Ontem à noite tive mais uma revelação, e novamente pelas parcas mas significativas palavras do meu irmão.
Falamos de uma pessoa que experimentou toda a espécie de sucesso pessoal que se possa imaginar, e com todas as possibilidades de voltar a esse patamar. Mas é engraçado verificar como uma pessoa que a espaços se afogou tanto na meritocracia, mostra agora a prevalência das suas prioridades, a rendição à necessidade dos afectos e ao poder da felicidade possivel e quotidiana. Comp pude ler das suas palavras mais ou menos tristes e cansadas, mas tão sinceras, como andamos todos a bater a portas em endereços que desconhecemos. Como normalmente, e em nome da perseguição de um qualquer ideal exteriorizável, abdicamos da dimensão pessoal e da simplicidade dos prazeres que fundamentam o facto de andarmos cá. De nos levantarmos de manhã. De procurarmos nas exteriorizações de outros, os reflexos dos nossos estados de alma, e como o transformamos em prazer.
No New York Times de há uns dias atrás, na secção do Sunday Book Review, Charles McGrath dizia que Ian Mcewan era "A Literary Star Who Finds Art in Happiness, Not Pain", como é o aparente apanágio deste neorealismo confuso em que vivemos emergidos. Eu julgo que este tipo de ideias é precisamente o conceito que está em deficit.
A malta anda a esquecer-se de rir, de procurar o prazer das pequenas e grande coisas, substitui a estruturação do amor por planos de vida (coisa tenebrosa que normalmente envolve mais contas que a arte de contar a dois, ou três ou seja lá como ou com quem for).
Mas sobretudo questiona-se a cada passo, na tentativa desesperada de afastar um tédio sem causas ou paixões, acerca da sua ansiedade, da procura de algo cujo contorno é desconhecido, ou estão simplesmente oculto em meio a tantas coisas práticas.
No fundo, andamos a esquecer-nos uns dos outros, enquanto procuramos meios que nos permitam, segundo a crença reinante, retornar devidamente preparados para junto da congregação á qual queremos pertencer. Criamos uma estrutura para que depois nos seja possível amar, confraternizar, descobrir, viver, saborear. O problema é que a mais das vezes, acaba por ser tarde.
E sinceramente, a ideia do sacrificio imediato e quase aboluto, para que a caminho da meia idade se possa estar descansado, é a falácia dos tempos modernos, e a receita da infelicidade mais verificada.
Há que simplificar, mas sem deixar de absorver o mundo. Sem deixar de verificar que cada momento da experiência do belo, do bom, do prazenteiro e humano, é afinal a justificação para optarmos pela consciência. E optando, pensarmos no onírico apenas como uma transformação surreal daquilo que colhemos cá fora.
Do que vivemos.
Cada vez menos...
1 comentário:
Agora não posso ler o teu texto porque estou com pressa mas vim desejar bom fim-de-semana.
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