ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, março 31, 2006

Noto que em algumas franjas da opinião feminina, e reforço o termo algumas, que o ressabiamento está a crescer de forma avassaladora, mascarado de uma espécie de evolucionismo socialmente correcto.
Pérolas como a superioridade de um qualquer eterno feminino, associado a uma perspectiva maniqueísta de que ao universo masculino está necessariamente traduzida numa infantilidade e deslealdade quase genéticas, revelam um desconhecimento algo paternalista que por vezes inquina qualquer crítica, mesmo as legítimas.
Pensar que muitas mulheres não traem, ou que não procuram de alguma forma muitas das coisas que aparentemente criticam, é ter uma visão unilateral ou parcial da realidade. Pensar que algum dos géneros pode defender-se das suas iodiossincrasias, negando essa mesma defesa ao género contrário, é apenas um exercício de sobranceria, que vitima quer o machismo, quer o feminismo.
São perspectivas que abandonam o espirito crítico e se apoiam em normas de comportamento reiterado e na idolatria da tradição. São o pior dos vincos na contenda do tecido social inter-géneros, e, na minha modesta opinião, todos são culpados.
Talvez porque o esforço esteja em superiorizar e não entender, na paixão das defesas e não no espirito crítico das eventuais, e diga-se, necessárias discórdias.
A discriminação por género é tão nociva quanto qualquer outro motivo baseado numa realidade existencial própria do indivíduo, e que em nada afecte o seu valor como ser participante.
Podemos gostar mais de umas coisas e menos de outras.
Mas de alguma forma, cada uma das defesas ou ataques deve ser argumentativa. E não baseada num simples pressuposto de facto - ser homem ou mulher.
Lamentamos parte das nossas transformações quando alguns dos nossos amigos estão próximos, e ainda assim, parecem ver-nos à distância.
Por culpa nossa, claro.
"Love isn't what these asshole poets like McKuen want you to think it is. Love has teeth; they bite; the wounds never close. No word, no combination of words, can close those lovebites. It's the other way around, that's the joke. If those wounds dry up, the words die with them. Take it from me. I've made my life from the words, and I know that is so."

Stephen King, pela voz da personagem Gordon Lachance em "The Body", uma novela incluida no livro "Different Seasons", de 1982.

Dou-lhe toda a razão. Toda mesmo

segunda-feira, março 27, 2006

"Fame often makes a writer vain, but seldom makes him proud."

W.H. Auden
"Honesty is the best policy"

Cervantes
"One of the reasons for Casanova's success as a lover was that he, unlike most eighteenth-century men, paid a great deal of attention to the other gender's pleasure as much as he did his own. He also delighted in being seduced; though he is often thought of as the great seducer, he much preferred to consider himself the victim. He believed himself in love with many of the beautiful women he pursued, and, unusually for his time, often treated them as his equal and remained dear friends with them long after the affairs ended." - Wikipedia
Sim, porque as mulheres também predam... aliás, sempre predaram.
Sim sim... a religião organizada é uma coisa bonita...e coerente e perfeitamente de acordo com os valores de tolerância e respeito pela liberdade individual... e a teocracia então...

"The Prophet Muhammad has said several times that those who convert from Islam should be killed if they refuse to come back" and that even while this is so, "Islam is a religion of peace, tolerance, kindness and integrity. That is why we have told [Abdul Rahman] if he regrets what he did, then we will forgive him"The judge added more ominously: "If [he] does not repent, you will all be witness to the sort of punishment he will face."

Ver o magistral disparate em formato completo
aqui...
Nos dias dos escravos do pragmatismo, o sofrimento surdo da ausência conta-se em minutos. Nos poucos e insuficientes minutos que a contrariam, e que servem como parca desculpa para um universo de falhas e pequenos crimes entre amigos ou amantes.
Claro que todos fazem as opções que lhes são permitidas, ( ou não), e depois tentam no furor da sua criatividade encontrar as ferramentas de compensação.
Mas por vezes não basta. Não serve, não chega.
Porque os problemas surgem, e a correcção de comportamentos normalmente aparece em pleno reinado da irrecuperabilidade.
A consciência do que há a fazer tem de ter mais cuidado com o que se quer fazer. Porque no cansaço tem de existir a criatividade, o desejo de fazer algo mais, sob pena de se criar uma linguagem rotineira feita de uma falsa companhia e do almejar de sensações perdidas algures num constante adiamento.
A morte de qualquer forma de amor também pode operar-se por envenenamento súbtil.
Nos dias de hoje, talvez seja a moda aliada a uma terrível eficácia...
"Remember, remember, the fifth of November,
The gunpowder treason and plot.
I know of no reason why gunpowder treason should ever be forgot."
Fui ver a adaptação, se bem que é mais baseado na Graphic Novel do Allan Moore que outra coisa, de V for Vendetta. E vim rendido.
Visualmente irrepreensível, traz uma espécie de género misto. Um filme de entretenimento, ou vulgarmente apelidado de acção com miolos. Bem, se formos a ser honestos, já o Heat do Michael Mann fora um grande filme de acção com miolos, mas este tem elementos verdadeiramente irresistíveis.
Bem sei que há quem julgue que este filme é uma espécie de incitamento ao terrorismo, mas para mim é uma visão menor e redutora da obra. Existem referências claras aos EUA de hoje, ao perigoso caminho totalitarista que se trilha no presente, onde as pessoas estão dispostas a sacrificar a sua liberdade pessoal por segurança, mostrando uma curta memória para um passado não tão distante. As liberdades cívicas que tanto custaram a ganhar, acabam por ser uma espécie de bem dispensável por causa do medo.
V é um personagem, em meu ver, do melhor que há. Herói e anti-herói. Inspirador e correcto, mas também um lunático na melhor tradição do Batman. Lirico e intelectual, disforme mas fortíssimo, elegante e sofisticado, mas frio e implacável.
Evey é uma esfera de promessa naqulo que identifico como uma metáfora da voz interior de indignação de cada pessoa, aquela que até pode calar-se, mas denuncia internamente aquilo que realmente não está bem.
Gostei muito deste filme, precisamente porque dá uma visão original, cheia de ritmo e visualmente esplendorosa, de algo que nos deve fazer pensar. O amor à liberdade pessoal, à conquista que isso significa, já que a verdadeira segurança não é feita pelo controlo e bloqueio intelectual, mas sim pelo esclarecimento e em ultima instância, pois claro, pela justiça.
"This visage, no mere veneer of vanity, is it vestige of the vox populi, now vacant, vanished, as the once vital voice of the verisimilitude now venerates what they once vilified. However, this valorous visitation of a by-gone vexation, stands vivified, and has vowed to vanquish these venal and virulent vermin vanguarding vice and vouchsafing the violently vicious and voracious violation of volition. The only verdict is vengeance; a vendetta, held as a votive, not in vain, for the value and veracity of such shall one day vindicate the vigilant and the virtuous." - V

quinta-feira, março 23, 2006

Porra, afinal citei - II

One that does not think to highly of himself is more than he thinks.

Goethe
Porra, afinal citei - I

"Many people believe that humility is the opposite of pride, when, in fact, it is a point of equilibrium. The opposite of pride is actually a lack of self esteem. A humble person is totally different from a person who cannot recognize and appreciate himself as part of this worlds marvels."

Rabino Nilton Bonder


Ah pois é...

quarta-feira, março 22, 2006

Bem sei que existe uma corrente que considera a arrogância uma espécie de direito adquirido. Como um casaco social que protege essas pessoas da, em meu ver justa, censura pela bazófia e cabotinice que emana dos discursos elevados dos zarolhos em suposta terra de cegos.
Mourinho, Lobo Antunes, Prado Coelho, Vasco Pulido Valente, etc.
Será que de uma certa forma os feitos reconhecidos permitem uma espécie de discurso quase autista perante aqueles que (justamente diga-se) o reconhecem?
Será que a malta do quotidiano que resolve cagar as suas postas de pescada, está legitimada a fazê-lo pelos feitos?
Será que meia duzia de citações e o recital de um passado académico justificam uma espécie de hermetismo bafiento, onde qualquer tentativa de entender é considerada uma afronta, dada a pretensão de universalidade na obra destes artistas?
Desde quando perguntar é um crime? Ou o achincalhar gratuito, um estado de necessidade do talento perante quem o reconhece e enaltece?

terça-feira, março 21, 2006




Foto: Filipa Oliveira

Aos anciãos deve-se respeito.
As histórias contadas na cobertura encarquilhada, na rugosidade das suas vivências feitas matéria, são a matéria do mundo.
E eles renascem. São antigos, mas nunca velhos. Têm cabelo que cresce a cada renovação de estação. braços que se tornam forte e não mais quebradiços. Produtores de frescura quando passam a suportar o abraço quente do sol. Exploradores do nucleo da terra, da água que lá perpassa, em correntes inaudiveis aos seres que, contrariamente aos anciãos, caminham.
A Primavera nasce hoje, ou continua.
Ceres traz Perséfone de volta, e a luz espraia-se pelo mundo. Há um beijo suave e luminoso, um pincel tresloucado na mão de quem não conhece morfologias limitadas.
Os anciãos observam este tempo e vêm os tolos mamíferos em toda a espécie de danças. As mentes fraquejam nesta altura, assim como na transição para o Outono. A pressão do universo parece feita de um ímpeto naturalistico ao qual os anciãos respondem largando pó nas costas caprichosas do vento.
Hoje, dia dos anciãos, em que o mundo é igualmente banhado pela mesma quantidade de luz solar e os hemisférios não se olham em desconfiança, aqueles desempoeiram os fatos e refrescam o mundo. Movem-se no seu silêncio e reiniciam uma nova etapa na jornada da paciência.
E então tudo é verde...

(Porque hoje é dia da árvore)
O fogo vive.
Diz-se dele que também lambe em queimaduras.
Tem mãos e dedos, encaracola-se ao crepitar.
Pinta a sua companhia de um laranja que afoga
Traz todo o calor que se lhe arroga
E lança-se numa missão indefinível.
Queima até se consumir, e consome quem queima
Enrola-se em labaredas contorcionistas
Numa voz estalada perdida da noite que afasta
O fogo está lá.
Opera o milagre da energia
arrasa enquanto espalha tom de alegria
E voa cego, sozinho
Na temperatura de um Inferno doce
O fogo está só á espera
Que todo o ardor comece
Para ser responsável solitário
De tudo o que ao seu calor acorre
Numa luz feita de queimadura
Daquelas que nunca morre.
O fogo vive.
Porque o fogo é.
E quando se extingue
num vermelho de sangue vertido
Reacende-se com o ar do mundo
Com o sopro de saudades acesas
Que o revive da ausência arrependido.


P.S. - Porque hoje é dia Mundial da Poesia :)
We protect people because we have to.
But it's not that they are fragile or anything. In fact, we measure the intensity of how much they matter, by the hurt that their demise causes us. And the more hopeless it seems, the worst we feel about our incapability to save them, even if for a single minute of true presence and company.
Está uma enésima versão de Casanova nos cinemas. Ao que me parece, suavizada.
Mas há algo na crítica latente ao mito de Casanova que me intriga.
O mito não nasce da verificação material do mesmo?
Casanova era o que era por vencer a resistência, não por obrigar ninguém a coisa alguma.
Assim sendo, quem deverá ser alvo de crítica no ambito do mito?
A meu ver ninguém.
A Liberdade não se escolhe. É-se...
Verde é a cor da Primavera :)

terça-feira, março 14, 2006

Portugal é mesmo uma merda por vezes, e as distribuidoras de cinema uma bosta fedorenta e pustulenta.
"Os três enterros de um homem" - de Tommy Lee Jones e "Ghost in the Shell" não estão a ser exibidos em Lisboa.
Além disso, quer um gajo marcar férias, e nem sequer há ainda cartaz dos festivais de Verão, à excepção do Rock in Rio que a julgar pelo cartaz ( Shakira e Ivete Sangalo???? tenham paciência!!!) nem vale o esforço...
Sem comentários...
Só se vive na verdade adaptável.
O que se tem para dizer, quando incontido, gera solidão.
É matemático.

segunda-feira, março 13, 2006

A razão pela qual Rachel é real em Blade Runner, e não uma Replicant, é precisamente a mesma que assiste a todos os fenómenos que envolvam o conceito de amor.
Quem tem o direito de retirar a imortalidade ao que mesmo na infíma proporção possível, pode não ser ilusório? Quando existe,
claro...
Sobrevivência é um estado intermédio entre o desespero real, e a expectativa talvez demasiado optimista.
Há demasiadas pessoas nesse estado.
Injusto.
We are all special cases...

Camus

sexta-feira, março 10, 2006

O descanso é também um auto-conceito...

A Paz já não tem essa sorte....


Foto - Filipa Oliveira

Nestes teus dedos que não tapam o sol, ou no abraço alto ao qual não chego, estão as rugas dos teus traços, o encarquilado enredo dos teus braços.
És alta. Profunda. Imensa e imortal, ultrapassando-me na minha suposta superioridade.
Como se eu ao falar pudesse ultrapassar a tua imensa dignidade. Como se o meu discurso, levado pelo vento e demais ruídos da natureza interventiva, pudesse fazer--te comparável, na majestade dos teus anéis internos, que são ornamentos do mundo que dificilmente morre.
E depois deixas-te observar. Tens formatos, espécies e lógicas.
Agrupas-te com semelhantes, formas um silêncio eloquente, já que todos procuram viver perto de ti. Chegas ao céu, mas tens a terra agrilhoada aos pés em felicidade enlameada.
E até morta te ergues, como nenhum monumento humano é capaz.
E fazes-te das cores que prosseguem no ano.
Aquelas que te pedem licença para serem Estações Diferentes.
Completas.
No ciclo do qual tu és a primeira e última representante da Natureza.
Árvore.

quarta-feira, março 08, 2006




FELIZ DIA DA MULHER
Este é sempre um dia complicado para escrever alguma coisa.
Especialmente porque são temas complexos, que versam sobre coisas como rivalidades antigas e códigos de sociedade ou vivência conjunta.
O dia da mulher tem uma importância indiscutível, porque, queiramos ou não, em algumas sociedades a secundarização de género ainda é uma realidade a ser combatida a todo o custo. Parte do Islão, e mesmo do Hinduísmo e país do Sol Nascente colocam a mulher numa postura de subserviência e em alguns casos, sujeitas a uma violência inaceitável, que raia desde a agressão física a todas as formas de humilhação intelectual.
Alegar desconhecimento de que ainda existem comportamentos sectários nas questões do acesso ao emprego e respectivas remunerações (e progressão de carreira) é não querer ver um aspecto feio mas real da sociedade em que estamos.
E não fica só por aí.
A emancipação é vista com desconfiança. Com um olho cerrado e um cenho franzido, porque os códigos ainda estão muito marcados. A atitude, a confiança, a independência e a busca do hedonismo ainda são vistos com os olhos de gerações feitas de comportamentos automáticos e dogmas sociais ainda mais difíceis de quebrar que as lógicas das religiões organizadas.
A agressividade sexual, a lógica da predação, são ainda vistas com os olhos assustados dos caçadores sem munições, que ainda não perceberam que este é um mundo a meias, e que como qualquer imóvel, há que saber partilhar sem conceder, porque muitas mulheres têm quase tanto horror à concessão como aos grilhões sociológicos.
A ideia é sempre a mesma, e está tão batida que mais parece um pregão de rua. É a igualdade na diferença que deve ser mantida, a chamada igualdade criteriosa, porque somos diferentes, e essa diferença significa riqueza. Mas direitos liberdades e garantias são conceitos objectivos, e como tal, não sujeitos a qualquer forma de subjectividade na sua aplicação, por força da aplicação dos princípios à pessoa humana. Ser humano.


Mas vamos agora ver o outro lado:

O paternalismo feminino aliado a uma lógica feminista que assenta naquele discurso ressabiado de que é feita tanta letra mal impressa. Aquela que generaliza na lógica da denuncia de opressores, mas que de alguma forma não reconhece a esses qualquer legitimidade senão aquela que é devolvida em certas matérias pelas próprias mulheres.
Aquele discurso que nos apelida a todos de patetas sexualmente incompetentes, egoístas e ignorantes.
Aquele que nos coloca numa espécie de zona inepta no que diz respeito ao campo das sensibilidades ou formas mais complexas de olhar para os fenómenos.
Aquele que acha que toda e qualquer exigência que o homem pode ter no plano estético ou ético é um fardo para a mulher que aparentemente tudo aceita.
Discursos que falam na obrigatoriedade da mulher ter de estar sempre na mó de baixo no que diz respeito à contracepção e cuidados consigo mesma ( experimentem ter de colocar um preservativo, fazer a barba todos os dias e combater a calvície e a gente depois conversa acerca das dificuldades de género).
Aquelas palavras que denunciam uma espécie de complot genérico relativamente a uma pretensa condescendência masculina para com a capacidade feminina.
Este é o outro lado.
O feminismo nesta perspectiva é tão idiota e bacoco como o mais primário dos machismos, e faz com que s interlocutoras percam toda a credibilidade. E como talvez formas mais atenuadas desse mesmo machismo, parece estar por toda a parte, nos gestos mais comuns.
O que é uma pena, demonstrando que afinal de contas, a desconfiança e o paternalismo parecem estar em ambos os lados da barricada.

E por isso mesmo celebro a mulher como ser completo e fascinante. Complexo, cheio de ângulos de análise, profundamente sensual, sexual e orgânico. Metade da humanidade cheia de mistérios que motivam qualquer incursão mais arriscada, desde que se não presuma nada e se aprenda com os contributos. Um ser pleno de diferenças que completam e não antagonizam. Uma inteligência emocional diferente, mas complementar, claro está.

Lamento que isto possa chocar as mentes mais libertárias/feministas, mas as queixas sobre determinados focos de pressão são injustificadas e próprias de uma visão unilateral. Acho aviltante que tenha de pedir desculpa porque gosto de mulheres bonitas, porque acho que devem procurar ser e estar melhores. Acho perfeitamente imbecil e primário o discurso politicamente correcto da primazia total do interior sobre o exterior, e claro está, vice-versa. Somos seres complexos e completos, e o corpo também é o que somos. É parte da nossa identidade e o receptáculo empírico do melhor que podemos ter na vida.
As pessoas que se abandalham, física ou intelectualmente, que deixam de perseguir (quando podem – não estamos a falar de pessoas que lutam por sobreviver, porque a filosofia só surge em estômagos cheios e tectos estanques) metas, evolução, objectivos, desistem de si e dão os outros por garantidos. E eu não gosto de pessoas que desistem de si mesmas. Que não têm sede de ser sempre algo melhores, de ver sempre algo mais, de respeitarem a sua integralidade humana, seja corpo ou mente.
Mas porque raio é que eu hei-de gostar de celulite? Ou banhas e pneus de inércia? A mesma pergunta faço noutra perspectiva. Porque hei-de gostar de raciocínios primários, ou conversa de novelas, cortinados, dejectos dos infantes, bola, o conselho superior de arbitragem? Porque hei-de de apreciar uma ignorância satisfeita e um estacar no tempo consciente e até feliz na sua pausa e autismo?
Será que querer ou gostar de mulheres que procurem viver e evoluir em corpo e mente é uma espécie de sectarismo? De indesculpável escolha?
Será que as mulheres também ainda acreditam que vendem convincentemente uma sua ausência de padrão e exigência?
Gostar da mulher é gostar da pessoa. Do que ela é, e do que ela pode ser, do que evolui e do que não se descaracteriza. Da sua beleza e intensidade, nas palavras ou em cada centímetro de pele. Na ternura, na sexualidade ou como dizia o Vinicius:

“É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture (…)
(…) Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.”

No fundo, é respeitar a mulher esperar que ela possa ser o melhor que puder ser, sendo que se tente também ser o melhor que se pode. E devo dizer que no melhor que tento ser, talvez não consiga chegar nem perto daquelas que tentam ser o melhor que podem, como seres humanos completos, complexos, multifacetados, e cheios da beleza de seres que nunca estacam e evoluem não para a destruição o degradação, mas que nunca desistem de si, ou das suas visões do mundo que tanto gosto que comigo partilhem e com elas me ensinem.
Aquela que de alguma forma se busca e encontra numa dialéctica evolutiva, e faz de si mesma um ser humano sempre em potencial, sempre diferente. Inteligente e contornado. Sensível e sensual. Meiga e sarcástica. Aluna e professora. Total.
A que não desiste. Não a perfeita, mas a que quer ser o melhor possível.

É essa mulher que aqui celebro.

Feliz Dia para ela.

segunda-feira, março 06, 2006

Interessante....
consigo escrever no meu blog, mas não visualizá-lo...

Que pancada terá dado ao blogger desta vez????

sexta-feira, março 03, 2006



Se de alguma forma criamos sempre algo no destinatário dos nossos amores, sejam eles de que espécie forem, também é verdade que existem sempre os que são principalmente escultores, e os esculpidos.

Nessa alternância, nascem os mecanismos de admiração, sendo que o amor também é aferido na capacidade infinda de recriar o outro, celebrando-o.
"I'm looking in on the good life i might be doomed never to find.
Without a trust or flaming fields am i too dumb to refine?
And if you'd 'a took to me like
Well i'd a danced like the queen of the eyesores
And the rest of our lives would 'a fared well."

The Shins
Hidden Flame
Feed a flame within, which so torments me
That it both pains my heart, and yet contains me:
'Tis such a pleasing smart, and I so love it,
That I had rather die than once remove it.

Yet he, for whom I grieve, shall never know it;
My tongue does not betray, nor my eyes show it.
Not a sigh, nor a tear, my pain discloses,
But they fall silently, like dew on roses.

Thus, to prevent my Love from being cruel,
My heart's the sacrifice, as 'tis the fuel;
And while I suffer this to give him quiet,
My faith rewards my love, though he deny it.
On his eyes will I gaze, and there delight me;

While I conceal my love no frown can fright me.
To be more happy I dare not aspire,
Nor can I fall more low, mounting no higher.

John Dryden


"Roubado"
a este magnifico blog. Tanta qualidade todos os dias

quarta-feira, março 01, 2006



All the world stops now...


Foto: Imogen Cunningham

Quando nos mascaramos de matéria porque passamos por tudo sem sermos nada.
É precisamente assim. Parecemos estar em todo o lado, como que uma pequena brisa não mais construída ou esquecida, através da qual toda a matéria passa.
Como qualquer sonho, evidente, da materialidade passa-se à ousadia. Acordamos e temos os pés para cima, respirando em compasso menos certeiro. Vivos mas ainda não para além daquele terrível portal.
Depois repete-se. Estamos quietos com os ouvidos bem colados à brisa que passa, e não levantamos voo.
Permanecemos certos do formato das coisas, razão pela qual tudo nos atravessa. E tornamo-nos assim. Como que esquecidos em toda a materialidade, que parece passar sem nos ver...
Com a ternura de quem nada modifica, mascara-se connosco de esquecimento.


Foto - Filipa Oliveira

Há olhares que não se aguentam. Que transbordam.
Que ficam ali, puros, sem receios, mostrando-nos um reflexo da nossa culpa.
Há olhares que se tornam tão belos e honestos num segundo de aparição, que nos envergonham, que submetem qualquer teoria a um desejo baço de assentimento.
Há olhares que são tão superiores a nós, que o simples facto de os causarmos se torna coisa impossível de justificar.
Pedem-nos que sejamos a nossa identidade. Que façamos uma construção ligeira daquilo que pensamos ser porque já a isso se renderam.
Querem apenas ver.
Ver-nos.