
A Solução de Aracne.
Aquilo que em nós perdura, ou tende a perdurar, é forçosamente entendido como algo que nos é permitido manter. Dito assim, parece quase uma inexplicável atribuição de poder a alguém que nos é exterior. É a rendição de um estado mental a um poder, por vezes até involuntário, que alguém detém sobre outrem.
No entanto, se pensarmos um pouco sobre os legados que qualquer experiência deixa, surgem algumas questões. Por um lado, a vida da nossa criação, emocional por exemplo, pode ser castrada por entendimentos diversos ou pela falta de lógica que assiste ao medo pelos desejos realizados. Por outro, existe sempre algo após uma experiência emocional que reflete o desejo alheio de alguma coisa perdure. Que fique e não mude.
Claro que isso pode prender-se com um desejo honestamente preocupado com manutenção de uma personalidade, mas a mais das vezes é apenas uma forma de amainar as manifestações de culpa e compaixão que acompanham aqueles que transformam a realidade em legado. Torna-se necessário para algumas pessoas perceber que não foram os causadores da transformação inoperável de uma qualquer personalidade, e para tal, tentam manter o legado a todo o custo. Um pouco como se a morte não roubasse o produto gerado por aquela personalidade.
Quando algumas pessoas insistem na amizade "pós-stress-pós-traumatico-relacional" ( chiça!), estão no fundo a dar-nos a teia quando fomos feitos para construir o tecido. Há uma compungência que quase se permite justificar a liberdade mal explicada. A mesma que perdura no tempo como uma espécie de remédio subsidiário. É, de alguma forma, uma cobardia elegante, mas à qual ninguém está subtraído nas suas andanças de vida.
Porque afinal de contas, ninguém quer ser responsável pela perda de um real talento ou singularidade numa outra pessoa. E nem o egoísmo cala a trompeta da dúvida quando é tempo de verificar o cenário do pós-guerra.
Por isso não é raro ouvir-se que as pessoas mudam no rescaldo dos seus respectivos infernos.
A força e constância de personalidade que admiram naqueles que se recuperam é apenas mais um lençol feito teia. É como olhar para um país destroçado e ver os esforços de recuperação e reconstrução apesar de qualquer catástrofe. Alguns mandam suprimentos e ajuda. Mas as alterações, o tempo consumido e as pequenas mortes dos detalhes importantes mantêm-se.
Como a teia em que o próprio tecelão se enreda, esperando que a malha algum dia seja pequena o suficiente para voltar a ser tecido.
Em bom rigor, a questão mantém-se.
Se as pessoas se mantêm as mesmas, ou se o desejo é que se mantenham assim o mais possível, qual a razão para o justificar, a partir do momento em que se trata dessa manutenção que não basta, não chega, não serve?
Porque a teia é bonita, mas o seu propósito parece ser prender aqueles que não se querem dar a alimentar.
Se as pessoas se mantêm as mesmas, ou se o desejo é que se mantenham assim o mais possível, qual a razão para o justificar, a partir do momento em que se trata dessa manutenção que não basta, não chega, não serve?
Porque a teia é bonita, mas o seu propósito parece ser prender aqueles que não se querem dar a alimentar.
1 comentário:
Escrevi sobre isto mesmo há uns tempos...
Estas teias...
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