Ontem compareci a um velório.
De uma pessoa que nem sequer conhecia, por solidariedade a pessoas de quem gosto muito.
A morte para um agnóstico é uma dualidade engraçada. É o velho abraço entre a curiosidade e o terror, numa dialéctica de argumentos internos acerca de qualquer das formas de transcendência.
Alguém luminoso falava-me acerca da férrea certeza que tinha de que a sua familiar estava bem agora. Não havia nada no seu discurso que indicasse qualquer forma de propaganda religiosa ou reforço de convicções perante descrentes ( leia-se eu), mas um semblante de paz e profunda convicção pela ideia de um pós-vida melhor. Nos olhos pairava uma tristeza suave, que lhe embelezava estranhamente os traços, mas que sobretudo fazia emergir uma imagem de força e convicção perante a inevitável lógica da esperança necessária que a talvez real e ecléctica crença traga ( ou devesse trazer, sei lá) às pessoas.
Não sei onde estará a senhora agora, se é que está em algum lado. Duvido porque não tenho alternativa, porque é algo tão intuitiva e automaticamente presente como a orientação sexual, por exemplo. (As mulheres são outro tipo de divindade idiossincrática, mas isso são males meus e por isso irrelevantes.)
Está lá é nada posso fazer quanto a isso.
Mas o que sei é que por vezes encontramos a manifestação de emoções e formas de estar na vida que desarmam pela sua honestidade e ausência de intuitos evangelizadores.
Alguém que se limita a "saber" da existência de um plano de existência diferente, e a encontrar uma transferência de conforto e felicidade simples para quem se dirigiu para lá.
Saí de lá transtornado, porque a morte(de outros) assim me deixa, mas com a noção de que em situações limite, o altruismo e afeição podem ser expressos por um simples desejo de felicidades.
E essa simplicidade poderia ser tão válida em vida, como em morte.
Resolveria uns quantos problemas, asseguro-vos.
1 comentário:
Obrigada!...
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