ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, junho 30, 2005

Ainda a propósito daquilo que as pessoas podem querer noutra:

A teoria do culto da bela e monstro, na personificação do homem elefante como possível amante, quero eu crer que se trata apenas de uma hipérbole para provar um ponto de vista. Porque a não ser, então estamos na presença de um fenómeno perante o qual eu faço uma vénia em reverência. A questão é que existe esta espécie de alergia á identidade física como sendo parte da constituição da pessoa total, e por conseguinte, como elemento de atracção ou fundamento para o desenvolvimento de paixões ou mesmo amor.
Não, não vou cavalgar a onda do politicamente correcto, e sobretudo, tendo em conta que no mundo de hoje a exigência feminina cresceu brutalmente ( e em meu ver bem - a barriga e o ar desconchavado já eram, e elas sabem-no bem), a ideia de que qualquer espécie de identificação física é necessária parece-me irrefutável.
Se alguém consegue efectivamente sentir alguma coisa por alguém que não lhe transmite qualquer sensação de atracção física, então dou os meus parabéns, mas não vou aceitar a estigmatização primária ( a da cabeça de baixo é de facto infeliz) aplicada a quem exige um elemento de beleza física que lhe seja subjectivamente agradável.
A mulher que mais amei até hoje provavelmente não era nenhuma brasa, mas eu achava que sim, que o era. Tinha uma silhueta que me tirava do sério, o sorriso era fantástico, havia harmonia no corpo, no cabelo,em toda a pessoa física. Para mim era lindíssima, e talvez para a pessoa ao lado não o fosse. Mas que existiam elementos objectivos dessa beleza? Pois claro. O corpo era firme, a silhueta elegante. Tudo o resto podia ser magia levada a cabo pela forma como ela me consigra fazer olhar para ela, à custa da pessoa que era, da brilhantez do seu pensamento, da sua sensualidade e da forma como usava o sarcasmo. Mas estava lá.

A situação é muito clara.
Nos ultimos anos as companhias de cosméticos e cuidados pessoais viram as suas quotas de mercado subir tremendamente, porque os homens entraram no mercado. As mulheres começaram a exigir a barriga lisa, o perfume, a pele em condições, e mais coisas.
Será isto mau?
Será mau exigir isso, como exigir sentido de humor, inteligência, humanidade e sensualidade intelectual? Ou tudo e parte do conjunto que se aprende a gostar, amar ou simplesmente ao que atrai?
E sinceramente, porque será que quando se fala em comer por comer, o ideal sensual tem de lá estar, mas isso pode estar arredado da pessoa que eventualmente se ame? Não será isto uma contradicção em termos? Mas eu quero que uma desconhecida me dê mais tesão abstracto do que a pessoa que eu amo ou possa vir a amar?
Indo buscar o brocardo cliché de todos os tempos, a mens sana in corpore sano é afinal de contas uma noção de completo na pessoa. Se essa noção de completo passa por barrigas e uma total ausência de elemento físico, então o seu a cada um e todos felizes. Mas estigmatizar as pessoas que procuram algum elemento físico ( mínimo para si!) como sendo alimárias primitivas que só pensam com as feromonas é um preconceito próprio do feminismo na sua pior faceta, ou seja, uma substituição em troca de género com o machismo, numa espécie de lógica paternalista e um complexo de superioridade indefensável.
Homens e mulheres são e deve ser sempre iguais nos seus direitos objectivos e na salvaguarda de tudo o que diga direito à protecção e desenvolvimento da pessoa humana - trabalho, direitos de cidadania, progresso, acesso à informação e riqueza, etc, etc, etc - e nao propalar-se uma qualquer superioridade que não existe. São diferentes, e felizmente, propensos à complementaridade, embora se insista numa espécie de competição ao velho estilo do bolinha e luluzinha. Aproveitar os contributos das características próprias dos géneros só nos pode enriquecer. Cavar trincheiras só fará o contrário.
Sinceramente, acho que o elemento físico (mínimo)é imprescindível, e que qualificar as pessoas que o exigem ( porque também têm para dar ou esforçam-se nesse sentido) como sendo inferiores e menos elucidadas relativamente ao que a natureza human tem de melhor, é preconceito, e como tal, sem justificação. Para informação pertinente, uma mulher que seja somente corpo e zero de alma ou inteligência nem sequer serve para "comer", usando o léxico já previamente referido. Portanto, o que interessa é a complementaridade - corpo e alma numa harmonia mínima que apaixone - e como tal subjectiva. As mulheres não precisam de mim para nada, assim como eu não preciso delas para nada. Mas a diferença é que as quero porque gosto delas, porque as minhas melhores amigas são mulheres e porque me fascinam o contributo que trazem à minha vida.
Espero ter-me explicado convenientemente. Exijo aquilo que sei que me afecta, impressiona e emociona. Porque somos todos corpo e alma, e negar isso, é cortar a pessoa ao meio. Mas o seu a cada um.

Para toda a discussão e polémica, clicar aqui

3 comentários:

Lisa disse...

Agora lembrei-me de um argumento estrondoso: a perda da beleza.
Imagina que sentes amor por alguém que para ti é a mais bela, não importa agora se o é de facto de acordo com padrões de normalidade. Digamos que preenche a tua ideia de belo, e basta. Pois essa pessoa pode um dia perder a beleza, e não falo do descuido com a aparência ou os estragos normais da idade. Falo de algo bem mais trágico: um acidente que desfigura por completo ou incapacite gravemente a pessoa. A transforme.
A imagem de beleza (anterior)mantém-se porque ancorada em algo de mais sólido e fiável? És incapaz de encarar a nova face, mesmo que horrível, e ver para além disso? Ou perdes o amor, simplesmente?
E agora mais cruamente, nem te vou perguntar se és capaz de amar uma 'feia' - para isso há sempre a resposta do é bela para mim é é um conceito subjectivo. Apenas questiono: imagina que encontras alguém que te arrebata e fascina de um modo que nunca outra te fez sentir. E se essa pessoa está numa cadeira de rodas? Tem qualquer 'defeito' ou deficiência física evidente, daqueles que é impossível ignorar à vista. Podes dizer á partida que não, nunca sentirias atracção por essa pessoa com e apesar da sua diferença física?
Lá está, eu não. Eu não nego essa aleatoriedade. Às vezes a vida prega-nos partidas, e mesmo alguém a quem nunca prestamos muita atenção, que não nos despertou à partida essa atracção, sabe-se lá porquê e de repente, por qualquer coisa que vem de dentro (eu chamo-lhe luz) transforma-se e não conseguimos deixar de sentir uma enorme atracção, sem que se saiba se é física ou psíquica. É um todo.
Daí a falibilidade do argumento que se ancora demasiado na vista.
E ainda podia ir mais longe: imagina que tu perdes esse sentido (seja a visão, seja o tacto) que te permite destrinçar o belo... Oi, pois é. Há pessoas que são cegas sem saber, não sabem ver a luz dos outros, teimam em por-lhes um abat-jour muito lindo e por si escolhido.
Há pessoas que, pela sua maníaca obsessão com o que os sentidos transmitem, mereciam ser, mesmo temporariamente, cegas. Para finalmente ver.
(just my two cents, this time the last ones. cause i want to be seen by those who can and want to see)

SK disse...

Essas premissas em nada colocam em causa o que disse acima. E porquê? Porque já me aconteceu uma situação dessas. Quando tinha 14 anos, apaixonei-me perdidamente por uma pessoa que só tinha um braço. Paixoneta de miúdos, poder-se-á arguir, mas é óbvio que a dimensão completa das pessoas poderá em muito ultrapassar a lógica da sua aparência. Isso nunca esteve em causa.
Mas eu não devo estar a fazer-me entender...
A questão física sem a interior também de nada vale. Nada mesmo. É uma carcaça vazia, correcto?
E além disso, estou a falar em termos do que é o chamado paradigma previsível, ou aquele que sei que, pela experiência, provoca os efeitos em causa.
Agora não posso é negar a ideia bem clara de que algum elemento físico tem de lá estar. Porque se não estiver, a reacção simplesmente não se dá. Não acontece. E não julgo que as pessoas se possam forçar a interiorizar conceitos porque grassa a ideia de que um dos elementos é mais importante que o outro. E claro que é.
Mas daí a dizer que se pode eliminar a questão fisíca por completo vai uma grande distância.
Quem o conseguir tem a minha admiração, e digo-o sem ironia. Mas não está mais certo ou tem mais razão do que eu, porque cada um sente e avalia á sua maneira a forma como as pessoas o podem afectar.
E digo mais - são muitos os que pensam desta forma, mas preferem não dizer porque temem que caia mal. A verdade é que de alguma forma, a ideia que gostar de elementos estéticos produz uma correlativa superficialidade é quase automática. O que me parece, no mínimo, precipitado.
Corpo e mente. Ok?
Não só corpo, nem só mente.
Um cocktail equilibrado. É pedir assim tanto? É superficialidade? Então ler o post abaixo: http://estacoesdiferentes.blogspot.com/2005/06/eu-superficial-do-hedonismo-de.html.

L'enfant Terrible disse...

Se for só corpo, come-se :).
Se for só corpo e souber o que faz, repete-se!

Se for só mente não se come, discute-se.
Se for só mente e brilhante, passam-se longas tardes em alegres discussões.

Se for tudo apaixona, arrebata, envolve e desarma.

Já amei feias, já "comi" gordas, já me apaixonei e tentei discutir o mais simples dos assuntos com alguém que não partilhava de uma argúcia mental. Tudo isto me ensinou e não me tornou pior, antes pelo contrário. Se é possível amar alguém que tem algum defeito físico ou mental? Sim. Mas a aleatoridade dos efeitos tem tanta validade como a exigência de atributos mínimos!

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