A um amigo só...
Praia.
Olhei para os olhos dele e estava lá o cansaço irreprimível de eras de solidão. O sorriso simpático, afável e ligeiramente gozão, a ingenuidade de certos trejeitos.
Tinhamos andado o fim de semana todo, desde quinta(!) a circular por uma cidade nocturna pejada de pessoas e calor, mas os resultados eram os conhecidos. A noite mostrava-se parca em acolhimento à sua estratégia de procura. Era necessária uma dose "mastodôntica" de confiança e mesmo agressividade para ultrapassar os olhares ora desconfiados, ora desinteressados, ora alheios porque sonhando com desejos que não se atreviam a conceder.
E via-lhe no rosto o encurralamento, a visão de instantes repetidos à exaustão. A ausência dos rituais, do toque de conforto e acolhimento, dos sorrisos rendidos.
As minhas palavras saem sempre ocas perante o cenário urbano. As máximas da aleatoriedade parecem uma brincadeira de mau gosto, e ele sente-o na perspectiva de quem talve até possa procurar mais, mas não sabe como. Que maldade inconsciente da minha parte, por não poder ajudá-lo. Por desconhecer os mecanismos que o pusessem numa roda viva de descoberta, e não de expectativa por dias que passam e um ciclo que nunca mais recomeça.
Locais à noite, internet, grupos formados por circunstância. Um sorriso triste e um abanar de cabeça.
Praia. Silêncio.
Os reflexos de algo guardado há demasiado tempo. Os ghinchos enferrujados de um portão que cada vez mais custará a abrir até que a inanição de amor presente o lance numa roda viva, espiralada e descendente.
E então dou-lhe um calduço, sorrio-lhe, tentanto fazê-lo ver que por vezes tenta-se tudo e mesmo assim não se consegue. Mas que não pode ser um processo vazio, que há que mostrar e tentar a cada instante. Ainda que o resultado seja previsível.
Porque há mais exploradores por aí.
Tem de existir.
Sorrio-lhe e deito-me ao sol, pensando dos tempos infindos dos seus silêncios, e dou comigo magoado pela atitude de todo um mundo que não conheço perante alguém que só quer estar dentro dele.
Aparece o sono, mas a percepção está lá.
Quando acordo os olhos cansados dele levantam-se de um livro técnico.
Não há o sorriso de outras noites.
Cada corpo que passa fere-o com a nostalgia do que nunca haveria de faltar a ninguém.
E ele ressente-se, afundando o rosto entre os ombros, sofrendo com a ausência de confiança que o vai carcomendo como um desespero lento. Dou comigo a ver o sol mais escuro, e esperando os seus sorrisos futuros.
Abraço-o sem ele saber, com promessas surdas de um amor vindo de qualquer lado trazido por uma qualquer mulher que o veja, porque há tanto para ver.
Praia.
Fim de dia.
Vento e voz branda.
Saímos mais uma vez de um local onde estava a solução, mas sempre numa língua ininteligível.
Para ele.
Para os olhos tristes de quem tarda a encontrar.
Sem culpa.
5 comentários:
esse amigo és tu próprio ??
Embora pudesse ter sido aplicável, no caso concreto não. Não sou eu.
É um querido amigo, ao qual já não sei o que dizer, nem como ajudar.
Emocionou-me...
Percebi o que queres dizer!
Imaginei-me lá..
Ele vai conseguir..
Um beijo grande!
é tão triste... mas a situação é assim tão grave? não dá pra relaxar e tentar que as coisas surjam naturalmente? pelo menos tem um amigo do seu lado...
Sim, é possível sempre aguardar.
E o optimismo está lá sempre.
Mas o tempo arrasta-se.
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