ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, março 22, 2006

Bem sei que existe uma corrente que considera a arrogância uma espécie de direito adquirido. Como um casaco social que protege essas pessoas da, em meu ver justa, censura pela bazófia e cabotinice que emana dos discursos elevados dos zarolhos em suposta terra de cegos.
Mourinho, Lobo Antunes, Prado Coelho, Vasco Pulido Valente, etc.
Será que de uma certa forma os feitos reconhecidos permitem uma espécie de discurso quase autista perante aqueles que (justamente diga-se) o reconhecem?
Será que a malta do quotidiano que resolve cagar as suas postas de pescada, está legitimada a fazê-lo pelos feitos?
Será que meia duzia de citações e o recital de um passado académico justificam uma espécie de hermetismo bafiento, onde qualquer tentativa de entender é considerada uma afronta, dada a pretensão de universalidade na obra destes artistas?
Desde quando perguntar é um crime? Ou o achincalhar gratuito, um estado de necessidade do talento perante quem o reconhece e enaltece?

18 comentários:

Lisa disse...

Pois deixa que te diga que, para mim, a pior arrogância mascara-se de humildade. Os mais “humildes” que já conheci são, concomitantemente, os maiores cabotinos borra-botas que já me passaram pela vista. Cheios de soberba lá se vão afirmando pequeninos como o grão de areia, mas intimamente o seu ego explode em super novas.

Esses que mencionas talvez sejam arrogantes. Eu corrijo: são bons, mesmo muito bons naquilo que fazem, e sabem-no.

Saber que se é bom, gostar de o ser, alardeá-lo, é arrogância? Não sei. Só sei que magoa quem não se vê (e gostaria) assim reconhecido.

No trato normal esta atitude torna-los-à insuportáveis de aturar, mas esse risco é deles e terão o direito a corrê-lo.

Criticá-los por terem a postura que têm – sou bom e sei que sou – também pode ser uma arrogância (temperada com uma pontinha de inveja bem tuga, de querer mal a quem é bom. E sabe).

Nota: antes de atirar pedras, admite que esses que mencionas são muito bons, mesmo do melhor.
E, na sua escrita (não na atitude quotidiana, admito) o Lobo Antunes é das pessoas mais humildes que já li. Muito mais que o Stephen King, acredita. Porque ele (vê-se, cheira-se, nota-se, lê-se), tem um respeito imenso pelo seu leitor. E, pelo leitor, pelo amor à escrita, tenta sempre evoluir e aprender, burilar e depurar a escrita. Isso sim, é de admirar, e não as atitudes mais comezinhas do dia a dia.
Por mim perdoo aos tipos que enuncias toda a sua bazófia, só pelo prazer que a sua obra me dá.

A disse...

:)

Concordo plenamente com a Lisa.
Aliás, eu adoro o António Lobo Antunes. Mesmo muito. Quanto ao Mourinho, penso que é a atitude certa a tomar, é a de um arrogante provocador em terra anglo-saxónica. Bem hajam. Camisolas rasgadas à parte :P

Viva a arrogância reconhecidamente orgulhosa de quem é bom naquilo que se é e no que se faz.
Estamos fartos dos "coitadinhos".
Muitas vezes, a arrogância tem laivos de originalidade e autenticidade; não os critiques. Embora não te possas juntar a eles, tenta ao menos estar do lado da barricada que entende certos génios.

(isso será dor de cotovelo?)

:D

Sea disse...

não confundir arrogância, com verdadeira consciência e orgulho no que o indivíduo é.

Stephen King disse...

Alguém deve ter comido ferro emm brasa hoje.
Amanhã responderei com o que acho que é visivel no post. Mas eu esclareço.

Stephen King disse...

Bem, vamos lá então esclarecer algumas coisas:

1ª - Gostaria de saber onde raios é que no texto está qualquer menção à menoridade ou falta de qualidade da obra de qualquer uma destas pessoas mencionadas. Onde é que se lê que estas pessoas não têm qualidade, ou que não são dignas do reconhecimento que têm?

2ª - Ninguém falou em auto-reconhecimento de qualidade ou confiança e orgulho no que é feito. Falou-se sim em arrogância, bazófia, sobranceria. Em minimizar o outro porque se é uma grande malha, sem um centímetro de pés na terra.

3ª - É dos argumentos mais rasteiros que existem implicar que a pessoa que faz uma crítica está logo com intuitos de exorcizar uma qualquer dor de cotovelo, ou seja lá o que for. Admiro a impressionante qualidade de qualquer uma destas pessoas e acho que prestigiam Portugal e as áreas em que se envolvem ( bem, o Vasco Pulido Valente talvez não, mas tenho sempre a esperança que o gajo volte para Oxford e se afogue lá num dos canais onde se pratica remo), mas isso não significa que a caganeirice seja algo absolutamente justifável. Isso seria a mesma coisa que dizer que uma pessoa com poder pode ser egocentrica à vontade que a malta desculpa, ou que lá porque tenho dinheiro não tenho de respeitar regras de civilidade. A caganeirice minimizadora é apenas mais uma forma de falta de educação e civilidade, e se isso é aceitável para alguns, parabéns. Para mim não, já que sempre encarei as capacidades e talentos como uma potencialidade pedagógica e de união entre os homens, não uma forma de os dividir em castas. Leiam o discurso de recepção do Nobel de William Golding, e verão o que quero dizer.

4ª - Aliás, adorei ver o trombil entendiado do Lobo Antunes quando o Saramago ganhou o Nobel - foda-se, isso é que deve ter sido uma dor de cotovelo digna dos anais da história.
Ou relembrar a merda ou vazio que Pulido Valente fez quando era deputado do PSD, e ter em mente as constantes críticas de treinador de bancada que tanto o caracterizam. Mas como dizia o Ricardo Araujo Pereira, em Oxford é que era!!!
Já para não falar nas 12482376583476534857634 citações que Prado Coelho faz por artigo, para depois produzir pérolas como aquela em que apelidou o filme Amelie do Jeunet como fascista... (Cristo - disse isto e citei o Gato Fedorento... pronto! Estou tramado.)

5ª - Coitadinho? Foda-se, mas lá porque alguém é brilhante e tem outra lógica que não a do sapo pomposo, é porque se achas coitadinho? Que raio de lógica, sinceramente...

Mantenho cada palavra.
A grandiosidade da obra não legitima, em meu ver, o escarro sobranceiro do obreiro. Porque a arte, em ultima análise, serve para aproximar a Humanidade, não para a sectarizar.
E se isto significa uma forma obscura de dor de cotovelo, caraças, então devo ter cumprido aquilo que Humberto Eco dizia (foda-se, outra referência - a chibata, por favor!!!), ou seja, que a liberdade do intérprete é que engrandece tudo o que é produzido seja por quem for.

Esclarecimentos feitos, siga a marcha.
Bom dia a todos.

Lisa disse...

Bom, realmente parece que alguém engoliu ferro em brasa...

Mais valia que esclarecesses qual foi o particular acontecimento que te fez ter a reacção que manifestas no post. Talvez aí se percebesse melhor a tua intenção ao zurzir a arrogância dos outros. Assim como te manifestas, só parece um desabafo ou descarga de bilis, e não uma opinião honesta.

Post tiro no pé, portanto. Pelas reacções que tiveste, talvez melhor seria se te questionasses sobre a forma como exprimiste a tua opinião, em vez de agredir quem te manifesta a sua opinião sincera.

Não precisas de ser tão belicoso só porque há quem tenha uma opinião diferente da tua. Sabes que a tua resposta também se aproxima perigosamente da arrogância? Se não tens noção, chamo eu a atenção.

E se não gostas de comentários, então elimina a possibilidade de os fazerem. A humildade de aceitar opiniões diferentes como válidas, pelo menos em possibilidade, é uma grande coisa.Não és dono da verdade, e o fair play também se usa.

O nobel do Saramago, de per si, pode ter sido merecido, mas havia em Portugal quem mais o merecesse. Lobo Antunes é só um dos nomes. Pelo menos é um escritor muito mais honesto que o Joselito, e que já escrevia (e bem) quando este ainda andava a sanear pessoal no DN. Eu também ficava com ar enfadado ao me ver preterido por alguém que, sem qualquer pudor, se cola tanto (arriscava até o termo "copiar") ao estilo de escrita do Lobo Antunes. E que há anos que não produz nada que jeito tenha (desde a História do Cerco de Lisboa, mais precisamente).
Se queres um exemplo de arrogância El Joselito é, nisso, mestre incontestado. Infestado de bilis e ares superiores... bah.

Em Portugal há muita coisa que não se perdoa: o sucesso e o génio são exemplos. Mas o português não perdoa nem aceita que alguém que tenha êxito merecido se congratule por o ter, nem que alguém não tenha pejo em se saber grande.

Eu faço uma vénia ao génio: porque sei que nunca o terei, só me resta aprender com quem o tem.

A chibata? Não entendo a tua ironia. Mas, e já agora, é Umberto Eco.

Não volto a maçar com as minhas opiniões.
Cumps.

Polly Jean disse...

Caramba , meus senhores. Em sintese, eles são bons, com realce para o Lobo (como o Prado e o Pulido, felizmente há mais neste burgo), mas daí a dizerem que os senhores não são arrogantes, aí já creio existir uma certa dose de autismo e , sobretudo, o erro, quanto a mim, de se perdoar a sua arrogância em prol do seu valor. Bom é também o belmiro de Azevedo, em relação a este, como não é cultura, já será arrogante a sua postura?
A questão da dor de cotovelo então parece-me tão deja vu quanto perniciosa.
Arrogantes sim, muito bons também.
E ao contrário de ti, Stephen, não digo mal deste Portugal por ter festivais de merda, mas sim por ser desde há anos governado por incompetentes. Arrogância neste país é ir para a frente com a OTA e fecharem-se escolas e maternidades. Isto sim, é a mais pura arrogância.....também podemos qualificar com outros nomes.
Beijos e abraços.
Sónia

Stephen King disse...

A resposta seguirá por outros meios.

Flávio disse...

Concordo com a A e a Lisa. Acredito, contrariamente ao que diz o Talmude, que as pessoas talentosas têm toda a legitimidade de ser arrogantes. O Klaus Kinski é o meu actor preferido e era arrogantíssimo. Também não me choca nada que o Mourinho o seja, porque é um gentleman e um vencedor. O problema está na combinação mediocridade+arrogância, que essa sim, é verdadeiramente odiosa.

Stephen King disse...

Refutando para Lisa et al.

Lisa dixit:

"Esses que mencionas talvez sejam arrogantes. Eu corrijo: são bons, mesmo muito bons naquilo que fazem, e sabem-no."

Sim, perfeitamente. Quem é que disse o contrário? Mas isso justifica a cabontinice? Será que por ser um escritor muito bom isso lhes dá a possibilidade de desconsiderar tudo o que não seja a sua obra, como se tivessem o rei na barriga? Ou por aquele ar entendiado de quem parece estar a falar com oligofrénicos que deveriam babar de veneração pela obra do mestre? Sorry, não aqui. Reconhecer valor não é reconhecer mérito para espezinhar os outros. Por muito bom que se seja.

”Saber que se é bom, gostar de o ser, alardeá-lo, é arrogância? Não sei. Só sei que magoa quem não se vê (e gostaria) assim reconhecido.”

Se era uma indirecta, passou bem ao lado. Como disse na resposta é absolutamente rasteiro e pouco original qualificar qualquer crítica como dor de cotovelo. Para isso eu teria de desconsiderar a obra dos senhores, coisa que não fiz em momento algum. Apenas critiquei a postura de fanfarronice, que é aplicável a qualquer pessoa, até mesmo aos melhores dos melhores. Sinceramente, achar que essas pessoas podem simplesmente desconsiderarem e minimizarem os outros porque são bons parece uma forma estranha de seguidismo, mas enfim...
Portanto, eu não tenho qualquer dor de cotovelo. Eu gostaria realmente de ser publicado, mas o que tem isso a ver com o facto de abominar a arrogância de algumas pessoas? De simplesmente criticar a falta de humildade?


"No trato normal esta atitude torna-los-à insuportáveis de aturar, mas esse risco é deles e terão o direito a corrê-lo."

Ah, portanto, se sou bom, posso ser uma besta arrogante para com os outros. Mas se for um cidadão normal, é melhor assumir uma postura porreira, porque afinal, já estou obrigado a isso... interessante...

"Criticá-los por terem a postura que têm – sou bom e sei que sou – também pode ser uma arrogância (temperada com uma pontinha de inveja bem tuga, de querer mal a quem é bom. E sabe)."

Mais uma vez, é coisa que me passa ao lado. Nunca me chateou, muito pelo contrário, dar mérito a quem o tem. Acho que é um sinal de grandeza. Portanto, esta interpretação de que a crítica só pode nascer da inveja, é, no mínimo, discutível. Adoro Truman Capote, li o “A Sangue Frio” duas vezes, já há uns anos, e continuo a achar o escritor uma personagem execrável. Assim como o Nabokov, e adoro o que li dele (esse ainda por cima é um misógino de primeira - mas porra, o gajo é bom, pode ser machista a seu bel prazer. A qualidade da sua obra dá-lhe o direito de minimizar as mulheres relativamente a si mesmo, pois então. É bom, pode fazê-lo, não é?).

"Nota: antes de atirar pedras, admite que esses que mencionas são muito bons, mesmo do melhor."

Mas quem é que colocou isso em causa? Em qualquer momento? Só porque acho que em grande parte das crónicas, o Prado Coelho cita mais do que realmente opina? Mas não é claro? E lá por isso o homem deixa de ser um vulto da cultura? Mas mantenho que um tipo que diz que o filme "Amelie" é fascista teve com certeza uma baixa de açúcares no sangue...

"E, na sua escrita (não na atitude quotidiana, admito) o Lobo Antunes é das pessoas mais humildes que já li. Muito mais que o Stephen King, acredita. Porque ele (vê-se, cheira-se, nota-se, lê-se), tem um respeito imenso pelo seu leitor. E, pelo leitor, pelo amor à escrita, tenta sempre evoluir e aprender, burilar e depurar a escrita. Isso sim, é de admirar, e não as atitudes mais comezinhas do dia a dia.
Por mim perdoo aos tipos que enuncias toda a sua bazófia, só pelo prazer que a sua obra me dá."

Claro, claro. Um gajo que uma vez escreveu numa crónica da visão " Tornei-me o melhor, e sou o melhor..." é do mais humilde na escrita que se possa imaginar. Mas isso não belisca o seu génio, obviamente!
E esta tirada do Stephen King, na qual dizes que o rapaz é muito menos humilde que o Lobo Antunes, é das melhores. Espero ansiosamente pelos exemplos dessa falta de humildade gritante do escritor americano ( psst, e já agora, o Edgar Allan Poe, ou o Coetzee, a Harper Lee, Golding ou o Tolkien também eram mais arrogantes que o Antunes? Só para saber... curiosidade...). Já leste a autobiografia do King? Oh, que copioso arrazoado de falta de humildade é esse livro, realmente...

"Bom, realmente parece que alguém engoliu ferro em brasa...

Mais valia que esclarecesses qual foi o particular acontecimento que te fez ter a reacção que manifestas no post. Talvez aí se percebesse melhor a tua intenção ao zurzir a arrogância dos outros. Assim como te manifestas, só parece um desabafo ou descarga de bilis, e não uma opinião honesta."

E pronto. Lá está! Para além de ter de ter dor de cotovelo para criticar a arrogância e o cabotinismo, com certeza que deve haver um acontecimento estático no tempo. Ou seja, eu tenho de ter acordado com o pé esquerdo, ou ter uma espécie de ressentimento genérico contra a malta, para atacar aquilo que considero um dos piores defeitos que alguém pode ter, seja escritor genial ou não.
News flash - não é assim. Ataca-se a atitude, não os artistas!

"Post tiro no pé, portanto. Pelas reacções que tiveste, talvez melhor seria se te questionasses sobre a forma como exprimiste a tua opinião, em vez de agredir quem te manifesta a sua opinião sincera."

Agredir? Bem, vamos lá ver. Dizer que tenho dor de cotovelo e que não passo um arrogante reactivo e invejoso é expressar uma opinião sincera. Pois, deve ser isso... Mas eu ao criticar a arrogância, não estou a ter uma opinião sincera, sou é um Yago mal disfarçado. ( porra arrogância nova da minha parte - referência a Shakespeare, que por acaso também deveria ser um invejoso relativamente ao Marlowe.. enfim, que salada)
Que parâmetros de definição, realmente....

"Não precisas de ser tão belicoso só porque há quem tenha uma opinião diferente da tua. Sabes que a tua resposta também se aproxima perigosamente da arrogância? Se não tens noção, chamo eu a atenção."

Ver comentário acima.

"E se não gostas de comentários, então elimina a possibilidade de os fazerem. A humildade de aceitar opiniões diferentes como válidas, pelo menos em possibilidade, é uma grande coisa. Não és dono da verdade, e o fair play também se usa."

Eu aceito, mas refuto. É por isso que se chama opiniões. E sobretudo, ao responder não critiquei uma única vez as pessoas em causa, mas os seus argumentos. Não houve ataque pessoal, ao contrário do que foi inicialmente aduzido nos primeiros coméntários ao post.

"O Nobel do Saramago, de per si, pode ter sido merecido, mas havia em Portugal quem mais o merecesse. Lobo Antunes é só um dos nomes. Pelo menos é um escritor muito mais honesto que o Joselito, e que já escrevia (e bem) quando este ainda andava a sanear pessoal no DN. Eu também ficava com ar enfadado ao me ver preterido por alguém que, sem qualquer pudor, se cola tanto (arriscava até o termo "copiar") ao estilo de escrita do Lobo Antunes. E que há anos que não produz nada que jeito tenha (desde a História do Cerco de Lisboa, mais precisamente).
Se queres um exemplo de arrogância El Joselito é, nisso, mestre incontestado. Infestado de bilis e ares superiores... bah."

Na tua opinião havia quem mais o merecesse, e Saramago cola-se a Antunes. Bem, a malta lá no Norte da Europa deve andar toda a dormir, realmente. E estou á vontade porque tirando o Evangelho e o Ensaio, dois livros que gostei muito, nem vou muito á bola com Saramago. Tentei ler outros, e sinceramente, desinteressou-me. E sim, acho que o tipo é arrogante, e critico-o na mesma medida dos outros. Até o acho um pouco autista em certas coisas… Só o utilizei como exemplo para ilustrar o que Antunes deve ter sentido ao ver que afinal, porra, ele estaria ainda mais só em julgar-se o melhor dos melhores. Bem, se calhar é melhor retirar o Nobel a todos quantos ganharam desde que Lobo Antunes escreve, porque estão claramente enganados. Ou só se terão enganado no caso do Saramago?
E sinceramente, se o Saramago não produz nada de jeito desde essa altura, já leste as cartas de amor do Lobo Antunes publicadas recentemente. Eu perdi uma hora e meia na Fnac a ler aquilo, e percebi que se o gajo copiar a lista telefónica da Azambuja, a malta também se rende perante o "génio". É um pouco como as cartas a Nora, do Joyce que são, diga-se, bem mais divertidas e sumarentas. Será literatura? Ou um ponto preto pingado de um pincel colocado na mão de Picasso para uma tela branca é génio? Discutível, não é?


"Em Portugal há muita coisa que não se perdoa: o sucesso e o génio são exemplos. Mas o português não perdoa nem aceita que alguém que tenha êxito merecido se congratule por o ter, nem que alguém não tenha pejo em se saber grande."

Pelo contrário. Congratulo-me com Mourinho, Lobo Antunes, JL Peixoto, Damásio, Gil e todos quantos têm a qualidade e o génio para provarem que ainda somos um país produtor de talento. Mas nem assim tenho de desculpar a caganeirice, porque os génios, sem quem os reconheça, são as árvores que caem na floresta sem que ninguém as ouça. A falta de gratidão ou humildade pelo reconhecimento é-me particularmente repugnante e roça a obscenidade na sua pior vertente. Pode ser-se bom e saber-se. Mas achar que quem nos considera assim é uma turba de bestas, é cuspir no intuito da sua própria obra. Se somos todos umas bestas, e ele não precisa do reconhecimento de ninguém, que faça como o Sallinger e escreva para a gaveta!

"Eu faço uma vénia ao génio: porque sei que nunca o terei, só me resta aprender com quem o tem."

Aí estamos de acordo. Eu sinto o mesmo relativamente a mim próprio. Mas sou mais anglófono. Leio o Shipping News de Proulx e desespero ao mesmo tempo que salto de alegria a cada maravilhosa passagem. Mas se ela for uma besta arrogante, critico-a na mesma.

"A chibata? Não entendo a tua ironia. Mas, e já agora, é Umberto Eco."

Obrigado pela correcção. Por acaso sabia, mas saiu-me a ortografia portuguesa. Ups...
E já agora, é Bílis, e não bilis.

"Não volto a maçar com as minhas opiniões."

Seria uma pena. Beijinhos e conto com a tua sempre válida visita.
A sério, e sem ironias de espécie alguma.

Lisa disse...

Só uma achega final:

- Concordo inteiramente com o Flávio: a combinação arrogância/mediocridade é que é odiosa;

- Na minha opinião não há quaisquer indirectas, lamento que o tenhas pensado e, se fiz passar essa ideia, peço desculpas. Não era essa a intenção.
Quando falo de haver um acontecimento concreto que te tenha motivado a escrever sobre o tema pensei apenas que poderias ter lido algo escrito pelos citados (crónica, artigo) ou assistido a alguma situação específica. Nada mais.

- Sobre escritores, gostos são gostos, não se discutem. Respeito, opino, mas não discuto. Mas já agora o livro de cartas do LA não é obra, é uma compilação de cartas escritas à mulher que ela manifestou o desejo de serem publicadas após a sua morte. As filhas satisfizeram o desejo da mãe, e o pai não se opôs. Ele tinha vinte e poucos quando as escreveu.

- E tiveste uma resposta biliosa aos comentários, sim, e uma refutação ao teor dos mesmos muito violenta. Chamaste o assunto para o campo pessoal sem necessidade nenhuma. Não valia a pena. Não gosto de violência e, apesar de apreciar o sarcasmo este, combinado com a violência, não trás nada de bom.
Eu não fiz qualquer comentário pessoal, que fique bem claro.

- Mais esclarecimentos sobre o que penso da escrita de Stephen King, de LA e outros, talvez mais logo, via mail.

- Obrigado por me apontares a minha incorrecção ortográfica. Bílis: vou escrever 50 vezes. E passar a rever os textos com maior atenção.

Até já.

A disse...

Após breve incursão e regresso aos bancos da Primária pela leitura diagonal dos comentários, isto reza assim:

- Eu apenas perguntei se era dor de cotovelo (brincadeirinha). Perguntas simples em jeito de provocação light. Só as tenho com quem conheço. Ainda te conheço. Ou não?

- A dos "coitadinhos"...
"estamos fartos dos coitadinhos" afirmei eu, em jeito de oposição à atitude arrogante que criticas. Não quis com isto incluir-te no grupo dos coitadinhos. A sério que não.

Alguma coisa, passem lá nas Psicologias da Treta.

Uma última citação que adoro: "A César o que é de César". Não sei de quem é, mas aceito elucidações.
Thanks!
:)

Anónimo disse...

Boa noite.antes de mais a boa educação é tudo para mim.ainda para mais quando vou à casa dos outros.
desde já asseguro ser a ultima vez que aqui venho.provavelmente, vxª com a soberba habitual, dirá "ainda bem".desde já asseguro que o sentimento é mutuo.
1º não tenho pachorra para cabotinos que por aí andam a querer enfiar a sua concepção do mundo pelas goelas dos outros.Vxª é de uma rudeza de proporções olimpicas.Ninguém tem que ser como Vxª.Vxª não tem a chave para o conceito do belo, nem de nada.desde já lhe digo que a sua elegia à primavera é um arroto literário.como tudo o que prado coelho escreve curioso não?
o seu sobre o dia da mulher, lembra o daqueles professores de faculdade que mandam umas larachas a ver se comem alunas.
2ºVxª gostaria de ser publicado.curioso.tambem eu.mas isso dá trabalho,muito trabalho.é preciso ter voz própria,ser humilde e escrever para nós,antes de qualquer leitor putativo.escrever por escrever,faço a lista das compras ou as tarefas do trabalho.a frustração que isso me dá,isso sim é matéria combustível para a minha escrita.o sallinger escrevia para a gaveta porque achava que ninguem o merecia,ninguem o respeitava.e que o mundo é uma sincera merda e o crescimento a parte pior.porque é um engano, uma formatação, uma publicidade enganosa.antes isso que o cabotino do kerouac sempre a mendigar atenção como um cão. o "pela estrada fora" é no minimo patético.é um mau livro, é uma chamada de atenção baixa e reles.premeditada e sempre no joguinho rasteiro da tentativa de aceitação.no fundo como a figura triste que ele andou a fazer, torrando o dinheiro que ganhou com o livro, a tentar por um flme de pé.um bocado como VXª, que acha que tem que ser acarinhado e respeitado só pelo facto de saber juntar duas letras. a rebelo pinto tbm consegue e é a merda que é.
3ª Vxª é numa palavra, como dizer...uma besta.Um estúpido. Pior! Um indigente mental Nota-se que Vxª leu.Até sabe umas coisas. E só com isso arroga-se no direito de a sua opinião ser a mais abalizada. Como o prado coelho e o pulido valente. Personagens que tanto despreza.
4ª Vxª vive da atenção que lhe dão os incautos. Aposto que no Liceu era o puto giro mas incompreendido, com olhinhos de cocker a verificar a pobreza de espírito à sua volta. Mas surpresa das surpresas!!!! Vxª vale tanto como eu, como toda a gente que lhe dirige a palavra. Valemos todos o melhor. O que neste mundo é o possível. Provavelmente não será publicado. Eu também não. Mas desejo-lhe sinceramente o que desejo para mim. Que sim, que vamos ter sorte. Que alguém nos quer ouvir.
A diferença se calhar está no estilo, nas influências. Vxª admira a verve – inegável – do King. Eu não, ou nem por isso. Admiro quem escreve a rasgar a carne, quem canta não o que é perfeito, mas o que magoa, o que doi, o que humilha. Adoro o Sallinger, o Palahniuk, o Lobo Antunes. Porque a vida não é fácil, corrompe, marca e não aparecem fantasminhas ou palhacitos da infância em buracos de esgoto.

Caso Vxª se sinta chocado com alguma das anotações aqui presentes, faça um favor :jplg3000@hotmail.com

Recebo-o com todo o prazer. Porquê? Porque ao chegar a casa, depois de ser fodido no trabalho por cabotinos com uma visão unilateral do mundo como Vxª, gosto que me guiem o resto do dia, mergulhado em tão profunda sapiência.
Desde já lhe corto cerce vir-me com a treta de sou um pobre coitado, e que enfim a minha raivinha fica para mim. Nem vá por aí. Ainda precisava que Vxª me desse umas lições nesse campo. faç-nos um favor. seja mais original. não me venha com paternalismos.Não sou seu filho
Zorro cósmico

Stephen King disse...

Quando as coisas chegam ao insulto pessoal que não é minimamente justificado, e com argumentação que não tem qualquer sustentação no que foi escrito, as pessoas que o usam não podem mesmo passar de pobres coitados.
Deixo-o com a baixeza da sua argumentação, porque não respondo a quem nem sequer merece qualquer resposta.
Se quiser voltar, é consigo. A pobreza de espirito só voltará a ser claramente demonstrada. Eu poderia refutar cada um dos seus(pobres) pontos de vista, mas não converso com pessoas que insultam anonimamente, e nem sequer merecem o respeito que não dão.

Boa sorte com a publicação. E ainda bem que gosta de escrita que humilha. Está provado que o gosta de fazer a si mesmo.
E realmente tem razão numa coisa. Pobre coitado raivoso.
Que tristeza.

A disse...

Ouve lá ó Stephen King. Porque é que eu sou a única que nunca leva resposta? Ah, já sei... é pq não te insulto convenientemente...

lol

Isto dos blogs, é de facto, muito giro. É giro... sei lá! lol

Fora de brincadeiras, e porque isto começa a tomar proporções sérias, também eu tenho uma postura séria acerca do assunto.
Também tenho um blog. Também junto umas merdas dumas palavras e atiro-as para ali. Um diário. É uma coisa algo ridícula imaginar como é que pode haver homens e mulheres crescidinhos e com vidas a dedicar-se a um passatempo destes. É porque é giro. É uma moda. Os que assim são. Depois, há aqueles que realmente se arrogam ao direito de pensar que até escrevem bem. Estão no seu direito. Por vezes, leio umas merdas por aí que nada me dizem, outras, até corre bem. Duma coisa tenho a certeza: eu não percebo nada do que é isso de ser um grande escritor, mas apercebo-me claramente das suas intenções.
Não serve o presente texto para denunciar se o amigo King escreve bem ou não.

Serve o presente texto para dizer ao amigo King que lá no fundo, no fundo, estes espaços não passam do tal esgoto que o outro amigo refere.
Já agora, para dizer que compreendo o amigo King, mas concordo em muito com o amigo Zorro Cósmico, que em matéria de achincalhamento anónimo, estão os dois em pé de igualdade. Anónimos, os dois, ok King?

"Admiro quem escreve a rasgar a carne, quem canta não o que é perfeito, mas o que magoa, o que doi, o que humilha"

Soberbo. E aplica-se.

Beijos

Ana Madeira

Patrícia disse...

A primeiríssima vez que senti vontade de deixar umas linhas num blog (escrever num blog para quê? ninguém pediu a minha opinião...) surgiu quando vi o primeiro comentário ao post sobre a arrogância... Neste momento, vários comentários depois, há já tanto material, que não sei por onde começar...
Talvez por... desde quando é que a arrogância é considerada uma virtude em quem quer que seja, por muito brilhante e extraordinariamente admirável que o artista seja? A meu ver, artista ou mero mortal, qualquer arrogante é insuportável. O que não invalida que produza obras memoráveis e inquestionavelmente valiosas, literárias ou de outro cariz. Eu conheci algumas pessoas singulares, brilhantes, mesmo. Não eram nem são arrogantes. Se o fossem, uma boa parte do seu brilho ficaria ofuscado. Coitadinhas? Nada disso! Simples na sua maravilhosa complexidade. Iguais a elas próprias, sem procurar chamar a atenção de todos com setas e néons.
Parece-me francamente (e, no mínimo!) bizarro o ataque ao autor deste blog, se baseado única e exclusivamente num post sobre a arrogância. Estarão os comentadores a tentar exorcizar algumas questões mal resolvidas? É a explicação mais plausível que encontro para este tiroteio de palavras. Deduzo, igualmente, que os comentadores não suportam que apontem o dedo aos seus ídolos... Bem, sou assumidamente apreciadora dos romances do Saramago (não tanto da sua personalidade), mas não me incomoda minimamente que a Lisa o despreze, tal como não me belisca o facto de dizerem que o Vergílio Ferreira escrevia numa base filosófica digna de adolescentes de 15 anos. Eu gosto, leio, e não impinjo os meus gostos literários a ninguém. Nem procuro afirmar a superioridade dos objectos da minha admiração, já que, aí sim, estaria a tomar uma postura de dona da verdade.
Não estou aqui para me armar em advogada de defesa do Stephen nem de mais ninguém, primeiro porque ele não fez nada de errado, depois porque dispensa pessoas que metam o nariz onde não são chamadas. Meti o meu porque a arrogância é algo que me enerva profundamente. POrque me fartei de levar com professores e orientadores de estágio arrogantes, porque de vez em quando lá tenho de aturar uma ou outra criatura "superior". Porque detesto quem se coloca num pedestal. E porque sempre tive chatices por dizer abertamente o que penso. Constatei que o Stephen fez um comentariozito sem importância e, sem mais nem menos, uma mera ideia arrecadou ataques enraivecidos que ainda estou a tentar compreender. Chamem-me burra, it's ok...
O comentário do Zorro, esse sim, leva-me a crer que tem de ter existido alguma troca de palavras por trás deste blog. O gelo de que se reveste pasma-me! E, sinceramente, a sua aberta ofensa ao autor do blog é algo de vergonhoso... Mas enfim, todos nós somos fracos e temos momentos em que a sensatez falha. Acredito que o Zorro seja um óptimo escritor. Espero que não desista de publicar. EStou sempre ansiosa por novos talentos. No entanto, deixe-me discordar da sua posição perante a escrita deste Stephen (não conheço a obra do primeiro Stephen). O que conheço dela, fascina-me. E acredito que ambos, bem como muitos outros escritores escondidos pelo nosso país, terão a sua oportunidade e coleccionarão apreciadores do seu trabalho.
Boa sorte a todos. E parem de eriçar o pêlo perante uma opinião contrária à vossa.

Sorriam! :)

A disse...

"Todos vivemos no esgoto, mas apenas alguns têm a capacidade de olhar as estrelas"
Nietzche

Em forma de resposta às conversas paralelas que se estabelecem de forma a que melhor conheçamos quem nos rodeia e pensávamos que nos conhecia.

:)

M. disse...

Ora aí está um tema que me é grato!

arrogância
substantivo feminino
sentimento de orgulho que se exprime por atitudes de altivez e desprezo; sobranceria; presunção; insolência; audácia;
(Do lat. arrogantìa-, «id.»)
© Copyright 2003-2006, Porto Editora.

Distinga-se, antes de mais, o uso da dita pelos cabotinos do que dela fazem os génios. A primeira escuso-me a comentar. Quanto à segunda... Confesso... Pode até ser a forma errada de exprimir vaidade e orgulho justificados, mas não me choca. Que o Mourinho, do alto do seu metro-e-sessenta-e-qualquer-coisa, olhe de frente para o Eriksson e lhe diga "You wish!" faz-me sorrir. Se tem o direito de o fazer? Hmmm... Tem porque é melhor do que o inglês. Não tem porque o outro também é bom e é um ser humano válido e fica mal ser assim.

Admito que seja uma atitude feia e socialmente condenável. Mas não admito que a confundam com autismo, cabotinismo, bazófia ou achincalhamento. Para mim, não são sinónimos. Porque defino arrogância como a expressão cruel e sobranceira de um orgulho justificado por uma qualidade detida em elevado grau. Tudo o que não resida nestes pressupostos não passa de complexo de inferioridade envernizado. Agora, quem decide da qualidade superior do trabalho, obra, pensamento, actividade de um indivíduo?? Pois é, conceitos relativos é do caraças.

Ser publicado é sinónimo de qualidade? Pela milésima vez, não. (MRP, hello-o???!!) Receber o Nobel é sinónimo de qualidade? Hm... Tem dias, na verdade. É bom o que as elites sectoriais dizem que é? Duvido. Distinção complicada. Mas, para mim - perdoem-me a arrogância! -, tem qualidade algo que eu, com o que já vi, ouvi, li, vivi, provei, cheirei, senti, acho que tem. Goste ou não. [Ora diz-me cá uma coisa, para quem acha que a Ivete Zangalo ou a Shakira são ícones da cultura pop mundial, não achas que podia ser considerado arrogante tu dizeres que não vale a pena ir ao Musica in Tejo para ver essa merda???] E que alguém que eu, do alto da minha sobranceria, ache bom venha à praça pública dizer "foda-se, sou do melhor que há e tu nem em sonhos cá chegas!" não me molesta nem um pouco.

Dá-me muito mais urticária a corja de coitadinhos pseudo-humildes que deambulam pelos jornais, estantes e ecrãs deste país, de olhos baixos e vozes hesitantes, que nas tertúlias semanais inflam o peito no conforto do conhecimento comum para se cantarem o próximo Pessoa, quando tudo o que têm para apresentar são umas quantas centenas de folhas mediocremente arranhadas. Conheço, pelo menos, este meio do lado de lá da linha editorial e garanto-te - no meio de toda a minha arrogância - que há por aí muita merda ambulante com um ego gigantesco disfarçado de subserviência à arrogância do género.

E, antes que chova no molhado!, não é ataque, é defesa. Daquilo em que tenho a arrogância de acreditar. Tu defendes a tua dama, eu protejo o meu cavaleiro, sem que isso implique que te estou a chamar isto-aquilo-aqueloutro. Só para não deixar vácuo para subentendidos como os que me antecederam.

Nota de rodapé:
- Desde quando é que citar é sinal de arrogância?! Desculpem lá, mas citar é, parece-me, sinal de humildade. Eu cito (pecadora me confesso) diariamente. Porque reconheço que houve outra alma neste mundo que conseguiu exprimir um pensamento melhor do que eu. Cada uma. Sinceramente.