ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, junho 30, 2005

Nunca é demais dar a mão á palmatória quando se está errado. Bem sei que algumas pessoas têm alergia a dar o braço a torcer, e há até quem julgue "encantador" essa característica. Como se teimosia e convicção fossem uma e a mesma coisa. Para dar um exemplo, eu até sou um tipo mais chegado à esquerda ( às pessoas, portanto), mas não posso de forma nenhuma pactuar com elogios feitos a Estaline ou a sugestão de que a Coreia do Norte é uma democracia. São aspectos da história e realidade social que não estão sujeitos a qualquer espécie de interpretação criativa que não revele facciosismo ou burrice disfarçada de ideologia.
Por isso sei que, no curso dos últimos tempos, tenho falhado com algumas pessoas. Pessoas que de alguma forma o tempo foi deixando para trás. E quando não era o tempo, era uma etapa a espaços aparentemente instransponível que me tolhia os movimentos.
Mas ao contrário do que se julga, estamos sempre a tempo. Bem sei que as pessoas acabam por aceitar o desisteresse, o sofrido e infligido como um facto da vida social e suas condicionantes. Para mim tem uma designação diferente - preguiça e os perigos do pragmatismo.
E tendo em conta que tenho cidadãos recém - chegados ao planeta para ver, conversas a manter e reatar, decisões a tomar, pessoas a conhecer, rostos a rever, oportunidades a criar e fôlego a recuperar, deixo no ar uma ideia orgulhosamente agnóstica. A admissão do erro que a passagem do tempo criou.
Em ultima análise, tudo depende de cada um de nós.
A aleatoriedade até nos pode dar uma mão de quando em vez, mas para quem não tem nada de transcendental a cuidar de si, pelo menos que reconheça, resta a percepção clara perante os jogos de força que nos trazem as opções.
À semelhança de tantas pessoas, não faço ideia do que por aí vem, mas farei com que dependa ao máximo do meu esforço e intervenção, da minha identificação enquanto pessoa com valores, conceitos e ideias.
A sorte se quiser que apareça.
Mas não se pode depender dela.


Daqui a pouco, o post pré-férias.
Ainda a propósito daquilo que as pessoas podem querer noutra:

A teoria do culto da bela e monstro, na personificação do homem elefante como possível amante, quero eu crer que se trata apenas de uma hipérbole para provar um ponto de vista. Porque a não ser, então estamos na presença de um fenómeno perante o qual eu faço uma vénia em reverência. A questão é que existe esta espécie de alergia á identidade física como sendo parte da constituição da pessoa total, e por conseguinte, como elemento de atracção ou fundamento para o desenvolvimento de paixões ou mesmo amor.
Não, não vou cavalgar a onda do politicamente correcto, e sobretudo, tendo em conta que no mundo de hoje a exigência feminina cresceu brutalmente ( e em meu ver bem - a barriga e o ar desconchavado já eram, e elas sabem-no bem), a ideia de que qualquer espécie de identificação física é necessária parece-me irrefutável.
Se alguém consegue efectivamente sentir alguma coisa por alguém que não lhe transmite qualquer sensação de atracção física, então dou os meus parabéns, mas não vou aceitar a estigmatização primária ( a da cabeça de baixo é de facto infeliz) aplicada a quem exige um elemento de beleza física que lhe seja subjectivamente agradável.
A mulher que mais amei até hoje provavelmente não era nenhuma brasa, mas eu achava que sim, que o era. Tinha uma silhueta que me tirava do sério, o sorriso era fantástico, havia harmonia no corpo, no cabelo,em toda a pessoa física. Para mim era lindíssima, e talvez para a pessoa ao lado não o fosse. Mas que existiam elementos objectivos dessa beleza? Pois claro. O corpo era firme, a silhueta elegante. Tudo o resto podia ser magia levada a cabo pela forma como ela me consigra fazer olhar para ela, à custa da pessoa que era, da brilhantez do seu pensamento, da sua sensualidade e da forma como usava o sarcasmo. Mas estava lá.

A situação é muito clara.
Nos ultimos anos as companhias de cosméticos e cuidados pessoais viram as suas quotas de mercado subir tremendamente, porque os homens entraram no mercado. As mulheres começaram a exigir a barriga lisa, o perfume, a pele em condições, e mais coisas.
Será isto mau?
Será mau exigir isso, como exigir sentido de humor, inteligência, humanidade e sensualidade intelectual? Ou tudo e parte do conjunto que se aprende a gostar, amar ou simplesmente ao que atrai?
E sinceramente, porque será que quando se fala em comer por comer, o ideal sensual tem de lá estar, mas isso pode estar arredado da pessoa que eventualmente se ame? Não será isto uma contradicção em termos? Mas eu quero que uma desconhecida me dê mais tesão abstracto do que a pessoa que eu amo ou possa vir a amar?
Indo buscar o brocardo cliché de todos os tempos, a mens sana in corpore sano é afinal de contas uma noção de completo na pessoa. Se essa noção de completo passa por barrigas e uma total ausência de elemento físico, então o seu a cada um e todos felizes. Mas estigmatizar as pessoas que procuram algum elemento físico ( mínimo para si!) como sendo alimárias primitivas que só pensam com as feromonas é um preconceito próprio do feminismo na sua pior faceta, ou seja, uma substituição em troca de género com o machismo, numa espécie de lógica paternalista e um complexo de superioridade indefensável.
Homens e mulheres são e deve ser sempre iguais nos seus direitos objectivos e na salvaguarda de tudo o que diga direito à protecção e desenvolvimento da pessoa humana - trabalho, direitos de cidadania, progresso, acesso à informação e riqueza, etc, etc, etc - e nao propalar-se uma qualquer superioridade que não existe. São diferentes, e felizmente, propensos à complementaridade, embora se insista numa espécie de competição ao velho estilo do bolinha e luluzinha. Aproveitar os contributos das características próprias dos géneros só nos pode enriquecer. Cavar trincheiras só fará o contrário.
Sinceramente, acho que o elemento físico (mínimo)é imprescindível, e que qualificar as pessoas que o exigem ( porque também têm para dar ou esforçam-se nesse sentido) como sendo inferiores e menos elucidadas relativamente ao que a natureza human tem de melhor, é preconceito, e como tal, sem justificação. Para informação pertinente, uma mulher que seja somente corpo e zero de alma ou inteligência nem sequer serve para "comer", usando o léxico já previamente referido. Portanto, o que interessa é a complementaridade - corpo e alma numa harmonia mínima que apaixone - e como tal subjectiva. As mulheres não precisam de mim para nada, assim como eu não preciso delas para nada. Mas a diferença é que as quero porque gosto delas, porque as minhas melhores amigas são mulheres e porque me fascinam o contributo que trazem à minha vida.
Espero ter-me explicado convenientemente. Exijo aquilo que sei que me afecta, impressiona e emociona. Porque somos todos corpo e alma, e negar isso, é cortar a pessoa ao meio. Mas o seu a cada um.

Para toda a discussão e polémica, clicar aqui

quarta-feira, junho 29, 2005

Quem tudo guarda para elogios fúnebres tem um de dois problemas:

- Dor mal resolvida

ou

- Real ou intencional ignorância acerca da pessoa de quem supostamente gostam.
As pessoas com quem falo estão assustadas pela onda de crise que parece atravessar o chamado "relacionamento contemporâneo".
Os relacionamentos caem que nem tordos, as pessoas encontram outras chamadas fontes de motivação ( mas depois sofrem que nem umas bestas no silêncio), e tudo gera um estado de descontentamento que leva a lançar apelos ao ar em busca de uma espécie de paradigma.
Excelente. Sou a favor da exigência desde que fundamentada por argumentos próprios.
No entanto, o que escapa a muita gente é que a simplicidade dos processos é a estrada mais directa para a salvação de qualquer forma de relacionamento. Esquece-se que a lógica dos pequenos gestos não serve apenas para enfardar as páginas de livros idiotas de auto-ajuda. Os pequenos gestos são a intenção emocional tornada vida. É o afago da consideração pela outra pessoa. É a demonstração da sua importância. É o reiterar intenso do fundamento de qualquer escolha, seja para amigas, namoradas ou qualquer qualificação intermédia ( family included pois claro porque o sangue não garante proximidade ou consideração).
Vá. Comprem uma prenda pequena. Façam uma maluquice. Salvem mesmo o que está sólido. Nunca é demasiado tarde ou cedo para cuidarmos do que é nosso. Especialmente se merece.
Tenham ( muito pouco ) juízo.
Ainda e sempre a propósito da contenda entre a importância da dimensão física e intelectual como factores de movimentação do mecanismo de atracção e enamoramento entre as pessoas, ler a magnífica polémica entre os comentadores deste post.

terça-feira, junho 28, 2005

No entanto, vícios são vícios... (clicar na frase)
Decisões

"Walking side by side with death
The devil mocks their every step
The snow drives back the foot that's slow
The dogs of doom are howling more
They carry news that must get through
To build a dream for me and you
They choose the path that no one goes
They hold no quarter, they ask no quarter "

No Quarter - Led Zeppelin
Ignora o fumo... e sorri...


A uma Pessoa cuja coragem e boa fé perante outros a faz merecedora de tudo.

Feliz Aniversário!

segunda-feira, junho 27, 2005

O furto de certas formas de inocência, não está necessariamente preso aos dias de adolescencia mal preparada.Assim como a auto-confiança vem de uma crença própria, nascida muitas vezes no seio de dores importantes e complicadas, a inocência não é produto de ausência de conhecimento.
É apenas algo frágil, mas extremamente maleável. É como um molusco preso por uma membrana suave a uma rocha milenar. E fica ali, muitas vezes ao sabor do embate de ondas infelizes e rancorosas. Segura-se, improvável, quase eternizada, como uma canção doce. Até que um dia se solta. Uma onda maior que as outras, nunca vista naquelas águas, faz com que desista e se solte, deslizando resignada para dentro do turbilhão de água revolta.
É uma espécie de fábula da renúncia. É a lambidela áspera do corte na pele, uma mão impossivelmente persistente que larga a beira do precipicio. E no entanto a água embala-a, afogada, mas estranhamente grávida. Cheia das promessas de renovação que só nova rocha, e nova onda, podem fixar. Até que a mão flexível consiga novo poiso. Mas de tão raro que se torna, raramente se avista. O mar dificilmente produz duas ondas iguais.
O sono da razão produz monstros... era o Goya, que dizia isto, não era?
Permito-me uma pequena adaptação.
Os monstros são amamentados pela insónia da recordação.
Em resposta ao post certeiro da Miss C. , eis a réplica:

O que um tipo provavelmente procura numa mulher:

-Heterosexual,
-Escalão Etário - 22-40 ( desde que a idade mental suficiente esteja lá, bem como a necessária e mínima silhueta - ( vou ser vilipendiado por esta de certeza)
-Solteira, víuva ou divorciada
-Com noção do cuidado de si mesma, corporal e intelectualmente. Sim, tem de ser bonita q.b, sorry... mas no q.b. cabe muita coisa.
-Independente. Mas não autoritária.
-Que consiga viver sem ter de assistir a toda a porra de reality shows vomitantes que pejam a televisão.
-Capaz de manter uma conversa que não meta, TPM, decoração, crianças e actualidade social.
-Que goste de ir ao pavilhão ver o Basquet - ( ok, esta é minha e só minha)
-Romântica tresloucada, ou seja, quase todos os locais são adequados para dar asas a todos os tipos de imaginação.

-Que alinhe.
- Que seja fiel, mas consciente que ela, assim como toda a gente, tem olhos na cara.
-Selvagem QB - encostados á parede, capots de automóvel, cabelos bem seguros pela mão num tufo, imaginação acrobática, léxico criativo, etc etc, etc, etc...
-Meiga.

-Que alinhe
-Bem humorada.
-Voluntariosa.
-Criativa - Capaz de fazer alguma coisa, de escrever um texto ou fazer uma colagem de pedras, se chegar á conclusão de que a pessoa em causa a faz querer criar.
-Melómana, com gosto por literatura e cinema de várias géneros.
-Capaz de saber lidar e compreender alguma da nossa incapacidade de lidar com o horror existencial de forma sensível.
-Que alinhe
-Que goste de jolas fresquinhas, pratos de caracóis e dias inteiros na praia ( concordo)
-Que não mostre a soberba que a sua suposta emancipação do papel social lhe confere, quando nunca ninguém colocou isso em causa - ressabiamento e feminismo hard core não obrigado..
-Que goste de um belo Tinto e de um belo repasto, mas não peçam café com adoçante com a mania de que isso pode substituir a transpiração no ginásio ou outras actividades análogas.
-Que se preocupe.

-Que alinhe.
-Que não ache que a certa altura já não vale a pena fazer mais nada - o hábito e dar as coisas por garantidas são o cancro de qualquer relacionamento de qualquer espécie. A bandalheira é absolutamente dispensável.
-Que não vá para a cama com três pijamas, um barrete e pantufinhas, mesmo que lá estejam dez edredons, e depois só vista aquela lingerie de morrer quando vai trabalhar.
-Que seja "amiga, companheira, palhaça desta vida, com sentido de humor e sarcasmo q.b.",
-Que deixe espaço nas prateleiras do WC.

-Apaixonada por alguma coisa, seja colecções de calendários, um autor, um músico, o star trek, um realizador, vários realizadores - qualquer coisa que indique que não vive a vida por viver, mas que vive de forma vibrante aquilo que justifica cá andarmos.
- Que não complique quando não há razão alguma.
- Que discuta até rebentar uma corda vocal quando existir um real motivo.
- Que não seja completamente avessa ao conceito de racionalidade quando se trata de uma cara metade.

.
.
.
...And so on...
A um semana de ir de férias.
A dois dias de tomar decisões muito difíceis.
Same old, same old....

sexta-feira, junho 24, 2005

Aos agnósticos resta-lhes a si mesmos.
Resta a expectativa de que a crença básica nas pessoas os impeça de ir para junto de um qualquer deus, se este existir.

Não fui informado dessa cláusula.
Quando se consegue gerir a rejeição, é porque a alternativa não era especialmente importante.

Quando se consegue compreender, é porque não existia sequer alternativa.

quinta-feira, junho 23, 2005

Escrever uma carta é um pouco como reorganizar o inventário de alma.
Damos sempre com algo com o qual não contávamos, e esperamos que ainda esteja dentro do prazo de validade...


Hoje vou ao IGAC registar um trabalho que começou perto de Fevereiro e que foi ganhando volume. Não sei se é bom, se tem a tal qualidade que os literatos e a inteligência cultural nacional exige como pressuposto mínimo.
Mas acarinho-o pela forma como brotou, e pela honestidade que me custou horrores ao deixá-lo emergir. Como dizia o meu homónimo, cada livro é um filho. Mesmo que o filho abstractamente não preste.
É um projecto pequeno, poesia feita pulsação com uma veia aberta, jorrando por toda a parte.
Provavelmente não dará em nada, mas a julgar por alguns feedbacks, porque não arriscar?
Talvez até o Gehenna chegue ao fim...
Lá estou eu e o optimismo idiota.

Bom dia a todos.

quarta-feira, junho 22, 2005





Eu, superficial do hedonismo de silhueta me confesso(?)
A propósito das discussões já tidas aqui, aqui e aqui acerca do tema, tenho de fazer um esclarecimento, antes de deixar transparecer uma ideia que não corresponda à realidade.
Afinal de contas, qual é o papel na expressão física das pessoas naquilo que são os mecanismos de atracção e consequente afeição gerada? Até que ponto o nosso corpo representa um papel fundamental na dinâmica relacional das pessoas, desde o ponto anterior ao conhecimento até á constância de um relacionamento, seja lá ele de que espécie for - um dia, duas horas, uma semana, uma vida.
E esperando a previsível zurzidela, vou desde já estabelecer uma ponto fundamental. A harmonia mínima é fundamental. Sim, eu sei, o que raios vem a ser a harmonia minima, e a beleza está nos olhos do observador, e tal, e coiso e o camandro.
Harmonia mínima. Um elemento de beleza corporal que permite a visualização da sensualidade como a entendo. A harmonia de que falava o Vinicius, aquela superfície que apetece tocar, aquele desnudar de uma pequena parcela que transforma a imaginação e a incrementa. O levantar da saia que mostra o mundo, nas palavras de Dave Matthews (*).
Talvez eu tenha um elemento de superficialidade que me leva a tomar determinados tipos de opções inconscientes, e me levem a sentir determinadas pulsões somente quando o tal elemento de harmonia está presente. Talvez eu até me envergonhe um pouco ao sentir que só experimento a atracção devida por mulheres que tragam consigo esse elemento minimo de harmonia, a tradução em silhueta de uma insinuação sensual que gera desejo.
Mas algumas coisas têm de ser esclarecidas.
Quando se fala em harmonia, falamos num computo geral. O que significa que a parcela mental, constituida por toda a sensualidade da atitude, da inteligência, do sarcasmo, da meiguice, da generosidade de capacidade criativa - é absolutamente fundamental! Imprescindível.
Mas não julgo obviamente que tudo opera por mecanismos substitutivos. Um corpo fabuloso não substitui a capacidade de colocar a piada genial no momento certo, assim como a maior das capacidades intelectuais e afectivas não geram o desejo através de uma total discordância com a necessidade de um um juizo estético mínimo. Desejo é forma e substância. Nem só uma coisa, nem somente outra. É o equilibrio. Pelo menos mínimo!
Porque como é evidente, não é perfeição que se pede. Não estamos a falar na dita beleza traduzida em construções à lá Top Model, por um lado, e a capacidade e elucubração e de um Umberto Eco ou uma Harper Lee.
Trata-se tão somente da possibilidade de reconhecer a beleza que nos cative nos dois universos que constituem a pessoa.
É a silhueta falante, uma pele que toca porque as duas dimensões, física e psíquica, já há muito que se fundiram, tornado impossível a dissociação.
Se isto faz de mim uma pessoa superficial, então não tenho outro remédio senão enfiar a carapuça e meter a viola no saco. Encontro-me algures perdido então entre a tradução física de um arquétipo minimo, e sua vivência feita de uma sensualidade inteligente, agressiva e generosa. Em termos mais soltos, mulher "boa" e inteligente q.b. - que me desculpem os mais sensíveis.
Sei que não é muito politicamente correcto, mas é a verdade, e qualquer melindre que isso possa comportar para alguém, contra mim reverte, porque até provavelmente sofro os efeitos da aplicação do meu próprio conceito.
No entanto, julgo que não é demais ser exigente se estivermos de acordo connosco. E essencialmente se acharmos que temos para dar aquilo que pedimos. É uma questão de coerência e mesmo generosidade perante o outro. Queremos dar-lhe o melhor, porque achamos que é precisamente isso que ele nos proporciona ao nivel dos juizos estético e emocional.
É nessa linha que também me insurjo contra a chamada "bandalheira" pós-relação. Aquela ideia que assenta numa espécie de imobilidade porque se cria a noção do "já está". O já está caçado/a, preso/a, assente.
Descura-se o corpo porque "é normal depois de casar". Deixam-se de ter pulsões criativas relativamente aquela pessoa porque "é normal que amaine numa relação". Deixa-se de inventar formas de gostar e surpreender porque " é normal que outros assuntos se sobreponham".
Claro. E depois é normal que as pessoas se separem, se desinteressem, se anulem.
E o corpo, a essência física, é apenas mais um elemento dessa panóplia, mas nunca, em circunstância alguma, se torna despicienda.
Pelo menos na minha forma de ver e sentir as coisas.
Espero ter esclarecido. :)
(*) "Hike up your skirt a little more
show the world to me
in this boy's dream "
Crash - 1996




Existem instantes, dias, momentos, visões que se tornam irrepetíveis. E obrigam-nos a pensar acerca de determinados fenómenos, e na nossa capacidade de viver com eles.
É de uma tal simplicidade o contorno das lições da natureza que por vezes me sinto pequeno perante a lógica irreprimível que nos apresenta. E acabará sempre por chocar com as chamadas relativizações de ideias, sensações e sentimentos perante os outros e toda a manifestação do mundo designado de "não humano".
Ontem por volta das dez e meia da noite, a praia do Guincho, registava um fenómeno. O vento estava ausente, a temperatura era abrasadora, e a água estava pelo menos a 21 ou 22 graus de temperatura. A lua cheia, estacionada no céu negro e limpo, emitindo uma onda de energia espiralada, desenhava um carreiro prateado do céu até á areia molhada, entrando pela água onde estávamos rendidos. O murmúrio das ondas parecia reverenciar a majestade da lua, e o cenário visual era de tal forma poderoso, belo e impressionante que as vozes ficaram caladas durante muito tempo. Era possível observar aquilo durante horas, em silêncio, desfrutando da companhia de todos na unidade com o tratamento demasiado favorável que a natureza ainda nos vai dando a espaços.
O sol havia morrido da morte habitual e reiterada, vermelho e idoso, ás 21.45. Por pouco quase que aldrabava a noite, roubando-lhe o seu justo espaço. O solstício tinha conhecido o seu fim, mas em toda a majestade simples que se lhe adivinhava. Aqueles instantes pareciam sonhos, e incrementavam algumas questões.
Não sei o que as pessoas esperam de mim. Não faço ideia do que e atingir um pináculo da chamada realização. Não faço ideia da quantidade de instantes que se pode perder ou dispensar no decorrer dos dias que temos, em detrimento dos "objectivos" ou das conquistas pragmáticas. Não faço ideia do que está certo ou errado na dinâmica relacional entre as pessoas, ou na valoração dos conceitos enquanto importantes e inamovíveis. Tenho algumas ideias do que parece constante, mas é tão difícil explicar aos outros o que é importante para nós. Aquilo que pode mudar ou manter a nossa perspectiva, aquilo em que fundamentamos toda a nossa capacidade de amar qualquer coisa ou qualquer pessoa, e que deveria ser a tradução da nossa linguagem feita pessoa. A nossa primeira identificação.
Não faço a mínima ideia do que é considerado adequado ou venerável neste período de vivência de um mundo triste, zangado, mas nem por isso desinspirado.
Só sei que a imagem de ontem, e a companhia daqueles que comigo estiveram, são momentos que levarei comigo até ao dia em que feneça. São fundamento da minha vida. Ficarão na minha cabeça, como imagens que relatarei incessantemente aos meus cada vez mais imaginários filhos ou netos. É felicidade profunda, cristalizada num momento que chegou a ser doloroso, e que define tudo aquilo que sou, ou gostaria de ser.
Tornou-se, afinal, num par de horas que justificou sem uma única palavra, um certo fundamento para que a vida não seja uma espécie de passagem rápida por funções que parecem pré-designadas.
Isto provavelmente não fará de mim "alguém". Não fará de mim e dos outros uma qualquer espécie de passageiros do comboio dos sucessos do mundo, e da veneração pragmática, seca e triste ao poder das ditas "realizações". Provavelmente não servirá para aqueles que exigem voos mais altos.
Mas neste solstício de Verão, a lua e o mar mostraram-me talvez o que é estar vivo. O valor que possa ter pelo valor que dou a certas coisas, ás sensações únicas e erroneamente reputadas de vazias.
O poder acaba. Mais cedo ou mais tarde. A metáfora do Rei na Montanha é demasiado viva.
A complexidade é um enunciado limitado. Nada mais.
Uma noite de vento quente e um banho de lua e mar de impossível beleza duram para sempre.
Como tudo aquilo que realmente importa...



terça-feira, junho 21, 2005

Verão é Estação da letra de cor Amarela.

Ou Vermelha.
Às vezes olho para o telemóvel em silêncio e vejo o reflexo do céu no visor escurecido.
E percebo então que a liberdade é um conceito demasiadamente subjectivo.
É um pouco como interpretar a beleza.
Podemos tentar de todas as formas. Mas provavelmente voltamos ao ponto de partida.
Como vos tinha dito, não consegui estar fora daqui.
Toda a gente tem a sua terapia própria. Ainda que não funcione.
Obrigado pelo apoio e visitas ao estaminé.
O programa, ainda que errático, segue dentro de momentos.


Hoje é o dia mais longo do ano. O brilho do sol percorre a superfície da terra durante horas que parecem infindas, supostamente trazendo uma mudança importante ao planeta e aos seus habitantes. 30 000 pessoas estão ou vão a caminho de Stonehenge, para celebrar um dia que significa mudanças, previsões, destinos, augúrios e magia, aplicada muitas vezes ao nascimento ou destino do amor. Trata-se de uma peregrinação que não é de forma nenhuma inferior ás ditas religiões monoteístas, e que tem como fundamento não expiação de sofrimentos e pecados, mas a simples glorificação da natureza, da chegada do sol e alegria dos sentidos.

Stonehenge continua a ser um segredo que a História não consegue revelar, e trata-se do local onde se realizam os rituais associados a esta forma de reverência á natureza, fertilidade e nascimento de amores. A minha peça favorita de Shakespeare ( sim, aos culturalmente evoluídos digo desde já que talvez não seja a melhor, mas desamparem-me a loja, ok?) fala precisamente desta época de amores, mortais e imortais, e das vicissitudes da (falta de) lógica que acompanham estas manifestações. Amantes trocados, flores mágicas e burros com veia de Casanova. Enfim, uma salada deliciosa nascida da capacidade humana de recorrer á imaginação para ultrapassar as suas limitações e criar um mundo onde se não enlouqueça.

O Solstício de Verão está igualmente associado ao triunfo sobre a escuridão, já que a designação significa “ficar quieto” ou precisamente um período em que a terra parece ficar quieta perante o banho do sol, numa manifestação global da ideia de renovação e de optimismo. É a vida que emerge em toda a sua força, e em todas as manifestações, desde o nascimento de amores à altura das colheitas. Abundância, fertilidade, nascimento, vida e beleza. Pode quase dizer-se que o Solstício é o período mais pujante de juventude e beleza do ano solar. É uma espécie de maturidade feliz do mundo. É curiosamente, também o período no qual o sol atinge o seu apogeu, já que todos os dias que se lhe seguirão serão mais curtos e menos luminosos. É uma espécie de canto do rouxinol aplicado à luz do mundo.

O Solstício de Verão é também um período no qual se crê que a magia menos benéfica emerge dos locais onde se esconde, nas dobras do tempo ou cantos para onde nunca olhamos. ( Infelizmente não me recordo do autor que dizia que a maioria da magia não era observável simplesmente porque os homens não sabiam olhar, especialmente para baixo - agradeço o contributo a quem saiba para fazer aqui a devida justiça). Crê-se que os espíritos malignos também emergem - é só pensar em Puck - e as pessoas recorriam á natureza para lhes fornecer a devida protecção, nomeadamente através das suas plantas e ervas.

Uma dessas ervas, e talvez a mais representativa, que hoje é conhecida como Erva de São João ( em inglês - A verruga de São João) ou Hypericum perforatum, tinha o nome de "chase devil", e era usada em poções, grinaldas ou coras, para proteger as pessoas e os gado da influência e ataque de maus espíritos. Além disso, acreditava-se esta flor permitia ler o futuro.
O mais engraçado é que esta flor é considerada uma erva daninha em muitos países, já que a ingestão da mesma pelo gado pode provocar fotossensibilidade, uma depressão do sistema nervoso central aborto espontâneo e mesmo a morte. A sua composição, apesar da suave e simpática cor amarela, está cheia de componentes com acções diferenciadas.
Esta planta pode ser utilizada para tratamento de desordens depressivas leves, embora a sua eficácia ainda seja colocada em causa por estudos contraditórios. A verdade é que a ideia de uma tristeza ou mau estar incompreensível era, em tempos recuados, associado á influência de espíritos malignos. A ingestão da planta, e o consequente efeito anti-depressivo pode ter de alguma forma reforçado a ideia do seu efeito dissuasor dos ataques mal intencionados, que provavelmente seriam apenas patologias (depressivas) do foro psíquico.
Os índios americanos usavam-na como anticéptico e substância abortiva.
No fundo, a natureza cria os seus próprios mitos através da comprovação empírica dos efeitos das suas criações.

Por isso, deixo aqui votos de que o dia mais longo do ano não o pareça, e que possam todos banhar-se nesta atmosfera de optimismo que a natureza se encarrega de nos dar. Ainda que nós, como seus destinatários, tentemos apenas borrar um pouco mais a pintura.

Quem for a Stonehenge, divirta-se.
Este ainda é um mundo para imaginar.

segunda-feira, junho 20, 2005

I'm really worried.

Life may actually suck...
O maior truque das afeições e estados emocionais verdadeiros é convencer os seus destinatários da imortalidade dos seus efeitos.
A Amizade consegue fazê-lo. Tempos infindos podem passar sob o signo da real e verdadeira troca de essencias, porque simplesmente não existe fogo a nublar as ideias ou expectativas. Mais que convencer, consegue cumprir.
O Amor, em raríssimas ( esta não era a minha primeira opção na escolha de termos) ocasiões, tem esta ultia virtude. Mas é o melhor vendedor de ideias, certezas e conceitos do universo, ainda que seja tão transparente como os unguentos mágicos dos vendedores de banha da cobra.
No entanto, a relutância em abandonar essa perspectiva tem o significado de qualquer entrega real. Nem que seja ao conceito.
A razão pela qual não creio em cinismo absoluto, é precisamente pela lógica de contradicção que lhe assiste. É uma denúncia, e essa denúncia pressupõe a perspectiva de uma solução alternativa. A falta de compromisso com o negrume está assente na incapacidade de aceitar os seus efeitos. Será que o Diabo não se queima quando está no seu próprio inferno? Eu aposto que não. Mas o maior atributo desse personagem, foi convencer toda a gente que não existia. Torna-se possivel conceber o argumento cartesiano ao contrário, julgo eu.
E digo isto porque nunca me senti tão próximo á denúncia, tão critico dos seus efeitos, e tão explorador da sua refutação.
Podemos ser melhores.
Não me lixem...
O melhor Blog de todos os tempos. Aqui

Obrigado pela dica
Lisa
Como gostaria de não pensar assim.
De nem sequer ter a tentação.
Não faltará muito para que tenhamos de recorrer a isto


Sinceramente, este padrão já começa a chatear-me...

quinta-feira, junho 16, 2005



Mark Bryan - "Stealing Maria"


Não vou dizer que o blog vai parar, porque mais cedo ou mais tarde essa ideia simplesmente não se efectiva. Sou demasiado escrevinhador para estar quieto. Mas é possível que abrande. Tenho uma história em mãos, e nem sei onde é que ela me vai levar. E além disso, a Primavera ou o tempo não trouxeram uma renovação de discurso, porque, como disse o Pedro Mexia há tempos, chega o sol e fico logo monotemático.
Claro que digo isto e daqui a dez minutos posso estar a colocar um post. Nesta questão em partcular não me apetece ser nem coerente nem previsível.
Veremos o que acontece, mas é possível que estes corredores fiquem mais silenciosos doravante, até que alguma coisa se transforme.
Levo comigo o de sempre.

Até já.

terça-feira, junho 14, 2005

No peace for the wicked, já lá dizia o outro.
E quanto aos restantes?
Vitímas do excesso de stock de ansiedade?
Weekly metaphore:

Salvation are little pieces of more than I can take.





Vergonhosa e parcialmente roubado aos Soundgarden...
Os que mais odiavam a guerra eram aqueles que efectivamente haviam lutado, dizia Kurt Vonnegutt.
Isso aplica-se em qualquer espécie de luta ou dificuldade de longa duração.
Os poetas e escritores que nos emocionam com a sua demonstração dos demónios e maravilhas interiores devem ter passado as passas do Algarve para extrair aquelas ideias.
Edgar Allan Poe deve ter sofrido horrores para os conseguir passar daquela maneira para o seu onirismo aterrador e ao mesmo tempo estranhament belo e pungente.
Hemingway lá foi enganando a malta até resolver a coisa na base da carabina.
A Florbela Espanca extraía da sua doença bipolar aquilo que muitos admiravam, mas que ninguém no seu perfeito juízo quereria experimentar. Assim como Virginia Wolf, creio eu.
Quem criou talvez preferisse nunca ver as coisas e ter as alucinações que os levaram a tal. Como Goethe, talvez existissem também aqueles que conseguiam simular o sofrimento próprio da verdade passional sem realmente padecerem mortalmente do mesmo.
Talvez seja engraçado imaginar o que se tem de sentir quando se cria algo de uma certa natureza.
Mas passar por isso é outra conversa completamente diferente.
E a história está cheia desses exemplos.
Nem todos têm a sorte de Pigmaleão...
Desafio do dia:

Definir optimismo em duas imagens.
Isolar o conceito de meio sonho, e viver com isso.
Mais uma baixa este fim de semana.
Mais uma incapacidade para comunicar, para perceber as idiossincrasias como fonte de gáudio e não confusão ou dor.
Mais um problema por resolver, mais uma pessoa cujo tom de voz baixou em desconformidade com o sol que lá resolveu voltar a brilhar.
Mais uma pessoa que não conseguimos proteger.
Mais uma impossibilidade que gera perguntas complicadas e o constrangimento de soluções. Mas ainda assim vi lá o optimismo. A incapacidade para aceitar a disfuncionalidade como uma relativização necessária.
Desejo-lhe boa sorte, e ofereço o pouco que tenho.
Mais uma vez, não posso fazer mais nada.

segunda-feira, junho 13, 2005



Adorei.
Tornou-se imediatamente
em filme de culto.
Quando ouço música irlandesa, como a excelente banda sonora do magnifico Barry Lyndon, imagino sempre o olhar de uma mulher perdido na distância, hesitante entre a esperança e o desalento total.
O Bill Waterson dizia que lhe dava para fazer poesia sempre que via tigres deitados a dormir.
A mim dá-me para isto...
Morreram Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade.
Morreu coerência e coragem (embora eu não concordasse com muito do que dizia).
Morreu arte, perdida nos redutos mais infernais do amor real feito em palavras.
O mundo ficou inevitavelmente mais pobre. E o peso dos anos fez-se novamente sentir, quando as supostas eternidades dos nossos dias passam assim á memória.
Pudéssemos todos dar apenas um pouco do que foi este contributo para o mundo. Pudéssemos todos crer e sentir com esta capacidade e grandeza.
E o mundo fecha-se mais um pouco.
As canções um pouco mais tristes, dão espaço à recordação.
Boa sorte para ambos. Seja lá onde estiverem.

quinta-feira, junho 09, 2005

Mito urbano do ano:

A Finlândia baniu o Pato Donald ( que por acaso faz anos hoje) por este andar sempre sem calças.



Tenho a melhor vista possível daqui.
Vejo-vos numa perspectiva geral, através de uma grande angular.
Mas estendo a mão e toco-vos.
É na incerteza da reacção consequencial que passam os dias.
Há coisa bem piores que qualquer forma de descoberta.
Descobri que sou um vazio espiritual. Agnóstico e completo nessa matéria.
A minha fé (ainda) está nas pessoas.
Kant, pois claro...
Há coisas piores. Acho eu....
Grande Entrevista ao líder dos magníficos Tool e Perfect Circle Maynard James Keenan
Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people
Eleanor rigby picks up the rice in the church where a wedding has been
Lives in a dream
Waits at the window, wearing the face that she keeps in a jar by the door
Who is it for? All the lonely people
Where do they all come from ?
All the lonely people
Where do they all belong ?

Father mckenzie writing the words of a sermon that no one will hear
No one comes near.
Look at him working.
Darning his socks in the night when there’s nobody there
What does he care?
All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Eleanor rigby died in the church and was buried along with her name
Nobody came
Father mckenzie wiping the dirt from his hands as he walks from the grave
No one was saved
All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Paul McCartne y e John Lennon (produto de um brainstorming, ao que se sabe...)

Paul McCartney retirou o nome para esta fantástica canção de uma loja chamada Rigby e e Eleanor de Eleanor Bron, uma actriz que podem ver
aqui.
Nenhum dos Beatles toca qualquer instrumento nesta música, tendo sido contratado um quarteto de cordas para o efeito. Este é o facto que justifica um outro - os Beatles nunca tocaram este tema ao vivo devido á dificuldade da instrumentalização.
Ray Charles e Aretha Franklin fizeram covers deste tema que foram estrondosos sucessos, e era a música preferida do ex-presidente americano (que saudades da presença de neurónios e espermatozóides na casa branca!) Bill Clinton.
Certos temas são inesgotáveis fontes de arte. De imaginação.
Especialmente este, que denuncia de forma impiedosa mas simultaneamente ternurenta o fenómeno de solidão e a tristeza inerente. De uma certa necessidade omnipresnete de salvação ou mudança de perspectiva. Da forma de olhar para o espaço circundante e seus habitantes.
De onde vêm as pessoas solitárias? Realmente solitárias. Aquelas que como fantasmas arrastam consigo uma aura de tristeza por algo que se torna necessariamente inexplicável em qualquer estrutura gregária.
A todos os reais solitários, ( não medianamente, com mais sorte do que merecem, como eu) fica uma homenagem feita pelos génios supra mencionados.
Uma lembrança que talvez surja com o próximo par de olhos perdidos que virmos na rua. A todas as Eleanor Rigby, que são sempre em demasiado número.

quarta-feira, junho 08, 2005



A beleza não exclui a ideia ou projecção da ternura.
"Brothers, love is a teacher; but one must know how to acquire it, for it is hard to acquire, it is dearly bought, it is won slowly by long labour. For we must love not only occasionally, for a moment, but for ever.
Everyone can love occasionally, even the wicked can."
Fyodor Dostoevsky - Os Irmãos Karamazov
Os génios normalmente sabem do que falam.
Sensualista:

Um ingénuo falsamente promíscuo
Ainda sobre a Constituição Europeia.
Eu nunca concordei com a ideia do facto consumado. Faz lembrar os tempos da elegibilidade sufrágica, em que a malta tinha de ter determinadas caracteristicas para poder exercer o seu direito de voto. O facto de ser cidadão não implicava a pertença a um país ou nação, mas determinados pormenores que os tornavam "adequados" para sufragar fosse lá o que fosse. Um país é o seu povo, embora ande por ai uma malta mas descaída para os extremos (direita ou esquerda) que acha que certas pessoas deveriam ter esse direito revogado, por incapacidade de decisão democrática consciente, mas adiante.
A verdade é que não podemos esperar que a Europa seja apenas uma espécie de torneira pingona, que abre mais ou menos consoante as necessidades conjunturais, e que se regula exclusivamente a partir de critérios de convergência económica. Este processo do Tratado Constitucional talvez tenha sido mal conduzido, é uma verdade, mas poderemos de alguma forma perspectivar uma Europa sem alguma coesão institucional? Não será o primado do direito comunitário hoje em dia uma contradição com a lógica da soberania dos Estados?
Não restem dúvidas que a soberania politica e cultural deve ser preservada. A identidade de um povo é a sua cultura, e ela depende necessariamente da soberania dos cidadãos sobre o seu país. Mas se pensarmos numa existência fora da UE, entramos numa utopia desrazoável, que nos conduziria ao estado em que estão a Argentina e Bolívia, que sem redes de segurança, estão em colapso.
Em meu ver, um projecto Constitucional é necessário, com mais participação de todas as nações envolvidas, e sobretudo, coartando a lógica de domínio do eixo franco alemão, e elucidando as pessoas sobre o fenómeno Europeu. O maior inimigo da Europa é a desinformação e ignorância. Qualquer tipo com um discurso mais populista pode colocar em estado de alarme uma horda de pessoas que temem pela perda da sua identidade cultural. E o patriotismo é das emoções mais complicadas de erradicar de uma pessoa, não importa o seu nível de instrução.
Por isso, e embora eu tenha a ideia de que qualquer espécie de Federalismo acabará por ser inevitável, talvez este chumbo não tenha sido excessivamente mau, e tenha aberto por sua vez a porta para o diálogo e uma construção normativa da unidade Europeia assente numa participação multilaterla que salvaguarde o mais possível a identidade cultural e a soberania dos povos sobre os seus países. Mas tudo isto sem deixar de criar uma ideia de União, de identidade de ideias e processos onde for possível, para a criação de um conceito multilateral mais forte, mas preservador das idiossincrasias próprias das variadas e ricas culturas europeias.
É possível?
Espero que sim.

terça-feira, junho 07, 2005

Hitler?
Stalin?
Pinochet?
Pol Pot?


Não.
Torquemada... Mas a linha de raciocínio está correcta, realmente....

É só ler. O horror, infelizmente, dá boa leitura...
Distância não é ignorância ou descaso, já lá dizia alguém.
Pois.
Optimismo também não é burrice... até se tornar demasiado...



Report de última hora.
Steve novamente em forma e com o mesmo apetite voraz por... tudo basicamente...

Gosto de pessoas.
Apesar das constantes desilusões.
Porque os conceitos parecem-me os mesmos.
Sem variações relativistas. Pelo menos não a um certo ponto.
Porque no fim, todos sabemos o que fazemos.
E mais cedo ou mais tarde, a factura chega.
COMO SER BOA PESSOA (Q.B.)... MAS HÁ ALTERNATIVA?
Dizem que as pessoas tendem a abusar da abnegação. O que eu julgo ser verdade, e concordo. Mas talvez aquilo que escapa a muito umbigo, é que a tendência para dar e cuidar instala-se no seu hospedeiro como uma tendência ou um apetite. Surge naturalmente. Quando estão a dar por isso, já estão a fazê-lo.
Bem sei que os maus fígados relativamente ao filme de Jeunet derivavam precisamente de um suposto cepticismo fundamentado. Porque a menina Amélia não existe. Porque em última instância, ela acabará por se moldar às porradas do seu mundo circundante. Mas o que esses criticos se esquecem, assim como aqueles que contemplam os idiotas no conceito de Dostoievski, é que tal não isenta a pessoa em causa de procurar o seu espaço, a sua harmonia, as suas posses e entregas. Aliás, a menina Amélia chega realmente ao ponto em que tembém tem de cuidar de si. Simplesmente não o faz à custa dos outros, mas com eles.
É fácil olhar para a bondade ou bons instintos com um desdém de suposto esclarecimento, próprio da denúnica cínica. Mas a verdade é que esse repúdio passa muito pela vergonha, pela injustificável inércia de comportamentos tendentes a melhorar um pouco o estado daqueles que nos rodeiam. E não se trata de ser missionário em direcção a África. Trata-se de aplicar uma inteligência prática, contaminada pela generosidade, no mundo circundante.
É muito mais fácil ter uma pose arrogante e agressiva, porque esta se confunde com um posicionamento supostamente elegante e esclarecido no mundo. Mas essa noção é falaciosa, e totalmente desprovida de fundamentação. Além disso, quem abusa da dita abnegação é precisamente quem deveria ser descrente da sua eficácia.
Esta pode ser a era da lógica dorida e a caminho do feio e duro, mas os totalitarismos e cabotinices são próprios de mentes infantis.
Adiante.
Estão 38º graus.
Se pudermos sorrir, porreiro.
Se não , esperemos que chegue em breve.
Ainda que pareça impossível durante tanto tempo...
Não estou suficientemente informado sobre as questões de pormenor relativas à Constituição Europeia. Não sei (ainda) os mecanismos mais específicos do funcionamento proposto pelo Tratado Constitucional, para entender de forma conclusiva a organização democrática proposta. No entanto, e sem prejuízo de um ajustamento e aperfeiçoamento do texto, julgo que será uma oportunidade perdida para se encontrar uma outra espécie de identidade europeia que não a meramente económica. Como dizia Vital Moreira, todos os outros "grandes" esfregaram as mãos e abriram a garrfa de champanhe perante este engasgo grave do processo europeu. Boatos de abandono da moeda comum, já recentemente desmentidos, fazem no entanto prever o pior.
Bem sei que as identidades nacionais e culturais são damas a defender. E concordo com essa premissa. Mas parece-me que a ideia persistente de uma União (Económica) Europeia não serve os interesses dos seus povos da forma cabal a que se propôs.
Se ser Europeu é partilhar uma moeda e rearranjar os mecanismos económicos somente, então eu não me sinto Europeu. Sinto-me tão somente parte de uma abstracção economicista, e não membro de um espaço onde as idiossincrasias culturais não precludem a ideia de um todo uno, coeso, e sobretudo, com poder para ombrear com os emergentes ou já existentes gigantes.
Afinal de contas, o que é então ser europeu?
Haverá alguma vez espaço para a União Europeia, mesmo entre rivalidades Franco - Anglófonas e a má disposição nórdica relativamente aos latinos?
Espero sinceramente que sim.
Com senso, mas também propósito.

segunda-feira, junho 06, 2005



Dia 23 de Junho, ele está de volta.
Desta vez pela mão de Christopher Nolan.. sim, o tal de um filme chamado Memento.

E Christian Bale finalmente traz a verdadeira personificação do sorumbático e idealista Bruce Wayne.
Michael Cayne Como Alfred, Liam Neeson como o emissário de Rãs Al Gul ( "o Demónio") e Katie Holmes como a "Batgirl" de serviço.
E de Nolan, só se pode esperar algo de bom. Finalmente, o melhor super-herói de todos, obcecado, sem poderes, depressivo, violento, acossado, terá o seu dia no cinema, num filme como deve de ser.
Dia 23 lá estaremos.
Algumas pessoas têm genes diversificantes.
Quero com isto dizer que dificilmente aceitam uma lógica de permanência num só local, ou apenas o sabor de um beijo repetido, por mais maravilhoso e impensável que ele possa ser. E depois perguntamo-nos até que ponto se trata de um hedonismo infantil ou incapacidade de sentir, para concluir que nada disso se passa.
Perguntamo-nos o que será, e aceitamos as invectivas zangadas dos defensores do amor real. Porque os gajos de alguma forma têm razão.
Mas quão difícil não será ver alguém toldado pelo germinar de paixões constantes? Quão complicado será gostar de alguém assim, que é feito feito de todas as outras qualidades?
Como é que não nos preocupamos com a incapacidade para o amor real, por parte de alguém que nos é próximo? Como é que vamos explicar que o encontro desse conceito pode ser mil vezes pior? Como é que os protegemos quando a alternativa que temos para apresentar é no mínimo tão complicada como o status quo?
Como é que se ajudam amigos neste estado?
A quantidade de pessoas felizes, com reencontros ou descoberta inesperadas, multiplica-se á minha votla. Euforia da estação ou não, torna o optimismo possível, ainda que pouco provável. E isso é a definição de avanço na minha enciclopédia pessoal.
Há quem diga que sou um relativo idiota, pela facilidade com que ocasionalmente perdoo aqueles de quem gosto. E a verdade é nua e crua. Quem mo diz tem uma tremenda razão. Porque ao desculpar excessivamente, uma pessoa perde a noção de quando se deve perdoar a si mesma. E as exigências devem ser as mesmas, julgo eu.





Ao fim de mais um dia em que a Fiona Apple não me foi lá bater á porta para tomar um café, ( há gente com muito mau feitio, realmente), verifico que a mudança está a verificar-se nas pessoas, no país, e sobretudo, na disposição das mentalidades.
Saimos à rua e o calor que aperta, a luz imensa que se lança sobre cada contorno de todas as coisas faz pensar em optimismos, mesmo quando a factualidade é aquilo que se sabe.
Não existem razões especiais para que os cantos das bocas se encaracolem, mas ainda assim, julgo que a luz faz com que os disparates e o reerguer de consciencias abafadas nas vidas quotidianas tenham a ousadia de erguer a cabeça.
Falei de idiossincrasias, de hesitações em caminhos, passei por três ou quatro dramas mais ou menos cimplicados neste fim de semana. Tudo nas palavras e caminhos de outrem, numa lógica de progressão que parece cada vez mais complicada.
Em suma, a malta não sabe o que fazer com a vida que tem. Porque ninguém simplifica nada a ninguém, e se desejam equilibrios estáveis no meio dos passos mais ébrios. O Sindrome do cata-vento, que se espalha brando como uma brisa aliviadora, passa pelos pragmatismos, as realizações, os desejos de um abraço sincero, e a complementaridade absoluta. E existe uma dor certeira na liberdade conquistada. Porque em meio a cada um dos rostos que vislumbrei com sorrisos libertos, está lá o desejo de pertença, ainda que este lhes pareça complicado em meio à nova consciencia das realidades.
Alguém diz que os propósitos relacionais, tenham eles a ver com amor ou qualquer outra coisa, mudaram de uma forma que parece clara, mas que ainda não arranca consensos nas atitudes. De alguma maneira, a rendição hedonística é pelo menos parcialmente falaciosa. Porque ao contrário do que se pensa, é tudo menos fácil.
Está aí o Verão. E com ele um sem número de perspectivas acerca ds pessoas que estão próximas e aquelas que passam. Como qualquer órbita, o ano faz de nós passageiros de um ciclo.
E este é um daqueles em que as correntes se fortificam ou simplesmente partem. No fundo há mais luz. E não são necessariamente os corpos que se passam a ver melhor.

sexta-feira, junho 03, 2005

I'm "Alive in the Superunknown", já lá diziam os Soundgarden.

Por quanto tempo é que é outra história...
Sim, pois, Scarlett Johansen...
Podem ficar com ela...
A natureza tem os seus milagres, realmente. E ainda por cima escreve coisas maravilhosas como esta...
Enfim, Paul Thomas Anderson, és daqueles tipos que bem pode desdenhar o jackpot do Euromilhões...





SHADOWBOXER

Once my lover now my friend
What a cruel thing to pretend
What a cunning way to condescend
Once my lover, and now my friend
Oh, you creep up like the clouds
And you set my soul at ease
Then you let your love abound
And you bring me to my knees
Oh, it's evil, babe, the way you let your grace enrapture me
When well you know,
I'd be insane - to ever let that dirty game recapture me

You made me a shadowboxer, baby
I wanna be ready for what you do
I been swinging all around me
'Cause I don't know when you're gonna make your move

Oh, your gaze is dangerous
And you fill your space so sweet
If I let you get too close
You'll set your spell on me
So darlin' I just wanna say
Just in case I don't come through
I was on to every playI just wanted you
But, oh, it's so evil, my love, the way you'veno reverence to my concern
So I'll be sure to stay wary of you, love, to save the pain of
Once my flame and twice my burn
You made me a shadowboxer, baby I
wanna be ready for what you do
I been swinging all around me
'Cause I don't know when you'regonna make your move
Fiona Apple
Espera lá... aquele tipo de Roma é contra quê mesmo? Ah sim, a contracepção... É verdade.

Talvez o tipo devesse ter um vislumbre do que é o verdadeiro Inferno, onde Flora e milhares de outras jovens vivem todos os dias.
Uma empresa americana oferece serviços de transformação no mínimo... peculiares...
Transformar as cinzas dos entes queridos em diamantes.
Não sei bem o que pensar disto, mas uma coisa é certa.
Não era isto que eu tinha em mente quando me diziam que as pessoas eram diamantes em bruto...

quinta-feira, junho 02, 2005

"The reasonable man adapts himself to the world; the unreasonable one persists in trying to adapt the world to himself. Therefore, all progress depends on the unreasonable man. "

George Bernard Shaw
Só espero que tipo tenha razão.
Porque ter fé no que parece absolutamente improvável, só pode ser desrazoável.
E no entanto, tanta gente insiste em fazê-lo.
Eu, por exemplo...
Bem, alguma coisa têm de fazer para não ficar malucos... ou não...

Já fui apanhado na rua por um destes tipos da Cientologia ou Dianética.
E deixem-me que vos diga que além de serem chatos e insistentes ao ponto da intimidação suave, a menina que me entrevistou tinha aquele olhar vazio e programado que todos os recrutados em qualquer seita têm. Um olhar vazio, assustador, férreo. Um olhar de quem encontrou ali um hipotético sentido, mas sem espírito crítico.

Saí de lá quase a fugir, e com a imagem de infelicidade inconsciente da face daquela miuda. Intimidado com a agressividade velada de uma teoria baseada em premissas científicas, mas que ninguém se deu ao trabalho de explicar. Aliás, o que abundou, após um teste psicológico com a falibidade de qualquer psicotécnico de meia tijela, foi o discurso de recrutamento. Com dinheiro envolvido, claro.

Aliás, a explosão de Tom Cruise na entrevista ao Der Spiegel,[ que juntamente com John Travolta ( o qual participou no inenarrável BattleField Earth ) partilham dessa pertença ao culto], é bem demonstrativa do carácter insistente e agressivo da defesa das teorias e crenças.
Há anos li uma peça muito interessante no Expresso acerca de um jornalista que se infiltrrou na Cientologia portuguesa, e produziu um relato absolutamente arrepiante. (Se alguém conhecer um link para esse artigo, ou possuir o original, pois mande mail e terei o máximo prazer em divulgar, e já agora, guardar a informação para consumo interno.)
Mas no fundo, de gurus indianos a cientologia, vale tudo para combater as ondas de horror existencial. Bem, antes isso que a solução Heminguay, digo eu...


Algumas pessoas fazem terapia.
Outras Yoga.
Outras ainda meditação.
Eu tenho um livro-psiquiatra.
Se as pessoas supostamente gostam umas das outras, como é que é possível fazer tanto mal em consciência?
Será que o argumento do Visconde de Valmont tem alguma validade. Estará para além do controlo?
Ou o culto moderno do "ensimesmado" aparece como única demonstração de um destino há muito escolhido?
E pior, porque é que a malta finge não se preocupar com isto, porque na linguagem artística de hoje, este conceito é o menos cool possível?
A Estupidez Continua

É a história do costume. Banir livros dos curriculos porque a malta conservadora, que apoia a chamada ignorância higiénica, achou pouco recomendável certa obra.
A ideai das listas negras, e quejandos tem um som característico a coisas mais totalitárias, se é que me faço entender...
Eu conheço alguns conservadores, e respeito a sua honestidade intelectual e esclarecimento, pelo que deve ser muito chato ser associado com esta corja de mentecaptos que , entre outra pérolas, sugeriu o seguinte:

"After the meeting, however, Mrs. Hahn said she felt her arguments had been given short shrift, and she met privately with Mr. Nelson, the board president, to push the idea of a rating system for schoolbooks, similar to what the Motion Picture Association of America does for films. And on May 18, the board rejected the English department's new policy for book challenges and asked that Mrs. Hahn's requests be accommodated: that reading lists made available to parents include a ratings system, plot summaries of all assigned books, and the identification of any potentially objectionable content.

Teachers adamantly opposed these strictures, Michael Anthony, chairman of the English department, said, adding that they would undoubtedly result in more frequent challenges. Dr. Yarworth, who is trying to broker a compromise between the board and faculty, said he had already heard a few grumbles about "Of Mice and Men" and "Catcher in the Rye."

Somos todos disfuncionais quanto baste.
É na esperança que isso não resvale para excessos que reside o encanto de muitos. Onde os recortes não se tornam patologias, e somos sempre capazes de retornar.
Ao viajarmos, levamos ainda mais as pessoas connosco.
Contamos tudo porque as queremos. E porque elas nem desconfiam até que ponto são os motivos...
Aviso á navegação. Vai sair pedrada em vidros.
Existe um certo tipo de pessoas que fazem do egoísmo uma espécie de obra de arte dissimulada, onde a inversão de papéis é exímia. São aquelas pessoas que tomam toda a espécie de opções, abarcam com as consequências das mesmas, mas nunca as traduzem em auto-responsabilização. Transformam esse conceito numa espécie de direito inalienável a ter o espaço mantido á custa de tudo o que as rodeia. No fundo, acham-se titulares de todas e quaisquer benesses que os seres circundantes possam providenciar, mas sempre com a última palavra a dizer. E sobretudo odeiam a pressão que consiste em...ter de retorquir a atenção que recebem. Algo absolutamente impensável.
Em suma:
"Eu faço o que quero, e tu tens mais é que entender porque cada atitude minha, por mais estapafurdia ou egoísta que seja, assenta numa lógica de auto-preservação, e tu queres que eu passe bem, não é verdade? Então como é que raios podes estar a exigir um pouco que seja comigo, se sabes que eu tenho de tomar estas atitudes?"
Claro que todo o antecedente que possa eventualmente ter conduzido a uma série de situações e fracturas não conta. Conta sim a lógica de que algumas pessoas têm necessariamente de se mostrar auto-suficientes e fornecedoras à tarefa e a pedido, porque afinal de contas, alguns outros têm caminhos a seguir, e a malta tem mais é que se aguentar.
A verdade é que a contemporização compreensiva é uma faca de dois gumes, porque abre portas a uma espécie de atitude esperada, e com a qual qualquer demonstração reactiva de reivindicaçao resulta na descaracterização da pessoa. E essa descaracterização é vista como desraziabilidade, porque afinal de contas, essas pessoas têm motivos válidos para fazer tudo, para se esquecerem de tudo, mas é visto como um exclusivo. Algo semelhante a uma regalia de empresa ou de nomeação de cargo político. Toda a gente deve aceitar porque aparece como facto consumado.
Existe o factor patológico, condição necessária para a exculpação de algumas atitudes. Claro que depois a ajuda quanto á patologia é vista como uma qualificação injusta aposta ás pessoas, e em alguns casos, até um insulto. E depois... meus amigos, depois vem o amor, que doseado da forma correcta, retira a capacidade de se ser necessariamente radical, exigente e justo. Pelo menos na dose recomendada.
No fundo é uma política de terra queimada com promessa de chuva diluniana e uma daquelas bolotas do Assuracentourix que geram carvalhos como pipocas (para melhor referência ler "O Domínio dos Deuses"). É criar a noção de uma responsabilidade em quem não a tem, gastar a afeição e paciência num eterno jogo de adiamento, com base em qualquer tipo de afeição que se sabe mais ou menos certo, ou que se calhar não causa o medo de perda que deveria.
Não existe malícia, é certo, mas uma forma de avaliação da realidade que não está de acordo com aquilo que por acaso até lhes chega às mãos.
A atenção e empenho não são bens dispiciendos entre as pessoas, em em ultima análise, são talvez aquilo que permite a diferença entre uma vida mais ou menos completa, e uma vitória meritocrática cheia de factos, mas com poucas imaginações.
E no base de tudo isto?
Está o amor, claro.
Aquele que vive até que uma pancada a mais possa ser a última.


Definição do dia:




IRRESISTÍVEL ...


Obrigado por esta imagem, querida
Charlotte
Pela definição muda e esmagadora do conceito em causa.

quarta-feira, junho 01, 2005

A contemplar o mundo que me rodeia hoje, entre as maravilhas e mediocridades que fazem uma montanha russa dos meus dias, surgem alguma ideias engraçadas, lá perdidas em meio ao marasmo que ameaça um Verão complicado.
Os pontos de referência que nos ligam a outras pessoas, diferem com a unicidade das mesmas. Mas ao não relativizarmos tudo, entendemos que as suas riquezas não são produto de uma perspectiva, mas do mecanismo que nos permite amá-las pelo elo comum ao que achamos positivo.
É a aleatoriedade da forma como compomos esses elos comuns que as difere. E por nos escapar a génese desse mecanismo, maravilhamo-nos com a quantidade de coisas semelhantes que encontramos em pessoas diferentes.
Alguns chamam-lhes compatibilidades. Eu chamo sorte e olhar generoso.
Sendo todos balanças mais ou menos equilibradas, não faria mal nenhum olhar mais vezes para determinados pratos.
Ainda que não seja reconhecido por elas, ou não julguem importante.
No meio dessa magia, há quem leia o olhar de que falo com a correspondência de quem não esquece os conceitos importantes. Como dizia P. Thomas Anderson, um pouco daquilo que devíamos fazer uns aos outros, e não andamos a fazê-lo…

Deve ser do Verão... não liguem.
Na sequência do post imediatamente anterior, o meu amigo subscrito deu-me uma ajuda na clarificação e intensificação do argumento. E ouvindo a música então, tudo aparece certo e explicado. E por isso mesmo, talvez um pouco doloroso.


The Noose

So glad to see you well
Overcome and completely silent now
With heaven's help
You cast your demons out
And not to pull your halo down
Around your neck and tug you off your cloud
But I'm more than just a little curious
How you're plannin' to go about makin' your amends
To the dead
To the dead

Recall the deeds as if they're all
Someone else's
Atrocious stories
Now you stand reborn
Before us all
So glad to see you well
And not to pull your halo down
Around your neck and tug you to the ground
But I'm more than just a little curious
How you're plannin' to go about makin' your amends
To the dead
To the dead

With your halo slippin' down
Your halo slippin'
Your halo slippin' down
Your halo slippin' down
Your halo slippin' down
(I'm more than just a little curious
How you're plannin' to go about makin' your amends)
Your halo slippin' down
Your halo slippin' down to choke you now

Maynard James Keenan