ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, julho 21, 2005

No outro dia, numa conversa mais ou menos acesa levada a cabo numa mesa de almoço, discutia-se qual o pior papel. O da pessoa que abandona um relacionamento, ou daquela que é abandonada.
E ouviam-se opiniões fervorosas na defesa de que o pior papel cabe a quem abandona, porque além da dor da fractura, carrega consigo a responsabilidade da sua génese. No fundo, torna-se um Sísifo tremendamente infeliz.
Sinceramente, esta é uma daquelas tretas próprias de quem tem a consciência pesada por algum feito no passado. Todos nós já estivemos de ambos os lados, julgo eu, e sabemos perfeitamente que por mais complicada que seja a tarefa de carregar a responsabilidade, é a possibilidade de escolha que limpa qualquer mal estar que possa ficar, ainda que residualmente.
Para quem sai, quem se evade, a lógica da liberdade pela qual se opta, surge como um argumento genérico. É a vontade dessa pessoa que está a ser levada a cabo. Por isso toda e qualquer complicação surgida nesse processo significa apenas uma consequência necessária de certas escolhas. E normalmente são consequências merecidas.
É algo próprio da natureza humana, julgo eu.
Conseguir limpar a memória do sofrimento alheio pela aquisição de um estado de liberdade novo.
Não está eivado de culpa. Afinal, os caminhos são o que são, e as pessoas sentem apenas que têm de os trilhar, sob pena de se condenarem a uma morte aparente.
Mas desenganem-se.
As pessoas que saem sentem-se mal pela consciência. Não pelo mal infligido a quem quer que seja. Sentem-se mal porque se colocam na figura do carrasco, e isso retira-lhes o ar completamente puro á sua liberdade. Sentem-se mal porque sabem perfeitamente que esse sentimento desaparecerá, ao passo que do outro lado fica durante o tempo suficiente para desencadear pequenas mortes e marcas indeléveis.
É triste que a natureza das atitudes das pessoas, das suas escolhas e sentimentos as levem a conseguir ignorar de forma natural o Inferno que fica para trás. Todos nós já o fizemos a certa altura, e bem vistas as coisas, pode dizer-se que passamos pelo Inferno talvez porque já o tenhamos sido. Há quem veja nisto o equilibrio natural de uma malfadada pulsão intelectual que a Natureza nos legou enquanto seres racionais, mas também emocionais.
E emergimos desse ciclo onde a regeneração se torna possível, apenas para entregar mais um pedaço do inviolável a uma suave dentada de cinismo e desespero.
Emergimos livres, prontos a progredir, mas nunca mais se é o mesmo.
Quer se saia, quer se fique.

3 comentários:

Anónimo disse...

A propósito de "nunca se é o mesmo, quer se saia quer se fique".
Deixo uma nota:
Haveria muita coisa para dizer acerca deste assunto mas iria de certo estender-me demais, correndo o risco de, se calhar, cair no absurdo.
De facto, e citando algumas expressões usuais esta questão é uma "faca de dois gumes", é o "fio da navalha", mas uma coisa é certa, retirando deste universo, os tais que encarnam a postura nacional da "insustentável frieza do ser" (a que já me referi noutra nota),quer se saia quer se fique, ficam marcas indeléveis para todo o sempre.Qualquer tipo de relação que tenhamos, por mais breve e rápida que seja, e tendo em conta que damos ao que está junto de nós, todo o nosso "EU" de alma e coração, deixa cicatrizes para todo o sempre. Mudamos sim, de certo que mudamos, porque aquela parte de nós que passamos ao outro, pode nunca vir a ser restítuida (ou se é, vem com mazelas) e deixa, por vezes, um vazio profundo e mudo.
A questão flucral, quanto a mim, é esta e apenas esta. Claro que este assunto não é assim tão linear quanto poderia parecer já que cada situação passada entre duas pessoas é única e, como tal, terá de ser apreciada casuísticamente. No entanto, refiro, por último, sob pena de me estender demasiadamente, que esta situação se torna mais dolorosa quando aquele a quem nos damos de "corpo e alma" não se encontra no mesmo patamar da nossa sensibilidade, ou se calhar, sendo um pouco mais pessimista, apenas nos Usou. E para este, para este SIM, a vida continua como se nada se tivesse passado ou acontecido!!

Anónimo disse...

Como eu concordo contigo, e contigo tb anonymous...
O vazio que fica do outro lado, a consciência de que nada se pode fazer, mesmo quando por qualquer razão algo nos empurra para lá ir tocar de novo...na ferida.
Esperança nos novos tempos...talvez...
Beijinhos
SQ

Patricia disse...

Eu acho que não é facil para os dois lados... demorei tempo a perceber que a a pessoa que deixa também não sai ilesa de sofrimento...
São tipos de sofrimentos e intensidades diferentes e por estarem em "patamares diferentes" não se devem comparar...
A verdade é que seja qual for o papel do momento, o que vai ou o que fica, deixa-nos marcas e novas experiências que conscientemente ou mesmo inconsciente nos obrigam a uma mudança de direcção...