ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, novembro 04, 2005

As pessoas dizem que a vingança é um prato que se come frio, mas sobretudo que é um sentimento desprezível.
Algo que supostamente apodrece o espírito e deixa uma lógica de eterna falta de paz na expectativa de um ressarcimento que nunca é o esperado.
Não sei muito bem o que pensar disto.
Entre a vingança e a impunidade, venha o diabo e escolha. Qualquer uma das duas é perniciosa, mas depois recordo-me de Dantes e dos 40 anos no castelo de If. E sinceramente, payback might be a bitch, mas por vezes é absolutamente justo e bem aplicado.
E afinal de contas, Justa ira é boa ira. Ou não?

7 comentários:

Lisa disse...

Não, não é.
A ira consome mais quem a sente; a vingança corrói quem a pratica.
Olha como acabou o Dantés, lê bem o Conde de Monte Cristo e conclui.
Quem somos nós para julgar, condenar e punir? Não o podemos fazer de forma justa em causa em que somos interessados ou pior, vítimas.
A vida se encarrega de ensinar quem merece.
E talvez seja mais proveitoso fazer um balanço e aproveitar para reflectir no mal que também nós fizemos - ou podemos ter feito. Raras são as vítimas inocentes e impolutas como Dantés.
E depois, respirar fundo e avançar.
A vingança prende-nos a um passado e impede-nos de ver avante.
Segue! Liberta-te!

Maria João Diogo disse...

Da forma mais crua possível?

- planear, esperar, articular e concretizar uma acção orientada no sentido de inflingir dor, se possível em maior escala, a quem nos atingiu bem lá onde mais fere põe-nos na cara o sorriso do vencedor - aquele que tem origem na satisfação pseudo-divina de escrever certo por linhas que outros entortaram. Mas não nos deixa dormir de noite (sendo que mantemos algum tipo de auto-consciência-ético-moral; mas se não fosse esse o caso, não estaríamos a martelar teclas sobre o assunto);

- sofrer, amargar e amargurar, partir copos dentro do punho cerrado porque o vidro corta menos que o abandono, digerir e aceitar é um processo bem menos satisfatório para essa facilitista parte de nós que deseja viver no imediato da "justiça feita". No entanto - e dado um inerente determinismo que actualmente me tenta redimir dessa frieza calculista-, parece-me certo admitir que a auto-reconstrução e a real indiferença são a sutura final.

Stephen King disse...

Em termos de planificar longa e profusamente alguma coisa, estou de acordo. É possivelmente mau em todos os sentidos. Mas se de alguma forma surge a oportunidade, por um acaso, tenho as minhas dúvidas.
A impunidade ainda me parece pior que os remoques de consciência...

Lisa disse...

Ora agora cá vai e à bruta:
E quem és tu para te arvorares em julgador e carrasco?
Terás as mãos limpas porventura? Ou não terás também inflingido dor, alguma vez?
Como podes ter a soberba de pensar que te cabe a ti justiciar o (eventual) pecador?
Como te podes arrogar o papel de castigar, tu, que tal como ninguém, nunca se poderá gabar de estar de todo inocente?
Não tens competência nem moral para julgar em causa própria.
O sentimento de vingança é normal e até desejável porque corresponde a uma revolta pelo mal inflingido. Pôr em prática uma vingança, mesmo sem planeamento mas porque o destino nos coloca a oportunidade no caminho, mais que uma arrogância, é uma infâmia.
Justificar a vingança como o fazes é uma desculpa coxa para um processo de vitimização e auto-comiseração insuportável, vaidoso, até.
Just my two cents (de uma gaja que já levou muita porrada mas nunca se agachou a um cantinho a pensar que era uma coitadinha), for what's worth.

Stephen King disse...

Á bruta seja:

1 - Esta é uma discussão abastracta, porque não há tradução fáctica, portanto eu não me arrogo a coisa alguma. Mas ainda que fosse, essa postura de dar a outra face não assenta na minha lógica, porque normalmente significa que quem o faz leva outra bolachada no focinho. Volto a dizer, a premissa é abstracta, não tem tradução num caso real. Tenho mais o que fazer.

2 - A partir do momento em que as pessoas praticam os maus actos, aqueles a quem os mesmos se destinaram têm pelo menos direito a uma qualquer forma de defesa ou retribuição. Não, não é a pena de Talião, mas uma forma de equilibrio mínimo. Como saberás, e bem melhor do que eu, certas atitudes acarretam necessariamente consequências. Os nossos comportamentos não são inócuos. A impunidade a mim chateia-me tremendamente, e a nobreza não se confunde com a inércia supostamente digna, já que esta significa apenas uma coisa - "totózice".

3 - Não se trata de comiseração, nem nada parecido. Poderia prová-lo com o que tem sido o percurso da minha vida recente, mas nem o vou fazer. Se bem entendo, é engraçada a lógica de quem ergue o estandarte bem alto da sua suposta dignidade porque levou nas trombas e o exibe com o orgulho de quem aguentou porque a vida é mesmo assim. Porque de alguma forma, e por esse pressuposto, porque não fazer a merda completa, e seja a quem for, se não existe consequência? Caraças, porque não acabar mesmo com a lógica da causa efeito, já que certas coisas são más, e os supostos pecadores ficarão com a culpa ( na qual cagam de alto assim que o momento o permitir), o que segundo estas tuas tão nobres premissas, servirão para que as pessoas se sintam o pior possível e já é em si castigo. Que bonito! Já agora um relampago do céu e uma eternidade de arrependimento.
Pois, eu deixei de acreditar no coelho da páscoa, mas cada um fará como entende.
Agora classificar a situação de auto-comiseração ou vitimização sem conhecer sequer os factos, é próprio de quem tem memória curta por felicidade recente, que ainda por cima é bem merecida.
Nem percebo o tom desta resposta, mas enfim, cada um expressa-se da forma que acha conveniente.

Beijinhos :)

Lisa disse...

Bem, a esta respondo, mas em privado e para o mail, que há coisas que não vale a pena estar a prolongar demasiado em público e sou uma moça de recato.

Já agora, lembra-te de Danglars, aquele que, motivado pela cupidez, orquestrou a queda de Dantés, usando Fernando Mondego e Caderousse nos seus propósitos. (Villefort foi uma "feliz" coincidência e ajudou à festa)
Foi guardado para último na vingança de Dantés.
E este perdoou-lhe - porque precisava de ser perdoado. Porque se julgou a mão de Deus e não o era. Porque precisava de esquecer e perdoar para ser feliz.
Dantés tentou redimir-se, e se calhar redimiu-se, mas nem todos o conseguem.
A vingança é uma vertigem em que muitos se perdem.
Beijinhos.

Ana disse...

Ânimos exaltados, muita escrita... humm... se não fosse Sábado... é verdade que a "vingança é uma vertigem em que muitos se perdem", somos mais felizes se perdoarmos, etc, blá blá blá. Concordo. Plenamente. Mas agora (há sempre um "mas") dou-vos a seguinte situação: imaginem que violam, agridem, espancam até à morte um filho vosso. Essa pessoa apanha uma pena de x anos (pouquíssimos, aí uns 15)... não, não concordo com a pena de morte. Mas uma coisa é certa... nem que fosse a última coisa que fizesse, eu iria atrás dele até ao fim do mundo. Vingança. Acabou. Lirismos à parte.