ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com

segunda-feira, outubro 30, 2006

A generosidade não é uma opção.
É um músculo.
Como o coração, funciona sem que possamos dar por ele.
E como ele, é revel e traz vida.
Nunca se agradece suficientemente aquilo que não pedimos, mas que no entanto, cria nichos de felicidade perfeitamente determinados.
A sorte que tenho, deriva dos outros.
Da possibilidade que me dão de poder esperar algo, de aprender outro tanto, e baralhar-me para voltar a dar.
Bem vistas as coisas, perguntamo-nos sempre se merecemos a má sorte que temos. A resposta é frequentemente negativa. Mas e a boa sorte? É-nos devida? Um pormenor, ou saco cheio deles, uns mais preciosos que outros, deverá realmente ser-nos entregue?
Há como fazer por isso. Nunca achei que o relacionamento entre as pessoas, fosse ele de que espécie fosse, se pautasse por pausas, inércias e descasos. Mas até que ponto é que merecemos o que nos dão, na base do que emitimos, muitas vezes, sem perceber?
A nossa personalidade simplesmente aparece lá nos painéis sensoriais dos que escolhem dar-nos algo, e no meu caso, pergunto-me sempre o porquê, embora me maravilhe com isso, e tenha de agradecer.
Apesar de alguma má sorte, ultimamente tenho tido alguma sorte, que não sei se é integralmente merecida. Mas as perguntas que faço, faço-as na perspectiva de pode evoluir, melhorar, e tentar ser merecedor.
Mas isso é um mistério não é?
Existem partes de nós que encantam outros, e nunca faço ideia do porquê.
E é essa a sorte que temos. De sermos agradáveis e susceptiveis de formas diversas de amor, para o qual também contribuem as coisas acerca de nós que acabamos por desconhecer.
Que sorte!
Diria eu...

sexta-feira, outubro 27, 2006

Gostar das pessoas é um exercício de teimosia.
Passam dias e dias em que esse exercício se torna complicado, por falhas próprias e falhas alheias, e porque a coerência, no limite, é o exercício de expectativa comportamental que exigimos, num momento ou outro.
A coerência é, em meu ver, limitada, como qualquer exercício ou juízo intelectual, mas deve ter em si mesmo um elemento de esforço presente. Ser coerente não significa não mudar de ideias, mas tão somente defendê-las enquanto elas parecerem fazer sentido, e nunca sem uma base mínima de argumentação.
É por isso que continuo a gostar de pessoas, embora alguns dias surjam nos quais me apetece estrangular uma ou duas na corda apertada da sua pequenez, mesquinhice e malícia quotidiana, assim como já devo ter estado na corda imaginária de muita gente. Seria bom pensar que o esforço basta, mas não chegará, e nas mentes de outros também serei uma espécie de irregularidade na parede a ser rapidamente estucada.
Gostar de pessoas, é em meu ver, o último exercício ou teste à coerência, já que existem tantos que a põem à prova das piores formas.
Mas a escolha alternativa é uma espécie de ecran total, onde nada passa, nem mesmo a luz necessária que cada um é capaz de irradiar. Torna-se uma derivação do conceito do vazio observador, e embora respeite a opção, estou fora. Para mim não serve.
Continuarei a onfeder os idiotas do trânsito, a chatear-me com a proliferação quase religiosa da mediocridade televisiva e o seguidismo subsequente, mas a maravilhar-me com uma piada certeira, ou um gesto genuino, como os abraços abaixo reproduzidos.
Até uma certa dose de masoquismo é coerente, verdade?
A solidão é muitas vezes parcialmente optativa, e para aqueles relativmente aos quais isto não acontece, surge a minha própria incoerência em não fazer mais daquilo que deveria fazer.
Gosto (ainda) de pessoas.
Com uma dose ocasional de sais, mas ainda prefiro um prato cheio delas à frugalidade da observação distante.


Acredito no comedimento e no equilíbrio, assim como acredito e louvo as pancadas pessoais. Sejam elas por capacetes espaciais quando se vai ver o Star Trek ao cinema, seja a pancada pelos filhos, os cães, seja lingerie de cores berrantes, carros, filmes, livros, seja um cantor, actor, escritor, desde que seja original e genuíno, e não uma coisa de moda e seguidismo, acho ternurenta a devoção (equilibrada) que se tem algo que nos inspira e transcende, e em ultima análise, nos faz sentir bem.

As pancadas são um ponto de partida para a originalidade pessoal, e uma forma de ver o mundo um pouco diferente. No fundo, algumas delas levam-nos a querer ser algo mais, e a procurar, a investigar e buscar. Fazem com que não estejamos parados, e procurar algo pode ser o motor da vida na medida em que nunca estamos estáticos nessa dinâmica de expectativa. É a falta dela que leva à morte, e não o expirar do coração ou orgãos vitais. Um coração genericamente partido é mais mortal que uma crise coronária fulminante. Isto se, como eu, forem kantianos e acreditarem no postulado da imortalidade da alma, o que leva a uma inquietante conclusão, ou seja, um coração realmente partido pode durar uma eternidade... ou não. As pancadas podem ser um antídoto, porque representam a mais das vezes uma paixão meio pateta, mas toda ela genuína por algo de conceptual que dá a fantasia necessária à nossa vida.
Eu tenho várias pancadas, e algumas delas de difícil percepção.
Como já se pôde ver aqui, tenho uma pancada séria pela Fionna Apple. É uma pancada insubstancial, uma espécie de reconhecimento de um conceito de ser artístico e feminino que me cai bem, e que representa um epíteto de certas qualidades que julgo serem superlativas na minha concepção da mulher. Esta ruiva (pois, o vermelho...) canta, compõe e toca como um anjo com três parafusos soltos. É perturbadora na sua intensidade e originalidade, e escreve letras de arrasar qualquer charopada mais vomitante de James Blunts e companhia, e tem um estranho ar pateta em entrevistas que acho irresistível. Mas, que diabo, como é que se pode realmente gostar de uma pancada? Como é que se gosta de uma pessoa que não se conhece, nem nunca se conheceu? Daí o silogismo do conceito, do superlativo de uma ideia.
Mas, como em todas as pancadas, é saudável, permanece distante e apenas no campo dos conceitos, da imaginação. É um elemento adolescente? Talvez, mas para mim sonhar com ideias e representações de algo que achamos realmente certeiro no nosso conceito de estética nunca fez mal nenhum a ninguém, e muito menos as pancadas.
As pancadas dão piada às pessoas. Se elas não se confundirem com elas, se não as tornarem substitutas do seu modo de vida, acho-as tremendamente saudáveis.
Que seca as pessoas sem pancadas, sem fixações, sem anseios, sem imaginações.
Que seca quem não se entusiasma com nada que seja produto do seu reduto secreto, meio maluco, e sobretudo, original.
Para mim, claro.
E como as pancadas são para cultivar, (e acreditem, tenho várias) ei-la:


quinta-feira, outubro 26, 2006



Scars turn love’s illusion, if there is such a thing, into a desire for probability. Even if you force causality, I bet the surprise is always similar to many others, but no one admits it. I believe that the experience becomes unique because of what you can’t quite grasp, but desperately try to define. And it is not the feeling that escapes definition, but the manifestations that express themselves into what’s always believed to be different and unique. In fact, it is all more or less the same old, wonderful or dreadful same when looked upon, but I believe the tremors and delusions of the infatuated soul are totally subjective. And that’s why you can’t escape it when it’s real or strong enough, because you’d be really battling yourself, and no strategy would suffice in that case.


Foto: Misha Gordin

Nunca estamos a salvo.
E esse pensamento é mais cansativo que assustador, quando os pavores de uma vivência recorrente na insegurança estão perdidos com algo da inocência que lhe era adjacente.
Não é então a inércia que nos condena, mas sim uma certa imprudência feita dos detalhes comportamentais. Essa imprudência é constituida por seres temerários, assim paridos do cansaço, das dores e moínhas de existência que, bem vistas as coisas, criam a maravilhosa sensaçao de esperar, antecipar, sonhar com possibilidade.
Nunca estamos a salvo.
Especialmente de nós próprios.

terça-feira, outubro 24, 2006

Existem, obviamente, e tendo em conta as diferenças de cada lado das barricadas, muitas perplexidades entre os universos de género diferente.
São gastos (de forma útil) milhões de minutos de conversa no recorte dessas idiossincrasias, na aplicabilidade ao universo quotidiano, nos confrontos e alianças diárias com o outro lado.
No entanto, e entre tantas outras certamente mais importantes, existe uma curiosidade que teima em surgir de quando em vez.
A lingerie.
Bem sei que a teoria de que a vestimenta existe para que a pessoa se sinta bem com ela própria é, em alguns casos irrefutável, mas há, em meu ver, um elemento de exteriorização necessário. O vestuário tem um elemento necessário de visualização alheia, de aprovação, de impacto. Não quer dizer que necessariamente o primordial e o mais importante (*), mas creio que está lá sempre.
Assim sendo, e tendo em conta que na grande maioria dos casos tal não aconteça, por circunstâncias da nossa vida prática e quotidiana, qual o porquê de um cuidado extremo com a lingerie? Porquê a composição fabulosas de cores, formatos e combinações, que não serão vistas senão pelo fugaz vislumbre uma alça no ombro, ou uma escapatória do fio dental por cima de umas calças de cintura mais descaída?
Bem sei que o argumento se prenderá com o facto da mulher se sentir bem ao vestir. Nada contra, e tudo a favor. Mas será que uma peça de roupa não tem o necessário elemento de exteriorização. Será que estas peças de roupa, as quais, e qualquer homem que já tenha comprado prendas saberá, custam em alguns casos os olhos da cara, bastam apenas com o conhecimento da própria e a invisibilidade perante todos?
Não sei, mas faz-me lembrar as pessoas que vão sair à noite, que não tencionam encetar qualquer espécie de contacto social, mas que no entanto procuram apenas os lugares que estejam cheios que nem um ovo. Mas mesmo aí, a malta olha, vê, e percebe a presença de outros.
No caso da lingerie, é um mistério a razão pela qual um tão grande investimento pessoal em indumentária permanece, a mais das vezes, puramente invisível.
Any thoughts?








(*) - Em meu ver é, mas acredito piamente que para muitas pessoas, mulheres principamente, não o seja, e se o for tem a ver com a análise feita por outras mulheres e não por nós, homens.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Isto é um claro prenúncio.

E vindo do Iñarritu, a coisa vai doer com certeza. Como todas as coisas belas o fazem, julgo eu.



"Little Miss Sunshine."

Um filme a reter em todas as suas vertentes. Inteligente até chatear, cínico e acutilante q.b., cómico até às lágrimas, comovente sem lamechice como poucos.


E Steve Carell, que grande, grande actor!!!!


"I'm the the number 1 expert on Marcel Proust in America!!!"
Pensem bem.
São dois braços. aliás, são quatro.
É uma aproximação. As centrais nervosas sentem a antecipação e entra-se de rompante no ultimo reduto da esfera pessoal de espaço.
Os dois braços alternam-se. Dois em cima, dois mais abaixo. Ou alternados.
Os troncos chegam-se, mais ou menos consante o grau de confiança, e o calor começa a emergir da zona do peito, e do aconchego simples que o gesto provoca na postura corporal.
Depois bate-se nas costas, abanam-se os troncos, e aperta-se ainda mais um corpo contra o outro. Consegue descansar-se. Fechar o mundo lá fora e sentir apenas o calor simples.
Os braços levam então tempo a desentrelaçar-se, e o corpo vai, energizado, com uma quantidade de hormonas que um endocrinologista facilmente catalogará.
O sorriso fica desenhado durante algum tempo, e os passos levam as pessoas envolvidas num abraço a um local onde reside simplesmente a saudade ansiosa de repetir o movimento.
Isto é um Abraço.
Ensinaram-mo no outro dia, e sem me tocarem sequer. :)
Face ao debate provocado por este post, e este , e a consequente questão, muito pertinente, acerca dos valores que possam eventualmente reger a "troca social" contemporânea, surge-me o seguinte cenário:
É evidente que atravessamos uma fase de crescimento do individualismo. As pessoas ganharam a sua independência e têm a sua vida mais ou menos estruturada, e de alguma forma, reina uma certa confusão quanto ao que fazer a seguir. Essa confusão surge dividida por várias géneses e explicações, mas poucas se afastam das variações de medo.
No entanto, e neste processo, a individualidade não deve nunca obstar ao cuidado e respeito pelo próximo, e sobretudo pela delicadeza necessária para quem nos dá algo. Não há, em meu ver, desculpa para a imprudência que resulta em explicações tardias de faltas de cuidado, e sobretudo, para a vulgarização seja lá do que for. Sim, porque o que vulgariza as situações é o cuidado e o encontro entre uma vontade genuína e concretização, e não o tempo ou designação que lhes damos.
Se o tal cromo aliciou a moça, de forma a introduzi-la num mundo e num cenário que à partida se assemelhava a intimidade crescente, e se essa inserção não foi precedida de uma explicação muito clara quanto ao que se passava, então alguém jogou com as referências de outro, deixando-o posteriormente para remoer prostrado nos cacos das suas ilusões. E foda-se, isto não se faz. A verdade pode custar muito, e por vezes pode assemelhar-se a cuspir lâminas de barbear, mas se alguém age connosco de frma genuína e honesta, é o mínimo que podemos dizer-lhe. Não se tem de ser pragmático nem determinista, até porque nestas coisas ninguém é, mas caraças, o que não se pode fazer é dizer ou agir de forma que seria incongruente com o estado de coisas na circunstância da qual se falava no primeiro post.
Depois existe o salto para uma conclusão que me parece drástica, embora entenda perfeitamente as suas motivações.
Não creio que os valores se tenham perdido, ou não insistiria tanto na esgrima da verdade, e muito menos concordo com a premissa aduzida seguidamente, a qual tomei a liberdade de transcrever:


"A factura a pagar agora é a mesma leviandade sentimental e maquiavélica dos homens (dantes, característica da dita e suposta superioridade feminina), pois o tal homem perdido de amores por uma mulher a cantar-lhe a serenata de amor à janela é uma espécie em vias de extinção. O tal homem quetudo faria pela atenção da mulher amada... porque desapareceram. As predadoras fizeram homens assim sentir-se ridículos e o romance deu lugar a um vazio sem precedentes. Um fosso sentimental."

Vamos por partes:

Não me chateia rigorosamente nada que as mulheres se tenham tornado predadoras, até porque, no meu modesto ver, sempre o foram, só que mais dissimuladamente. As mulheres sempre predaram, sempre exerceram as suas opções perante os homens como bem entenderam, o que faz do instinto rapace uma procriação da personalidade e não do género. Caraças, a Florbela Espanda, a Cleópatra, A Madonna (que escolheu um macho procriador com óptimos genes para a primeira filha e o despachou assim que engravidou), Elisabeth Short, Margaretha Geertruida Zelle, Marguerite de Valois e tantas outras, eram ou são claras predadoras. E das perigosas, na sua grande maioria. Se hoje em dia predam no sentido de buscarem de forma activa aquilo que desejam, é condição do seu estatuto de igualdade no exercício dos seus direitos, o que não me belisca minimamente. Se predam e descartam de forma leviana, então é algo que deve ser assacado à sua personalidade e consciência, e uma pessoa que manieta assim as outras merece-me pouca consideração, seja homem ou mulher.

Os homens de que se fala no excerto eram, desgraçados, na sua grande maioria (mas não todos reconheço), objecto de reais sarabandas, porque a sua entrega assim primordial fazia deles pessoas facilmente moldáveis e controláveis, o que nas mãos de muitas mulheres, é um risco considerável. As mesmas mulheres que invariavelmente escolhiam ( ainda escolhem) os marialvas sentimental e maquiavelicamente levianos de que se fala. E sinceramente, esses adjectivos são aplicáveis a ambos os sexos, e não a um exclusivamente, porque derivam de personalidades. Os tais românticos que ainda subsistem, e aí sim, concordo em absoluto com o post, ao se debaterem com a tal fidelidade ao seu estilo de vida e forma de fazer as coisas, encontram tremendas dificuldades em explicar exactamente o que são e ao que vêm... e isso é triste porque quase que recobre de cinismo algo que é muito valioso. Portanto a leviandade maquiavélica nos sentimentos é fenómeno inter-género.

Sim, é verdade que hoje em dia a malta pensa mil vezes antes de dar passos, e a quantidade de oportunidades e possibilidades tornam essa lógica ainda mais complicada. E aqueles que em certa medida conseguiram dar um passo em frente e encontrar a sua Thisbe ou Pyramus, não tardaram muito a encontrar os efeitos do ataque do leão, arranjando armaduras de um esclarecimento que chega a ser doloroso. Mas as pancadas são demasiado fortes, por vezes.

Não julgo que os valores se tenham perdido, nem que a predação seja de agora. Julgo que as pessoas têm menos cuidado, é um facto, mas também há uma maior comunicação e honestidade nas trocas de informação e vontades, o que em bom rigor é quase uma benesse para os românticos, que se pelam por um bom risco, um óptimo drama, e o sabor perene de um triunfo, caso o consigam. Os anos 60/70 eram bem mais complicados nesta onda de ramboiada geral, e as DST também vierem fazer com que as pessoas pensem 30 vezes.

E no entanto, o amor existe. Como a vida, (nas palavras do Malcom de Chrichton - o livro é bem melhor que o filme) ele encontra um caminho. Adapta-se, arranja uma outra morfologia, mas ainda persistem as pessoas capazes de nos fazer sorrir, pensar de forma atabalhoada e (ainda que medianamente) irracional. As pessoas para quem os nossos triunfos são sempre dedicados, para quem importa que sejamos alguém, aquelas que nos arrepiam a pele e nos passam a mão na testa ilusoriamente ensanguentada depois de uma qualquer batalha importante. Aquelas que nos levam a criar, a fazer algo, a disparatar. Talvez não seja o amor de outros tempos. Talvez estejamos a reagir como animais furiosos a uma marca incandescentena pele, a qual não pedimos de forma alguma. Talvez o amor se adapte. Mas, no meu modesto ver, não deixa de ser tão válido como era ou é o outro. É por isso mesmo que não se deve brincar com ele, seja qual for a sua manifestação, e é por isso também que a verdade na sua manifestação deve ser primordial aos discursos convenientes ou ás escapatórias pela curva.

Maltratar os outros e o seu amor por comodismo ou desconsideração despreocupada é o sinal de uns tempos que sinceramente, também não gosto de ver. Não são os valores que se perdem, mas talvez muitas pessoas que nem sabem o que eles são. No fundo não discordo das posições assumidas. Tenho uma outra visão.

Por alguma razão estes gajos foram e são uma das minhas bandas de referência.
E que razão têm...


Superunknown

If this isn't what you see
It doesn't make you blind
If this doesn't make you feel
It doesn't mean you've died

Where the river's high
Where the river's high

If you don't want to be seen
You don't have to hide
If you don't want to believe
You don't have to try

To feel alive
Alive in the superunknown
First it steals your mind
And then it steals your soul

If this doesn't make you free
It doesn't mean you're tied
If this doesn't take you down
It doesn't mean you're high
If this doesn't make you smile
You don't have to cry
If this isn't making sense
It doesn't make it lies

Alive in the superunknown
First it steals your mind
And then it steals your soul

Get yourself afraid
Get yourself alone
Get yourself contained
Get yourself control

Alive in the superunknown
First it steals your mind
And then it steals your... soul

Superunknown - Soundgarden

Ignora o fumo do incêndio, e sorri...
Chama-me um optimista, ela está a ficar azul,
que boa cor para ti...
Se quiserem experimentar os mecanicismos de uma cidade ou mesmo de uma população regional, perguntem direcções. E escolham os vossos alvos por várias faixas etárias, dos mais novos aos mais velhos. Escolham pessoas sós, e em grupos.
E de uma forma ou de outra, as direcções são dadas.
Secas, com um sorriso, com entusiasmo, com pressa, consultando e discutindo um bocadito com o tipo do lado, e segue, segue, segue.
Em Lisboa falham as ruas.
No Alentejo, as distâncias são muito maiores do que as indicadas.
No Norte é melhor que conheçamos os pontos de referência.
E no entanto, talvez por sorte minha, na maior parte dos casos fui brindado com solicitude e um sorriso mais ou menos comedido. Acho que não há ninguém que não goste de se sentir útil, e beneficiamos por chegarmos ao local que pretendemos.
E é uma experiência gira comparar as morfologias.
É por ali.
Segue, segue, segue....

sexta-feira, outubro 20, 2006

Um dos seres humanos mais esplendorosos que conheço (e preciosíssimo para mim), presenteou-me com isto hoje de manhã. É "apenas" o triunfo de uma ideia genial, um impulso em fazer algo de diferente, com uma ousadia profundamente admirável numa época de cinismo, reserva, desconfiança e medo social. É a simplicidade a mostrar o benefício anónimo e inegável de uma ousadia maravilhosa.

Juan Mann , pronunciado "One Man", começou esta campanha que já se alargou a outros locais, mas sempre com mesa simples e fantástica ideia. Não, não resolve a fome em África, nem desemprego, nem quaisquer flagelos sociais de relevo, mas espalha um pouco de algo que em meu ver, está por demais em falta nas sociedade contemporâneas. Bem sei que isto parece uma espécie de pregação, mas as imagens do "Serial Hugger" como é definido falam por si. E arrepiam ao maravilhar.
O que mais me espantou foi a intervenção das autoridades, vá lá saber-se porquê.
É necessário um abaixo assinado ou petição para oferecer um abraço? São apenas uma das muitas contradicções de uma sociedade que se fecha sobre o seu próprio peso, sobre a febre da competição em todas as suas manifestações, mas que de quando em vez tem um destes rasgos de claridade que nos fazem pensar que, apesar de tudo, vale a pena pensar que se somos capazes do pior, também somos do melhor que se possa pensar. Gostar de pessoas ainda tem compensações, e a confrontação com o nosso melhor ainda arranca reflexões válidas e esperançosamente perenes.
É uma ideia genial, só possível por parte de alguém com uma mente diferente, um pouco mais além. Hoje o cinismo sofreu um forte revés, pelo menos na minha óptica. Ainda estou arrepiado, sinceramente, e já vi o vídeo umas vinte vezes.
Obrigado :)



quarta-feira, outubro 18, 2006

Crer é condição necessária para sobreviver.
"Dia Internacional para a Erradicação da PobrezaUm quinto dos cidadãos portugueses vive em situação de pobreza 17.10.2006 - 11h26 Lusa

O número de cidadãos portugueses a viver em situação de pobreza representa um quinto da população, ou seja, dois milhões de habitantes.
No ano 2000, 191 Estados da Organização das Nações Unidas assumiram oito compromissos, sendo o mais importante a erradicação da pobreza extrema e da fome tendo em conta que essa é a causa de morte diária de 30 mil crianças.O Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza é também hoje assinalado em Portugal pela Associação Cais, com a criação de um jogo interactivo e de uma peça de teatro encenada na Praça da Figueira, em Lisboa.O jogo interactivo representa 13 situações relacionadas com a temática da pobreza (envelhecimento, educação, racismo, violência doméstica, fome, alcoolismo, sida, tuberculose, mortalidade infantil, trabalho infantil, desemprego, desigualdade social e desigualdade entre géneros), desafiando o jogador a identificar numa imagem as referidas representações, que se encontram pouco visíveis.Também o Papa Bento XVI apelou ontem, no Dia Mundial da Alimentação, a um reforço da solidariedade para eliminar a pobreza e o subdesenvolvimento."
No Público de hoje.
Gostaria de ouvir o que têm a dizer os amigos do compromisso Portugal, ou os liberais entusiasmados de preconizam o desemprego de mais 200 000 pessoas. Gostaria de ouvir o que têm a dizer e qual a solução para essas pessoas? Provavelmente, dão as entrevistas na televisão nos seus fatinhos de 750 a 2000 €, vão almoçar à bica do sapato e reclamam em alto e bom som por causa do arrumador que pediu um Euro para indicar o espaço ao BMW. Mas como sempre, esse cenário é de varrer para debaixo do tapete.
Sinceramente, com tantas sugestões de cortes e mais o diabo, o que se propõem fazer às pessoas?
Falam em mobilidade profissional mas o tecido empresarial português não se compadece de forma nenhuma com a absorção de pessoas que desejam ou têm de mudar de emprego, já que ficar sem emprego hoje em dia é quase correr risco de vida.
Quais as propostas exactas? O que se fará a essas pessoas?

terça-feira, outubro 17, 2006

"The minute you settle for less than you deserve, you get even less than you settled for."

Maureen Dowd


Touché!
Se nos intervalos das coisas a dizer as ideias germinam, tal acontece porque o que é importante não se descaracteriza.
Há algo na esperança quotidiana de um dia diferente que nos torna menos sagazes, mas nunca secos. Há tempo para as substâncias, sem letras.
Para o reganhar de stock.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Coisas já sentidas, mas nunca antes definidas :

"The art of acceptance is the art of making someone who has just done you a small favor wish that he might have done you a greater one."

Russell Lynes



Se é o Amor que importa, e não tenho a mínima duvida que as suas manifestações são imprescindíveis à suportabilidade da sobrevivência humana no mundo, as suas morfologias são tão originais e multifacetadas como as suas manifestações.
E meu ver só existe um conjunto de pequenas regras que talvez não sejam passíveis de relativizar.
Nada deve ser absolutamente gratuito, ou mascarado do que não é.
E nunca, em circunstância alguma, se brinca ou se desrespeita aquilo que nos é ofertado como a expressão máxima daquilo que a humanidade subjectiva e criativa tem para dar.
Não se trata de corresponder, mas respeitar. Espezinhar um coração que não podemos tomar é o mais torpe e cobarde das demonstrações de poder. Há beleza mesmo naquilo a que não podemos pertencer.
E tratando-se de Amizade, isso então nem se coloca.
E o mais engraçado é que em alguns casos, até já pertencemos, e nem temos bem a percepção correcta do que nos acontece.
Chama-se a isso o ganho do respeito por nós próprios, ao negarmos a nossa finidade com a surpresa que são as nossas capacidades e estruturas.
Vamos sempre mais longe, e isso é a totalidade das nossas perguntas constantes. Quando está escuro, será que o sol se levantará, se não empurrarmos a nossa Terra no seu giro?
Cometo muitos erros.
E depois, não satisfeito, cometo mais alguns.
Alguns admito, outros não. Produto da sobrevivência de um desejo de coerência, que por vezes nos torna cegos perante a absorção de lógicas diversas.
Mas há quem chame a atenção, com boa intenção, para aquilo que deveriamos fazer. E acho que é um dever que tenho tentar por os pés na terra e decifrar os meus próprios códigos de socialização.
E depois há quem esteja somente à espera que nos desiquilibremos, e se vá aproximar, como uma hiena de dentes afiados, num momento onde não há mesmo razão para rir.
E depois cometo mais um erro.
Deixar que se aproximem, com receio, e oferecer o flanco pelo cansaço.
Mas dos erros surgem as surpresas, e com elas, as hienas que não mordem, mas fazem realmente rir com vontade.
Tentarei fazer melhor.
"And that," put in the Director sententiously, "that is the secret of happiness and virtue-liking what you've got to do. All conditioning aims at that: making people like their inescapable social destiny."
Brave New World - Aldous Huxley
Ontem um amigo telefonou-me, e o tom de voz dele era de desalento furioso.
Um desalento perfeitamente justificável, no meio de uma confusão de que ninguém fala.
A namorada, uma pessoa altamente qualificada (daquelas que supostamente fazem falta em Portugal, segundo dizem) está sem emprego há um ano e meio, o que obsta brutalmente a que consigam dar um rumo à sua vida em conjunto. No trabalho, disseram-lhe que metade das suas funções vão ser transferidas para um par de indianos que trabalham por meia dúzia de patacas, e à distância.
E este é o cenário dos dias de hoje. Amigos que vi emigrar, que tiveram de ir em busca de qualquer outra coisa porque o próprio país os "expulsou". As deslocações dos centros produtivos para fora da zona euro, a orientação da economia mundial tendente a uma competição selvagem onde as pessoas são simplesmente "trituradas" por uma nova forma de teocracia economicista.
Sinceramente, e admito que as informações que tenho do ponto de vista económico são básicas e produto do que leio na imprensa e alguns artigos de académicos, a minha questão é muito simples.
Se isto continuar assim, a quem é que as empresas vão vender?
Os mercados internos da China e Índia ainda são incipientes (1/4 da pobreza mundial está na Índia e na China quase um bilião de pessoas vive de arroz e trabalho quase escravo, e as elites obviamente não absorvem a produção necessária), pelo que ainda vai levar um bom tempo até que possam comprar carros, telemóveis, roupa e quejandos. Assim sendo, o mercado americano abastece-se a si mesmo, e resta a Europa. Se as pessoas que ainda são o mercado de consumo ficarem sem emprego, ou de tal forma reduzidos nos seus rendimentos que passam a poder comer, e olha lá, a quem é que as empresas deslocalizadas vão vender? As fábricas de automóveis que vão em busca do Eldorado dos baixos custos de produção no Leste e Ásia, vão vender os seus carros a quem? Se as pessoas não têm emprego, não ganham, se não ganham não compram. Posso estar a dizer um grande disparate, mas li uma conferência de um senhor Samuelson o ano passado que dizia precisamente isto, e sinceramente, a cartilha quase dogmática desta selvática obediência aos critérios economicistas está a criar uma pressão social que será insustentável em breve. E se a economia é feita de expectativas, então o cenário parece um negro oroboro.

As pessoas têm medo, e nunca vi ou senti um tal clima de desespero e receio em Portugal. Cada vez é mais difícil chegar ao fim do mês, quanto mais conseguir poupar. Poupar, quando se paga casa, despesas, supermercado e o pouco lazer que se vai tendo é tarefa impossível, só acessível a quem tem rendimentos que não são a realidade portuguesa. Aliás, não são raros os relatos de pessoas com 5000€ de rendimento mensal que começam a acusar sobreendividamento e pedem ajuda aos órgãos respectivos.
Claro que as vozes da "produtividade", e das "reformas" vêm lançar ideias que, parcialmente, puxam a uma responsabilização e profissionalização dos comportamentos que me parecem positivas, mas eu penso no meu amigo, na namorada, e as suas qualificações, as suas capacidades ( e este rapaz é inteligentíssimo e uma máquina de trabalho), em como de nada servem. Em como uma pessoa corre risco de vida se perder o emprego. Em como ter uma casa própria é cada vez mais uma quimera para tanta gente.
Pergunto-me o que fazem os economistas da redução e do corte, às pessoas que perdem tudo, que não têm forma de trabalhar, mesmo que queiram. À selvajaria do lucro a todo o custo, a esta porra de admirável mundo novo. Só me vêm à mente os anos britânicos de Tatcher e fico de pele arrepiada com o que a Inglaterra fez aos seus nessa altura.
E as explosões sociais já se fazem sentir. Revoltas, manifestações, motins, crescimento das doenças sociais, quebra da natalidade, subida preocupante das ideologias extremistas e violentas.
Será que a realidade é mesmo esta? Será que nada mais há a fazer que encolher os ombros e aceitar que a vida das pessoas possa simplesmente ser mastigada e processada, como numa colméia ou colónia de formigas?
Será que não há nada que se possa fazer?

As crianças, especialmente as da "nata social", são mesmo o melhor do mundo...

Ontem, no pátio das Oficinas de São José, entre miúdos de classe alta, enquanto todos esperávamos pelo exame médico-desportivo, ouvia-se a seguinte conversa:

"Então, foste lá dentro? O que é que fizeram? Tiveste que mijar, não foi?"

"Tive, e o preto começou a por-me coisas no corpo. E a tocar-me."

"Não pôs luvas?"

"Não, pá. Foda-se, mas o gajo não me tocou, foi a sorte dele."

"Sim, se o preto me vai tocar, é bom que ponha as luvas!"

"A mim ele não me toca" - dizia um terceiro.

Sinceramente, é demasiado triste para merecer qualquer comentário adicional.

quinta-feira, outubro 12, 2006

"Don't worry about the future. Or worry, but know that worrying is as effective as trying to solve an algebra equation by chewing bubble gum.
The real troubles in your life are apt to be things that never crossed your worried mind, the kind that blindside you at 4 p.m. on some idle Tuesday."


Obrigado...
Agora e sempre.

quarta-feira, outubro 11, 2006

"It's women that's shaped like leaves, and men fall."

Robert Nelson Jacobs
"Look, I'm telling you right off the bat I'm high maintenance."

Charlie Kauffman
"I, like God, do not play with dice and do not believe in coincidence."

V.
Quando tanta gente se preocupa com os surtos de anorexia, e os efeitos da chamada pressão publicitária, existe o outro lado do problema. Um lado que deriva de um descuido intencional e despreocupado com a nossa metade de carne, tão importante como a outra. Afinal de contas, a saúde física acabará por toldar a mental, nem que seja por tolher a saúde.
Mas aqui parece existir mais tolerância.
Proibe-se e gritam-se impropérios (o que acho muitíssimo bem) ao excesso de magreza nas passerelles, e o desajustamento dos tamanhos nas lojas com o cidadão comum, mas ninguém espingarda em alto e bom som contra a obesidade, os hábitos alimentares estapafúrdios e a ausência de uma lógica de cuidado com o corpo. Se alguém não come, é visto como estranho, desviante, mas o gajo que enfarda os hamburgueres com maionese e os bolos de creme é "um bem disposto", mas no fundo é tão desviante como o outro.
E os problemas para a saúde são os que se vêm, em ambos os extremos do problema. Nada que exercício e algum cuidado consigo mesmo não resulte. Mas...
Ah, e tomar o café com adoçante depois de enfardar três pratos de cozido se calhar não é a solução.
"O Reino Unido está a braços com os números mais preocupantes: dois terços dos homens e quase 60 por cento das mulheres têm excesso de peso e cerca de um terço das crianças com menos de onze anos terão o mesmo problema ou serão obesos até 2010.
(...)
Outro dos focos de preocupação são as crianças. O objectivo, fixado em 2004, de conter a taxa de obesidade entre as crianças, não parece estar a ser atingido. A Fundação Britânica do Coração, (BHF na sigla inglesa), lança o alerta: uma em cada duas crianças britânicas consome o equivalente a cinco litros de óleo de cozinha por ano apenas pelo seu consumo regular de batatas fritas de pacote. Perante estes dados, a BHF está a promover uma campanha de sensibilização que consta de uma fotografia de uma menina a beber óleo culinário de uma garrafa, com a legenda: "O que entra nas batatas fritas entra em ti".
No Público de hoje.
O fabuloso "Shipping News" da Annie Proulx finalmente viu a luz do dia na língua de Camões.
Só 12 anos depois de ter ganho o Pullitzer e a propósito de uma short-story acerca de amor (homossexual por acaso) que deu brado.
Depois das biografias da Mónica das Delirium, do Frota, dos glicodoces do Nicholas Sparks...
E Viva Portugal!!!!
Os condicionamentos culturais são uma realidade.
É verdade que as coisas estão a mudar, e aprestam-se a mudar cada vez mais, mas os ecos das normalidades e lógicas de vida ancestral ainda têm uma repercussão clara nos modos de vida. Há uma tal proliferação de "planos" para a vida que mais parecem uma espécie de manual de instruções para a vida prática, dividido em etapas/momentos.
Há um plano. Há uma espécie de procedimento correcto, uma praxis assente nos momentos a que temos de chegar e pronto, lá ficamos.
Temos de ter uma família.
Temos de ter sucesso.
Temos de deixar certas práticas porque o momentos de vida é outro.
É o plano, e a sua tirania está imbuida de um discurso conformador que por vezes chega ao segregacionismo.
Aparecem as tiradas da responsabilidade, que surgem no discurso como um grande fardo, uma espécie de cruz a carregar. Mas deitá-la para o chão, colocar-lhe uma rodas e torná-la assim mais fácil de carregar, é impensável. Porque caraças, sai fora do plano. Da lógica das coisinhas certas nos momentos determinados que muita gente confunde com crescer. (*)
E depois surgem os discursos motivadores à mudança, mas há uma espécie de estranheza e ressentimento supostamente subtil perante outras alternativas. No fundo, alguns d s propaladores da mudança também soltam as suas arrochadas a um status quo diferente.
Se a gaja tem namorado, mas até sai à noite de quando em vez com os amigos, é uma solta que não cresceu. Se tiver filhos, e, pasme-se, os deixar com os pais, sogros, ou ama, é porque não cuida o suficiente, e sinceramente-que-raio-de-mulher-é-aquela.
Se o gajo pratica desporto em vez de estar em casinha todos os dias à hora do telejornal, é porque se está a cagar para a família. Se tem um hobby, que pode ir desde ser trekkie a fazer provas de orientação em Fornos de Algodres ao fim de semana, é porque o gajo ainda não cresceu. Homem adulto vê a bola, vai aos churrascos e trabalha, porque tudo o resto são "meninices" que um dia têm de ir.
Ora, isto pode parecer quase anedótico, mas no meu meio social, e provavelmente no vosso, se se esforçarem, encontram ecos destas coisas, deste chamado plano da maioridade que, sinceramente, tem instruções para tudo, desde arrumação de casas ao socialmente correcto em termos de relações afectivas. E tudo isto parte da tal instalação do percurso social "aceite". Do que afinal de contas, é "normal" em cada suposta etapa da vida.
Só eu é que me assusto com isto?
Lá está.
Explicado.
Sim, porque os adultos não se assustam com nada, supostamente.
Seguem o Plano, e pronto.
(*) - Disclosure: Antes que venha a brigada do politicamente correcto dizer que muita gente tem de se preocupar em comer, e em batalhar para sobreviver todos os dias, eu esclareço que falo das pessoas que tendo alternativas para a vida da qual se queixam, do plano que talvez já não lhe sirva, preferem explicar a sua falta de entusiasmo por viver com o discurso da "responsabilidade", ou da suposta "maturidade" - ok, esclarecidos? Falo dos seguidores volitivos do "Plano" - ok? óptimo, agradecido. )

segunda-feira, outubro 09, 2006

Não sei o que é mais irritante.
Se os conselhos da normalidade moribunda, se a alternativa opinadora de que o relativismo é absoluto.

sexta-feira, outubro 06, 2006


Conversas sérias connosco próprios:


HAD I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet,
Tread softly because you tread on my dreams

W.B. Yeats

quinta-feira, outubro 05, 2006

A ideia de liberdade pessoal assenta na convicção de que controlamos a nossa vida.
Que fazemos dela o que basicamente queremos, e que esses aspectos são apenas toldados pelos interesses que alternamos no seu curso. Que conseguimos
Mas a verdade é muito mais triste, incerta e complicada. Os detalhes são demasiados e as pulsões parecem por vezes ter vontade própria. São no fundo, os exilados da nossa própria forma de ser, que no entanto nunca negam a sua origem, e bem vistas as coisas, são os principais responsáveis pelas reviravoltas nas nossas histórias pessoais.
A vontade está lá, e até o corpo reage perante os seus desmandos. Bem vistas as coisas, as marcas do percurso toldam-nos na passada como um osso partido no passado e mal curado no presente. Devemos assim andar de uma certa forma, mas coxeamos, por mais que nos endireitemos. Os rastos são desiguais. E o mapa até à nossa identidade torna-se uma miriade de pistas mal engendradas, embora sempre cheias de um fundo de verdade.
Mas sente-se.
E embora a lógica possa quebrar-nos o coração, ele protesta. Manifesta-se. Até mesmo na nossa culpa, ele protesta, como fundo musical da nossa vergonha. Uma vergonha simples. Aquela que nos separa das opções fáceis. Claras. Concisas. Humanas.
A liberdade pessoal tem o custo dos recortes na pele. E ainda assim, exibimos esse mapa, e brilha lá no centro tudo o que queremos ofertar, ainda que não façamos a mínima ideia da forma de o fazer.
E a verdade tem uma péssima mania de fazer precisamente tudo o que não deveria.
Mas afinal de contas, como tudo o resto, é algo externo à liberdade, embora como todas as coisas insunbstanciais e poderosas, acaba por controlá-la.
O que nos safa é a possibilidade de mudança. A inevitabilidade da realidade móvel, e sempre, mas sempre inconstante.

quarta-feira, outubro 04, 2006

É vox populi que a fidelidade masculina é muito mais volúvel e quebradiça que a feminina.
Pois eu discordo veementemente. É a violação da mesma que é menos discreta, mas não julgo que o género tenha assim tantas diferenças como isso. A génese do comportamento pode diferir, mas achar que as mulheres não traem só pode ter duas explicações.
Ou os ouvintes não têm amigas que confessam aquilo que pareceia improvável e quase quimérico, mas que aconteceu com aquele tipo lá do escritório que a sabe ouvir e tem um corpo que não é de se deitar fora, ou então simplesmente inseriram e soldaram um chip produtor de histórias antigas, o qual ainda giram em torno do Pai Natal, o Coelho da Páscoa e as mulheres absolutamente fiéis.
A infidelidade é um comportamento que corta a direito através dos conceiitos de género, e afecta a todos.
Simplesmente aquilo que pode estar ou não na génese é que difere. São os motivos que podem ter explicação genética (que o têm), mas essencialmente cultural, e em muitos casos são produto de uma predisposição ou vivências.
Os problemas da relação, se a pessoa a tiver, obviamente aceleram esse processo. Há quem vá buscar fora para refrescar dentro e dar uma espécie de impulso "turbinado" à relação que já andava sem medidor de massa de ar. Embora me custe muito admitir isto, existem casos em que a produção de insegurança leva a inércia a explodir e a iniciativa começa a tirar a água do barco nem que seja a baldes.
Há quem vá mais longe, e temos os fenómenos de troca-troca tão em voga, que a mim, pessoalmente, me parecem uma confusão de alhos com bugalhos, porque a origem da infidelidade, em alguns casos relatados, está na necessidade criação do risco, da adrenalina da mentira, e até o mais herói dos heróis engolirá em seco se vir o namorada(o) e afins a arfar e gemer à guisa do esforço de outra pessoa, ali a dois metros de distância. A insegurança e a ideia de rendição do impensável é tal que creio que em muitos casos a coisa que parecia uma viagem ao mundo do original se torne numa novela mexicana enquanto o diabo esfrega um olho.
Homens e mulheres provavelmente cedem por motivos diferentes, ou não fosse a riqueza na diversidade aquilo que nos faz andar a perseguir todos uns aos outros, mas está a afunilar, e o "fuck and go" também já se feminilizou, e de que maneira. A pressão corporal atingiu o homem, e hoje em dia esse é um factor gerador de comportamentos que muitas vezes, e graças a uma habilidade e subtileza superiores, morrem mudos na memória da prevaricadora. E a inexistência de sentimentos mais profundos que não sejam uma atracção forte servem, em muitos casos, como uma espécie de apólice de seguro dos sentimentos e auto-desculpa para a escorregadela. E essa é uma realidade que não atinge somente os homens, mas começa a generalizar-se cada vez mais no mundo feminino. O crescimento da prostituição masculina de alto nível, e a quantidade de bilhetinhos que os dançarinos de strip têm no camarim no fim dos espectáculos provam isso mesmo.
No fundo a verdade acaba sempre por ser relevante, e a tentativa de honestidade aquilo que torna a lógica relacional o mais próxima daquilo que eu considero que deve ser. A criação de expectativas reais, possiveis e genuinas leva a pessoa a dar mesmo o máximo dentro desse conjunto, podendo em alguns casos chegar mesmo a completar a linha divisória, fechar o mundo lá fora, e arriscar o Amor.
Mas sinceramente, ninguém é santo. Nem homens, nem mulheres. Existem motivos e habilidades diferentes, e creio que existem igualmente homens e mulheres que conseguem afastar-se da rebaldaria da tentação por força de uma selecção emocional e inconsciente de prioridades, a qual ajuda a combater eficazmente a tentação.
Mas ela está lá sempre, e brinca connosco, talvez levando-nos em muitos casos a valorizar ainda mais o que cada um tem.
E desenganemo-nos, se esta menina os olhar duas vezes, ou este menino as olhar duas vezes, alguma coisa vai acontecer de certeza. Porque contra factos...

segunda-feira, outubro 02, 2006

"I know there's no way I can convince you this is not one of their tricks, but I don't care. I am me. My name is Valerie. I don't think I'll live much longer, and I wanted to tell someone about my life.
This is the only autobiography that I will ever write and God, I'm writing it on toilet paper. I was born in Nottingham in 1985. I don't remember much of those early years, but I do remember the rain. My grandmother owned a farm in Tottle Brook and she used to tell me that God was in the rain. I passed my 11 Plus and went to girls' grammar. It was at school that I met my first girlfriend. Her name was Sarah. It was her wrists. They were beautiful. I thought we would love each other forever. I remember our teacher telling us that it was an adolescent phase that people outgrew. Sarah did. I didn't.
In 2002, I fell in love with a girl named Christina. That year I came out to my parents. I couldn't have done it without Chris holding my hand. My father wouldn't look at me. He told me to go and never come back. My mother said nothing.
But I'd only told them the truth. Was that so selfish?
Our integrity sells for so little, but it is all we really have. It is the very last inch of us. But within that inch we are free.
(...)
It seems strange that my life should end in such a terrible place, but for three years I had roses and apologized to no one. I shall die here. Every inch of me shall perish. Every inch, but one. An inch. It is small and it is fragile and it is the only thing in the world worth having. We must never lose it or give it away. We must NEVER let them take it from us. I hope that whoever you are, you escape this place. I hope that the worlds turns, and that things get better. But what I hope most of all is that you understand what I mean when I tell you that, even though I do not know you, and even though I may never meet you, laugh with you, cry with you, or kiss you, I love you. With all my heart, I love you."
V For Vendetta - Valerie's Speech.
E semi-parafraseando o César Monteiro, , quero os críticos (que até o respeitam) se f....
Sabem lá eles o que senti neste pedaço de filme.
E sinceramente, acho que é para isso mesmo que a arte serve.
Para que num instante que seja, nos sintamos do tamanho do mundo, precisamente porque não mais o podemos conter cá dentro.
Porque alguém nos quis mostrar algo, e deixar esse algo contorcer cá dentro.
As memórias dos amores também podem ser intangíveis.
A arte é uma paixão sem posse... gosto eu de acreditar.


A solidão não necessita da ausência de companhia.
Só da auto-atribuição de responsabilidade.
Só podemos gostar daqueles que contra ela se batem, apesar de nós.
E resta saber se o merecemos.
Obrigado.
A subtileza é algo fantástico.
Quem a sabe manobrar, tem o condão simpático de fazer com que doa apenas uma vez, e depois deixa que se instale, como uma percepção apriorística.
São as subtilezas. Os instantes em que algo poderia ser dito, mas não é. Os silêncios intencionalmente casuais.
E percebe-se. Não sem alguma tristeza, mas é muito bom aprender a ler os sinais do descaso, e tratá-lo com a liberdade que exige para si. Aquele suave chega para lá, a mostra da ausência, a negação da iniciativa.
Perdemos pessoas e talvez saibamos muitas vezes porquê.
Mas nem sempre temos a benesse da subtileza, que nos poupa a uma despedida real.
Temos um espelho.
As cores do Outono são vermelho e cinzento...
Se bem que este vermelho é mais do calor...
Ontem dava para ir para a praia, numa altura onde já se deveriam começar a comer castanhas.



"One semester we took criminology for God's sake! Criminology! Who the fuck are we studying to be, Batman???"


Sou um fã absoluto do Kevin Smith.
Desde o primeiro "Clerks", passando por "Chasing Amy", o fantástico e estranhamente ternurento "Dogma", e agora este Clerks II, confesso-me um fã deste autor "indie", provavelmente "geek" de Banda Desenhada (confessou que fez tudo para entrar na filmagem de Daredevil - pena que o filme não tenha sido grande espingarda...) e capaz de escrever os mais espantosos diálogos.
Engenhoso a filmar o normal, o corriqueiro, as vidas de pessoas que dificilmente podem ir a qualquer lado, os idiotas com visão, a visão dos idiotas, enfim.
Genuino, honesto, e muito, mas muito engraçado.
Tem voz própria sem cair na caganeirice de alguns"auteurs"...