ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, julho 11, 2005




Tentando encarnar um pouco o espírito absolutamente fora do convencional que percorre toda a cidade, e já agora a região (basta ir a Figueres e ver o museu Dali para ter essa noção), e e um pouco imbuido do toque de Gaudi por toda a cidade, eis a minha surrealista tentativa de provar a presença na única cidade europeia onde seria capaz de viver para além de Lisboa. É um local fantástico, uma cidade plana, linda, ensurdecedora e absolutamente viva a qualquer altura do dia. A Rambla funciona como uma artéria fundamental da cidade, como uma espécie de canal sanguíneo principal que carrega as pessoas desde a costa até ao centro. O ruído e o bulício são por vezes difíceis de interiorizar no primeiro impacto, mas depois tornam-se parte do charme que esta cidade tem.
As mulheres estão em toda a parte, e a são tão belas como diversificadas. Há um toque cosmopolita de distância entre as pessoas, mas há menos gelo do que em Lisboa por exemplo. Barcelona é mais barulhenta que Nova Yorque, apesar de incomparavelmente mais pequena. No entanto, o maior ruido vem das pessoas, das suas conversas, do castelhano ou catalão metralhado em conversas entusiástias largamente impulsionadas pelo imenso calor e humidade que se faz sentir.

No fim da Rambla, e já na zona comercial e portuária, existe um homem que, pelo menos nos cinco dias em que lá estive, alimentava os pombos. Tinha um olhar perdido, a pele acastanhadas pela torreira de mil dias de sol, e sorria-nos simpaticamente enquanto dançava com os seus amigos emplumados. Estava em todos os planetas menos no nosso.
Por toda a parte os ambulantes vendem o que seja. Desde óculos de sol pirateados, a latas de cerveja quente. Na Rambla, existem os artistas, os homens estátua, e a calçada de vários km fervilha de vida e agitação. De retratos a caricaturas, os artistas, que normalmente são os mesmos quase todos os dias, trabalham afincada e inspiradamente nos seus papéis brancos, até que lá aparece um rosto de uma criança que passa as passas do Algarve para estar quieta tanto tempo e deixar-se retratar.

Porta sim porta sim, existem paquistaneses ou indianos que vendem toda a espécie de souvenirs, lado a lado com os restaurantes, dos quais saem senhores calvos que praticamente nos deitam as ementas para as mãos, na esperança que escolhamos comer ali alguma coisa. À porta de um desses restaurantes estava uma rapariga de vinte e poucos anos, com um par de olhos de um azul faíscante e sorriso terno. Estive quase para entrar e beber uma caña, só por causa daquele sorriso.

A cidade a caminho de Montjuic é um desfilar de monumentos, de cultura e espaços verdes. Do "Poble Espanhol" á fundação Miró, é um deleite escolher o local para parar e passear. Há imensas linguas e sotaques, cores de olhos e sorrisos, por toda a parte.O recinto Olímpico é de uma grandiosidade e luminosidade assombrosas, completamente rodeado pelo verde da vegetação luziriante que envolve toda a encosta da cidade.

O bairro gótico é uma maravilha de ruas estreitas e escuras, cheias de lojas de comércio tradicional ( os centro comerciais colombos e hipermercados são pragas que em Barcelona ainda não atacaram), onde dá gosto andar e andar até que os pés fiquem em sangue ( foi o que literalmente me aconteceu).

E depois há Gaudi. E a Sagrada Família. E não há fotografia que faça jus à imponência trabalhada das suas paredes, à imaginação e beleza das suas esculturas e figuras paralisadas na construção. A sagrada família é possívelmente o meu monumento sacro preferido, e é uma maraviha de originalidade e irreverência. E ou percebi mal as indicações do guia, ou só estará pronta daqui a 20 anos... É obra!

Viajar sozinho pode ser o prelúdio da esquizofrenia. Ter visto, passeado e sentido a cidade com outra pessoa seria muito diferente. Lançaria outra luz, outra qualidade, porque aquilo que é muito bom normalmente sabe sempre melhor se devidamente partilhado com quem aprecie. Mas por outro lado, entre fazê-lo sozinho e não fazer, mais vale a solidão parcial da perdição da descoberta, onde há sempre para onde olhar, o que descobrir, e tuas estreitas e escuras para passear.

Barcelona é um romance de Verão que se poderia tornar a única história de amor para além de Lisboa.
Em Barcelona surgiu igualmente a urgência em adquirir um Moleskine.
Porque nada se deve esquecer, e as fotografias não resolvem tudo.

4 comentários:

Lisa disse...

Obrigada por me relembrares a linda Barcelona. Estive aí há muito tempo, quando ainda se vendiam (aos montes)camisolas nº7 nas lojas... A sagrada família é das coisas mais imponentes e belas que já vi. Mas só 20 anos até estar terminada? Duvido...
Ah, e há hipers e centros comerciais mas, tal como cá, fora do centro (turístico) da cidade - acredita, que estive acampada num subúrbio. E não me digas que não reparaste no gigantesco El Corte Inglés na Praça da Catalunha? Mais feio que o nosso!
:)

Flávio disse...

Ainda não é este ano que vou à cosmopolita Barcelona. Este fim de semana, Berlim, a cidade das famosas bolas, será o meu destino.

Um abraço

Flávio

Vanessa Godinho disse...

ando a sonhar com viagens, longas, curtas, para kk lugar...enquanto isso vou viajando atravez de voces que partem e em seguida me presenteiam com palavras de roteiro e sentidos. merci.
beijinhos

Ana disse...

Pra isso até os guardanapos das esplanadas servem....