ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, agosto 12, 2005

ALGO ATÍPICO, PESSOAL E IRREPETÍVEL
( Se quiserem, passem á frente. A sério, talvez até seja melhor...)
É verdade.
Amanhã vou de férias.
Uma semana, talvez a pior do ano para estar no Algarve, mas vou para o meio da confusão apanhar algum sol e tentar por em dia alguma leitura.
Vou igualmente tentar não fazer muitas asneiras, e consolidar no espírito as coisas boas que possuo, em detrimento de tudo o que me dilacerou durante mais de seis meses.
Não.
Não é um período de "reflexão" ou "balanço".
É apenas uma constatação de que por vezes não temos outra alternativa senão tentar agir inconsequentemente, sob pena de sufocarmos debaixo da conta do hipotético.
No entanto algumas conclusões se podem tirar de mais de uma metade de ano que se aproximou do mais absoluto surrealismo.
Os trinta anos são uma espécie de terra de ninguém, na qual somos demasiado jovens e ao mesmo tempo velhos para praticamente tudo. Há uma espécie de estruturação socializante que empurra as pessoas para as chamadas posições dominantes ou adequadas. É lixadíssimo ser solteiro com esta idade, porque estamos precisamente no beiral estreito para todas as questões, e afastados de praticamente todos os mundos.
Ir a um jantar de amigos, com casais constituídos, alguns já com filhos, é mais ou menos como estar no centro da praça do Rossioi, semi-nu, debaixo do jorro de luz de um holofote. Por mais que não se queira, há a afabilidade, a amizade e a recepção no seio. Não obstante, surgem os momentos em que se percebe porque raios é que se escolhe uma pessoa para tranferir afectos, e a percepção de que estamos no meio de muitas perguntas e pouquíssimas respostas. Deslocados numa espécie de consciência de escolha que no entanto nunca foi tomada nos termos que a vox populi normalmente pressupõe.
Estamos igualmente equidistantes do outro mundo, mais jovem, que busca o apoio para ambos os pés numa caminhada necessária. Somos "velhos". Bem, eu diria que somos mais "indefinidos", porque a qualificação ronda sempre uma certa ausência de pertença. Não estamos demasiado longe, mas também nunca suficientemente perto. Também porque se perdeu a paciência para uma certa falta de pragmatismo, e sobretudo, para a ausência de códigos necessários. Crescer também tem destas merdas, julgo eu.
Nunca pensei sinceramente que a mudança de uma certa forma de vida trouxesse um turbilhão tão intenso, uma forma de viver os dias como se eles escapassem rapidamente. É um pouco como ver um filme em ritmo acelerado. Os dias de trabalho intenso, ou as noites mais ou menos doidas cheias de um tempo que passa entregue à lógica bipartida do esquecimento e descoberta. Busca-se, mas não se pode realmente procurar seja lá o que for.
A forma da organização social, contaminada pela "urbanite", faz com que seja complicadíssimo extrair um sentido minimamente coerente às mais variadas agendas, planos desejos e legítimas expectativas. Comunicar passou de uma forma de arte, a uma expressão de sorte.
E passei por ambientes diversificados. Pelo que me dizem, levei a cabo uma transformação para melhor no meio de um inferno de combustão lenta que me ia levando quase tudo o que era lealdade conceptual. Descobri, vi, vivi instantes de uma vida que em seis meses foi feita de fastforwars mais ou menos alucinados, passando pela noção de que tudo se pode escoar em meio ao desejo de esquecimento, mas sobretudo, em face da emersão. Vir á tona respirar é um luxo, e pode exaurir tudo o que temos. Mas se for exequível, transforma-se na bóia da teimosia feita de algo mais que sobrevivência. Percebe-se que mesmo na terra queimada há espaço para vegetação persistente. Aprende-se a moldar as formas de amor pelo instinto irreprimível de sentir, que parece sempre conseguir levar a melhor sobre a secura cínica que o medo semeia.
Do impensável faz-se sentido, conteúdo, alguma felicidade.
Faz-se essencialmente luz.
Como já disse num post anterior, foram tempos inegavelmente interessantes. Em meio ao atordoamento de golpes consecutivos, foi possível aprender, emergir, fortalecer. Foi possível sentir que em meio a uma avalhanche, se viram e conseguiram coisas muito diferentes e interessantes.
Claro que há a noção confortável que a partir de um certo estágio o medo e a confusão desaparecem, por acção de uma consciencia de si no espaço do tempo e do mundo.
Essa noção é uma falácia.
Quanto muito fazemos o melhor que podemos. Sem desistir.
Vou de férias.
Sinceramente, é um ano agridoce.
Terrível.
Brilhante
Lindo.
Horrível.
Doravante sou mais eu.
Espero que ainda haja algo por aí...
Até já.

1 comentário:

Lisa disse...

Acredita que pior que ser solteiro com 30 anos é ser divorciada com 31. A uma divorciada nega-se tudo: já ninguém pergunta nada porque a própra estatística nega qq possibilidade`.Apesar disso repisa-se a frase estafada do 'refazer a vida'. Cansa.
E nem tudo é mau, há muita coisa por aí, bastando que se queira ver.
Boas férias!