
Eu, superficial do hedonismo de silhueta me confesso(?)
A propósito das discussões já tidas aqui, aqui e aqui acerca do tema, tenho de fazer um esclarecimento, antes de deixar transparecer uma ideia que não corresponda à realidade.
Afinal de contas, qual é o papel na expressão física das pessoas naquilo que são os mecanismos de atracção e consequente afeição gerada? Até que ponto o nosso corpo representa um papel fundamental na dinâmica relacional das pessoas, desde o ponto anterior ao conhecimento até á constância de um relacionamento, seja lá ele de que espécie for - um dia, duas horas, uma semana, uma vida.
E esperando a previsível zurzidela, vou desde já estabelecer uma ponto fundamental. A harmonia mínima é fundamental. Sim, eu sei, o que raios vem a ser a harmonia minima, e a beleza está nos olhos do observador, e tal, e coiso e o camandro.
Harmonia mínima. Um elemento de beleza corporal que permite a visualização da sensualidade como a entendo. A harmonia de que falava o Vinicius, aquela superfície que apetece tocar, aquele desnudar de uma pequena parcela que transforma a imaginação e a incrementa. O levantar da saia que mostra o mundo, nas palavras de Dave Matthews (*).
Talvez eu tenha um elemento de superficialidade que me leva a tomar determinados tipos de opções inconscientes, e me levem a sentir determinadas pulsões somente quando o tal elemento de harmonia está presente. Talvez eu até me envergonhe um pouco ao sentir que só experimento a atracção devida por mulheres que tragam consigo esse elemento minimo de harmonia, a tradução em silhueta de uma insinuação sensual que gera desejo.
Mas algumas coisas têm de ser esclarecidas.
Quando se fala em harmonia, falamos num computo geral. O que significa que a parcela mental, constituida por toda a sensualidade da atitude, da inteligência, do sarcasmo, da meiguice, da generosidade de capacidade criativa - é absolutamente fundamental! Imprescindível.
Mas não julgo obviamente que tudo opera por mecanismos substitutivos. Um corpo fabuloso não substitui a capacidade de colocar a piada genial no momento certo, assim como a maior das capacidades intelectuais e afectivas não geram o desejo através de uma total discordância com a necessidade de um um juizo estético mínimo. Desejo é forma e substância. Nem só uma coisa, nem somente outra. É o equilibrio. Pelo menos mínimo!
Porque como é evidente, não é perfeição que se pede. Não estamos a falar na dita beleza traduzida em construções à lá Top Model, por um lado, e a capacidade e elucubração e de um Umberto Eco ou uma Harper Lee.
Trata-se tão somente da possibilidade de reconhecer a beleza que nos cative nos dois universos que constituem a pessoa.
É a silhueta falante, uma pele que toca porque as duas dimensões, física e psíquica, já há muito que se fundiram, tornado impossível a dissociação.
Se isto faz de mim uma pessoa superficial, então não tenho outro remédio senão enfiar a carapuça e meter a viola no saco. Encontro-me algures perdido então entre a tradução física de um arquétipo minimo, e sua vivência feita de uma sensualidade inteligente, agressiva e generosa. Em termos mais soltos, mulher "boa" e inteligente q.b. - que me desculpem os mais sensíveis.
Sei que não é muito politicamente correcto, mas é a verdade, e qualquer melindre que isso possa comportar para alguém, contra mim reverte, porque até provavelmente sofro os efeitos da aplicação do meu próprio conceito.
No entanto, julgo que não é demais ser exigente se estivermos de acordo connosco. E essencialmente se acharmos que temos para dar aquilo que pedimos. É uma questão de coerência e mesmo generosidade perante o outro. Queremos dar-lhe o melhor, porque achamos que é precisamente isso que ele nos proporciona ao nivel dos juizos estético e emocional.
É nessa linha que também me insurjo contra a chamada "bandalheira" pós-relação. Aquela ideia que assenta numa espécie de imobilidade porque se cria a noção do "já está". O já está caçado/a, preso/a, assente.
Descura-se o corpo porque "é normal depois de casar". Deixam-se de ter pulsões criativas relativamente aquela pessoa porque "é normal que amaine numa relação". Deixa-se de inventar formas de gostar e surpreender porque " é normal que outros assuntos se sobreponham".
Claro. E depois é normal que as pessoas se separem, se desinteressem, se anulem.
E o corpo, a essência física, é apenas mais um elemento dessa panóplia, mas nunca, em circunstância alguma, se torna despicienda.
Pelo menos na minha forma de ver e sentir as coisas.
Espero ter esclarecido. :)
(*) "Hike up your skirt a little more
show the world to me
in this boy's dream "
Crash - 1996
5 comentários:
Nada a opor, e nem me alargo - é que hoje estou mesmo cansada e ainda nem almocei.
É que eu amo o todo, mesmo nas partes mais feínhas. E estas talvez mais ainda, pois são elas que nos demonstram que é gente que está ali, não um sonho, não uma elaboração nossa, egoísta.
Eu amo gente. Pelo que é, tal como é.
(aplausos barulhentos).
é isso mesmo King. Uma relação é um todo, e que tem de ser apimentada todos os dias, renovada, mimada e trabalhada. Só assim resulta.
O culto do corpo é bom e necessário porque transmite ao mundo o que pensamos sobre nós proprios. O exagero é que é sempre prejudicial.
A beleza, esta, está nos olhos de quem a vê.
Bjinhos (empolguei-me, desculpa) e Bom dia
Nem a propósito - estou aqui a ouvir uma musiquita dos Morcheeba: 'women loose weight'.
'the only thing left for me to do is to kill her' :D e tb :P
We're not alone :).
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