ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, abril 10, 2006

Amigos.
Porque existem algumas almas caridosas que até dão um pulo aqui, e na sua infinita generosidade, lêem o que aqui é escrito, venho reiterar um pedido de desculpas, e dizer que apesar da Primavera ser um período onde as coisas iniciam o seu crescimento, esta é uma altura em que o blog irá parar durante algum tempo.
Chamei-lhe intervalo, mas devido a contingências variadas, não sei por quanto tempo será a paragem, ou se esta sera definitiva.
À semelhança do que me tem acontecido previamente, este intervalo pode acabar já na semana que vem. Ou pode levar dois meses, ou meio ano, ou o restante da minha vida adulta.
Seja como for, queria apenas dizer que aos que me leram e lêem, todos os agradecimentos não são suficientes, e que espero voltar assim que seja possível.
Este diário viciou-me.
E como tal, espero voltar a ele, quando muito do que o motivou retorne, e muito do que o sustenta, se revele.
Obrigado e até já.
Forte Abraço
SK

segunda-feira, abril 03, 2006

Intervalo...

Veremos por quanto tempo...
No outro dia encontrei um velho amigo. Falámos durante algum tempo, já que havia passado cerca de uma década desde que o vira pela ultima vez. E ele falou-me, ou melhor recordou-me de algo que se passou na vila onde vivemos durante a maior parte da nossa adolescência, e onde vivi até sair de casa dos meus pais.
Isto, foi inventado, mas é baseado em factos que são demasiado reais para o meu gosto.
Deve haver um Pita em todos os agrupamentos de miúdos, em todos os bairros ou vilas ou seja lá que espécie de unidade habitacional estejamos a pensar. Se não o conhecemos pessoalmente, ouvimos falar dele, ou daquilo que fez, e rezamos para que quando passe por nós escolha o passeio do lado contrário.
O Pita, ou “Cara-de-cavalo” tinha uma tendência irreprimível para fazer passar mal os outros, especialmente aqueles a quem conseguisse dominar. Foi o primeiro miúdo a ter uma Yamaha DTLC, e por vezes entretinha-se a empurrar os outros garotos das bicicletas abaixo, fugindo a grande velocidade na sua mota.
O “Pita” ganhara o cognome de cara de cavalo devido a uma conjugação de circunstâncias que não se podem designar como felizes, mas que lhe iam servindo alguns propósitos. Era um miúdo enorme e fortíssimo, que nem um cavalo, dissera alguém uma vez, e tinha o maxilar superior proeminente, ultrapassando sensivelmente o inferior. Estas duas características conjugadas com uma antipatia generalizada criaram um epíteto dotado de uma perenidade inquebrantável. No entanto essa designação só circulava no circuito alternativo, porque ninguém se atrevia a proferir essa alcunha na presença do seu dono.

O Pita reinava soberano, seguido de perto pelo seu pequeno séquito de rémoras que ansiavam gulosamente pelas sobras do dinheiro que ele tinha e do poder que impunha. A alcunha nunca era proferida junto na sua presença ou de algum dos seus sequazes. Esse séquito era composto pelas raparigas que se haviam cansado das bicicletas de mudanças e babavam para cima da motorizada, e os “amigos” que o temiam mas que de alguma forma lhe davam cobertura nas asneiradas que faziam, para além de irem aproveitando as sobras femininas que ele descartava. Normalmente as rejeitadas continuavam no grupo, como uma espécie de despojo ambulante, um factor de prestígio para a corte e consideradas disponíveis para os seguidores masculinos. A maioria iludira-se simplesmente com uma ideia de popularidade visível, e mesmo que arrependidas, consideravam a alternativa como algo cem vezes pior. Era a velha história tantas vezes vista e repetida. Antes visível a todo o custo, que invisível a nenhum. A noção de ter para onde ir todos os dias junto a algumas pessoas era preferível a uma espécie de caminhada orgulhosamente só em meio aqueles que nunca entenderiam essa independência. Em certa medida, tudo fariam para a destruir, como de resto já haviam feito.
Rei na corte da rua e em casa, o Pita teve uma infância e principalmente uma adolescência invulgar. Num período no qual era comum passar maus bocados, perdidos entre a sensação de impotência e a ausência de capacidade gestora dos mais variados sentimentos, ele tinha acesso a tudo aquilo pelo qual os miúdos lutam fervorosamente.
Como todos os monarcas absolutos, o exercício do poder quotidiano começou a enfadá-lo. Era um miúdo inteligente, e apesar da tendência para os distúrbios, era um aluno razoável, e só não era brilhante porque simplesmente não queria. Mas essa inteligência depressa o levava a demonstrar os esquemas simples, e o que acontecia de alguma forma não o satisfazia. A tortura aos mais fracos era uma actividade que raramente o cansava, mas ainda assim não chegava.
O passo seguinte para a batalha contra o tédio surgia na forma do não convencional. À parte do espancamento ocasional aos opositores, a erva e o haxixe surgiram rapidamente. O consumo era de tal forma astronómico que os momentos sóbrios eram cada vez mais raros. Caiu duas vezes de mota, mas a sorte impediu-o de sofrer mais que arranhões profundos.
Após dois anos de tanta actividade, surgiu a cocaína, que coincidiu com a maioridade. O pai ofereceu-lhe um jipe preto, cheio de cavalos no motor e rodas altas, enchidas a jantes de raios brilhantes. A mota, que entretanto se tornara uma Honda 900 RR ( Fireblade) deu lugar ao carro, e as coisas tomaram mais ou menos o mesmo caminho. Acho que no fundo se tratava de uma evolução natural no percurso do Pita.
Durante este período surgiram algumas das piores histórias acerca dele. Coisas escabrosas, que alguns qualificaram como inveja ou má vontade, mas que muitos apontavam como previsível dado o historial. Como mais tarde se viria a saber, havia pelo menos um tom de verdade a tudo isto.
Falava-se no caso do Estádio Nacional, onde ele supostamente teria violado uma rapariga de vinte anos com quem saíra, deixando-a no meio da mata do Jamor às três e meia da manhã. Ela aparentemente não fizera queixa, e ninguém sabe muito bem porquê. Para mim era óbvio.
Comentavam-se as rixas constantes e o caso da queimadura de cigarro na testa. Falava-se no incêndio da sala de teatro da vila. E o nome dele aparecia sempre relacionado, como um murmúrio do vento frio em meio a qualquer cenário de desolação.
No vigésimo sétimo aniversário, já cidadão da Republica Federal dos Speeds e anfetaminas, o Pita resolveu experimentar o novo jipe que lhe fora oferecido de uma forma diferente. Após cerca de quatro horas numa discoteca de Cascais, saiu para a Marginal e com o pé pesado e vista toldada começou a conduzir numa das faixas destinadas ao transito que circulava no sentido contrário. No fundo era uma espécie de brincadeira que lembrava aqueles filmes em que os ladrões fogem pelas ruas em contra mão, para despistar os polícias. Normalmente é muita chapa partida mas nunca ninguém se aleija, pelo menos não de forma permanente.
Mas filmes à parte, a sorte, ou perícia, já nem sei, durou cerca de vinte minutos. Às cinco e dez da manhã o jipe bateu de frente com uma carrinha que circulava na sua faixa de rodagem. Ao contrário dos filmes, o resultado foi bastante mais grotesco.
Uma das raparigas do banco de trás foi projectada com uma tal violência que atravessou o vidro frontal do jipe e, já morta, acabou por esmagar a cabeça do condutor do outro carro. Os bombeiros encontraram pedaços de ambas as cabeças por todo o carro. Ambos tiveram morte imediata, num exercício doentio de compaixão que a realidade acabaria por ter com eles.
A outra foi cuspida pela janela aberta do lado direito, voando cerca de vinte metros e espetando-se no asfalto com uma tal violência que não havia um osso do corpo que não estivesse partido. Calculo que tenha morrido numa agonia lenta, mas há certas coisas que talvez seja melhor nem imaginar.
O rapaz sentado no lugar do morto fora minimamente diligente e apertara o cinto. No entanto fora tal a violência do impacto, ( mais no lado direito do jipe), que o metal invadiu o habitáculo, esmagando tudo quase até à bacia. O rapaz morreria por perda de sangue, já que uma das artérias se abrira como uma vagem madura atacada por um cutelo.
A pendura da carrinha fora submetida a várias fracturas nas pernas e algumas vértebras da coluna, mas sobrevivera.
O Pita só não saiu do automóvel porque o impacto lhe partiu o fémur esquerdo. Tinha a cara cortada devido aos cacos, mas tirando isso, nem sequer a consciência perdera. O que no fundo seria o pior para ele, e imagino eu que para qualquer pessoa. Ficara preso no carro, vendo a morte à sua frente e ao lado, ao mesmo tempo que a dor lhe comia a perna esquerda, a zona pélvica e a cara cortada pelos cacos.
O resto é história contada nos jornais. Foi acusado da prática de três crimes de homicídio simples e dois de ofensas à integridade física agravadas. A panóplia de substâncias que lhe encontraram no corpo, juntamente com a lenga-lenga que balbuciava entre dentes e choro convulsivo, pedindo desculpa a toda a gente, repetindo constantemente tratar-se de um acidente, não ajudaram muito à festa. Mas o que o lixou completamente acabou por ser o testemunho temeroso de dois amigos, também eles autores de acidentes na mesma estrada naquela mesma noite. O que fora admitido como um rumor, veio a confirmar-se testemunhalmente, voltando a fazer manchetes meses depois.
Ao que parece, o Pita tinha uns amigos tão ou mais truculentos do que ele próprio, e que se entediavam com a mesma facilidade. Entre conversas em frente a copos cheios e as drageias de várias cores que saltitavam das algibeiras para a boca, criou-se uma espécie de bolsa de apostas, que consistia em coisas terrivelmente simples, das quais alguns pormenores parecem demencialmente fantasiosos, para dizer o mínimo.
Uma das mais simples consistia precisamente na condução em sentido contrário em qualquer estrada, sendo que a parada subia sempre que a dificuldade do percurso ou a velocidade dos outros veículos fosse maior. Sim, esta alimária frequentava desde caminhos de cabras a auto-estradas, fazendo uma espécie de deslizamento serpenteante até que a aposta se considerasse ganha ou alguém levasse com um deles em cima. Ao que parece, o choque seguido de sobrevivência tinha um bónus extra, isto obviamente se a aposta fosse cumprida. Gente com queda para a diversão original, diria eu.
Outra das habilidades do grupo de apostadores, e devo dizer, esta é a minha preferida, tinha duas modalidades. A modalidade estática e a dinâmica. Eram igualmente estúpidas e perigosas, embora a segunda o fosse ainda mais. Para mim era o equivalente a fazer malabarismo com três secadores de cabelos ligados, enquanto se toma banho de espuma.
A primeira, vulgo estática, como deveriam estar os neurónios destes meninos, consistia em colocar o automóvel na passagem de nível, perpendicular aos carris. O objectivo era tirar o da frente do comboio o mais tarde possível, evitando o choque mortal de centenas de toneladas de aço em movimento. Quem conseguisse sair em último lugar ganharia o dinheiro e o que mais estivesse envolvido no esquema da aposta. Normalmente vinha em forma de pó, e o resto são redundâncias às quais me esquivarei.
A segunda consistia no mesmo principio, mas era, como já disse, ainda mais perigosa e imbecil. Os ditos apostadores iniciavam uma corrida com o comboio, normalmente na estrada adjacente que a certa altura se cruzaria com a linha na forma de uma passagem de nível. A ideia era atravessar a passagem de nível antes que o comboio lá chegasse, fazendo uma curva fechada à frente deste. Era necessário um cálculo impressionante, uma vez que a ideia era passar mesmo à frente do engenho ferroviário, descrevendo uma curva em U e conseguindo sair ileso.
Contam-se histórias de carros esmigalhados, de corpos cortados literalmente ao meio e lançados à distância e outros para além de qualquer reconhecimento senão pelo registo da arcada dentária. Mas nunca se falavam dos sobreviventes, que desapareciam sem deixar rastro, como fantasmas oriundos da própria morte causada pelo erro de cálculo. Se não existiam vítimas, tudo o que sobrava eram as histórias de maquinistas contadas no fim dos turnos de madrugada, e que eram tomadas em grande parte como a parcela de mito urbano reservado aos comboios.
Depois deste acidente e três outros na mesma noite, a investigação começou a fazer-se à séria. A Polícia Judiciária já perscrutara estes rumores durante cerca de um ano, mas o planeamento era muito bem feito e discreto, o que implicava uma reorganização de prioridades. No fundo, havia mais que fazer e supostamente mais premente.
Acontece que o pequeno surto de sustos e algumas mortes veio para os jornais, e quando a imprensa põe a boca no trombone, as coisas começam rapidamente a acontecer. Aqui não foi excepção, tendo o Procurador da altura dado um discurso vigoroso e ameaçador prometendo apanhar os culpados.
O “acidente” do Pita acabava por dar uma visibilidade macabra a um fenómeno que se começou a desdobrar como um boneco de “origami”. As investigações foram intensificadas, muitas pessoas interrogadas, algumas presas, e sobretudo começou a levantar-se o véu, ou deveria dizer a mortalha, que escondia uma história estranha e radicada numa espécie de desejo de fuga do convencional que chocou o país durante meia semana. Dois dias depois alguém enterrara uma miúda viva depois de a violar, e a atenção popular mudou rumo.
O procurador da República encarregado do caso não conseguiu provar a qualificação nos crimes de homicídio, embora se tivesse empenhado muito. O juiz não foi na conversa, embora eu cá desejasse que ele tivesse ido.
Do outro lado o defensor, um advogado de alta-roda com um defeito na pronúncia (vulgo sopinha de massa), demonstrou grande labor, mas também não conseguiu colar o dístico da negligência na prática dos factos.
A decisão acabou por ser achada no centro. Os vários testemunhos de ocupantes de veículos que seguiam na mesma faixa e assistiram a tudo, somados ao cocktail químico que lhe encontraram no sangue, e ao desvelar de toda a operação de apostas ilegais deixou pouco espaço para clemência na mente e na apreciação técnica e jurídica do colectivo de juízes da Boa-Hora.
O Pita foi condenado pela prática de crimes de homicídio simples e ofensa à integridade física grave. Assim, dito de chofre, deve ser como levar um murro no estômago dado por uma pá de escavadeira. A vida inteira vai ao ar, num instante, traduzida em algumas palavras e anos de arrependimento inútil. Pelo menos é essa a ideia que me fica.
Eu não estava lá para ver, mas o o meu amigo contou-me que alguém vira e lhe dissera que o Pita começou a chorar e soluçar como um catraio de cinco anos. Os pais, destroçados, limitavam-se a olhar enquanto ele era levado para o carro celular, provavelmente corroídos por algum senso de responsabilidade que só muito indirectamente tinham.
Gabriel contava esta história, como todas as outras, com um senso analítico muito próprio. E levantava questões, das quais eu memorizei a seguinte.
Existe um preceito no código penal que diz:

“Artigo 132º
Homicídio qualificado

1 - Se a morte for produzida em circunstâncias que revelem especial censurabilidade ou perversidade, o agente é punido com pena de prisão de 12 a 25 anos.
2 - É susceptível de revelar a especial censurabilidade ou perversidade a que se refere o número anterior, entre outras, a circunstância de o agente:
a) (…)
b)(…)
c) (…)
d) (…)Ser determinado por avidez, pelo prazer de matar ou de causar sofrimento, para excitação ou para satisfação do instinto sexual ou por qualquer motivo torpe ou fútil;”
(…)


Como vos disse acima, ele nunca chegou a ser condenado por homicídio qualificado. Mas pergunto-me a mim, em completa e até dolorosa confusão, o que significa aquilo que aconteceu naquela noite na marginal Lisboa-Cascais?
Olhando para o historial do Pita, e nós conhecíamo-lo bem, seria fácil chegar a uma conclusão. Um dos ferrolhos que segurava a porta mental do disparate maligno saltara, e assim se acha a justificação para uma clara vontade de provocar o que sucedeu. A expressão “causar sofrimento” parece-me perfeitamente adequada. Sinceramente eu preferiria pensar que tudo o que sucedera, tendo em conta a evolução dele, se deveria a qualquer problema de infância ou desregulação social ou mental. Uma vez obtida essa conclusão, tornar-se-ia mais fácil explicar algumas coisas.
Eu no entanto não sei bem o que pensar. Olhei directamente para a expressão dele durante anos e aquilo que mais me assustou não foi uma maldade qualquer a cabriolar nas íris coloridas. Não havia nada espelhado na expressão dita normal, e talvez se não fosse pelos actos sobejamente conhecidos, olhariam para ele como uma pessoa de semblante ausente, perdido.
Aquilo que mais me assustou é que não via nada naqueles olhos. A expressão não cintilava, não havia nada que pudesse definir o olhar senão uma espécie de desinteresse profundo e total misturado com um pequeno desdém. Como alguém que mata uma mosca que acaba de entrar na sala ou derruba um pacote de açúcar no chão limpo.
Ele estava lá, mas sinceramente parece que ao mesmo tempo já havia desaparecido haveria provavelmente muito tempo. As reacções violentas eram imensas, é verdade, mas era na dita normalidade que tudo isto se via. O que no fundo não me faz estranhar a imensa vontade que o levaria a procurar fazer sempre aquilo que não estava à mão, ou pelo menos não deveria.
Se era mal aquilo que eu via? Se é disso que falo? Sinceramente não sei. O meu amigo diz-me que sim. Que é uma modalidade. E reforça ainda que tem certeza porque já viu uma representação de mal puro bem de frente, e que o Pita era apenas uma pequena gradação.
Até hoje não sei o que ele quis dizer com aquilo, mas querem saber uma coisa? Acho que acredito nele. Quando o vi no banco dos arguidos, tive uma espécie de certeza empírica. E nem quero imaginar o que o meu amigo clama ter visto.
Coincidências neste caso são assustadoras, e quando acabámos a conversa, ele afastou-se com um sorriso nostálgico e triste estampado no rosto. Isto aconteceu há um ano, e apesar de morarmos perto, nunca mais o encontrei. Fui à hemeroteca à procura deste caso nos jornais antigos, mas não tive sorte. Terá acontecido? Eu sei que sim. E pelos vistos não fui o único. Mas sempre me pareceu um mau sonho, ou um mito urbano. Outra voz trouxe-me apenas a comprovação de algo que incomoda tão mais em conceito que pela normalidade da ocorrência no nosso dia a dia. Sei que fui a tribunal. E vi aquele nada.
Espero encontrar o meu amigo novamente, para poder confirmar que estivemos realmente naquela sala.
Talvez os verdadeiros fantasmas sejam mesmos estes.
Os inesperada e tristemente reconhecidos.
Sinceramente.
Em todas as vidas existem perigos. Situações que se tornam melhor evitar. Uma espécie de local sagrado mas com o efeito contrário ao de um santuário. Uma zona a evitar de medo, sofrimento e dor.
Todos esses perigos desaconselham qualquer veleidade nos seus territórios. Coisas simples. Um supersticioso deve evitar escadas erguidas, ainda que julgue que não passará debaixo delas de forma alguma. Um ex-alcoólico deveria evitar sempre as feiras de vinhos e bebidas que ocasionalmente surgem nos hipermercados, mandando alguém às compras nessas alturas. Um vigarista não deverá jogar poker com cegos.
E isto porque a escada pode cair. O golo para provar pode transformar-se na garrafa para recordar e nos litros para afogar. Um dos cegos pode ter marcado as cartas com relevos em Braille e ser irmão do dono do casino clandestino.
As coisas podem efectivamente correr mal.
Mas por vezes não há outra alternativa senão poder perder tudo.
Especialmente se nunca se ganhou nada...
Ia a passear no outro dia e olhei para a porta do complexo turístico, onde existiam uns quantos bares e restaurantes, e vi um casal de namorados em discussão. Ele esbracejava. Ela escondia o rosto por debaixo de uma pala feita pela mão e unia as mãos num simulacro de prece quando seria a sua vez de deitar argumentos. A discussão não parecia acintosa. Pelo menos não excessivamente. Não existiam aqueles olhares de surpresa perante algo que o outro nunca deveria ter dito. Nada de lágrimas, pelo menos até aquela altura. Os esgares eram de exasperação, mas não existia uma bastarda, filha da raiva e desprezo que emana da troca (falta) de ideias quando a discussão perde o sentido para ser apenas uma espécie de jogo do esqueleto no armário com as articulações inflamadas. Procura-se uma espécie de dor e vitória pequena na tentativa de magoar pela suposta exposição à incoerência. E a partir de uma certa altura perde-se toda a cautela e deferência, passando a ser esse o objectivo do jogo. Não leva muito tempo até que se perceba que não há resultado nenhum a atingir. Mas ainda assim avança-se, com arrependimentos surdos pelo meio, na constituição de pequenos crimes entre amantes e amores que quase sempre se tornam cicatrizes nodosas, feitas de sombra ou mesmo de ameaça, de sangue.
E depois recordei alguns casos que conheço.
E percebi quão terrível é a verdade da frequência.
De algo que acontece demasiadas vezes sob a capa de uma aparente normalidade...