
Deparei-me com ela no outro dia. Escondida num jardim anónimo. Estava ali, e olhava-me. Fixamente. Os recortes desencontrados da sua perfeição, as cores cortadas do tecido real por mãos de artesanato. Criada assim sabe-se lá porquê.
Existiam outras rosas á volta. Algumas delas até maiores, mais esplendorosas, mas esta estava ali, centrada como num instante de antecipação de climax. Perfeita porque naquele instante parecia não poder ser outra. Assim, encontrada involuntariamente.
Poderia pensar árdua e longamente acerca de um instante involuntário e perdido assim numa perfeição subjectiva. Mas longe vão as perspectivas optimistas da necessidade do equilíbrio no decurso da realidade como a conheço.
Por vezes acontece o mesmo com as pessoas. Deparamo-nos com aquilo que emanam, o que deixam transparecer no seu cocktail de tendências contraditórias, e aprendemos a gostar do seu cunho impossível de prever. Dos seus elementos, perfeitamente alinhados em discórdia como a impensável arquitectura de pétalas desta flor que me meteu comigo.
Não a pude deixar em paz, e avaliar pelos índios norte americanos, atrevi-me a roubar-lhe um pouco da alma, sabendo que a vida lhe era curta. Com pessoas assim, feitas de tantas camadas, temos mais sorte. Normalmente perduram mais, ou pior ainda, nunca murcham. E capturamo-las na memória exactamente da mesma maneira. Como artesanato da natureza oferecida num esplendor fugaz, provocador e lancinantemente belo.
Tirei a fotografia e não repeti o estalido do obturador. Parecia-me que tinha ficado assim num único segundo, e ela nunca mais me deixaria tê-la ou persegui-la daquela maneira. Percebi que ela se expunha, que dançava assim, em cores, convicta de que o meu reconhecimento do seu poder era quase absoluto. Num segundo, num instante, num compasso de vida.
Algumas pessoas são assim.
Surgem como se nunca as tornássemos a ver. Marcam cada passo á volta do nosso espaço como pegadas em cimento de secagem rápida. Criam a ilusão da partida eminente, mesmo que saibamos que estarão ali por muito mais tempo. Obrigam-nos a criar através delas, roubando o seu efeito e transformando-o em qualquer método de expressão do incomunicável, pelo menos em termos de lógica. Somos tentados a cada segundo a fazer-lhes justiça. Mortos se ficarmos quedos.
Esta flor já morreu há algum tempo. Murchou como a Lauren Bacall, que em tempo algum nos deixa esquecer a sua imponência, jocosa da nossa imperfeita juventude.
Passei pelo mesmo jardim anónimo, e ela não estava. Como o melhor dos instantes que não se repete, o vazio incomodou-me. A nostalgia de um instante de imaginação não se torna menos dolorosa por isso mesmo. Picasso sabia-o, "porque tudo o que se pode imaginar, é real".
A minha esperança é que com as pessoas, isso seja algo diferente.
Será?
7 comentários:
É.
Algumas pessoas existem. Têm uma consistência tão abrangente neste mundo que se tornam incorpóreas - intangíveis de tão reais que são.
Verdadeiras em todas dobras e quebras de pétalas, belas na sua insuplantável suavidade aveludada cor de sangue fresco. Dançam para nós na imobilidade de um instante que pode merecer o nosso mundo inteirinho, desafiando-nos a criar o eterno apenas - apenas! - na tentativa de, de alguma forma, as tocar.
:-) É demasiado belo para que alguém o possa expressar a quem nunca o sentiu. E, no entanto, abandona-nos com a certeza de que uma ausência (lá está...) marca apenas a memória e a antecipação de uma nova presença nesse jardim anónimo.
Não sei se com as pessoasé algo diferente. Mas sei que pode ser. Será esperança... Eu chamo-lhe crença. Na realidade dos delírios. :-)
É diferente de pessoa para pessoa...
ps: ai quem me dera ser uma rosa..
Adoro a tua sensibilidade... é tão raro encontra-la nas pessoas, principalmente nos homens.. que fico sem palavras...
Lisa - Espero bem que sim!
Miriam - A crença é o musculo humano mais dificil de mexer a esta altura... mas espero chegar lá - Há quem ajude tanto :)
Nhua- pensei que já eras. ;)
sldance - Muito obrigado. As tuas visitas são já um bom hábito. :) Se bem que as mulheres não costumam ir muito á baila com sensibilidade apurada, embora muitas digam o contrário ;)
Pelo contrário, caro stephen, as mulheres adoram sensibilidade apuradissima, aquela atenção pelos pequenos pormenores tão rara num homem, vale ouro !!!!
ou serei só eu???? acho que não !!!! uma vez que trabalho nas obras e aqui não se encontram muitos especimes que revelem tal sentido apurado, pelo contrário, contacto diariamente com o especime masculino, em estado bruto !!!
Por favor, continua assim !!!! ;)
Obrigada pelo elogio, mas.. acho nem chego aos espinhos..
;)
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