ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, setembro 14, 2005


(foto - Filipa Oliveira)


A Dor.

A dor não é mitigável. Quando é real é bruta, incontida. É um dente farpado da realidade, cravado numa infecção envelhecida. A dor aparece sempre injusta. Aparece como o reflexo de uma desordenação do estado natural de tudo. Escapa ao entendimento por ser uma imaterialidade constituída por um mau estar. Uma sensação.
A dor é sempre uma via dual. Alguém é sempre responsável e alguém responsabilizado. A dor real é o conjunto de todos os segundos de solidão concentrada num esgar de mal-estar produzido por um qualquer deus interno e obscuro.
A dor é subestimada. Encarada como um luxo. É uma espécie de muleta aos discursos socialmente correctos e interpretativos da necessária alternância de sorte. Pior ainda, em muitos casos é ignorada como um recorte de personalidade.
A dor não pede licença. E não se combate. A dor é o abraço de um porco-espinho ferrugento, o perpassar de todas as mágoas de todos os conceitos num filamento afiadíssimo cujo corte, inclemente, teima em permanecer.
A dor não é relativizável. A dor é sempre relativa ao observador, e é talvez a maior injustiça quando o seu surgir está sempre precedido da total incapacidade de a afastar. Não salvamos, e mesmo não culpados, aparecemos sempre como responsáveis.
A dor é a reprodução do inferno em que se tornam os outros. É um instante. Terrível e inexplicável. Sem pretensões a razoável, mascara-se de eterna, como qualquer outra emoção real.
A dor colhe todas as estrelas num céu nocturno e deixa apenas a escuridão. No seu esplendor, é uma massa intransponível e incompreensível, como a ordem ilegítima de um tirano sem rosto sequer.
A dor é em si mesma um mundo, que ao sentir alheio parece até bela, cheia de significado.
Mas a certo ponto é uma inutilidade destrutiva. O veículo para os recortes derrotados e horríveis de todos os conceitos-chave.
A dor é parcialmente necessária, porque a alternância é o estado de sobrevivência obrigatória da alma.
Mas à semelhança do Diabo, o seu maior truque é convencer toda a gente da sua mitigada existência.
A dor está lá, e em momento algum, quando é real e carnívora, se desejaria que assim fosse.



8 comentários:

girl disse...

Quero continuar a acreditar de que conseguimos combater a dor... caso contrário, ficariamos numa escuridão eterna...

Maria João Diogo disse...

Just a slightly cheerful note on the subject...

Better to be hurt than to be numb, for one sleeping soul keeps you from both pain and joy.

A. disse...

A dor é pessoal, intransmissível, e assumidamente egoísta.

Lisa disse...

A Dor é absoluta, sim, e cega. É bem verdade e não há como contestar, nem há forma de relativizar. Mas continuo a acreditar que sabendo-a lá temos forma de a combater. Como? Com a obstinação de continuar a acreditar, com a teimosia de persistir. Aqui o humor também joga um papel fundamental, principalmente qdo sabemos rir de nós próprios.
Já agora, andei anos a ver coisas bonitas a acontecer aos outros, e a deliciar-me com a felicidade alheia; as lindas histórias a que assistia faziam-me acreditar que era possível. E é. Pode não ser hoje ou amanhã, mas é. Um dia o saberás, tenho a certeza. :)

(ontem escrevi um enorme comentário, mas o sistema foi abaixo qdo publiquei.era mais ou menos isto)

Anónimo disse...

É exactamente o que descreves que sinto neste momento.

Anónimo disse...

A dor é ainda uma amante exigente. Quando te tem, agarra-te e não deixa que vás a lado nenhum ou que a deixes por qualquer outra emoção. E de uma maneira estranhamente doentia, correspondes a essa obsessão porque embora saibas que não queres estar assim, não te consegues forçar a sentir mais nada.
Na maior parte das vezes, e como em quase todas as relações intensas, a única coisa que podes fazer é deixar que o tempo trate do assunto...

Yakunna disse...

A dor é tudo isto que se disse aqui,é verdade! Mas também é verdade que o ser humano tem a capacidade incrível de sentir as coisas más de uma maneira infinitamente maior do que as coisas boas..

Não se consegue ignorar a dor totalmente... mas talvez seja mais fácil superá-la se lhes dermos menos importância, se a tentarmos justificar como lição de vida, algo que é inevitável, mas que acabará por passar...

..como quando se espera debaixo de um alpendre que passe a chuva e que venha o sol de novo...

bom dia ;)

Anónimo disse...

" I searched for you but you were gone... so lady...I'm going too"

"And then I see a darkness....
And then I see a darkness....
Did you how much I loved you?...there's a hope that somehow you can save from this darkness?..."