
"Garden State" é uma daquelas pequenas maravilhas feitas de simplicidade, inspiração, desejo e emoção reais. Sem fórmulas. Onde os sofrimentos oscilam entre a pungência histérica e o cariz brando da habituação.
É um filme feito de cicatrizes, acerca delas, acerca das sequelas que nos constituem enquanto uma unidade diferenciada de todos. E como a certa altura se pode constatar, os personagens contam-nos que a espaços na nossa vida somos efectivamente unicos e fazemos realmente algo que nunca ninguem fez. A própria noção do amor pós-expiação redunda nesse conceito. O amor não tem grandes divergências em conceito, mas é diferente para cada uma das pessoas que o experimenta, e raramente se admitem semelhanças entre histórias.
É também um filme acerca de um estranho anjo. Uma mistura de inocência e largura de horizonttes que desarma qualquer pessoa no seu chamado estado normal.
Sam, à semelhança de Clementine, do igualmente fabuloso "Eternal Sunshine of The Spotless Mind", é um rajada de vida, de inesperado e iniciativa. É a representação daquelas pessoas que não desarmam, que de alguma forma tendem a perceber os maus passos dados e ainda assim criam uma perspectiva positiva a partir da sua própria loucura pessoa, a meias com a nossa. Sam, magistralmente representada por Natalie Portman, é a segunda personagem pela qual tenho um fraco real, porque ali estava uma pessoa diferente da Natalie Portman. É ridículo, eu sei, mas pelo menos só me aconteceu duas vezes.
"Garden State" é uma gema preciosa que só teve 3 semanas de exibição no Quarteto, e que só agora tive a sorte de conseguir ver no escuro da minha sala.
E a ideia base de toda a história é talvez a máxima mais difícil de seguir. E diz-nos simplesmente que a abertura a sentir é necessária, ainda que a primeira emoção que encontremos seja a dor.
Nos dias que correm, não me é possível defender esta noção com a ausência de defesas de outros tempos. Mas na sua essência, somos vasculhados por todas as pequenas parte de Sam ou Clementine que por aí andam.
São duas paixonetas que duraram dois filmes.
Sim, sou uma paródia de adolescente que se enamorou por duas horas de duas mulheres que não existem. Sam e Clementine são duas picadas inexplicáveis no coração.
Mas sobretudo senti-me tocado por uma história contada do ponto de vista de quem viaja para retornar a si mesmo, mas melhor, diferente, mais completo.
Por todas as razões e mais alguma, era o filme certo a ver na altura certa.
Além de ser excelente e anti-cínicos, que normalmente baixam a crista perante a dor real.
Vão ao clube de vídeo.
Já!

1 comentário:
Pois é, Garden State. Também gostei muito desse filme, passado, infelizmente numa sala tão má como a do Quarteto, em que se ouve as deixas dos cameos no filme da sala ao lado...
Adorei a Natalie Portman. Uma senhora, como sempre! Quanto ao Zach Braft, foi uma surpresa. Depois daquela série manhosa dos médicos fez muito bem o papel do semi-adulto perdido nos conflitos existenciais da relação pai/filho.
Cada vez mais me emocionam as histórias simples.
Vou ao clube de víedo, sim senhor, que a película merece segunda visualização.
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