
Tentando encarnar um pouco o espírito absolutamente fora do convencional que percorre toda a cidade, e já agora a região (basta ir a Figueres e ver o museu Dali para ter essa noção), e e um pouco imbuido do toque de Gaudi por toda a cidade, eis a minha surrealista tentativa de provar a presença na única cidade europeia onde seria capaz de viver para além de Lisboa. É um local fantástico, uma cidade plana, linda, ensurdecedora e absolutamente viva a qualquer altura do dia. A Rambla funciona como uma artéria fundamental da cidade, como uma espécie de canal sanguíneo principal que carrega as pessoas desde a costa até ao centro. O ruído e o bulício são por vezes difíceis de interiorizar no primeiro impacto, mas depois tornam-se parte do charme que esta cidade tem.
As mulheres estão em toda a parte, e a são tão belas como diversificadas. Há um toque cosmopolita de distância entre as pessoas, mas há menos gelo do que em Lisboa por exemplo. Barcelona é mais barulhenta que Nova Yorque, apesar de incomparavelmente mais pequena. No entanto, o maior ruido vem das pessoas, das suas conversas, do castelhano ou catalão metralhado em conversas entusiástias largamente impulsionadas pelo imenso calor e humidade que se faz sentir.
No fim da Rambla, e já na zona comercial e portuária, existe um homem que, pelo menos nos cinco dias em que lá estive, alimentava os pombos. Tinha um olhar perdido, a pele acastanhadas pela torreira de mil dias de sol, e sorria-nos simpaticamente enquanto dançava com os seus amigos emplumados. Estava em todos os planetas menos no nosso.
Por toda a parte os ambulantes vendem o que seja. Desde óculos de sol pirateados, a latas de cerveja quente. Na Rambla, existem os artistas, os homens estátua, e a calçada de vários km fervilha de vida e agitação. De retratos a caricaturas, os artistas, que normalmente são os mesmos quase todos os dias, trabalham afincada e inspiradamente nos seus papéis brancos, até que lá aparece um rosto de uma criança que passa as passas do Algarve para estar quieta tanto tempo e deixar-se retratar.
Porta sim porta sim, existem paquistaneses ou indianos que vendem toda a espécie de souvenirs, lado a lado com os restaurantes, dos quais saem senhores calvos que praticamente nos deitam as ementas para as mãos, na esperança que escolhamos comer ali alguma coisa. À porta de um desses restaurantes estava uma rapariga de vinte e poucos anos, com um par de olhos de um azul faíscante e sorriso terno. Estive quase para entrar e beber uma caña, só por causa daquele sorriso.
A cidade a caminho de Montjuic é um desfilar de monumentos, de cultura e espaços verdes. Do "Poble Espanhol" á fundação Miró, é um deleite escolher o local para parar e passear. Há imensas linguas e sotaques, cores de olhos e sorrisos, por toda a parte.O recinto Olímpico é de uma grandiosidade e luminosidade assombrosas, completamente rodeado pelo verde da vegetação luziriante que envolve toda a encosta da cidade.
O bairro gótico é uma maravilha de ruas estreitas e escuras, cheias de lojas de comércio tradicional ( os centro comerciais colombos e hipermercados são pragas que em Barcelona ainda não atacaram), onde dá gosto andar e andar até que os pés fiquem em sangue ( foi o que literalmente me aconteceu).
E depois há Gaudi. E a Sagrada Família. E não há fotografia que faça jus à imponência trabalhada das suas paredes, à imaginação e beleza das suas esculturas e figuras paralisadas na construção. A sagrada família é possívelmente o meu monumento sacro preferido, e é uma maraviha de originalidade e irreverência. E ou percebi mal as indicações do guia, ou só estará pronta daqui a 20 anos... É obra!
Viajar sozinho pode ser o prelúdio da esquizofrenia. Ter visto, passeado e sentido a cidade com outra pessoa seria muito diferente. Lançaria outra luz, outra qualidade, porque aquilo que é muito bom normalmente sabe sempre melhor se devidamente partilhado com quem aprecie. Mas por outro lado, entre fazê-lo sozinho e não fazer, mais vale a solidão parcial da perdição da descoberta, onde há sempre para onde olhar, o que descobrir, e tuas estreitas e escuras para passear.
Barcelona é um romance de Verão que se poderia tornar a única história de amor para além de Lisboa.
Em Barcelona surgiu igualmente a urgência em adquirir um Moleskine.
Porque nada se deve esquecer, e as fotografias não resolvem tudo.
4 comentários:
Obrigada por me relembrares a linda Barcelona. Estive aí há muito tempo, quando ainda se vendiam (aos montes)camisolas nº7 nas lojas... A sagrada família é das coisas mais imponentes e belas que já vi. Mas só 20 anos até estar terminada? Duvido...
Ah, e há hipers e centros comerciais mas, tal como cá, fora do centro (turístico) da cidade - acredita, que estive acampada num subúrbio. E não me digas que não reparaste no gigantesco El Corte Inglés na Praça da Catalunha? Mais feio que o nosso!
:)
Ainda não é este ano que vou à cosmopolita Barcelona. Este fim de semana, Berlim, a cidade das famosas bolas, será o meu destino.
Um abraço
Flávio
ando a sonhar com viagens, longas, curtas, para kk lugar...enquanto isso vou viajando atravez de voces que partem e em seguida me presenteiam com palavras de roteiro e sentidos. merci.
beijinhos
Pra isso até os guardanapos das esplanadas servem....
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