três Graças não têm o mesmo impacto no nosso mundo moderno. Não mesmo. E embora real, não deixa de espalhar um amargor a injustiça.
O equilíbrio. A medida de reconhecimento do que são os elementos estéticos, numa dose, ainda que mínima. E se a natureza pode ser mais ou menos generosa, há que ter em conta que assim como nos podemos aculturalizar e exercitar o nosso cérebro, o mesmo pode ser feito pelo corpo. E há tanto a fazer, tanto onde se pode chegar...
Tenho assim de dar alguma razão ao Vinicius. Porque assim respondo aos estímulos visuais, embora reitere claramente que substância sem espírito é apenas mais um elemento plástico impressionante, mas não vivo, e como tal, ignorável...
Nada tenho contra o culto do corpo.
Prefiro obviamente o culto do ser total. Até que a fronteira entre o que é pensado e corporizado se perde. Aliás, não se trata de preferir. É uma inevitabilidade...
Sem comentários:
Publicar um comentário