ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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domingo, dezembro 31, 2006

Não poderia deixar o ano velho sem lhe dizer alguma coisa enquanto vive.
Foi, como de resto tem sido a minha vida desde 2004, um ano estranho, complicado, cheio, interessante e diferente.
No entanto, 2006 trouxe-me alguma consciência acerca da percepção que tenho das coisas, das pessoas, e do quão valioso pode ser o contributo daquilo que finalmente percebemos ser, face ao que tão generosamente algumas pessoas nos dão.
Este foi um ano de descobertas, de ganhos perenes e que trazem a paz própria das coisas belas e valiosas. Foi um ano de dádivas e perdas, de tristeza, confusão e cansaço, mas também de descoberta, bondade e generosidade.
Em 2006 percebi também que aquilo que somos, e que de alguma forma acho que deveriamos ser sempre, é apenas o melhor que pudermos. Sempre em esfoço, em evolução, no respeito e seio da afeição daqueles que a merecem, e fazendo por merecê-la.
Eu percebi aquilo que sou. Aquilo que nunca deixo de tentar fazer, sempre admirado com as coisas, boas ou más, que o tempo resolveu colocar no meu caminho. 2006 é um ano de percepção dos pecados e faltas, das lógicas menos boas, mas da tentativa de seguir sempre a noção de respeito pelo elementar, pelo precioso de cada pessoa.
Por isso, aproveito este ano para pedir uma profunda desculpa às falhas e faltas em que com certeza terei incorrido, e agradecer cada segundo de afeição sincera e verdadeira daqueles que adoro, e que fazem um enorme esforço por me dar algo que sinot não poder agradecer devidamente. Não na medida em que o fazem.
Por isso, 2006 findará hoje. Deixa sempre aquele sabor estranho de tempo que com certeza não se repete.
Mas quero desejar a todos um Feliz Ano Novo. Boa primeira passada em 2007.
E possam esses ser tempos interessantes.
Obrigado.

quinta-feira, dezembro 21, 2006



Tirando as pessoas que, por dor familiar/ pessoal ou falta de inserção social passam tempos ainda mais difíceis no Natal, sinceramente, começo a ficar um bocado cansado daquele discurso natalício de depressão e suposta denuncia esclarecida da corrida às lojas e partilha de tempo com família de quem se é menos próximo mas que se tem de aturar na mesma. Daquela conversa de quem afinal de contas esperava que esta quadra fosse uma espécie de revelação extra-sensorial dos verdadeiros motivos de uma qualquer aproximação entre as pessoas e não um suposto condicionalismo da lógica de vida em sociedade. Daquela prosápia de quem não gosta nada destes rituais mas depois simplesmente acentua a depressão na admissão de que o período de tempo nada mais faz que intensificar sentimentos complicados de solidão e alienação. Mas o que não gosto mesmo é de uma espécie de evangelização oposta, onde toda a gente é corrida à mesma avaliação de pobres patetas que se limitam a obedecer ao gatilho da época, como bonequinhos movidos a pilhas.
Essa generalização é idiota e injusta, e sobretudo precipitada.
As pessoas têm todo o direito e legitimidade em viver a quadra como entendem, e qualificá-la para si como acham melhor ou mais adequado.
Mas sinceramente, ou se calhar sou eu que tenho sorte, não faço ideia onde essas pessoas que até têm familia, amigos, entes queridos, um cão, seja lá o que for, passam a quadra. E sinceramente, se é assim tão penoso, há umas casitas em Vilarinho das Furnas, isoladas no meio da natureza, onde o tempo passa sem que se saiba o que há lá fora. Inscrevam-se já, mas apressem-se. No Ano Novo há muita malta nova que vai para lá embebedar-se e o chavascal é tremendo, mesmo no meio dos pinheiros.

Talvez eu tenha sorte, mas eu compro os meus presentes para quem gosto realmente. Recuso-me absolutamente a dar presentes de conveniencia. Mas a viagem em busca de algo para alguém de quem gosto realmente, é um prazer. Mesmo no meio da molhada (que sempre se pode evitar se a malta levantar o cu da cadeira e não deixar tudo para a ultima semana), ou do stress, ou da indecisão da escolha, ou do malabarismo da conta bancária, escolher algo com carinho para alguém é, para mim, um prazer. Aquece por dentro. Chegar a casa, embrulhar as ditas prendas, ouvir o Natal do Sinatra enquanto se escrevem algumas palavras sinceras num cartão, olhar para as luzes da árvore e sentir o brilho oposto à escuridão precoce lá fora, são, para mim, tudo fontes de prazer.

Jantar várias vezes com amigos, pois felizmente tenho vários grupos de pessoas com quem tenho o prazer de manter uma amizade viva, beber uns copos, rir, sentir que, à semelhança de outros jantares que se fazem durante o ano, este é apenas um pouco mais especial porque anda qualquer coisa no ar, é algo que me faz antecipar a época. Este ano não tive um único jantar onde não sentisse isso, talvez porque os meus jantares de Natal do trabalho são apenas feitos com Amigos, e não aquela espécie de filhos da puta que nos tramaram com o chefe e coisas do género.

Poder estar com o meu irmão, os meus pais, a minha sobrinha ( e por vezes um casal de tios já velhotes mas geniais), e ficar por aí porque a tradição é família nuclear e ponto final, enquanto se bebem uns copos valentes e se comem as mais variadas vitualhas. Existem os desenhos animados, e é claro, Dickens. Este ano pela 17ª vez, e no entanto parece sempre uma história nova, com um detalhe que não se viu na leitura anterior.

Dar um enorme beijo à namorada, ver-lhe os olhos arregalados com as coisas que me esfalfei por arranjar porque estive atento ao que ela ia cobiçando de tempos a tempos. Escrever-lhe. Vê-la sorrir.
Ter encontrado duas irmãs. Incondicionalidade e gargalhadas. Felicidade e real pertença.
Abraçar os meus amigos mais antigos amanhã e embebedar-me com eles, enquanto marcamos uma farra quase pós natalícia para a noite de 25.

Mas para além de tudo isto, sair à rua, ver as iluminações que trajam a cidade de gala, e até mesmo aquele foguetão imenso na Praça do Comércio. Perceber que toda a gente dá conta do que se está a passar, e que, condicionalismo social ou não, existem aqueles que se dão ao trabalho de amenizar um pouco mais as dores dos mais desfavorecidos nesta altura. Recordo afinal de contas, o que dizia o Dickens:

"At this festive season of the year, Mr. Scrooge," said the gentleman, taking up a pen, "it is more than usually desirable that we should make some slight provision for the Poor and Destitute, who suffer greatly at the present time. Many thousands are in want of common necessaries; hundreds of thousands are in want of common comforts, sir."
(...)
Under the impression that they scarcely furnish Christian cheer of mind or body to the multitude," returned the gentleman, "a few of us are endeavouring to raise a fund to buy the Poor some meat and drink and means of warmth. We choose this time, because it is a time, of all others, when Want is keenly felt, and Abundance rejoices. "

Perceber que nesta altura também há gente que festeja, que celebra, que aproveita esta altura apenas como mais um momento para dar graças ao facto de estarem vivos e numa situação que lhes permite escolher se querem saborear ou escarnecer da quadra.
Aceitar que muita gente poderá dizer "Humbug!!", mas outros simplesmente sorriem sem saber muito bem porquê, e que disso é feita a necessária alternatividade e diversidade de personalidades.


Por tudo isto, associado a algo de invisível que anda lá por minha casa e se faz sentir, aproveito para inverter o discurso suposta e legitimamente cínico, por escolha, mas injustamente generalizador, por pressupor que certa forma de magia simples, ainda que imaginada, está ausente de todas as cabeças.

Por isso, a quem tem dores e dificuldades reais nesta altura, o meu respeito e compreensão pelo facto desta ser uma quadra complicada, porque intensifica sentimentos de saudade e quejandos. Infelizmente sei o que é perder.

Mas a todos os outros cujo enquadramento não é este, passem o melhor Natal possível. Aproveitando tudo o que de bom pode haver, ou amuando a um canto perdidos de bêbados. Mas estes últimos não generalizem. "Humbug!" não é aplicável a todos, e as luzes coloridas iluminam de forma diferente quem escolhe vê-las à sua maneira. E sinceramente, já não há pachorra para o discurso da desilusão urbana face ao destroçar das pequenas magias.

Get a Life!

A todos aqueles que fazem desta quadra mais um instante em que posso dizer-lhes ainda um pouco mais a forma como é importante que cá estejam, e a todos os utilizadores compulsivos de boa vontade:

FELIZ
NATAL!!!!!!

segunda-feira, dezembro 18, 2006

E nos instantes em que percebemos que o tempo existe, ele pode arrastar-se vazio, ou zumbir veloz como o prelúdio de uma explosão.
O que é chato, é que na maioria dos casos, após uns passos dados para além da esquina, os primeiros momentos sobrepõem-se em muito aos segundos.
Há tempos não seria chato, mas triste.
E há quem diga que não há muitas definições de crescimento.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

"There are some people who want to throw their arms round you simply because it is Christmas; there are other people who want to strangle you simply because it is Christmas."

Robert Lynd
1892-1970 - American Sociology Author

Sinceramente, parecem-me manifestações do mesmo conceito. Amor ganho, amor perdido, algo invejado, alguém rendido.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

"There was much of the beautiful, much of the wanton, much of the bizarre, something of the terrible, and not a little of that which might have excited disgust."

E.A.Poe, falando de muito do infelizmente comum...

Existem certas coisas em nós próprios que se tornam complicadas de explicar. Pedaços de nós deixados num local que ecoa para o tempo presente no qual se vive.
São feitas de uma espécie de lealdade a elementos primitivos e internos. Como fios entrelaçados do tecido que nos constitui, não obstante os cortes e os rasgões feitos por mão própria ou alheia.
Essa lealdade leva-nos a fazer um compromisso com coisas que demos como assentes em dado momento da vida, como a inauguração de um comportamento ou uma forma de ser. Essa inauguração abre algo que assim fica indefinidamente, embora o conteúdo desse algo se possa transformar. Assenta na forma de ser, e em última instância, temos de lhe obedecer sempre que a necessidade o justificar. Como se deixassemos algo naquele instante, e a ele retornássemos, como um daqueles heróis de western que voltam à cidade berço para corrigir injustiças.
São esses momentos no tempo que nos fazem incondicionais e fiáveis para algumas (poucas) pessoas e situações. Tornamo-nos como que aquele porto pouco visitado, mas que é sempre seguro. Guardamos as pequenas maravilhas da afeição que motiva essa lealdade, e mordemos suavemente o sabor da surpresa ao acharmo-nos entregues e sem rancor.
Pode parecer algo de virtuoso ou feito de generosidade. Mas no fundo não o será totalmente. É feito de algo do qual simplesmente nos tornamos capazes, e que se efectiva com a graça e naturalidade que advém de todos os recortes cruciais da pessoa que se é. Como a orientação sexual ou o gosto por um determinado alimento. Como sentir a beleza da natureza com a clara consciência de que a entidade em causa até desconhece esse conceito.
É algo que temos de fazer, porque um dia nos tornámos assim.
Porque no fundo, acaba por ser profundamente humana a lógica que lhe está subjacente.
De algo que foi dado no momento, e se prolonga pela vivência da personalidade.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

O Sexo pode comprar-se.
A Intimidade só se ganha.
A Atracção é claramente siamesa do Afecto.
E o Amor poderá ou não ter alguma coisa a ver com isto.
A imaginação não é um luxo, mas uma sorte.
Afinal de contas, é ela que nos permite ver coisas onde as mesmas não existem, e argumentar furiosamente em favor da realidade concreta dessa intuição intelectual.
Acho que era o Kant que dizia que intui é lançar uma luz rápida sobre os conceitos e guardar na memória o máximo de detalhes que a breve iluminação permitiu ver.
A imaginação é uma espécie de prolongamento da percepção, permitindo que esta nos deixe reinventar os outros, trazendo-os para perto de nós, e mantendo-os durante mais tempo.
O Amor de nada vale sem imaginação.
Se bem que alguns confundem com delírio, e é aí que os problemas começam.
Quando começamos a ver detalhes e argumentos adultos, onde eles nem sequer foram concebidos.
E depois há o vermelho.
Onde a imaginação desenha muitas coisas.
Devido a uma enchente de trabalho, aulas, treinos, jantares de Natal, e demais assuntos relacionados com a quadra, a produção tem sido incipiente. Bem sei que muitos esfregam as mãos a esta altura, ansiosos pela continuidade da paragem, mas há uma ou outra coisa que me suscitou comentário. E prende-se com a única altura em que vejo televisão, ou seja, normalmente a partir das onze e meia, meia-noite. E a panorâmica é, na produção nacional, assustadora.
No outro dia, os meus pais, generosamente como é seu hábito e minha sorte, convidaram-me para jantar lá em casa depois do treino. Sentado à mesa de casa dos meus pais por volta das dez e meia onze horas, ouço o que a televisão da cozinha vomita em catadupa, e ouvi a mais asinina metáfora dos últimos tempos numa das (argh) novelas. Vou transcrever porque é tão pobre, tão idiota e sem sentido, que me ficou gravado. A memória nem sempre é amiga, e há coisas que preferiríamos esquecer, mas enfim.
"Então o que vais fazer?"
"Bem, se os vietnamitas expulsaram os americanos, e os Taliban fizeram o mesmo com os russos, vou lutar. Lutar pelo amor (já não sei de quem)."
Jesus, Santa Maria!!! O que se passa com estes argumentistas? Há assim uma crise de qualidade tão grande que petardos de inanidade mental como este sejam publicamente dispostos perante toda a gente? Mas que raio de escritor de argumentos é este? Estava bêbado? Pedrado? Ouviu o CD inteiro do Graciano Saga?
Chocado e traumatizado, afundo os olhos na revista que está em cima da mesa e tento comer, anulando qualquer ruído exterior.
Acabo de jantar, converso um bocadito com a minha mãe, dou-lhe um beijinho, e abalo.
Casa. Onze da noite.
Roupa do treino no cesto da roupa suja, dentes lavados e cama.
Livro - excelente biografia do mestre Hitchcock - até que os olhos começam a pesar do dia que já teve trabalho e aulas para além do treino.
Televisão. É perto da meia noite, ou já é meia noite.
Zapping.
Série da SIC onde a malta não faz mais nada senão esfregar-se de manhã à noite, com especial ênfase num tipo com ar de cretino engraçadinho que, a cada passagem pelo canal, come uma amiga diferente, que supostamente são casadas com os amigos dele.
Mas a “piece de resistance” foi um diálogo à porta onde esse tal Don Juan tem uma conversa que nem aos dezasseis anos funcionava, ou seja, sugeria a uma amiga que dormisses agarradinhos, sem que acontecesse nada. O resto é de uma indigência de tal forma inenarrável, que foi a incredulidade que me fez ver os cinco minutos restantes daquilo. Em breve começaria o House, e pronto, lá adormeci quase à uma da manhã, mas desta vez com pena.
Em Portugal as coisas com pés e cabeça, que mexem minimamente com os neurónios, são apresentadas de madrugada. Sinceramente, faltam-me os comentários para tanta falta de qualidade e respeito pelos espectadores, passados como modernidade ou coisa que o valha. Coloca-se uns gajos e gajas giras a pinar, e está feita audiência. Enredo e esforço para quê?
Triste...

terça-feira, dezembro 12, 2006

Tu, que te assemelhas a um fósforo, fazes-me lembrar as velas sem tinta, que ao arderem, derretidas em gotas, queimam, mas não magoam, nem ferem.
If Hands Could Free You

If hands could free you, heart,
Where would you fly?
Far, beyond every part
Of earth this running sky
Makes desolate?
Would you cross
City and hill and sea,
If hands could set you free?
I would not lift the latch;

For I could run
Through fields, pit-valleys, catch
All beauty under the sun--
Still end in loss:
I should find no bent arm,
no bedTo rest my head.

Philip Larkin

"Roubado" indecentemente aqui, onde a qualidade é a de sempre. A melhor.

quinta-feira, dezembro 07, 2006



No outro dia recordava o filme "Flatliners", em especial numa cena na qual um dos protagonistas diz simplesmente que os pecados por vezes voltam, em matéria, e vêm fodidos da vida connosco.
E penso realmente que de certa forma, a capacidade que temos ou não de incorporar as nossas falhas no nosso tecido pessoal, de as desculpar, de permitir que façam parte da experiência, não é assim tão fácil.
Existem instantes em que os momentos nos voltam à mente, e no instante da escolha aparentemente simples, a suposta lucidez lançou-nos num caminho contrário às nossas convicções, ideias, e certezas. E vejo que muitos carregam isso consigo, como um segredo, uma falha, uma rachadura no concreto da identidade pessoal, e em muitos casos, dificil de conter ou reparar.
Edgar Allan Poe abordava esta ideia a propósito da consciência clara do espirito da perversidade na acção no próprio, mas ao passo que ele fundamentava essa ideia como tendo a sua génese na doença do álcool, eu prefiro tirar um pouco da gravidade do termo ou intensidade à ideia e falar da vulnerabilidade necessária da falha enquanto recorte caracteristico do conceito de humanidade pessoal, e desde logo, finita.
Talvez pareça uma muleta conveniente, mas o perdão parcial que os afectos externos podem ir concedendo ao "culpados", é directamente proporcional à fornalha intensa onde a culpa os vai assando. O merecimento desse afecto parece esbarrar na percepção de aceitação do próprio perante si mesmo. Dói pensar que a paixão intelectual que nos torna filhos dedicados das nossas opções possa ser traída por quem a fundamenta dia após dia no cimentar do esquema de valores pessoais.
No fundo, a ideia de humanidade, na sua perspectiva finita, tem, em meu ver, de abarcar os recortes lunares de cada uma das nossas perspectivas. É na vulnerabilidade dos nossos erros, e na tentativa quotidiana de ser melhor do que fomos nesses instantes que está o encanto de alguém com uma história. O passado de alguém também nos pode apaixonar por aquilo que a sua engenhosidade teve de fazer para o tornar sustentáculo daquilo em que a pessoa se torna. Há algo de fantástico na parcela limitadamente ilícita de uma personalidade, porque lhe dá todo o peso de algo real, táctil e evolutivo.
A culpa interna, a má relação de cada um com os seus (pretensos) pecados, pode arrastar-se durante tempo infindo. É uma calhauzada no senso de missão que está aliado ao mais fundamental elemento de identificação pessoal. É a parte do nosso quadro que pincelada alguma oculta de forma conveniente.
E cabe aos que entendem a lógica da indesculpabilidade, acarinharem essa percepção, combatendo-a, mas tendo sempre a noção de que parte da redenção está sempre para além do amor e compreensão dispensados, e que provavelmente poderemos somente observar essa parte da história pessoal.
Porque a redenção interna aparece na justificação não dos actos em si, mas do enquadramento humano que nos fez imperfeitos, e por isso amáveis porque tangíveis e reais.
Ela não é fácil.
Por vezes nem sequer é totalmente possível.
Mas aos que a observam, esse nunca deve ser um argumento de concordância. Cabe aos que observam, nunca fazê-lo sem protesto. Porque embora a redenção esteja para além da nossa capacidade de acção directa, concordar com a culpa seria fundamentá-la numa perfeição dos que amamos, mas a qual nunca desejaríamos.
Deve sempre tentar-se fazer o melhor possível.
Porque o problema não são os erros, mas sim a inércia perante os seus efeitos e possíveis repetições.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Quando penso no valor como pessoa que cada tem, ou julga que tem, tenho sempre a ideia de que esse valor está associado a uma sazonabilidade emocional. No fundo somos os mesmos, com mais ou menos variantes, mas passamos de bestiais a bestas num segundo de alternância comportamental. Somos o mundo num segundo, e o vácuo espacial no outro. E o reconhecimento do valor passa por pre-disposições que resultam numa avaliação feita no momento, perante determinadas circunstâncias.
As emoções sublimam as qualidades dos seus destinatários, mas também tornam os escudos contra radiações lunares muito menos eficazes. Atitudes ou traços pessoais que desculpamos a uns na base da tolerancia mais fraternal da amizade, tornam-se espigões em pneus a alta velocidade quando são oriundas daqueles que entraram de pés sujos no palácio da intimidade.
E a duvida é pertinente.
Será o desejo de objectividade nos olhos daqueles que nos amam ou estimam desejável? Talvez se o forem, estejam menos sujeitos a variações de conjuntura, porque embora possamos mudar muito, existem elementos pessoais que fazem parte do tronco comum, e os alicerces duram normalmente mais que o edificio que sustentam, "come hell or high water".
No fundo, e como creio que evoluímos sempre, por vezes até em direcções que não sabemos bem se são desejáveis, pergunto-me realmente se a qualidade que podemos ter pode estar sujeita às variações de perspectiva.
Espero que não, porque isso faz-nos essencialmente relativos, e tão inconstantes na nossa massa humana que nos pode levar, em última instância, a duvidar de qualquer olhar benévolo, emocional ou simplesmente avaliador.
E a voz interna da auto-confiança não consegue aplacar tudo.
Nos casos mais complicados, acaba por não remediar nada.
Já levei, nas palavras de uma certa ruiva, uma carga de lenha de muita gente por umas variações desta ideia. Mas para mim é clara.
A procriação ou vontade de ter uma prole, relógio biológico e o diabo a quatro, nunca, mas nunca devem ser o motivo para ter uma relação. Ter alguém apenas porque se quer criar uma espécie de atmosfera conveniente ou "familiar" em torno do futuro ser é instrumentalizar a outra pessoa, e, no limite, torná-la um boneco numa maquete de projecto. É idiótico, desonesto, e em meu ver, execrável, e em ultima análise, prejudicará o petiz.
A prole é sempre consequência do Amor por alguém, nunca a justificação, causa ou génese do mesmo. Tem-se filhos porque se gostou de alguém ao ponto de querer uma continuidade, e não o contrário, que me parece a pior forma de instrumentalização e engano possível.
E garanto-vos que assegura um ressentimento inultrapassável, caso o desgraçado(a) algum dia perceba a sua função de peça na engrenagem.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Talvez eu não passe de um vendido a essa enxurrada de teoria consumista, mas a verdade é que gosto de dar e receber prendas. Não sei se terá alguma coisa a ver com a noção infantil de expectativa ao olhar para um embrulho, ou se simplesmente gosto de aproveitar a altura para procurar algo de significativo para alguém, só para ver o rosto aquando da pequena surpresa.
A verdade é que gosto de procurar algo para alguém, com ou sem stress, ter a noção de que se cira um pequeno prazer expectante em alguém, talvez porque seja isso que sinto ao ver as cores do papel de embrulho quando as luzes das árvores resolvem incidir sobre os mesmos.
Há quem reclame com esta coisa dos presentes, e do consumismo, e blá blá blá. Para quem não se lembre só de os oferecer nesta quadra, quem tenha atitudes e comportamentos que realmente mostrem a estima por aqueles a quem agora presenteiam, esta é apenas uma altura em que damos um mimo a alguém, em que existe uma desculpa para o fazer. E no fundo, é só mais uma ocasião, entre muitas.
E se há uma desculpa e um abrandamento social que permite que a malta até se divirta, beba uns copos, e aproveite uma certa atmosfera para celebrar algumas coisas com mais intensidade, qual é o problema?
Aceito que para quem tenha perdido entes queridos , situações, ou amores, esta seja uma altura mais complicada. Para mim estará sempre associada a um dos períodos mais dificeis que vivi, e há uma espécie de sentimento agridoce em toda a panóplia de emoções que aparecem. Mas embora respeite esse sentimento por parte de quem sente mais na pele a vergasta acrescida pela quadra, acho que existe algo de genuíno num período de tempo que nos faz sempre pensar mais um pouco, e olhar para o lado.
A questão das prendas, para quem pode, pode ser multifacetada, mas que querem? Gosto dos embrulhos debaixo da árvore. Os que lá pus, e os que têm o meu nome.
Na esperança dos dias, na companhia do que fazes, sou o que posso ser, e não tenho alternativa.
Mas a verdade é que sendo assim, e vendo o caminhar, passo a passo, das coisas em que te tornas, porque sempre as foste.
Só posso agradecer-te, dando-te, porque uma rocha na água é sempre um perigo, especialmente para embarcações conduzidas por alguém para o qual as ondas de altura mortifera rechaçada pelas rochas não passam de um banho inconsequente em quem é feita de fogo.
Não sou monstro suficiente, talvez só de rocha porosa.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Viva viva viva!
Portugal pariu o primeiro "audiobook" ou audio-livro na lingua materna.
Não é obra que tencione ler, é um facto, mas faz-me antever mais livros "contados", esperemos que por leitores com capacidade para a coisa e não debitadores de texto, e quem sabe, no futuro, alguém a capacidade do malogrado Frank Muller. Este senhor tinha uma voz, uma entoação e uma entrega ao material que está a "contar", que torna qualquer audio-livro numa viagem maravilhosa e envolvente. Aguardo umas "Vinhas da Ira" lidas, por exemplo, pelo Ruy de Carvalho, ou um "To Kill a Mockingbird" pelo Rui Mendes. Ou ainda qualquer coisa do Stephen King ou Edgar Allan Poe.
Deixei de ouvir rádio, excepto quando apanho o "Indigente" ou a "Hora do Lobo" há umas semanas. Audiobooks no carro até fazem quase desejar um bocado de engarrafamento, porque normalmente os artistas que lêem as obras, trazem algo ao de cima nas mesmas, e ajudam ao olhar interno, a ouvir quase que em eco a construção da nossa imaginação perante aquela história.
Viva o audiobook quando não podemos segurar as páginas, ou mesmo em alternativa.
Como disse o meu "amigo" Stephen King numa crónica:
They don't call it storytelling for nothing.


Sim, comprei este filme ontem, e gostaria (ou não) de dizer que era destinado à minha sobrinha ou qualquer outra criança.
Sim, amanhã vou andar aos pulos em volta de um simulacro artificial de árvore cheio de fitas e cores que seriam consideradas no mínimo excessivas em qualquer decoração.
Sim, comprei Ferreros, Bacci, amêndoas, nozes, amendoins, e espero ter mais alguma coisa em cima da mesa durante o mês de Dezembro.
Há vinho tinto e uns (poucos) queijos.
Sim, já andei na desenfreada demanda que alguns reputam de consumista em busca de algo especial para algumas pessoas. E com a mesma satisfação e sorriso de todos os anos, apesar da confusão dentro das lojas. E sim tenho a consciência tranquila porque esta é apenas mais uma ocasião na qual dou prendas aos que gosto.
Sim, já não tenho idade para isto, e vou ver pelo menos dois filmes de animação, bendito seja o cartão Medeia, mas divirto-me imenso.
As luzes aparecem cedo, pois os dias são curtos.
Há um travo a frio que finalmente aparece no ar.
Para mim a celebração da quadra começa amanhã.
E que Dezembro seja longo.
BORAT (ou como Putin parte ainda mais o verniz já duvidoso da "democracia" (riso contido) russa)

Ainda não vi o filme em casa, pelo que talvez este comentário seja prematuro. Ou não. Mas a ideia subjacente trouxe-me um pensamento ou dois acerca de algo que volta e meia volta ao bulício da discussão pública, veiculado geralmente por uma obra ou manifestação artística provocatória. A Rússia, esse país democrático ( ahahahahahaha, enfim, desculpem... lembrei-me ao mesmo tempo do Bernardino Soares que em pleno parlamento ponderou se a Coreia do Norte não seria uma democracia... ) proibiu a exibição do filme "Borat", num claríssimo exercício de censura que faz recordar (ainda mais) os tempos da cortina de ferro e da clausura de pensamento. Primeiro jornalistas assassinadas, depois espiões envenenados, e agora censura clara e inequívoca de obras consideradas provocatórias. E quando o Estado começa a meter os garfos nas concepções do que é ou não apropriado para os seus constituintes, bem, dá-me sempre uma coceira complicada na consciência e um arrepio de terror profundo. É como me dizerem que as liberdades cívicas nos EUA podem ser sacrificadas em nome da "segurança". Nunca gostei do "Grande Irmão", seja qual for o conceito a que se aplique, especialmente no que concerne a uma cambada de "iluminados pela força" que possam decidir o que é ou não apropriado para mim. Como disse, não vi o filme, e ao que parece, é ofensivo em toda a linha, embora crie aquele riso culpado que todas as coisas mais ou menos politicamente incorrectas nos provocam. Muitos jornais internacionais, especialmente anglófonos, chamam-lhe o filme mais engraçado do ano, e assim que tiver um tempinho, o meu cartão Medeia vai ser usado mais uma vez, ah pois é! Mas vamos lá tentar por algumas ideias em ordem, para ver as perspectivas em que as mesmas podem ser vistas:

1 - Quem tenha visto o "Southpark - complete and uncut", terá tido provavelmente a mesma sensação. Matt Stone e Trey Parker disparam a eito nesse filme, e quase ninguém é poupado. Uma relação gay entre Saddam Hussein e o Diabo é um dos momentos altos, e todas as comunidades, de judeus a "hillbillies", levam porrada de criar bicho. Resultado? Hilariedade geral, e embora de quando em vez nos perguntemos se deveríamos rir de certas coisas, o diafragma lá anda de cima para baixo, e a gargalhada aparece. E nessa altura, alguns vieram dizer de sua justiça, visivelmente ofendidos, mas a questão era a mesma. O humor por vezes pode ser selvagem, mas se for inteligente, dificilmente poderá justificar-se qualquer censura aos seus efeitos. Isto porque o mau gosto censura-se a si mesmo, julgo eu. Mas este filme tem um outro problema. A projecção internacional, e o facto de não ser em desenhos animados, fez com que alguns "democratas" (riso contido novamente) mostrassem a sua verdadeira cara, essa sim, digna de repugnância.

2 - Ainda relativamente a South Park, só o estúpido do Tom Cruise veio tentar impedir a transmissão de um episódio onde se gozava (compreensivelmente) com a Cientologia, o que vindo de um artista, que fez de T.J. Mackey (Magnólia) numa das mais conseguidas mas politicamente incorrectas personagens de sempre, é inadmissível e até mesmo pleno de uma traição aos níveis mais sagrados de integridade artística e consciência pessoal.

3 - Lembram-se do Pulp Fiction? Lembram-se da quantidade de (brilhantes) cenas que eram em si horríveis, mas que nos levavam à gargalhada selvagem? Recordam a cena em que John Travolta e Samuel L. Jackson vão no carro e acidentalmente rebentam com a cabeça do passageiro do banco traseiro porque alguém se esqueceu de accionar a trava de segurança na arma? Essa cena originou uma gargalhada colectiva no cinema onde estava, e eu era um dos que ria mais alto. Caraças, era horrível, mas a malta riu a bom rir.

4 - Alguém já contou ou ouviu uma anedota étnica, sobre deficientes, sobre o holocausto? E riram-se? Pois... é provável que sim.

5 - Evidentemente que todos temos telhados de vidro. E dando a outra face, é óbvio que por muito que possamos rir-nos de nós próprios, e devamos fazê-lo com a frequência desejável, não digo de forma nenhuma que o respeito pelas pessoas e suas convicções possa ser posta em causa de todas as formas. Não é tudo justificável. Mas o humor tem essa génese. Procura a perspectiva inteligente e engraçada de qualquer ideia, mesmo que por vezes possa parecer incómodo. Caraças, o melhor período do Herman José foi o seu período mais "incorrecto", o qual deixou profundas saudades. O “Allô Allô” goza com um período negro da história da humanidade, e ninguém se queixa, e por aí fora. (Para quando uma série paralela a falar do grande terror stalinista?) E os exemplos são imensos.

6 - Também é justo perguntar se algo parecido fosse feito a uma consciência colectiva de nação ou religião, por exemplo, suscitaria ou não este tipo de reacção. Em países onde o Creacionismo inacreditavelmente põe em causa a teoria da evolução das espécies, um filme paralelo em gozo e audácia no âmbito da Igreja provavelmente lançaria autos de fé conceptuais pelos quatro cantos do globo.

7 - Aplicando isto ao Corão, é bom nem falar... As caricaturas de Maomé deram o que deram, e o discurso do Ratzinger também, portanto, tolerância e sentido de humor é algo que certa parte do Islão não tem definitivamente. Argumentar onde não há racionalidade mínima, é escusado.

8- Em suma, seja o filme ofensivo ou não, a verdade é que as manifestações de censura a mim agastam-me, especialmente no que diz respeito ao humor, mas aceito que hajam alguns limites para a expressão artística, como haverão para tudo, julgo eu. Mas deve ter-se muito cuidado ao traçá-los, e sobretudo, nunca decidir pelas consciências, mas deixar decidir conscientemente. E antes gozar com algo do que incitar à violência, ao desrespeito e maus-tratos à liberdade e integridade humana em nome desse mesmo algo.

Por isso, e tudo e mais alguma coisa, vou ver o filme. Mesmo que não goste, não julgo que a censura tenha por si mesma qualquer justificação. Embora, e tenho de admitir, tudo o que incite com seriedade à violência, à crueldade e à limitação injustificada dos direitos humanos deva ser muito bem analisada. Facções neonazis, Ku Klux Klan, subjugação e negação de direitos sociais a minorias étnicas, politicas ou de género, não tem humor. Tem uma intenção clara de denegar direitos fundamentais, e embora lhes reconheça um direito de manifestação, não tenho problemas alguns em denegar acção política concreta em associações que incitem a estes actos, como criação de partidos políticos nazis, por exemplo. Não sou tão politicamente incorrecto como gostaria, talvez.... Mas lá está, todos já contámos anedotas de negros, de alentejanos, piadas sexistas, etc.... São, em meu ver, coisas bem diferentes. Portanto, vou ver o filme. Tenho direito a pensar pela minha cabeça.
Felizmente!

quarta-feira, novembro 29, 2006

De todas as medidas governamentais estúpidas, o fim dos benefícios fiscais concedidos às pessoas com deficiência consegue bater recordes inimagináveis. Já não basta as dificuldades de empregabilidade, a total ausência de acessos adaptados às necessidades em quase tudo, desde transportes públicos a locais públicos de lazer ou trabalho.
Mas qual será a justificação? Significará esta medida um incremento de receita tão grande ao orçamento de estado? Se sim, confesso a ignorância e até agradeço esclarecimentos que, até à data, nunc surgiram senão em retórica pseudo-técnica que bem espremida nao produz nem duas gotas de sumo coerente.

terça-feira, novembro 28, 2006




" Come to me in my dreams, and then
By day I shall be well again!
For so the night will more than pay
The hopeless longing of the day.

Come, as thou cam'st a thousand times,
A messenger from radiant climes,
And smile on thy new world, and be
As kind to others as to me! "
Matthew Arnold
É um instante.
Um instante rápido. Se for a ver bem, nada se passa. É apenas um instante. mas onde se vê tudo. Se os olhos estão fechados, parece que não há portal para perceber nada. E no entanto, num instante de paz está lá tudo. Tanto do escondido, muito do revelado, algo da necessidade de intuição.
Mas se for a ver bem, isso já era feito. Acordada, sempre na primeira onda do mar de fogo, de pés bem assentes no peso da própria capacidade de arder em si mesma.
Escarneceadora do medo, acha-se em mil toques, na percepção do poder que lhe escapa, como o fogo que não sabe que queima mas existe, na plenitude da energia, da única luz.
Pois se o sol assim se define, e arde no vermelho,
como é que o vermelho não poderia escorrer de ti?
Em certa medida, por vezes dão-nos a oportunidade de entrar num mundo, e perceber que na multiplicidade de confusões deste, são sempre as mesmas coisas que nos impelem a contorná-lo com o olhar interno. A dentada conceptual mancha-se do sangue do intangível, e envergonha-me por vezes na planicie deserta do meu pragmatismo, como uma espécie de nudez em campo demasiado aberto.
Por isso, queimas porque a luz não pode deixar de ser o que é.
Mesmo quando aparentemente muda de lado na esfera da terra, onde a distância, ainda assim, não consegue nunca mudar a tua cor.
Vermelho porque não podes nem sabes ser outra coisa.
Coisa que queima.
Mesmo de olhos fechados.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Podemos sempre relativizar os problemas.
Há sempre forma de ver que alguém está pior que nós, que qualquer espécie de queixume ou fraqueza pode deixar as pessoas fragilizadas e com genuinas questões relativamente á sua dor pessoal.
Esse relativismo lança as pessoas num dualismo difícil de combater, especialmente quando reflectido na atitude dos circundantes, sejam eles próximos ou não. E isso porque a atitude genérica deambula normalmente entre a desprocupação supostamente bem intencionada, ou, quando o estrago é já grande e perigoso, uma azáfama alarmada feita de compensação ou remédio.
A dor pessoal, perdoem-me a enorme redundância, é isso mesmo. Pessoal. Está algures encalacrada no emaranhado emocional que cada um representa para si mesmo, e embora seja possível relativizá-la um pouco, é sempre complicado chegar à conclusão que ela é invisivel ou despicienda.
Aquilo que é importante para alguém num dado momento, que pode não ter uma explicação lógica e escorreita, mas sim fundações na aproximação mais básica a todas a variáveis da vida, passa, a mais das vezes, despercebido. É como um membro forçada e injustamente incógnito da multidão interna que forma uma personalidade. E numa multidão, a tendência para a dispersão é enorme, como qualquer senso comum o saberá.
No entanto julgo que é fundamental prestar alguma atenção a esses silêncios. É necessário confortar os seus portadores no sentido de lhes dar a entender que por vezes a relativização não é possível, e que saber que meio mundo está bem pior que nós nao conforta de forma alguma. Talvez seja necessário um par de palavras, nem que seja para assegurar que reconhecemos a divisão escura da casa própria onde se encontram, e que trazemos uma pequena vela. Essa luz, por mais inutil que seja, fará com certeza uma grande diferença em meio à escuridão da ausência nem sempre explicável. Ou pelo menos assim gosto de pensar. Trata-se de aceitar que essas pessoas se possam desculpar, ou verter-se um par de vezes em maravilhosos disparates que podem constituir o que de mais precioso é possível obter de alguém. É aí, em meu ver, que alguém corre o tremendo risco de se dar a conhecer, pelo menos em regiões de si mesmo que são tudo menos inócuas. Para os próprios, entenda-se.
No fundo, é evidente que alguém está sempre pior do que nós. E que é realmente humana a tendência para encher o copo até meio e tentar usar a energia da dor em proactividade na experiencia sensorial mais apurada da vida. (A música, por exemplo, sabe melhor nessas alturas.) Mas essa proactividade não deve precludir a ideia de que há dores que são de respeitar, dúvidas que há que tentar entender, e disparates internos que não se conseguem acarinhar.
O excesso de desdramatização confundido com boa intenção pode levar a que as pessoas se protejam cada vez mais, secando aquilo que deveria verter para fora, como uma fonte de corrente a pedido. Sinceramente, acho que a proximidade entre as pessoas depende disso, porque a intimidade genesíaca de qualquer laço impõe uma aceitação do parcialmente inexplicável como móbil do maravilhamento por outrem.
E o reconhecimento que vem silencia qualquer definição, porque os visados acabam por entregar a "segunda parte" daquilo que os constitui. Como alguém mais iluminado, e esperamos nós, melhor situado na alternatividade necessária da felicidade simples que todos temos de fazer por ter direito.
É acarinhando o invísivel que ele se materializa, acho eu. Porque tem matéria, e cedo ou tarde, é o que separa os rostos da multidão das poucas vozes que realmente nos escolhem.


Esta menina é também um caso sério.
Homens com sangue, tremei perante esta voz se ela alguma vez vos sussurrasse ao ouvido...


Love and communication you were here for me
At this very moment 'cause I found you on the phone
You called me
And you were not hunting me

Learning more and more about less and less and less
On the edge of your seat in some dark movie
Can you memorize the scenes
They'll be different next week
Can you tell me can you tell can you tell
If there's something better
'Cause you know there always is
There always is

Drawn to the party like a spider filling up your guts
Don't hate the night with what you shouldn't have
Come along for the ride you just know you should
You just know you should
Can you tell can you tell can you tell
If there's something better
'Cause you know there always is
There always is

Hated to see you sad when I left
There's no good in that but the good part was
That I came out at all 'cause I don't venture out
Into the lives of the new
I want you to come along for the ride
How long will you stay for your whole life
You just know you should
Can you tell me can you tell me can you tell
if there's something better
'Cause you know there always is
There always is

Love and communication you were here for me
At this very moment 'cause I found you on the phone
You called me
And you were not hunting me.


Cat Power - "Love and Communication"

sexta-feira, novembro 24, 2006



Este vídeo é engraçado. Ok, a música e a linguagem conceptual presente, na minha modesta opinião, são primárias e não me agradam, mas mesmo abrindo espaço para a subjectividade estética necessária, a premissa da música, vídeo e letra é, no mínimo, incongruente e roça a estupidez.
Além da letra "inspirada" (quando falta a rima ou há pudor fala-se em asma, pois as cantoras estão sempre ha ha ha ou coisa parecida), há a ideia base. As meninas queixam-se que os rapazes só olham para elas com um intuito, para o "ha ha ha" (que será? Posso pensar em várias coisas, e é a primeira vez que vejo esta designação para qualquer uma delas...), e que assim não pode ser. O rapaz confessa-se perplexo ao verificar que apesar de tomar consciência da moça com tantos miolos (a verdadeira piada do vídeo) só lhe consegue para, lá está, o ha ha ha.
Além de ser uma ideia estúpida, sexista e inexacta, já que as mulheres olham quase tanto para o "ha ha ha" como os homens, (embora os detalhes possam ser diferentes nos destinatários da observação), o vídeo é composto por seis gajas podres de boas, que dançam com a habilidade e ritmo natural que escola alguma ensina. Uma delas anda à volta do rapaz, numa dança que faria o mais eunuco dos criados da Cleópatra tomar uma atitude, a queixar-se com um sorriso profundamente sexual que ele e os seus congéneres só lhe olham para o "ha ha ha" e coisa e tal.
Ou seja, o veículo da mensagem são mulheres que projectam uma tal imagem sexual que provavelmente se lhes pegou como imagem de marca, (porra, até a Nelly furtado com aqueles olhos de carneiro mal morto anda agora a mostrar os ilíacos e a habilidade para mexer o cu. Sexo vende. E pronto.) que agem no sentido de potenciar esse "sexual allure", e depois veiculam a mensagem de que é muito chato ser podre de boa porque os rapazes são unidireccionados.
Well, fucking duuhhh!!!!
Ora, onde é que está o erro?
A faixa etária feminina mais vulnerável a este discurso, vê as gajas boas, raciocina por a + b e acha então que é aquilo e só aquilo que os rapazes querem, caga na mensagem politicamente correcta transmitida com uma inépcia própria de um oligofrénico, e a pressão física cresce. No fundo, não se transmite a ideia saudável de que o desejável ou desejado é ter algo de bom dos dois mundos, e sim uma ténue e hipócrita imagem onde "sex symbols" reclamam contra a objectificação de que são alvos, embora seja esta o seu ganha-pão e iconografia vencedora.
Tenham paciência!
(Mais vale ver o vídeo e admitir que, pelo menos para muitos rapazes, naquele vídeo é impossível não ver o "ha ha ha ha". É só mesmo o que há para ver, que diabo!)
A incompatibilização entre as pessoas foi sempre coisa que me deixou perplexo. Que diabo, claro que não temos de gostar de toda a gente, e as diferenças são até cultivadas, ou deveriam ser, até um certo ponto como elemento de diversidade.
Mas aquilo que não entendo é a embirração. Esta pode nascer de personalidades fortes e contrárias, e de argumentação que se esgota de parte a parte ficando apenas a massa emocional a funcionar - e sabemos o que isso faz à racionalidade. Mas não é disso que falo. É da embirração simples. Da escolha de detalhes mínimos para formar um juízo de desagrado. Da pungência do trato para afastar. Da aceitação de todas as oposições, mesmo e especialmente as mais pequenitas, para formular uma resistência.

Claro que todos já embirrámos com alguém sem saber muito bem porquê. É tão inevitável como qualquer outra forma de paixão. Mas talvez essa seja a excepção. Se as pessoas embirram, gosto de pensar que pelo menos têm motivos de peso para o fazer para além da falta de perfeito encaixe entre empatias. Mas não é isso que verifico. A malta defende o seu território, muitas vezes sem discutir ou perguntar algo que seja dos motivos alheios.

O culto do clubismo ou bairrismo comportamental talvez tenha a ver com a nossa tendência gregária, mas sinceramente, qualquer um daqueles adjectivos, quando levado ao limite, é tão autista e estupidificante como qualquer outra forma preconceituosa de estabelecer limites. Por trás de uma máscara de tolerância, pode muitas vezes esconder-se uma espécie de descaso genérico, ou seja, "fode-te para aí sozinho que ninguém te atrapalha, asseguro-te!"

Há algo de pernicioso numa das espécies de aparente respeito total pela diversidade. Porque nessa espécie, não há respeito que leva à agregação da diferença, mas um descaso total onde as pessoas são fechadas do lado de fora, com a mochila da sua diferença cravada nas costas. Onde se confessa tolerância, há apenas um desejo de afastamento pela diferença, no qual o relativismo das atitudes recíprocas assume proporções de uma quase indiferença. Sinceramente, isso assusta-me um bocadito.

É por estas e outras que não entendo a embirração, porque ela também pode assumir este formato. É como negar a rega a uma planta frágil porque o regador não é adequado ao vaso ou terra específica. Tudo porque na aparente “pax romana” do respeito pela diversidade, está apenas uma ordem de soltura que em muitos casos não significa senão descaso e desinteresse.

O que me parece triste.



Jurei a mim mesmo que nunca chegaria a este tipo de discurso.
O discurso dos pretensos jarretas, que cuspiam nostalgia e um certo lamento pelo estado de algumas coisas nos dias correntes.
Mas dei por mim a pensar em algo que parece disparatado, mas que não é experienciado pelos mais jovens hoje em dia, a não ser que tenham um prato ou um vídeo, ao invés de um leitor de cd e dvd caseiro, que normalmente até vêm juntos ou embutidos na mesma caixa metálica ou plástica.
Dei por mim a pensar, muito miúdo, nos LP que colocava no prato, junto com amigos, e no facto de acelerar a velocidade de rotação para 78 rotações, fazendo com que clássicos como o Stairway to Heaven ou Smoke on the Water ou mesmo o Iron Man parecessem retirados de um desenho animado do Tico e Teco. As vozes aceleravam, ganhando uma sonoridade própria de alguém que tivesse acabado de inalar hélio, e a gargalhada era generalizada. O Robert Plant mais parecia um esquilo cheio de speed, assim como todos os outros. Hilariante. E ainda hoje sorrio a pensar nisso.
Além disso, existiam os vídeos, e colocar aqueles filmes (que nunca vi, mas que passam a vida a contar-me que existem, como os do canal 18) em fast forward, ou em rewind, e rir a bom rir com o correspondente às vozes de esquilo, mas em movimentos silenciosos e tão rápidos que, a serem reais, causariam lesões consideráveis nos intervenientes.
É engraçado o que guardamos na mente. Sinceramente, o mais difícil de explicar a algumas pessoas são precisamente os disparates que nos ficam na cabeça e nos confortam durante a passagem dos anos. Raramente fazem sentido, acho eu, mas são preciosos. Ficam. Vá lá saber-se porquê, mas ficam e deixam uma estranha saudade.
E mais inexplicável ainda é pensar que algum miúdo se divertiria com isto, mas ocorreu-me que como esta, existem algumas coisas que a tecnologia deixou para trás, e que eram efectivamente momentos que fazem algumas histórias, por mais inconsequentes ou pequenas que pareçam.
E além disso, os discos de vinil soam invariavelmente melhor.
Sempre. Com vozes de esquilo, ou não.

quarta-feira, novembro 22, 2006



Ao almoço falava com amigos a propósito de uma reportagem televisiva, na qual se falava do sadomasoquismo.

Sendo de costela francamente liberal no que diz respeito ao que cada um acha satisfatório na sua intimidade, desde que não magoe ou ponha em causa a integridade e direitos de outros, por mim é-me indiferente se alguém gosta de ter sexo com uma alface ou ser pisoteado por botas de saltos aguçados. Se os faz felizes, meus amigos, divirtam-se. O seu a cada um, e ver pessoas felizes faz-me à alma, sinceramente.

Opinião muito pessoal, não consigo conceber na minha (provavelmente pequena) mente, o prazer derivado da humilhação e dor, quer causadas quer infligidas, mas nesta, como em várias outras coisas, importa é sentir, e essas pessoas sentem claramente prazer no acolhimento ou dispensa de sevícias. Como é que alguém consegue extrair prazer de vários pontapés bem assentes nos tomates com botas bicudas, é algo que me ultrapassa. Para quem goza desta forma, o que eu julgo ou não é irrelevante, mas a curiosidade leva-me sempre a tentar entender os mecanismos de formação da vontade, e daí esta ideia.

No entanto, há algo no sadismo implícito que se torna mais turvo na minha cabeça. A ideia de que alguém inflija dor, por vezes até considerável, a outrem, e retire prazer disso, faz-me alguma confusão. Claro que poderá existir o argumento de que o agressor, ao infligir dor, está realmente a prover prazer ao agredido, por sua vontade. Mas a verdade é que os actos são de agressão, de humilhação, de produção de dor noutra pessoa, e fazê-lo com total sangue frio leva-me a pensar com um certo arrepio na facilidade com que, por exemplo, uma Dominatrix pode esfacelar umas costas ou um rabo com um sorriso na face.

Entenda-se que não faço qualquer juízo moral, mas questiono-me quanto ao impulso, e à facilidade que, mesmo com consentimento, se consegue extrair prazer do facto de magoar outras pessoas de forma deliberada e até mesmo requintada. É toda uma intencionalidade levada a cabo no sentido de proporcionar prazer, certo, mas através de actos que objectivamente (?) são violentos. Isso equivale a dizer que as pessoas são necessariamente violentas? Claro que não. Mas que parecem ser capazes de actos de violência reiterada com uma certa facilidade que me desarma, lá isso parecem. Não tenho uma opinião muito escorreita sobre isso. Acho que, em ultima análise, a facilidade da violência assusta-me sempre um pouco.

Penso nisto como uma pessoa de opiniões subjectivas colocada perante a situação, e concluo assim. Há ali algo que não computa na minha lógica e relação de causa efeito no âmbito do relacionamento sexual e (ainda que minimamente) afectivo. A agressividade e o nível de "violência" estão sempre presentes da gana sexual, mas naquele universo há um prazer na verificação da dor em si, dor real, muitas vezes daquela que deixa marcas, e confesso que para esse peditório, não contribuo.
E será que há ali algo de sexual, ou estamos a falar numa categoria de prazer completamente à parte? Ignorante me confesso e logo pergunto.

No entanto, em nada contrapõe o que disse acima.
Desde que as pessoas se divirtam e não magoem ou vexem outros no processo (contra sua vontade - neste contexto), acho que tudo é válido para que as pessoas se sintam bem e felizes.

E no fundo tenho de confessar que o couro ou napa preta dão assim umas ideias engraçadas, mas fico-me por aí. Na ideia de agressividade sexual como a entendo (e bem necessária que ela é) não sou grande fã de sangue ou hematomas. Já outras coisas...







"Os teus amigos apunhalam-te pela frente."

Oscar Wilde.

Esta frase, dita de forma contextualizada num excelente filme que fui ver ao King com uma grande Amiga, suscitou-me uma ou duas ideias.
No fundo, prendem-se com o entendimento que tenho desta frase, e a forma como encaro as atitudes que são derivadas desse juízo de amizade. Como se torna insubstituível, importante, e decisivo no estabelecimento das poucas coisas que nos podem equilibrar na vida.
Desgraçado será aquele que julga que os amigos poderão apenas dar uma visão mitigada dos nossos erros e sublimada dos nossos triunfos. Iludidos e infelizes daqueles que contam apenas com a condescendência “pseudo-compreensiva” dos supostos reais amigos.
Os verdadeiros amigos fazem o que está escrito no título. Mas não entendo a frase no contexto que provavelmente o Wilde o proferiu. Entendo-o na linha daquela velha máxima que diz que por vezes para sermos bons e verdadeiros, temos de aparentar ser maus. E no fundo, não há maldade alguma. O apunhalamento serve apenas para pôr o sangue a correr, e fazer-nos entender que a verdadeira afeição e confiança prende-se com a capacidade que temos de não poupar as pessoas que amamos ao que julgamos e sentimos. No fundo, se poupamos os nossos Amigos à verdade, poupamo-los a tudo o que temos de genuíno, real, e precioso. No fundo, poupamo-los ao que de melhor temos, e eu, sinceramente, nunca desejaria isso. Acho que quem o deseja procura ter comodidades, não pessoas que delas gostem realmente.
A ideia é que não existem atalhos. A verdade, ainda que no plano da subjectividade, é por vezes agreste e afiada. E uma vez que se encosta à pele, a natureza das coisas não pode fazer com que não corte. O fio da navalha não faz distinções. Como a verdade, é o que é. E a confiança é a garantia da maior quantidade de verdade possível, ainda que seja humanamente impossível que aquela seja absoluta.
Portanto, se abro o peito àqueles de quem realmente gosto, aqueles em quem confio, aqueles nos quais detecto uma incondicionalidade própria dos fenómenos que mudam e constituem vidas, é precisamente porque a faca tem de entrar de quando em vez. E esta é feita da expressão conceptual da honestidade saída do afecto e da boa intenção que este gera constantemente.
As relações verdadeiras usam, por vezes, pouca ou nenhuma maquilhagem.
É a beleza que lhe construímos que a torna única, e aquela só se mantém se a verdade das expectativas e construções não for uma conveniência, mas uma realidade.
Por isso, agradeço à real noção de afecto, ainda que possa parecer afiado por vezes. E se achamos esse gume uma impossibilidade, então não julgo que estejamos preparados para qualquer coisa que seja de real, verdadeiro e significativo.
Seria tudo um saco de papel bonito, cheio de vácuo, de coisas que fazem pouca ou nenhuma diferença. Irrelevâncias com a aparência de vida.
Sinceramente, isso não me serviria. Nunca.
Prefiro um qualquer punhal e um beijo em seguida.

segunda-feira, novembro 20, 2006



Red Burning Fire...
Este blog vai passar a ter exclusivamente duas cores. O Branco, e o Vermelho, já que o Preto, como pano de fundo, é aplicável a muito mais coisas que apenas a utilidade como "background" ou papel virtual.
No fundo, é a cor que me constitui e identifica. Para onde tudo converge, sem se anular, mas renascendo, porque sou parte de um todo. E apenas uma matiz nunca basta.

E para alguns, esta afirmação diz tudo.
Espero.


Somos o que somos.
Independentemente da forma como nos alteram, ou como escolhemos alterar a nossa forma de estar, somos o que somos. E é nessa óptica que perseguimos cada objectivo, ou que damos cada passo tendente ao mesmo. Sendo como somos, não há forma de nos condicionarem os automatismos, mas sim, conquistar os mesmos na óptica do respeito pela identidade própria. A tentação para que possamos moldar alguns pormenores nos outros que são mais próximos, decorre de um paradoxo para o qual, pessoalmente, não tenho resposta. E porquê? Porque de alguma forma, foi essa combinação de elementos que tornou aquela pessoa fora do comum, e ao mesmo tempo, nessa amálgama, até os pretensos indesejados fazem parte do grande plano.
Sendo o que somos, vivemos como se torna possível, pelo caminho escolhido. A consciência permite ou não que se cortem esquinas, ou que se vivam as coisas da forma possível, mesmo que implique um trilhar doloroso e pouco confortável. Porque é a realidade que torna as coisas perenes, e nunca o contrário. Não podemos dar a mão a uma ilusão, mas a uma mão de carne, ainda que ela possa ter as unhas afiadas ou alguma sujidade de outros caminhos menos fáceis.
E é na persistência do que somos que podemos estar verdadeiramente perto de alguém. Seja de que forma for. Podemos evoluir, mas desejavelmente na intensificação do que julgamos correcto. Os caminhos que se trilham, as esquinas torneadas, são apenas a morfologia de um caminho que se pode tentar esconder, mas que está mapeado em cada cartaz colcado em cada parede desse caminho. Somos o que somos para todos. Mas somos ainda mais para aqueles que sabem realmente o que isso é.
Abraço-os porque eu sou eu. Insuportavelmente imperfeito, com o desejo de fazer mais. Mas fazê-lo como sou. Na minha pele. A única que pode dar um abraço como este, onde me identifico seja com quem for, porque o que me interessa realmente, é o conceito.
Aquele que dou, porque eu sou sempre eu.
Para o melhor, e o pior.

quinta-feira, novembro 16, 2006

segunda-feira, novembro 13, 2006

Se há coisa que me repugna especialmente, são situações como aquelas que são vividas pelos trabalhadores portugueses na Holanda, que graças a esquemas sórdidos e obscuros de empresas que deveriam ser imediatamente responsabilizadas criminalmente, estão numa situação de quase indigência.
Pessoas que acreditaram em alguém que se diz um profissional, que se dirigiram a um país estrangeiro para trabalhar, para poder melhorar de vida, e são confrontados com situações da mais pura canalhice e desonestidade profissional e humana.
E quando vejo este tipo de situações, começo a perguntar-me que razão terão os defensores da agilização económica a todo o custo. Como explicam isto aqueles que desejam eliminar as verificações reputadas de burocráticas, em nome da celeridade, incorrendo em riscos de total ausência de segurança e garantia de direitos fundamentais às pessoas que são desta forma enroladas no rolo compressor da ditadura economicista.
É o execrável mundo (nada) novo, realmente...

quinta-feira, novembro 09, 2006

O direito que damos a alguém para nos corroer as fundações, é como uma espécie de premissa ingénua. É como apostar num cavalo que deixará de mancar quando aquecer as articulações.
E irritamo-nos perante os efeitos da vulnerabilidade, porque ela afinal de contas foi esperada numa perspectiva de afago, mas surge como um utensílio esfolador.
Perante a carne viva, fica a surpresa. A fraqueza da tal ingenuidade, o peito aberto lascado em várias zonas, quando se tomaram espigões por jorros de água cálida.
E no entanto, há nessa moínha de exposição, um reflexo de fé que é tão belo como estúpido. Mas essencialmente belo, precisamente porque se reanima sem intervenção totalmente explicável, senão por uma boa fé na bondade intrinseca dos conceitos.
Esta pode ser uma operação mental perigosa, porque embora nos firme claramente o amor a uma certa visão de tudo, pode matar-nos no processo.
De todas as formas, mesmo aquelas que incluem batidas do coração por hábito, cansaço, ou apatia aplicada mesmo ao conceito de fim.

quarta-feira, novembro 08, 2006

A menina do clube do Rato Mickey vai divorciar-se.
Mas o mais curioso, é o facto de o futuro ex-marido ter sido alvo de constante chacota por todos os meios de comunicação social, por motivos que desconheço, e também pela expressão americana "diferenças irreconciliáveis".
Não são sempre?
E o truque não é dar-lhes a volta com a ilusão de vitória para os dois lados, para depois voltar à bulha e dar uma certa piada renovada às coisas?
Não serão assim as diferenças sempre reconciliáveis, porque voltar a elas é conhecer o outro?


O elogio da imperfeição não deveria ter este tipo de designação.
Eu opto pela apologia da diversidade. Como uma espécie de jogo de dardos onde a pontaria é fulcral, já que não acertar implica uma necessária e dolorosa punção.
As exigências são um elemento fulcral da nossa identificação perante os outros, e a nossa tentativa de evolução também acaba por ser a trilha de progressão que nos faz crescer perante o olhar alheio.
No entanto, nunca estamos preparados para ser ou parecer insuficientes. Especialmente perante situações em que a vulnerabilidade ofertada abre caminho para desbravamentos mais brutais. E estamos sempre no fio da lâmina empunhada por aqueles a quem damos o flanco. É chato "com'á" merda, aparentemente contraditório, e por vezes cria-nos a sensação de que a intimidade que dispensámos foi utilizada da pior forma.
Mas sejamos honestos e claros. A intimidade é como a pele nua, e se a lâmina encostar, acaba por cortar. Sem filtros, somos como patos sentados num campo de tiro.
É perante o acarinhar dos detalhes que vacilamos, e nunca podemos arguir que somos enganados. Todos sabemos que perante a abertura da porta, entram as visitas, mas também o vento cheio de pó ou os odores de uma urbanidade doente.
Mas é essa diversidade que deve ser bem gerida. É a procura das coisas importantes, aparentemente pouco visíveis, que faz a diferença. A dor pungente que se possa sentir perante aquilo que é desnudado por quem conhece a pele debaixo da roupa, é apenas uma consequência daquilo a que chamo a vivência dual. Estamos sempre sujeitos a levar um beijo ou uma bujarda nos cornos. No fundo, fecha-se os olhos e entra em acção o wishfull thinking. Se for a pensar bem, talvez seja essa a ilusão perfeita da proximidade entre pessoas, ou seja, que no rosto sejam mais visiveis as marcas dos lábios que dos nós dos dedos. A diversidade é essa tatuagem desenhadora desses efeitos contrários. E na compensação das tendências contrárias, reside o carimbo emocional dos poucos equilíbrios que ficam connosco, e nos constroem a cada passo da vida que, erroneamente, julgamos ser só nossa.
E eu farto-me de meter a pata na poça.

terça-feira, novembro 07, 2006

Ouvi no outro dia, e não faço mesmo a mínima ideia se a ideia é maioritária ou não, de que talvez não possamos ser gratos ao Amor. Ao sentido, ao recebido, ao partilhado. Talvez porque segundo essas pessoas, talvez estivéssemos então num plano obrigacional, e não da espontaneidade tão própria e característica de algo que se quer genuinamente sentido.
Faz sentido. De alguma forma a criação de uma vontade de dar prende-se com o descontrolo, maior ou menor, que é criado na nossa esfera pessoal pela acção de outrém. Essa acção, e a piada está aí, é própria muitas vezes de comportamentos desconhecidos pelo próprio, mas que criam, juntamente com as dádivas conscientes, um todo que nos torna ineficazes contra a sua acção.
Mas não estou bem certo que seja somente assim.
Acho sinceramente que podemos, e quem sabe, podemos ser gratos. Não gratos por educação ou obrigação, e muito menos por constrangimento. Gratos pela percepção dual da acção de outra pessoal. Agradecidos porque o Amor recebido, a atenção dispendida cria uma consciencia racional do Bem que nos é feito, somado ao descontrolo criado por elementos tão díspares como defeitos, virtudes e pancadas. Coisas que geram a reacção atractiva. Que isolam uns poucos em meio a um universo de pessoas.
Aliás, vou mais longe, mas aí o problema é mesmo meu.
Acho que em certa medida somos genericamente pouco gratos. Pouco conscientes de alguma sorte que por vezes temos em ter ganho a afeição de uns eleitos que nos escolhem, que nos querem por perto e que se riem dos nossos disparates e inconsistências. E tendo em conta o quão insuportáveis podemos ser a espaços, no meu caso pessoal, tenho de estar grato por sentir que essa parte é aturada, e espante-se, acarinhada. Embalada com uma desdramatização bem humorada, com gestos simples, com afeição surda mas vísivel.
Deveremos ser gratos?
Talvez sim. Em muito mais coisas, em muito mais formatos.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Árbitros. No meu caso pessoal, árbitros de basquetebol.
Uma corja execrável, comparável aos fiscais da EMEL, normalmente constituída
por teóricos do jogo, que nunca estiveram lá dentro, em competição, a levar castanhada da forte e feia, e que não têm qualquer noção da dinâmica dos contactos. Os que foram ex-jogadores têm uma postura e visão completamente diferente, como por exemplo se vê no caso do Tó Zé Coelho ou o Araújo (em dias bons), mas a grande maioria são de uma mediocridade que roça o anedótico.
Provocadores, autistas e completamente dissociados de uma postura pedagógica e de cooperação que todos em campo devem ter, exercem ali uma autoridadezinha mesquinha, sem respeito pelas outras pessoas. Chateiam-se a eles, e chateiam os outros, e ainda por cima, com a sua inacção, colocam a integridade física dos jogadores em risco.
Uma verdadeira vergonha, mas já instituida e aceite como comum pela Federação Portuguesa e Basquetebol. Algo que, a somar a tantas outras questões, contribui para o afastamento das pessoas dos espectáculos desportivos.
A falta de formação, de jeito e de respeito ou educação presente em tantos árbitros, como de resto também acontece no futebol, coloca as pessoas à margem do desporto, ou dá a péssima imagem de que um palhaço com um apito (ou alguma espécie de poder) pode fazer tudo sem sair minimamente penalizado ou sequer advertido.
É, como noutras coisas, o espelho de um certo país que temos...
Enfim...

quinta-feira, novembro 02, 2006



O último filme de Alfonso Cuaron, realizador responsável pelo surpreendente e tocante "Y Tu Mama Tambien", é um soco no estômago simultaneamente belo e assustador.
Toda a estética do filme (e o ambiente claustrofóbico e sujo) apontam para uma cor baça de desespero ou irreversibilidade, onde as pessoas perderam espaço para nada mais que um temor e tristeza crescente por um mundo que parece não ter qualquer remédio.
E o mais complicado é sair do filme e tentar colocá-lo na prateleira dos pesadelos, abrindo os olhos e ouvindo os miudos à volta à bulha pelas pipocas. Não é possível sacudí-lo. Ainda hoje tento, e as imagens estão lá.
É uma história de uma beleza e crueldade dilacerante. Quando o filme acabou, uma moça ao meu lado limpava as lágrimas dos olhos. E arrisco a dizer, pela expressão que tinha no rosto, que eram lágrimas de medo, de tristeza, de comoção, de reconhecimento de coisas tão comuns noutros momentos da história, já que os campos de extermínio não são novidade nenhuma no decurso daquela.
Clive Owen é, em meu ver, dos melhores actores no presente momento, e arranca uma interpretação contida, dura, fantástica. Não há nada de herói convencional, mas sim de pessoa que perante o desespero e o encurralamento, segue o único caminho possível. Michael Caine mostra-se mais uma vez um camaleão terrivelmente convincente, e todos os outros estão igualmente bem.
É um filme que tem tido pouquíssima divulgação, mas é um objecto de reflexão e emoção duro de engolir, simultaneamente belo e horrível. No entanto não descarta alguns dos melhores reflexos humanos, e é isso que, no meu modesto ver, o afasta de uma visão niilista (a qual normalmente não tem grande valor para mim).
Fala da esperança exactamente como um nascimento. Duro, doloroso, sanguinolento, sujo, mas também belo, espantoso e fortíssimo.
A ver, definitivamente...

segunda-feira, outubro 30, 2006

A generosidade não é uma opção.
É um músculo.
Como o coração, funciona sem que possamos dar por ele.
E como ele, é revel e traz vida.
Nunca se agradece suficientemente aquilo que não pedimos, mas que no entanto, cria nichos de felicidade perfeitamente determinados.
A sorte que tenho, deriva dos outros.
Da possibilidade que me dão de poder esperar algo, de aprender outro tanto, e baralhar-me para voltar a dar.
Bem vistas as coisas, perguntamo-nos sempre se merecemos a má sorte que temos. A resposta é frequentemente negativa. Mas e a boa sorte? É-nos devida? Um pormenor, ou saco cheio deles, uns mais preciosos que outros, deverá realmente ser-nos entregue?
Há como fazer por isso. Nunca achei que o relacionamento entre as pessoas, fosse ele de que espécie fosse, se pautasse por pausas, inércias e descasos. Mas até que ponto é que merecemos o que nos dão, na base do que emitimos, muitas vezes, sem perceber?
A nossa personalidade simplesmente aparece lá nos painéis sensoriais dos que escolhem dar-nos algo, e no meu caso, pergunto-me sempre o porquê, embora me maravilhe com isso, e tenha de agradecer.
Apesar de alguma má sorte, ultimamente tenho tido alguma sorte, que não sei se é integralmente merecida. Mas as perguntas que faço, faço-as na perspectiva de pode evoluir, melhorar, e tentar ser merecedor.
Mas isso é um mistério não é?
Existem partes de nós que encantam outros, e nunca faço ideia do porquê.
E é essa a sorte que temos. De sermos agradáveis e susceptiveis de formas diversas de amor, para o qual também contribuem as coisas acerca de nós que acabamos por desconhecer.
Que sorte!
Diria eu...