ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, dezembro 19, 2005

Estou de férias.
Razão pela qual o blog está em pausa.
Como muitas outras coisas.
Durante alguns dias, veremos se o Estações tem ou não futuro.
Eu espero que sim...

Até já

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Falsidade e cinismo. Escarnecido e repudiado quase de imediato por qualquer pessoa que se encontra com os conceitos, mas mais usado que qualquer mentira branca perante um cenário onde a mesma pode evitar chatice desnecessária.
Em primeira mão, o cinismo e falsidade parecem, para quem os usa, estar revestidos de uma qualquer capa de elegância estranha. É como se a pessoa soubesse que está a fazer merda, mas porque até tem uma capa de elegância e aparência normalizada, passa como algo que só uma educação superior pode conceder. E o mais engraçado é que existe uma espécie de ilusão na qual as pessoas parecem ter a noção de que esse cinismo ou falsidade nunca transparecem. Os sorrisos amarelos, os gestos afectados, os olhares semi-cerrados surgem como uma capa de invisibilidade perante a fundamentação factual e indesmentível dos actos.
A verdade é que essas atitudes, ou conceitos, desrespeitam mais ainda a pessoa que os pratica, porque são uma mentira dentro da mentira. Acabam por se lhes colar como uma segunda pele, e a tolerância exercida rouba qualquer espécie de confiança externa que lhes possa ser entregue. E julgo que não existe nada mais triste do que olharmos para alguém e percebermos que podemos esperar tudo. Que o bom e o mau poderão ser encarados como normais, como indiferentes, como uma mancha de indefinição vinda de alguém que com o passar do tempo, não deixa as marcas necessárias ou desejáveis em alguém, mas simplesmente isso... marcas. Pedaços de algo irrelevante porque absolutamente esperado.
A falsidade acaba por ter sempre as pernas curtas. E cedo ou tarde, ainda que permanecendo impune, julga-se peranto o próprio praticante. Ela, assim como o cinismo, são as muletas da adaptação solitária de um qualquer mecanismo pretensamente darwinista de eficiência social. É das piores formas de selvajaria polida que existem.
Ao contrário das deslealdades singulares, ninguém é falso uma vez. A falsidade pressupõe continuidade no tempo. E premeditação, consciência de que a atitude se repete uma, e outra, e outra vez, baseado em motivações que a espaços, até mesmo os praticantes esquecem. É algo que pode ser calculado ao pormenor, e que nem sequer tem a desculpa de um comportamento pleno daquela pathos violenta que volta e meia nos leva a cometer erros.
A falsidade é algo que parece cair bem, e denunciar até alguma inteligência. Mas o escárnio incluido nesse comportamento acaba por recair naquele que, quando descoberto, não tem nenhuma outra alternativa senão canibalizar-se com a sua própria pele podre. Os falsos acabam por acumular outra péssima caracteristica. Mais cedo ou mais tarde são os seus próprios delatores...

terça-feira, dezembro 13, 2005

Excerto....

"É extremamente difícil explicar às pessoas o impacto de certas coisas na nossa mente ou aquele local estranho e intangível onde formamos os nossos juízos estéticos. É uma forma de solidão, como outras, mas de um certo modo nunca desistimos de querer generalizar ou universalizar a noção clara de que um autocarro acabou de nos atropelar a alma. Nunca sabemos como o fazer, ou as tentativas, ainda que satisfaçam os outros, nunca fazem o mesmo por nós.
Esses momentos tornam-se uma terapia, uma espécie de local seguro onde paramos quando estamos fartos de jogar à apanhada com o que quer que nos assole todos os dias. Uns usam drogas, outros bebida, outros ainda psiquiatras ou psicólogos. Os mais afortunados, usam amigos verdadeiros, mas esses são ainda mais raros que bruxas a recitar poesia.
Eu fecho os olhos e vejo aquela rapariga vestida de bruxa, com as formas do corpo jovem e belo desenhadas mas igualmente difusas na luz roxa, lendo um poema que faz exactamente as mesmas perguntas que eu e sem responder acaba por confortar-me. É um truque como todos os outros, É meu. Daí a sua validade idiossincrática e duvidosa.
Bem sei que é bem mais elegante ser cínico, e que a mais das vezes se confunde essa predisposição mental com a verdade ou sinceridade. Não haja também qualquer dúvida que eu próprio concordo algumas vezes com essa premissa ou atitude. Mas naquele instante essa noção irritar-me-ia se nela tivesse sequer pensado, como me irrita agora que a vejo em tela de recordação. Porque era algo ao qual eu desejava dar uma importância que acabou por verificar-se no decurso da minha vida, ainda que os restantes milhões de pessoas no mundo não pudessem estar-se mais nas tintas para isso. É uma realidade dura de enfrentar, e nada nova. Mas nunca me habituei a ela e calculo que ninguém o faça."
“The Tyger Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal band or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand, dare sieze the fire?
And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And, when thy heart began to beat,
What dread hand? and what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did He smile his work to see?
Did He who made the Lamb make thee?
Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night, What immortal hand or eye,
Dare frame thy fearful symmetry?

William Blake
(...)Qualquer coisa que esteja bem nestas tomadas de consciência, é mérito de quem as passou.O que estiver mal, estará por culpa de quem as interiorizou incorrectamente, ou seja, eu. Se vos parecer demasiadamente com um texto de auto ajuda, fica desde já esclarecida que não é essa a intenção, e apresentadas as desculpas por isso mesmo :)

A LISTA - PARTE IV

1. Reconhece que optas sempre, mas admite contentar outras vontades. Quem sabe se não acabarás por concordar?

2. Tem sempre sonhos. Alimenta-os sempre, por mais estapafúrdios que sejam. Poderá ser a coisa mais preciosa a partilhar com outra pessoa, ou a marca mais evidente da tua identidade.

3. Tem paciência. Mesmo quando já a tiveres perdido completamente, pelo menos recorda-te de que a tiveste e que a quiseste manter.

4. Persegue os que amas. Nunca desistas de obter uma confirmação exacta do que podes conseguir. Mas nunca exageres, e liberta-os sempre antes da ultima tentativa.

5. Faz amizade com um médico, um advogado e um empregado de papelaria e livraria.

6. Transforma-te no que puderes, mas não te faças no que não és.

7. Indigna-te sempre que achares legítimo. O cinismo é subtil, por isso acautela-te.

8. As coisas nunca estão tão más como parecem, mas também nunca ficarão tão bem como se espera. Se possível ,vive feliz nesse intermédio.

9. Aceita a desilusão. Mas nunca a aches natural.

10. Passeia pela internet e fala com alguns desconhecidos. Mas quando sentires necessidade de gesticular e fazer caretas ao monitor, então está na hora de descansar e ler um livro.

11. Faz surpresas a quem amas. Nunca são demais e repelem o cansaço da convivência. São o antídoto do veneno comodista.




E nos instantes em que nos reencontramos connosco, salvos do que nos carcomia, e encontrados na constância do instinto, aceitamos o respeito, a tolerância, e a dor doce dos impulsos, como os formatos esperados de algo que se jugava meio perdido, mas que se encontra somente protegido.
E nas perspectivas de uma vida que segue, apesar de tudo, há intermitências do que não se perdeu, do que não é possível de expurgar da teimosia sanguínea de um modo de vida.
É esse pedaço que mostras.
É esse o sabor do mundo.
É viver nele.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Há algo que não entendo na lógica de espectador ou cidadão com consciencia política.
Se um debate corre civilizadamente, se as pessoas apresentam as suas ideias com elevação (que não de tom de voz), há um bocejo generalizado.
A imprensa, e os comentadores, agem como a turba excitada em busca de sangue, sendo os mesmos idiotas que depois reclamam que o discurso político está desacreditado e entrou definitivamente na bandalheira.
Provavelmente o debate Soares/Cavaco vai ter contornos circenses muito mais ao gosto da malta que quer é ver palhaçada e baixaria, porque pelos vistos, isso é que constitui um debate quente, mesmo que a noção de debate seja prematuramente substituída por baderna inconsequente e ataques pessoais.
Ou um Louçã/Cavaco... isso é que vai ser engraçado. Panelas e maços de manifestos políticos a voar por todo o lado.
Realmente, só temos a classe e situação política que queremos.
Que tristeza...
Neste dia, em 1926, Benito Mussolini introduziu um imposto aos homens solteiros.

É caso para dizer que, em certa medida, algumas ditaduras ainda se mantêm. Mais suaves e escondidas, mas ainda assim, socialmente visíveis.

E certos preços a pagar ainda são altos, embora de certa forma opcionais.

Mas só de certa forma . . .
"It is a golden maxim to cultivate the garden for the nose, and the eyes will take care of themselves."

Robert Louis Stevenson


Sim, mas sempre com mínima promessa de flor, ó Robert...

segunda-feira, dezembro 05, 2005



Como diria o Euronews... No comments....
(...)Qualquer coisa que esteja bem nestas tomadas de consciência, é mérito de quem as passou.
O que estiver mal, estará por culpa de quem as interiorizou incorrectamente, ou seja, eu.
Se vos parecer demasiadamente com um texto de auto ajuda, fica desde já esclarecida que não é essa a intenção, e apresentadas as desculpas por isso mesmo :)

A LISTA - PARTE III

21. Arranja um cão ou um gato, ou uma iguana, ou qualquer outro animal de companhia. É a forma mais clara que a natureza tem de te dizer que te aceita, sem palavras ou símbolos humanos, e com um grau de incondicionalidade que não conhece par.

22. Quando amares, aceita-o. Quanto mais protestares contra ti próprio, mais tempo levas a desfrutar de quem te corresponde, ou a esquecer quem não o faz.

23. Engana apenas em ultimo caso. Mas nunca partas do princípio de que não o farás. Quanto mais o pensares, mais rapidamente acontecerá.

24. Conhece a fundo aquilo que detestas. É a forma mais eficaz de desmereceres aquilo que eventualmente o mereça, e de reconheceres o alcance dos teus preconceitos.

25. Opina, mas julga o menos possível.

26. Conhece a fundo aquilo que amas e em que acreditas. Dessa forma, poderás a mais das vezes ser contestado, mas nunca desarmado.

27. Pratica um desporto. Saboreia a competição. Mas tem cuidado com o teu desejo de ganhar perante a generalidade das regras.

28. Apoia os teus superiores e acarinha os teus subordinados. Mas somente quando aches que realmente o merecem, e se fores obrigado a fazê-lo, fá-lo pela medida mínima. Quem tiver de o fazer, cedo o perceberá.

29. Olha para outros que não o teu companheiro ou companheira. A diversidade é necessária e a tentação inevitável. Supera-se melhor aquilo que se conhece.

30. Mascara-te todos os Carnavais.
Nos ultimos dias encontrei-me incapaz de escrever.
Quando estamos emersos em alguma espécie de confusão, especialmente quanto á própria identidade no espaço dos outros, tendemos a caminhar para alguma reclusão. E no meio do cansaço, surgem as inevitáveis perguntas, tão próprias de momentos e instantes que a pressão socializante tornam especialmente penosos.
Fiz a minha árvore de Natal, e congratulo-me por conseguir olhar para ela com alguma surpresa alegre. Pensei genuinamente que olhar para aquela iluminação colorida, na minha sala semi escurecida e cortada em pedaços por algumas velas, seria penoso. Mas não. É apenas uma percepção clara de que certas coisas germinam dentro de nós, mesmo contra qualquer intempérie menos clemente. Que a percepção de certa ideia permanece clara, e apesar de ferida de um certo respirar fundo, está lá, envolta nos elementos que a tornaram desde sempre querida ou importante.
Julgo que mais realidades deveriam ter esta característica de perenidade. Afinal, as memórias aparecem assim, feitas de parcelares detalhes que duram o espaço de uma vida, feitas dos sulcos que são as letras de cada uma das nossas histórias.
Estes são tempo extremamente dolorosos para algumas pessoas. Porque a pressão é avassaladora e plena de perguntas demasiado incómodas. Há uma atmosfera no ar que tem aquela particularidade de ser duplamente avassaladora. E desenganemo-nos. É de facto inclemente, como qualquer potenciação dos nossos melhores sentimentos, ou anseios por estes.
Mas a árvore está lá. As luzes piscam e não me ligam nenhuma, e as velas parecem mais brilhantes.
Para um agnóstico, a magia desta quadra parece uma piada. Mas não é.
Porque afinal de contas, ela é feita pelas outras pessoas.
E é por isso que se torna tão fantástica ou insuportável.