ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, fevereiro 14, 2006

Pela primeira vez em mais de dez anos, escrevo neste dia fora do requisito essencial para fazer parte dele. E devo dizer-vos que, por um lado, é curioso ver o fenómeno de fora, especialmente quando já há muito que a zanga de tempos dificílimos se diluiu numa realidade que tem tanto de complicada como de interessante.
Os relacionamentos estão a mudar, dizem alguns. Talvez. Ou talvez as pessoas tenham perdido a pachorra para a inércia que ataca alguns dos relacionamentos "estáveis", devido a tantos ataques dos chamados pragmatismos. As contas, os putos, as chatices, e o diabo a quatro destroem o tecido relacional como qualquer falta de movimento pode atrofiar e rasgar um músculo.
E o mais curioso é que a grande maioria destas coisas são criadas por vontade dos próprios intervenientes no relacionamento. É um pouco como um ladrão que tem oportunidade de encher os bolsos e a sacola com tudo o que puder sacar da câmara do tesouro, apenas para morrer afogado no fosso, devido ao peso que carrega consigo.
E depois surgem as queixas. Os olhos cansados, a rotina pragmática que assassina o erotismo e o simples gozo de estar com alguém porque afinal de contas, as responsabilidades tornaram-se o motivo para viver, e não um acessório que permite essa mesma vida.
Sei que muitos me largarão um tijolo na cabeça, mas quando começam os processos de substituição, os problemas da criança-rei (substituto), parece que um esforço hercúleo acabará por limpar todos os pequenos crimes que os dois relacionados vão cometendo entre si.
Bem sei que isto não é genérico, mas são muitas as pessoas que colocaram a sua vida em piloto automático, e que julgam que essa modorra será suficiente.
O problema é que o amor é como um bonsai daqueles que são do caraças para manter vivos. É um filho da puta caprichoso e retorcido, mas cuja beleza inerente o deixa perfeitamente imune às supostas tentativas que tenhamos de o ignorar, pelo menos enquanto conceito.
O dia dos namorados ( desgraçado do Valentim perdeu a cabeça literalmente por causa de uma mulher) não deve obviamente substituir um elemento de continuidade ao longo de todo o ano. Desgraçado do(a) idiota que só oferece prendas neste dia, e que compra alguma coisa cheia de coraçõezinhos que dão mau nome à piroseira. Mas também não julgo que este dia seja algo de negativo. Tomara que muitos dias aparecessem como uma justificação para se fazer algo de bom perante alguém de quem se gosta, e consigo pensar em efemérides muito piores.
Mas a verdade é que uma rosa mal enjorcada ou um livro comprado nos saldos do Carrefour não ajuda em nada a conseguir provar uma preocupação sincera e emocional.
Sem imaginação e vontade de rir, sem a preogressão e a evolução do corpo e da mente, tudo recai numa sensação de falsa segurança, mas sem o elemento que motivou tudo. E o cansaço vive da permissão dos seus portadores.
Por isso, feliz dia de São Valentim a quem o aproveite da melhor forma, como mais um jantar e sessão de sexo desenfreado numa lógica onde estes dois se repetem amiude e com gosto. Sim, apimentado pela ocasião pode levar a uma loucura extra. E esses sim, são os verdadeiros viajantes do dia de São Valentim. Os restantes não passam de consciências culpadas com uma má receita no bolso.
Mas o Amor ainda tem que se lhe diga...

4 comentários:

filipe leal disse...

blog engraçado e claro que o amor ainda tem que se lhe diga mas como tudo na vida um gajo vai aprendendo... depois há aqueles que aprendem ao contrário, passam pelas relações e ficam cada vez piores, é o efeito corrupção: faz-se uma vez porque se precisa, depois faz-se outra vez porque se passa a precisar... mas o maior problema de hoje é o facto de as pessoas olharem só para os seus umbigos e precisarem não de um marido ou namorado mas de um enfermeiro que ao fim do dia consiga fazer o impossível: pagar as contas, dar uma paulada no chefe e na gaja estúpida lá do trabalho, fazer o jantar e, pior, perder a individualidade (deixar de ser quem é mesmo) para passar a ser aquilo que se precisa. ufa, viver cansa (mas é bem bom!!!)

sldance disse...

Gostei da tua definição de amor. Excelente.

E sim, o dia dos namorados não deveria ser só o dia de hoje, mas sim todos os dias do ano.

Tristes os que pensam que umas flores ou uma prendinha com corações podem compensar todo um ano de ausencia e inexpressão de amor...

M. disse...

Posso provocar??

O Amor não se escreve. Não se descreve. Não se analisa. Nunca se racionaliza.

Sente-se. E, por se sentir, faz-se.

Sabes qual será, eventualmente, a razão primeira de todas as miserabilidades que aqui abordas? Não é amor que lhes está na base. É conforto comodista. Amar dá um trabalho do caralho e ninguém está para se chatear muito nos dias que correm.

Eu só sei que o oposto existe. É possível. Vivenciável quotidianamente, através de rotinas e barbáries individuais. Quem se contenta com menos está no seu direito. Mas que se limite à sua total e absoluta ignorância.

Patrícia disse...

Voltei aqui (a Fevereiro do ano passado) to make a point. Não voltei ao dia em que já tinha deixado a minha marca, porque me doeu particularmente este ano e não vale a pena sulcar mais a ferida. Este post foi escolhido à sorte, depois de ter lido os anteriores e respectivos comentários (e não tem que ver com os comentadores ou comentários deste). My point? Poderei estar redondamente errada, até porque (confesso aqui a minha culpa) não li todo o blog e muito menos todos os comentários anteriores à altura em que se tornou mais ou menos conhecida a tua mais recente (nem sei se estou correcta, mas deixa lá) no-name-relationship e posterior namoro... maaaaaaas... não te parece que o teor (e assiduidade) dos comentários modificou substancialmente? Será que eu sou assim tão paranóica que entrei na Twilight Zone e leio o que tu não lês?


Nariz, definitivamente...