
(foto - Filipa Oliveira)
A Dor.
A dor não é mitigável. Quando é real é bruta, incontida. É um dente farpado da realidade, cravado numa infecção envelhecida. A dor aparece sempre injusta. Aparece como o reflexo de uma desordenação do estado natural de tudo. Escapa ao entendimento por ser uma imaterialidade constituída por um mau estar. Uma sensação.
A dor é sempre uma via dual. Alguém é sempre responsável e alguém responsabilizado. A dor real é o conjunto de todos os segundos de solidão concentrada num esgar de mal-estar produzido por um qualquer deus interno e obscuro.
A dor é subestimada. Encarada como um luxo. É uma espécie de muleta aos discursos socialmente correctos e interpretativos da necessária alternância de sorte. Pior ainda, em muitos casos é ignorada como um recorte de personalidade.
A dor não pede licença. E não se combate. A dor é o abraço de um porco-espinho ferrugento, o perpassar de todas as mágoas de todos os conceitos num filamento afiadíssimo cujo corte, inclemente, teima em permanecer.
A dor não é relativizável. A dor é sempre relativa ao observador, e é talvez a maior injustiça quando o seu surgir está sempre precedido da total incapacidade de a afastar. Não salvamos, e mesmo não culpados, aparecemos sempre como responsáveis.
A dor é a reprodução do inferno em que se tornam os outros. É um instante. Terrível e inexplicável. Sem pretensões a razoável, mascara-se de eterna, como qualquer outra emoção real.
A dor colhe todas as estrelas num céu nocturno e deixa apenas a escuridão. No seu esplendor, é uma massa intransponível e incompreensível, como a ordem ilegítima de um tirano sem rosto sequer.
A dor é em si mesma um mundo, que ao sentir alheio parece até bela, cheia de significado.
Mas a certo ponto é uma inutilidade destrutiva. O veículo para os recortes derrotados e horríveis de todos os conceitos-chave.
A dor é parcialmente necessária, porque a alternância é o estado de sobrevivência obrigatória da alma.
Mas à semelhança do Diabo, o seu maior truque é convencer toda a gente da sua mitigada existência.
A dor está lá, e em momento algum, quando é real e carnívora, se desejaria que assim fosse.
8 comentários:
Quero continuar a acreditar de que conseguimos combater a dor... caso contrário, ficariamos numa escuridão eterna...
Just a slightly cheerful note on the subject...
Better to be hurt than to be numb, for one sleeping soul keeps you from both pain and joy.
A dor é pessoal, intransmissível, e assumidamente egoísta.
A Dor é absoluta, sim, e cega. É bem verdade e não há como contestar, nem há forma de relativizar. Mas continuo a acreditar que sabendo-a lá temos forma de a combater. Como? Com a obstinação de continuar a acreditar, com a teimosia de persistir. Aqui o humor também joga um papel fundamental, principalmente qdo sabemos rir de nós próprios.
Já agora, andei anos a ver coisas bonitas a acontecer aos outros, e a deliciar-me com a felicidade alheia; as lindas histórias a que assistia faziam-me acreditar que era possível. E é. Pode não ser hoje ou amanhã, mas é. Um dia o saberás, tenho a certeza. :)
(ontem escrevi um enorme comentário, mas o sistema foi abaixo qdo publiquei.era mais ou menos isto)
É exactamente o que descreves que sinto neste momento.
A dor é ainda uma amante exigente. Quando te tem, agarra-te e não deixa que vás a lado nenhum ou que a deixes por qualquer outra emoção. E de uma maneira estranhamente doentia, correspondes a essa obsessão porque embora saibas que não queres estar assim, não te consegues forçar a sentir mais nada.
Na maior parte das vezes, e como em quase todas as relações intensas, a única coisa que podes fazer é deixar que o tempo trate do assunto...
A dor é tudo isto que se disse aqui,é verdade! Mas também é verdade que o ser humano tem a capacidade incrível de sentir as coisas más de uma maneira infinitamente maior do que as coisas boas..
Não se consegue ignorar a dor totalmente... mas talvez seja mais fácil superá-la se lhes dermos menos importância, se a tentarmos justificar como lição de vida, algo que é inevitável, mas que acabará por passar...
..como quando se espera debaixo de um alpendre que passe a chuva e que venha o sol de novo...
bom dia ;)
" I searched for you but you were gone... so lady...I'm going too"
"And then I see a darkness....
And then I see a darkness....
Did you how much I loved you?...there's a hope that somehow you can save from this darkness?..."
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