
"Steve" - 1997-2005
"The poor dog, in life the firmest friend. The first to welcome, foremost to defend."
Lord Byron
Como é que se racionaliza a maldade? Quero dizer, como é que pura e simplesmente encontramos uma medida explicativa, quando não existe qualquer fundamentação que não seja o exercício de um desejo mórbido de causar sofrimento e destruir?
Quando olhamos para as atitudes alheias, já lá dizia o Fitzgerald, devemos tentar refrear o ímpeto para julgar. Talvez porque em quase todos os comportamentos se pode pelo menos tentar ver a motivação e o passado construtor dessa mesma atitude. E não é raro encontrar-se alguma coisa. Agora quando a motivação não existe, quando a única coisa que permanece é o niilismo do desejo destrutivo, não é possível compreender e dá origem à raiva mais primeva que se possa imaginar.
Na noite de Sábado mataram-me um amigo. Um amigo e membro da família. Uma presença alegre e desinteressada que não nos deu nada além de afeição durante sete anos. Possuidor de uma saúde de ferro conjugada com uma desobediência divertida, o Steve aparentava ser muito mais novo. Nunca perdera a feição de puto, de cachorro obstinado pela brincadeira. Bem sei que para muitos um animal é um animal, mas quantos existem bem melhores que muitas pessoas? Era um amigo.
Na noite de Sábado mataram um membro da família. Um animal que se fundira na estrutura familiar a que pertenço e que era alvo da mesma preocupação, irritação e afeição reservada a todos. Nessa noite mergulharam todos numa tristeza e raiva sem limites ou explicação, especialmente às duas pessoas que compartilhavam com ele o maior dos períodos de tempo. Os meus pais.
Na noite de Sábado não mataram só um animal, mas a alegria de uma casa, uma companhia incansável e um comediante nato. Nessa noite mataram a felicidade de poder tratar um animal como um amigo e receber o melhor que ele tinha para dar. Foi-se um companheiro de uma família, mas essencialmente de um casal que com ele vivia diariamente, e bebia da sua refrescante traquinice como uma novidade reiterada. Uma alegria simples, poder gostar de alguém ou de um animal. Sem que isso interferisse com quem quer que fosse.
Mas não se limitaram a assassinar este amigo. Fizeram-no de forma a que o mesmo sofresse agonias que nem consigo recordar. Ou talvez nem queira. Para que morresse em dor, destruído internamente, em meio ao desespero daqueles que o estimaram e acarinharam até ao final. Da pior forma possível, portanto.
A marca ficará sempre. Uma noite interminável que não derivou em nada senão um fim trazido pela compaixão. E depois o vazio. Depois a tal falta de explicação. Depois a ira. O perdurar da maldade simples, que desarma pelo seu carácter estanque. Dali nada pinga senão um gás nauseabundo da falta de sentido, e da tristeza que fica. Pela intenção de magoar pelo gozo sádico e repugnante de o fazer.
Gostava apenas de deixar uma mensagem ao filho da puta, energúmeno cobarde e sádico que deixou este vazio, que me fez olhar para os meus pais e ter de ver a tristeza no rosto dos mesmos, que me fez pensar novamente sobre certas coisas bem incómodas acerca da natureza humana e que me roubou mais uma coisa num tempo onde as perdas têm sido constantes.
Que eu nunca tenha o azar/sorte de saber quem foi o assassino deste meu amigo. Porque essa escória, porque isto não é uma pessoa, tem o privilégio de ser a primeira desde que me conheço que odeio de forma concreta e quase perigosa (sim, há muita gente que o merece, mas tive a sorte de nunca os ter encontrado na minha esfera pessoal directa). A primeira pessoa para quem tenho de usar a palavra ódio, o que desde já representa uma perda impassível de definição e uma tristeza adicional em si.
Por isso pergunto. Como é que se explicam certas coisas?
Qual a génese de algo como isto?
Fica para mim, e levará muito tempo a desaparecer, a imagem deste amigo, com os olhos postos na bolacha de água e sal e a cabeça rebelde à procura de uma palma da mão amiga. É sempre difícil deixar ir aqueles de quem se gosta, e tentar sentir apenas o que de bom nos deu. Uma perda é uma perda. Ponto final. O que é que faço com esta falta que dele sinto?
Mas uma coisa é certa. Haverão outros amigos.
Mas o nome ficará sempre o mesmo.
Steve.
8 comentários:
:(
Não dá para explicar a maldade pura e simples e, pior, a tenacidade de quem deseja fazer mal.
Não se explica nem se entende.
Conheci o Steve de relance, numa tarde de verão. Sorria. Como sorriem todos os cães, ou como eu, como tu, achamos, sentimos que os cães nos sorriem, como eu , como tu, que nos sentimos iguais a eles, como eu, que como tu, pelo amor incondicional e puro que sentimos por estes nossos familiares, hoje chorei ao saber da morte do steve.
Filhos de uma grande puta.Todos os que não sabem amar. Apenas isso. Não sabem.
Sónia
Em alturas como estas gostava de acreditar que há algo mais do que esta realidade concreta, e que alguém vai fazendo contas numa espécie de balança cósmica, e que no final as pessoas têm o que merecem. Mas não acredito.
A coisa, o pedacinho de merda que fez esta atrocidade fê-lo de propósito, e não experimentou em nada a angústia que teria necessariamente que sentir ao matar uma criatura que tanto bem fazia a muita gente.
A vingança é má? Será? Em ocasiões como estas dou comigo a pensar como raio seria suposto fazer-se justiça, e não direito, para com o pedacinho de merda que fez isto. À luz da lei o Steve era uma coisa, e foi simplesmente destruída. Não, a lei e o direito jamais conseguiriam fazer justiça aqui.
Será a vingança má? Não será, em alguns casos, a única forma de equilibrar os pratos da tal balança cósmica?
Que o padacinho de merda que fez isto sofra na carne e na alma o sofrimento que incutiu ao teu amigo, mas não só. Que simultaneamente sinta toda a tristeza e toda a angústia que tu, a tua família e, em geral, todos os amigos do Steve e dos animais em geral sentiram com esta notícia.
Um abraço.
Queria escrever alguma coisa, porque não posso deixar de o fazer, mas nem sei o que dizer. O que se diz?!
Posso imaginar a tristeza, o vazio e a raiva que sentes. E eu nada sei.
Quero só dizer-te que estou do teu lado e do lado do Steve.Que também me sinto triste e vazia com o que acabei de ler.
Um abraço amigo.
Tenho muita pena.
1 Bjuga
Obrigado malta.
A falta de sentido total para algumas coisas é de alguma forma amenizada pelo sentido trazido por outras.
Abraços
Tenho um nó no estômago...;(
Um grande beijo de uma outra viuva de bicho
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