ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, agosto 31, 2006




Linguagem de, para, produto, adequada à cama. Linguagem sexual, se preferirem, ou léxico de excitação.
Passando a semântica, pergunto-me se certa linguagem será de facto adequada. Ou melhor, se a falta de certa linguagem terá enquadramento num desejável ambiente onde a intensidade faz com que a máxima "vale tudo menos tirar olhos" seja imediatamente aplicável?
Caraças, será que no calor da refrega, quando a situação já deixa todos os neurónios e discernimento no caudal de magma, se aplicam os termos convencionais?
"Pénis?"
"Vagina?"
"Vamos fazer amor desenfreadamente?"
"Possui-me?"
"Leva-me ao orgasmo?"
É só a mim que isto soa ao texto de posologia? Ou tentar por o engenheiro Sousa Veloso a ler um romance erótico? Será que a fúria do sangue, o ataque imparável das hormonas nos instantes em que o mundo parece que se vai fechar sobre si mesmo justifica a utlização destes termos?
Sim, ok, há sempre a possibilidade de não se dizer nada e dar o reinado às onomatopeias, mas não será essa uma perda considerável a todo o jogo de gana, perda e ganho imediato de inebriamento de que o (bom) sexo é feito? Não será deitar fora uma ferramenta fantástica para a exploração, a brincadeira e a provocação que muitas vezes engana a falta de gás do inebriamento inicial?
Será que o desejo que faz tremer as pernas e marcar os lábios do outro a sangue devido às dentadas atrapalhadas de beijos que comem se compadecem com termos brandos e suaves? Sim, claro que entendo a importância e a lógica subjacente à expressão fazer amor. Há instantes de sexualidade mais calma e mais branda em que o enquadramento é perfeito.
Mas sinceramente, não acho que tenha aplicabilidade genérica, muito menos quando a central hormonal já há muito deitou os travões às urtigas, e é tempo de queimar a pele na boca do outro.
No meu modesto ver, não há vulgaridade no terreno do apetite sensorial consensual. Há sim uma forma de perder o juízo e dizer ao outro que algo dentro de nós se vai passar da marmita e que se esgotam as formas de o dizer, ressaltando por isso para a agressividade que, em meu ver, é indissociável do desejo.
Fode-se porque o outro nos leva a cometer a loucura de o querer trespassar e com ele nos confundirmos em pele.
Fode-se porque se quer com gana, com a violência do desejo, com a pressa ou a urgência de um estado de rendição feito de dentes afiados e ultrapassagem de barreiras.
Fode-se porque nada pode ser brando no campo do desejo que já não se contém, e na variedade de formas como dizemos ao outro que a mais primitiva e completa forma comunicacional se passa naquele instante.
Fode-se quando não se aguenta mais o puxar do iman, e o cheiro serpenteia pelos intervalos da pele, como uma cócega elevada á 134ª potência.
E todo o resto da semantica é como a estrada de ladrilhos amarelos.
É seguí-la até à magia, que de facto, até acontece.
Julgo eu.
Red is life, Red is Fire, Red's a music tone disguised as desire...

quarta-feira, agosto 30, 2006

Gosto das pessoas que tentam fazer.
Que tentam tocar.
Que tentam mostrar algo novo, um segredo, um local escondido.
Gosto das pessoas que inventam. Que apalhaçam os efeitos dos aborrecimentos, mas não os vulgarizam.
Gosto dos que desdramatizam, mas sem deixarem de se importar.
Dos que contam histórias, nem que as inventem para entreter uma conversa animada e calorosa.
Dos que puxam os outros para a ribalta, mesmo que todo o triunfo seja pessoal.
Gosto dos que gostam de fazer algo pelos outros. Dos que não entendem a vida sem interacção.
Gosto dos originais em alternância. Daqueles que vibram com o elaborado, sem nunca perderem a lógica simplificada.
Gosto dos que tentam.
Porque normalmente fazem, e nem se apercebem.
Em certa medida somos todos estranhos uns para os outros.
As manias parecem complicadas, as lógicas e taras incompreensíveis, as vivências originais mas produto de opções que se calhar achamos no mínimo discutíveis. E por vezes assistimos a essas conjugações de detalhes e pormenores, e ficamos ocasionalmente com a sensação de que algo escapa. Que não se enquadra.
A noção que temos de tolerância talvez nos faça relevar ou sublimar o essencialmente bom ou agradável (seria mais certo dizer compatível) connosco, e esquecer o que nos irrita, intriga ou simplesmente não "encasqueta" no nosso padrão do aceitável ou visível.
É complicado aceitar este padrão de tolerância, especialmente quando temos de reconhecer as fraquezas do nosso próprio carácter como algo normal. Mas ficamos sempre com a noção de que algumas coisas, de tão afastadas que estão da nossa forma de entendimento, talvez até pareçam ultrajantes para a concepção de normalidade que temos. E não é bonito aceitar isto, mas acho que é essencialmente humano e comum.
Julgo que no entanto, as escolhas e opções, ou formas de estar e de viver em sociedade, também estão sujeitas a uma fundamentação, nem que seja para o próprio. Se alguém corta o seu potencial, ou o vive ao máximo ao contrário de muitos outros, terá com certeza uma explicação para o seu percurso. Para o seu "caminho certo".
Existem coisas que nunca faríamos porque nos parecem até mesmo castradoras da forma mais genuína de viver que cada um tem. E no entanto, talvez cada um tenha um algo assim. Um algo que não cabe da cabeça do observador que no entanto procura talvez o melhor que tenhamos para abandonar o que o aborrece naquele instante.
Mas que fique bem claro.
Não creio em relativismo absoluto.
Existem coisas que dificilmente parecem ter explicação, e que tornam a natureza absolutamente potencial de cada um numa espécie de história recorrente, baça e imensamente triste.
Mas a verdade é que cada um de nós pode projectar essa mesma imagem a quem se sinta feliz com as escolhas que parecem não lhes assentar, mas que defendem como modo de vida.
A ideia é sempre a mesma.
A felicidade está também nas nossas manias, pancadas, e paranóias. Nos trejeitos, nas melancolias dos estados de insatisfação abstracta.
O problema está em quem podendo ser mais feliz, mais completo, mais de acordo consigo mesmo e tais pancadas, escolhe inexplicavelmente não o fazer. Porque aquilo que os diferencia como únicos pode não encaixar na segurança do plano social que cedo ou tarde, parece rosnar aos ouvidos de tantos.
Deixando de saber brincar, por exemplo.
Essa pré-morte da individualidade de cada um, perante o mundo supostamente adulto, cinzento e pardacento.
Talvez aquilo que irrite alguns seja precisamente o que nos diferencia e nos faz amáveis para outros. Os que estão perto, os que entendem ou fazem por isso.
Mesmo para os próximos, podemos parecer sempre algo estranhos.
Que bom.
Dar sempre algo a mais a descobrir, por quem efectivamente se interesse.
É a continuidade de histórias para contar.
A continuidade de tudo, no fundo.

terça-feira, agosto 29, 2006

As férias trazem paz e recarregam baterias.
Mas também trazem agradecimento e uma percepção da sorte que se tem.

Obrigado.

A sério.

No outro dia vi uma reportagem televisiva, e posteriormente encontrei mais alguma informação sobre esta história, a qual parece saída do horror produzido pela imaginação de um argumentista de cinema.
Oito anos numa sala de três metros por quatro, e uma pequena janela que lhe trazia as notícias do sol e do mundo lá fora, juntamente com a televisão e a rádio.
A palidez, segundo informam os media, era a de alguém afastado da luz do sol durante muito tempo. Aparentemente, está de boa saúde física, mas "depois de oito anos vivendo como refém numa cave e tendo como única companhia o seu raptor, Natascha Kampusch será, muito provavelmente, uma jovem sem auto- -estima, com pouca autonomia e dificuldades na socialização. Além de atrasos na educação, a experiência ter-lhe-á deixado marcas irreparáveis a nível emocional. O acompanhamento psicológico é uma obrigatoriedade. "Não há prescrições para a vida, mas não podemos esperar milagres. Com ajuda, poderá chegar a uma situação de equilíbrio. Se não for acompanhada, poderá nunca ser feliz", explica ao DN o psicoterapeuta Vasco Catarino Soares." DN de 26/08/2006.
Acho que não consigo imaginar, ou talvez nem queira, o que é viver oito anos num cubículo, sujeito à atrofia do isolamento, do silêncio e da ausência de luz do sol, e claro está, do contacto humano. Foi uma sentença de oito anos numa solitária com televisão para uma criança de dez anos que se tornou adolescente sem saber o que era o mundo. Sem a interacção minima necessária ao desenvolvimento de qualquer ser, talvez sempre com a dúvida relativa ao momento em que finalmente o carcereiro se fartaria e poria fim à vida dela, ou à dele, deixando-a para morrer à fome e à sede numa cela exígua.
E depois a mente humana resolve dar voltas e reviravoltas, e eis que a cativa desenvolve uma espécie de simpatia patológica, provocado por um desiquilibrio extremo ao nível emocional e psíquico. O Sindroma de Estocolmo define-se como a criação ou surgimento de uma aceitação e simpatia do cativo pelo carcereiro, chegando mesmo a defendê-los quando estes são confrontados com a lei ou qualquer agressão eminente. Há quem diga que é uma forma que a mente encontra de tentar apaziguar o agressor, fazendo com que a simpatia para este funcione como um forma de assegurar a sobrevivência, ou mesmo como agradecimento pela mesma.
E então paro para pensar, estupefacto, e imaginar o que passará pela cabeça de uma pessoa num tal estado de desiquilibrio e agressão psíquica.
Talvez a mente, na sua sede desregrada de contacto e de criação de laços, se lançe para o que está à mão, a única presença, ainda que seja uma de autoridade, violência ou ameaça eminente. Sei lá, é tudo especulação provavelmente. Mas dentro das teorias fica uma ideia que me remói um pouco. A capacidade de desenvolver sentimentos, ainda que desequilibrados, por alguém que sujeita esse outro a sevícias que são complicadas de imaginar. Mas estão lá, e o acompanhamento psicológico terá água pela barba para mostrar a esta menina a normalidade de um mundo que também lhe pertencia, não tivesse sido roubado por alguém cujas motivações nunca saberemos.
Há numa história como esta, e infelizmente tantas outras, um afloramento do que eu considero um conceito de mal. Daquilo que esperamos fervorosamente que não aconteça senão em filmes, mas que tem um rosto bem real.
Como será fugir de um pesadelo do qual não se acorda?
Durante oito anos, Natascha adormeceu apenas para acordar sem alívio, até que o condicionamento a tornou dependente da sua condição, numa estratégia de sobrevivência mental que provavelmente a terá marcado para sempre.
Não consigo imaginar.
Ou como disse, talvez não queira...
Equipa Portuguesa de Duplos e especialistas em Artes marciais

Alguns amigos meus fazem parte deste grupo de acrobatas, artistas marciais, bailarinos e duplos, e acreditem, vê-los a fazer isto ao vivo é ainda mais impressionante.
Se algum realizador, produtor, ou alguém que seja ligado ao mundo do espectáculo vir o vídeo acima "linkado"e estiver interessado, fica já a dica.
Não faço ideia, mas não devem existir muitas pessoas a fazer algo deste género no nosso país. Alguns deles têm inclusive cursos de duplos obtidos em Los Angeles.
Muito boa sorte para eles, porque pelo que trabalham, já merecem!

sexta-feira, agosto 04, 2006


Amigos, visitantes, comentadores, stalkers, etc, vou de férias.
Sim, desta vez férias à séria. Pelo tempo necessário para se estar suficientemente distante de tudo e recarregar baterias que há muito já andam no vermelho.
Não sei se passarei por aqui, mas se tiver a oportunidade, (e já agora alguma pertinência mínima) escrevinharei algo.
Vou para férias com uma nota.
Uma nota de sorte.
Pelo que de alguma forma vou tendo das pessoas que escolhem habitar o meu espaço e quotidiano.
Vai-se de férias, também para se poder voltar.
Para ter uma ou outra história para contar, especialmente a essas pessoas.
Às vezes basta o sol :)
See you soon.
SK
Não há pachorra para pessoas com demasiado tempo entre mãos.
Coitados...

quarta-feira, agosto 02, 2006