ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, novembro 30, 2006

Viva viva viva!
Portugal pariu o primeiro "audiobook" ou audio-livro na lingua materna.
Não é obra que tencione ler, é um facto, mas faz-me antever mais livros "contados", esperemos que por leitores com capacidade para a coisa e não debitadores de texto, e quem sabe, no futuro, alguém a capacidade do malogrado Frank Muller. Este senhor tinha uma voz, uma entoação e uma entrega ao material que está a "contar", que torna qualquer audio-livro numa viagem maravilhosa e envolvente. Aguardo umas "Vinhas da Ira" lidas, por exemplo, pelo Ruy de Carvalho, ou um "To Kill a Mockingbird" pelo Rui Mendes. Ou ainda qualquer coisa do Stephen King ou Edgar Allan Poe.
Deixei de ouvir rádio, excepto quando apanho o "Indigente" ou a "Hora do Lobo" há umas semanas. Audiobooks no carro até fazem quase desejar um bocado de engarrafamento, porque normalmente os artistas que lêem as obras, trazem algo ao de cima nas mesmas, e ajudam ao olhar interno, a ouvir quase que em eco a construção da nossa imaginação perante aquela história.
Viva o audiobook quando não podemos segurar as páginas, ou mesmo em alternativa.
Como disse o meu "amigo" Stephen King numa crónica:
They don't call it storytelling for nothing.


Sim, comprei este filme ontem, e gostaria (ou não) de dizer que era destinado à minha sobrinha ou qualquer outra criança.
Sim, amanhã vou andar aos pulos em volta de um simulacro artificial de árvore cheio de fitas e cores que seriam consideradas no mínimo excessivas em qualquer decoração.
Sim, comprei Ferreros, Bacci, amêndoas, nozes, amendoins, e espero ter mais alguma coisa em cima da mesa durante o mês de Dezembro.
Há vinho tinto e uns (poucos) queijos.
Sim, já andei na desenfreada demanda que alguns reputam de consumista em busca de algo especial para algumas pessoas. E com a mesma satisfação e sorriso de todos os anos, apesar da confusão dentro das lojas. E sim tenho a consciência tranquila porque esta é apenas mais uma ocasião na qual dou prendas aos que gosto.
Sim, já não tenho idade para isto, e vou ver pelo menos dois filmes de animação, bendito seja o cartão Medeia, mas divirto-me imenso.
As luzes aparecem cedo, pois os dias são curtos.
Há um travo a frio que finalmente aparece no ar.
Para mim a celebração da quadra começa amanhã.
E que Dezembro seja longo.
BORAT (ou como Putin parte ainda mais o verniz já duvidoso da "democracia" (riso contido) russa)

Ainda não vi o filme em casa, pelo que talvez este comentário seja prematuro. Ou não. Mas a ideia subjacente trouxe-me um pensamento ou dois acerca de algo que volta e meia volta ao bulício da discussão pública, veiculado geralmente por uma obra ou manifestação artística provocatória. A Rússia, esse país democrático ( ahahahahahaha, enfim, desculpem... lembrei-me ao mesmo tempo do Bernardino Soares que em pleno parlamento ponderou se a Coreia do Norte não seria uma democracia... ) proibiu a exibição do filme "Borat", num claríssimo exercício de censura que faz recordar (ainda mais) os tempos da cortina de ferro e da clausura de pensamento. Primeiro jornalistas assassinadas, depois espiões envenenados, e agora censura clara e inequívoca de obras consideradas provocatórias. E quando o Estado começa a meter os garfos nas concepções do que é ou não apropriado para os seus constituintes, bem, dá-me sempre uma coceira complicada na consciência e um arrepio de terror profundo. É como me dizerem que as liberdades cívicas nos EUA podem ser sacrificadas em nome da "segurança". Nunca gostei do "Grande Irmão", seja qual for o conceito a que se aplique, especialmente no que concerne a uma cambada de "iluminados pela força" que possam decidir o que é ou não apropriado para mim. Como disse, não vi o filme, e ao que parece, é ofensivo em toda a linha, embora crie aquele riso culpado que todas as coisas mais ou menos politicamente incorrectas nos provocam. Muitos jornais internacionais, especialmente anglófonos, chamam-lhe o filme mais engraçado do ano, e assim que tiver um tempinho, o meu cartão Medeia vai ser usado mais uma vez, ah pois é! Mas vamos lá tentar por algumas ideias em ordem, para ver as perspectivas em que as mesmas podem ser vistas:

1 - Quem tenha visto o "Southpark - complete and uncut", terá tido provavelmente a mesma sensação. Matt Stone e Trey Parker disparam a eito nesse filme, e quase ninguém é poupado. Uma relação gay entre Saddam Hussein e o Diabo é um dos momentos altos, e todas as comunidades, de judeus a "hillbillies", levam porrada de criar bicho. Resultado? Hilariedade geral, e embora de quando em vez nos perguntemos se deveríamos rir de certas coisas, o diafragma lá anda de cima para baixo, e a gargalhada aparece. E nessa altura, alguns vieram dizer de sua justiça, visivelmente ofendidos, mas a questão era a mesma. O humor por vezes pode ser selvagem, mas se for inteligente, dificilmente poderá justificar-se qualquer censura aos seus efeitos. Isto porque o mau gosto censura-se a si mesmo, julgo eu. Mas este filme tem um outro problema. A projecção internacional, e o facto de não ser em desenhos animados, fez com que alguns "democratas" (riso contido novamente) mostrassem a sua verdadeira cara, essa sim, digna de repugnância.

2 - Ainda relativamente a South Park, só o estúpido do Tom Cruise veio tentar impedir a transmissão de um episódio onde se gozava (compreensivelmente) com a Cientologia, o que vindo de um artista, que fez de T.J. Mackey (Magnólia) numa das mais conseguidas mas politicamente incorrectas personagens de sempre, é inadmissível e até mesmo pleno de uma traição aos níveis mais sagrados de integridade artística e consciência pessoal.

3 - Lembram-se do Pulp Fiction? Lembram-se da quantidade de (brilhantes) cenas que eram em si horríveis, mas que nos levavam à gargalhada selvagem? Recordam a cena em que John Travolta e Samuel L. Jackson vão no carro e acidentalmente rebentam com a cabeça do passageiro do banco traseiro porque alguém se esqueceu de accionar a trava de segurança na arma? Essa cena originou uma gargalhada colectiva no cinema onde estava, e eu era um dos que ria mais alto. Caraças, era horrível, mas a malta riu a bom rir.

4 - Alguém já contou ou ouviu uma anedota étnica, sobre deficientes, sobre o holocausto? E riram-se? Pois... é provável que sim.

5 - Evidentemente que todos temos telhados de vidro. E dando a outra face, é óbvio que por muito que possamos rir-nos de nós próprios, e devamos fazê-lo com a frequência desejável, não digo de forma nenhuma que o respeito pelas pessoas e suas convicções possa ser posta em causa de todas as formas. Não é tudo justificável. Mas o humor tem essa génese. Procura a perspectiva inteligente e engraçada de qualquer ideia, mesmo que por vezes possa parecer incómodo. Caraças, o melhor período do Herman José foi o seu período mais "incorrecto", o qual deixou profundas saudades. O “Allô Allô” goza com um período negro da história da humanidade, e ninguém se queixa, e por aí fora. (Para quando uma série paralela a falar do grande terror stalinista?) E os exemplos são imensos.

6 - Também é justo perguntar se algo parecido fosse feito a uma consciência colectiva de nação ou religião, por exemplo, suscitaria ou não este tipo de reacção. Em países onde o Creacionismo inacreditavelmente põe em causa a teoria da evolução das espécies, um filme paralelo em gozo e audácia no âmbito da Igreja provavelmente lançaria autos de fé conceptuais pelos quatro cantos do globo.

7 - Aplicando isto ao Corão, é bom nem falar... As caricaturas de Maomé deram o que deram, e o discurso do Ratzinger também, portanto, tolerância e sentido de humor é algo que certa parte do Islão não tem definitivamente. Argumentar onde não há racionalidade mínima, é escusado.

8- Em suma, seja o filme ofensivo ou não, a verdade é que as manifestações de censura a mim agastam-me, especialmente no que diz respeito ao humor, mas aceito que hajam alguns limites para a expressão artística, como haverão para tudo, julgo eu. Mas deve ter-se muito cuidado ao traçá-los, e sobretudo, nunca decidir pelas consciências, mas deixar decidir conscientemente. E antes gozar com algo do que incitar à violência, ao desrespeito e maus-tratos à liberdade e integridade humana em nome desse mesmo algo.

Por isso, e tudo e mais alguma coisa, vou ver o filme. Mesmo que não goste, não julgo que a censura tenha por si mesma qualquer justificação. Embora, e tenho de admitir, tudo o que incite com seriedade à violência, à crueldade e à limitação injustificada dos direitos humanos deva ser muito bem analisada. Facções neonazis, Ku Klux Klan, subjugação e negação de direitos sociais a minorias étnicas, politicas ou de género, não tem humor. Tem uma intenção clara de denegar direitos fundamentais, e embora lhes reconheça um direito de manifestação, não tenho problemas alguns em denegar acção política concreta em associações que incitem a estes actos, como criação de partidos políticos nazis, por exemplo. Não sou tão politicamente incorrecto como gostaria, talvez.... Mas lá está, todos já contámos anedotas de negros, de alentejanos, piadas sexistas, etc.... São, em meu ver, coisas bem diferentes. Portanto, vou ver o filme. Tenho direito a pensar pela minha cabeça.
Felizmente!

quarta-feira, novembro 29, 2006

De todas as medidas governamentais estúpidas, o fim dos benefícios fiscais concedidos às pessoas com deficiência consegue bater recordes inimagináveis. Já não basta as dificuldades de empregabilidade, a total ausência de acessos adaptados às necessidades em quase tudo, desde transportes públicos a locais públicos de lazer ou trabalho.
Mas qual será a justificação? Significará esta medida um incremento de receita tão grande ao orçamento de estado? Se sim, confesso a ignorância e até agradeço esclarecimentos que, até à data, nunc surgiram senão em retórica pseudo-técnica que bem espremida nao produz nem duas gotas de sumo coerente.

terça-feira, novembro 28, 2006




" Come to me in my dreams, and then
By day I shall be well again!
For so the night will more than pay
The hopeless longing of the day.

Come, as thou cam'st a thousand times,
A messenger from radiant climes,
And smile on thy new world, and be
As kind to others as to me! "
Matthew Arnold
É um instante.
Um instante rápido. Se for a ver bem, nada se passa. É apenas um instante. mas onde se vê tudo. Se os olhos estão fechados, parece que não há portal para perceber nada. E no entanto, num instante de paz está lá tudo. Tanto do escondido, muito do revelado, algo da necessidade de intuição.
Mas se for a ver bem, isso já era feito. Acordada, sempre na primeira onda do mar de fogo, de pés bem assentes no peso da própria capacidade de arder em si mesma.
Escarneceadora do medo, acha-se em mil toques, na percepção do poder que lhe escapa, como o fogo que não sabe que queima mas existe, na plenitude da energia, da única luz.
Pois se o sol assim se define, e arde no vermelho,
como é que o vermelho não poderia escorrer de ti?
Em certa medida, por vezes dão-nos a oportunidade de entrar num mundo, e perceber que na multiplicidade de confusões deste, são sempre as mesmas coisas que nos impelem a contorná-lo com o olhar interno. A dentada conceptual mancha-se do sangue do intangível, e envergonha-me por vezes na planicie deserta do meu pragmatismo, como uma espécie de nudez em campo demasiado aberto.
Por isso, queimas porque a luz não pode deixar de ser o que é.
Mesmo quando aparentemente muda de lado na esfera da terra, onde a distância, ainda assim, não consegue nunca mudar a tua cor.
Vermelho porque não podes nem sabes ser outra coisa.
Coisa que queima.
Mesmo de olhos fechados.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Podemos sempre relativizar os problemas.
Há sempre forma de ver que alguém está pior que nós, que qualquer espécie de queixume ou fraqueza pode deixar as pessoas fragilizadas e com genuinas questões relativamente á sua dor pessoal.
Esse relativismo lança as pessoas num dualismo difícil de combater, especialmente quando reflectido na atitude dos circundantes, sejam eles próximos ou não. E isso porque a atitude genérica deambula normalmente entre a desprocupação supostamente bem intencionada, ou, quando o estrago é já grande e perigoso, uma azáfama alarmada feita de compensação ou remédio.
A dor pessoal, perdoem-me a enorme redundância, é isso mesmo. Pessoal. Está algures encalacrada no emaranhado emocional que cada um representa para si mesmo, e embora seja possível relativizá-la um pouco, é sempre complicado chegar à conclusão que ela é invisivel ou despicienda.
Aquilo que é importante para alguém num dado momento, que pode não ter uma explicação lógica e escorreita, mas sim fundações na aproximação mais básica a todas a variáveis da vida, passa, a mais das vezes, despercebido. É como um membro forçada e injustamente incógnito da multidão interna que forma uma personalidade. E numa multidão, a tendência para a dispersão é enorme, como qualquer senso comum o saberá.
No entanto julgo que é fundamental prestar alguma atenção a esses silêncios. É necessário confortar os seus portadores no sentido de lhes dar a entender que por vezes a relativização não é possível, e que saber que meio mundo está bem pior que nós nao conforta de forma alguma. Talvez seja necessário um par de palavras, nem que seja para assegurar que reconhecemos a divisão escura da casa própria onde se encontram, e que trazemos uma pequena vela. Essa luz, por mais inutil que seja, fará com certeza uma grande diferença em meio à escuridão da ausência nem sempre explicável. Ou pelo menos assim gosto de pensar. Trata-se de aceitar que essas pessoas se possam desculpar, ou verter-se um par de vezes em maravilhosos disparates que podem constituir o que de mais precioso é possível obter de alguém. É aí, em meu ver, que alguém corre o tremendo risco de se dar a conhecer, pelo menos em regiões de si mesmo que são tudo menos inócuas. Para os próprios, entenda-se.
No fundo, é evidente que alguém está sempre pior do que nós. E que é realmente humana a tendência para encher o copo até meio e tentar usar a energia da dor em proactividade na experiencia sensorial mais apurada da vida. (A música, por exemplo, sabe melhor nessas alturas.) Mas essa proactividade não deve precludir a ideia de que há dores que são de respeitar, dúvidas que há que tentar entender, e disparates internos que não se conseguem acarinhar.
O excesso de desdramatização confundido com boa intenção pode levar a que as pessoas se protejam cada vez mais, secando aquilo que deveria verter para fora, como uma fonte de corrente a pedido. Sinceramente, acho que a proximidade entre as pessoas depende disso, porque a intimidade genesíaca de qualquer laço impõe uma aceitação do parcialmente inexplicável como móbil do maravilhamento por outrem.
E o reconhecimento que vem silencia qualquer definição, porque os visados acabam por entregar a "segunda parte" daquilo que os constitui. Como alguém mais iluminado, e esperamos nós, melhor situado na alternatividade necessária da felicidade simples que todos temos de fazer por ter direito.
É acarinhando o invísivel que ele se materializa, acho eu. Porque tem matéria, e cedo ou tarde, é o que separa os rostos da multidão das poucas vozes que realmente nos escolhem.


Esta menina é também um caso sério.
Homens com sangue, tremei perante esta voz se ela alguma vez vos sussurrasse ao ouvido...


Love and communication you were here for me
At this very moment 'cause I found you on the phone
You called me
And you were not hunting me

Learning more and more about less and less and less
On the edge of your seat in some dark movie
Can you memorize the scenes
They'll be different next week
Can you tell me can you tell can you tell
If there's something better
'Cause you know there always is
There always is

Drawn to the party like a spider filling up your guts
Don't hate the night with what you shouldn't have
Come along for the ride you just know you should
You just know you should
Can you tell can you tell can you tell
If there's something better
'Cause you know there always is
There always is

Hated to see you sad when I left
There's no good in that but the good part was
That I came out at all 'cause I don't venture out
Into the lives of the new
I want you to come along for the ride
How long will you stay for your whole life
You just know you should
Can you tell me can you tell me can you tell
if there's something better
'Cause you know there always is
There always is

Love and communication you were here for me
At this very moment 'cause I found you on the phone
You called me
And you were not hunting me.


Cat Power - "Love and Communication"

sexta-feira, novembro 24, 2006



Este vídeo é engraçado. Ok, a música e a linguagem conceptual presente, na minha modesta opinião, são primárias e não me agradam, mas mesmo abrindo espaço para a subjectividade estética necessária, a premissa da música, vídeo e letra é, no mínimo, incongruente e roça a estupidez.
Além da letra "inspirada" (quando falta a rima ou há pudor fala-se em asma, pois as cantoras estão sempre ha ha ha ou coisa parecida), há a ideia base. As meninas queixam-se que os rapazes só olham para elas com um intuito, para o "ha ha ha" (que será? Posso pensar em várias coisas, e é a primeira vez que vejo esta designação para qualquer uma delas...), e que assim não pode ser. O rapaz confessa-se perplexo ao verificar que apesar de tomar consciência da moça com tantos miolos (a verdadeira piada do vídeo) só lhe consegue para, lá está, o ha ha ha.
Além de ser uma ideia estúpida, sexista e inexacta, já que as mulheres olham quase tanto para o "ha ha ha" como os homens, (embora os detalhes possam ser diferentes nos destinatários da observação), o vídeo é composto por seis gajas podres de boas, que dançam com a habilidade e ritmo natural que escola alguma ensina. Uma delas anda à volta do rapaz, numa dança que faria o mais eunuco dos criados da Cleópatra tomar uma atitude, a queixar-se com um sorriso profundamente sexual que ele e os seus congéneres só lhe olham para o "ha ha ha" e coisa e tal.
Ou seja, o veículo da mensagem são mulheres que projectam uma tal imagem sexual que provavelmente se lhes pegou como imagem de marca, (porra, até a Nelly furtado com aqueles olhos de carneiro mal morto anda agora a mostrar os ilíacos e a habilidade para mexer o cu. Sexo vende. E pronto.) que agem no sentido de potenciar esse "sexual allure", e depois veiculam a mensagem de que é muito chato ser podre de boa porque os rapazes são unidireccionados.
Well, fucking duuhhh!!!!
Ora, onde é que está o erro?
A faixa etária feminina mais vulnerável a este discurso, vê as gajas boas, raciocina por a + b e acha então que é aquilo e só aquilo que os rapazes querem, caga na mensagem politicamente correcta transmitida com uma inépcia própria de um oligofrénico, e a pressão física cresce. No fundo, não se transmite a ideia saudável de que o desejável ou desejado é ter algo de bom dos dois mundos, e sim uma ténue e hipócrita imagem onde "sex symbols" reclamam contra a objectificação de que são alvos, embora seja esta o seu ganha-pão e iconografia vencedora.
Tenham paciência!
(Mais vale ver o vídeo e admitir que, pelo menos para muitos rapazes, naquele vídeo é impossível não ver o "ha ha ha ha". É só mesmo o que há para ver, que diabo!)
A incompatibilização entre as pessoas foi sempre coisa que me deixou perplexo. Que diabo, claro que não temos de gostar de toda a gente, e as diferenças são até cultivadas, ou deveriam ser, até um certo ponto como elemento de diversidade.
Mas aquilo que não entendo é a embirração. Esta pode nascer de personalidades fortes e contrárias, e de argumentação que se esgota de parte a parte ficando apenas a massa emocional a funcionar - e sabemos o que isso faz à racionalidade. Mas não é disso que falo. É da embirração simples. Da escolha de detalhes mínimos para formar um juízo de desagrado. Da pungência do trato para afastar. Da aceitação de todas as oposições, mesmo e especialmente as mais pequenitas, para formular uma resistência.

Claro que todos já embirrámos com alguém sem saber muito bem porquê. É tão inevitável como qualquer outra forma de paixão. Mas talvez essa seja a excepção. Se as pessoas embirram, gosto de pensar que pelo menos têm motivos de peso para o fazer para além da falta de perfeito encaixe entre empatias. Mas não é isso que verifico. A malta defende o seu território, muitas vezes sem discutir ou perguntar algo que seja dos motivos alheios.

O culto do clubismo ou bairrismo comportamental talvez tenha a ver com a nossa tendência gregária, mas sinceramente, qualquer um daqueles adjectivos, quando levado ao limite, é tão autista e estupidificante como qualquer outra forma preconceituosa de estabelecer limites. Por trás de uma máscara de tolerância, pode muitas vezes esconder-se uma espécie de descaso genérico, ou seja, "fode-te para aí sozinho que ninguém te atrapalha, asseguro-te!"

Há algo de pernicioso numa das espécies de aparente respeito total pela diversidade. Porque nessa espécie, não há respeito que leva à agregação da diferença, mas um descaso total onde as pessoas são fechadas do lado de fora, com a mochila da sua diferença cravada nas costas. Onde se confessa tolerância, há apenas um desejo de afastamento pela diferença, no qual o relativismo das atitudes recíprocas assume proporções de uma quase indiferença. Sinceramente, isso assusta-me um bocadito.

É por estas e outras que não entendo a embirração, porque ela também pode assumir este formato. É como negar a rega a uma planta frágil porque o regador não é adequado ao vaso ou terra específica. Tudo porque na aparente “pax romana” do respeito pela diversidade, está apenas uma ordem de soltura que em muitos casos não significa senão descaso e desinteresse.

O que me parece triste.



Jurei a mim mesmo que nunca chegaria a este tipo de discurso.
O discurso dos pretensos jarretas, que cuspiam nostalgia e um certo lamento pelo estado de algumas coisas nos dias correntes.
Mas dei por mim a pensar em algo que parece disparatado, mas que não é experienciado pelos mais jovens hoje em dia, a não ser que tenham um prato ou um vídeo, ao invés de um leitor de cd e dvd caseiro, que normalmente até vêm juntos ou embutidos na mesma caixa metálica ou plástica.
Dei por mim a pensar, muito miúdo, nos LP que colocava no prato, junto com amigos, e no facto de acelerar a velocidade de rotação para 78 rotações, fazendo com que clássicos como o Stairway to Heaven ou Smoke on the Water ou mesmo o Iron Man parecessem retirados de um desenho animado do Tico e Teco. As vozes aceleravam, ganhando uma sonoridade própria de alguém que tivesse acabado de inalar hélio, e a gargalhada era generalizada. O Robert Plant mais parecia um esquilo cheio de speed, assim como todos os outros. Hilariante. E ainda hoje sorrio a pensar nisso.
Além disso, existiam os vídeos, e colocar aqueles filmes (que nunca vi, mas que passam a vida a contar-me que existem, como os do canal 18) em fast forward, ou em rewind, e rir a bom rir com o correspondente às vozes de esquilo, mas em movimentos silenciosos e tão rápidos que, a serem reais, causariam lesões consideráveis nos intervenientes.
É engraçado o que guardamos na mente. Sinceramente, o mais difícil de explicar a algumas pessoas são precisamente os disparates que nos ficam na cabeça e nos confortam durante a passagem dos anos. Raramente fazem sentido, acho eu, mas são preciosos. Ficam. Vá lá saber-se porquê, mas ficam e deixam uma estranha saudade.
E mais inexplicável ainda é pensar que algum miúdo se divertiria com isto, mas ocorreu-me que como esta, existem algumas coisas que a tecnologia deixou para trás, e que eram efectivamente momentos que fazem algumas histórias, por mais inconsequentes ou pequenas que pareçam.
E além disso, os discos de vinil soam invariavelmente melhor.
Sempre. Com vozes de esquilo, ou não.

quarta-feira, novembro 22, 2006



Ao almoço falava com amigos a propósito de uma reportagem televisiva, na qual se falava do sadomasoquismo.

Sendo de costela francamente liberal no que diz respeito ao que cada um acha satisfatório na sua intimidade, desde que não magoe ou ponha em causa a integridade e direitos de outros, por mim é-me indiferente se alguém gosta de ter sexo com uma alface ou ser pisoteado por botas de saltos aguçados. Se os faz felizes, meus amigos, divirtam-se. O seu a cada um, e ver pessoas felizes faz-me à alma, sinceramente.

Opinião muito pessoal, não consigo conceber na minha (provavelmente pequena) mente, o prazer derivado da humilhação e dor, quer causadas quer infligidas, mas nesta, como em várias outras coisas, importa é sentir, e essas pessoas sentem claramente prazer no acolhimento ou dispensa de sevícias. Como é que alguém consegue extrair prazer de vários pontapés bem assentes nos tomates com botas bicudas, é algo que me ultrapassa. Para quem goza desta forma, o que eu julgo ou não é irrelevante, mas a curiosidade leva-me sempre a tentar entender os mecanismos de formação da vontade, e daí esta ideia.

No entanto, há algo no sadismo implícito que se torna mais turvo na minha cabeça. A ideia de que alguém inflija dor, por vezes até considerável, a outrem, e retire prazer disso, faz-me alguma confusão. Claro que poderá existir o argumento de que o agressor, ao infligir dor, está realmente a prover prazer ao agredido, por sua vontade. Mas a verdade é que os actos são de agressão, de humilhação, de produção de dor noutra pessoa, e fazê-lo com total sangue frio leva-me a pensar com um certo arrepio na facilidade com que, por exemplo, uma Dominatrix pode esfacelar umas costas ou um rabo com um sorriso na face.

Entenda-se que não faço qualquer juízo moral, mas questiono-me quanto ao impulso, e à facilidade que, mesmo com consentimento, se consegue extrair prazer do facto de magoar outras pessoas de forma deliberada e até mesmo requintada. É toda uma intencionalidade levada a cabo no sentido de proporcionar prazer, certo, mas através de actos que objectivamente (?) são violentos. Isso equivale a dizer que as pessoas são necessariamente violentas? Claro que não. Mas que parecem ser capazes de actos de violência reiterada com uma certa facilidade que me desarma, lá isso parecem. Não tenho uma opinião muito escorreita sobre isso. Acho que, em ultima análise, a facilidade da violência assusta-me sempre um pouco.

Penso nisto como uma pessoa de opiniões subjectivas colocada perante a situação, e concluo assim. Há ali algo que não computa na minha lógica e relação de causa efeito no âmbito do relacionamento sexual e (ainda que minimamente) afectivo. A agressividade e o nível de "violência" estão sempre presentes da gana sexual, mas naquele universo há um prazer na verificação da dor em si, dor real, muitas vezes daquela que deixa marcas, e confesso que para esse peditório, não contribuo.
E será que há ali algo de sexual, ou estamos a falar numa categoria de prazer completamente à parte? Ignorante me confesso e logo pergunto.

No entanto, em nada contrapõe o que disse acima.
Desde que as pessoas se divirtam e não magoem ou vexem outros no processo (contra sua vontade - neste contexto), acho que tudo é válido para que as pessoas se sintam bem e felizes.

E no fundo tenho de confessar que o couro ou napa preta dão assim umas ideias engraçadas, mas fico-me por aí. Na ideia de agressividade sexual como a entendo (e bem necessária que ela é) não sou grande fã de sangue ou hematomas. Já outras coisas...







"Os teus amigos apunhalam-te pela frente."

Oscar Wilde.

Esta frase, dita de forma contextualizada num excelente filme que fui ver ao King com uma grande Amiga, suscitou-me uma ou duas ideias.
No fundo, prendem-se com o entendimento que tenho desta frase, e a forma como encaro as atitudes que são derivadas desse juízo de amizade. Como se torna insubstituível, importante, e decisivo no estabelecimento das poucas coisas que nos podem equilibrar na vida.
Desgraçado será aquele que julga que os amigos poderão apenas dar uma visão mitigada dos nossos erros e sublimada dos nossos triunfos. Iludidos e infelizes daqueles que contam apenas com a condescendência “pseudo-compreensiva” dos supostos reais amigos.
Os verdadeiros amigos fazem o que está escrito no título. Mas não entendo a frase no contexto que provavelmente o Wilde o proferiu. Entendo-o na linha daquela velha máxima que diz que por vezes para sermos bons e verdadeiros, temos de aparentar ser maus. E no fundo, não há maldade alguma. O apunhalamento serve apenas para pôr o sangue a correr, e fazer-nos entender que a verdadeira afeição e confiança prende-se com a capacidade que temos de não poupar as pessoas que amamos ao que julgamos e sentimos. No fundo, se poupamos os nossos Amigos à verdade, poupamo-los a tudo o que temos de genuíno, real, e precioso. No fundo, poupamo-los ao que de melhor temos, e eu, sinceramente, nunca desejaria isso. Acho que quem o deseja procura ter comodidades, não pessoas que delas gostem realmente.
A ideia é que não existem atalhos. A verdade, ainda que no plano da subjectividade, é por vezes agreste e afiada. E uma vez que se encosta à pele, a natureza das coisas não pode fazer com que não corte. O fio da navalha não faz distinções. Como a verdade, é o que é. E a confiança é a garantia da maior quantidade de verdade possível, ainda que seja humanamente impossível que aquela seja absoluta.
Portanto, se abro o peito àqueles de quem realmente gosto, aqueles em quem confio, aqueles nos quais detecto uma incondicionalidade própria dos fenómenos que mudam e constituem vidas, é precisamente porque a faca tem de entrar de quando em vez. E esta é feita da expressão conceptual da honestidade saída do afecto e da boa intenção que este gera constantemente.
As relações verdadeiras usam, por vezes, pouca ou nenhuma maquilhagem.
É a beleza que lhe construímos que a torna única, e aquela só se mantém se a verdade das expectativas e construções não for uma conveniência, mas uma realidade.
Por isso, agradeço à real noção de afecto, ainda que possa parecer afiado por vezes. E se achamos esse gume uma impossibilidade, então não julgo que estejamos preparados para qualquer coisa que seja de real, verdadeiro e significativo.
Seria tudo um saco de papel bonito, cheio de vácuo, de coisas que fazem pouca ou nenhuma diferença. Irrelevâncias com a aparência de vida.
Sinceramente, isso não me serviria. Nunca.
Prefiro um qualquer punhal e um beijo em seguida.

segunda-feira, novembro 20, 2006



Red Burning Fire...
Este blog vai passar a ter exclusivamente duas cores. O Branco, e o Vermelho, já que o Preto, como pano de fundo, é aplicável a muito mais coisas que apenas a utilidade como "background" ou papel virtual.
No fundo, é a cor que me constitui e identifica. Para onde tudo converge, sem se anular, mas renascendo, porque sou parte de um todo. E apenas uma matiz nunca basta.

E para alguns, esta afirmação diz tudo.
Espero.


Somos o que somos.
Independentemente da forma como nos alteram, ou como escolhemos alterar a nossa forma de estar, somos o que somos. E é nessa óptica que perseguimos cada objectivo, ou que damos cada passo tendente ao mesmo. Sendo como somos, não há forma de nos condicionarem os automatismos, mas sim, conquistar os mesmos na óptica do respeito pela identidade própria. A tentação para que possamos moldar alguns pormenores nos outros que são mais próximos, decorre de um paradoxo para o qual, pessoalmente, não tenho resposta. E porquê? Porque de alguma forma, foi essa combinação de elementos que tornou aquela pessoa fora do comum, e ao mesmo tempo, nessa amálgama, até os pretensos indesejados fazem parte do grande plano.
Sendo o que somos, vivemos como se torna possível, pelo caminho escolhido. A consciência permite ou não que se cortem esquinas, ou que se vivam as coisas da forma possível, mesmo que implique um trilhar doloroso e pouco confortável. Porque é a realidade que torna as coisas perenes, e nunca o contrário. Não podemos dar a mão a uma ilusão, mas a uma mão de carne, ainda que ela possa ter as unhas afiadas ou alguma sujidade de outros caminhos menos fáceis.
E é na persistência do que somos que podemos estar verdadeiramente perto de alguém. Seja de que forma for. Podemos evoluir, mas desejavelmente na intensificação do que julgamos correcto. Os caminhos que se trilham, as esquinas torneadas, são apenas a morfologia de um caminho que se pode tentar esconder, mas que está mapeado em cada cartaz colcado em cada parede desse caminho. Somos o que somos para todos. Mas somos ainda mais para aqueles que sabem realmente o que isso é.
Abraço-os porque eu sou eu. Insuportavelmente imperfeito, com o desejo de fazer mais. Mas fazê-lo como sou. Na minha pele. A única que pode dar um abraço como este, onde me identifico seja com quem for, porque o que me interessa realmente, é o conceito.
Aquele que dou, porque eu sou sempre eu.
Para o melhor, e o pior.

quinta-feira, novembro 16, 2006

segunda-feira, novembro 13, 2006

Se há coisa que me repugna especialmente, são situações como aquelas que são vividas pelos trabalhadores portugueses na Holanda, que graças a esquemas sórdidos e obscuros de empresas que deveriam ser imediatamente responsabilizadas criminalmente, estão numa situação de quase indigência.
Pessoas que acreditaram em alguém que se diz um profissional, que se dirigiram a um país estrangeiro para trabalhar, para poder melhorar de vida, e são confrontados com situações da mais pura canalhice e desonestidade profissional e humana.
E quando vejo este tipo de situações, começo a perguntar-me que razão terão os defensores da agilização económica a todo o custo. Como explicam isto aqueles que desejam eliminar as verificações reputadas de burocráticas, em nome da celeridade, incorrendo em riscos de total ausência de segurança e garantia de direitos fundamentais às pessoas que são desta forma enroladas no rolo compressor da ditadura economicista.
É o execrável mundo (nada) novo, realmente...

quinta-feira, novembro 09, 2006

O direito que damos a alguém para nos corroer as fundações, é como uma espécie de premissa ingénua. É como apostar num cavalo que deixará de mancar quando aquecer as articulações.
E irritamo-nos perante os efeitos da vulnerabilidade, porque ela afinal de contas foi esperada numa perspectiva de afago, mas surge como um utensílio esfolador.
Perante a carne viva, fica a surpresa. A fraqueza da tal ingenuidade, o peito aberto lascado em várias zonas, quando se tomaram espigões por jorros de água cálida.
E no entanto, há nessa moínha de exposição, um reflexo de fé que é tão belo como estúpido. Mas essencialmente belo, precisamente porque se reanima sem intervenção totalmente explicável, senão por uma boa fé na bondade intrinseca dos conceitos.
Esta pode ser uma operação mental perigosa, porque embora nos firme claramente o amor a uma certa visão de tudo, pode matar-nos no processo.
De todas as formas, mesmo aquelas que incluem batidas do coração por hábito, cansaço, ou apatia aplicada mesmo ao conceito de fim.

quarta-feira, novembro 08, 2006

A menina do clube do Rato Mickey vai divorciar-se.
Mas o mais curioso, é o facto de o futuro ex-marido ter sido alvo de constante chacota por todos os meios de comunicação social, por motivos que desconheço, e também pela expressão americana "diferenças irreconciliáveis".
Não são sempre?
E o truque não é dar-lhes a volta com a ilusão de vitória para os dois lados, para depois voltar à bulha e dar uma certa piada renovada às coisas?
Não serão assim as diferenças sempre reconciliáveis, porque voltar a elas é conhecer o outro?


O elogio da imperfeição não deveria ter este tipo de designação.
Eu opto pela apologia da diversidade. Como uma espécie de jogo de dardos onde a pontaria é fulcral, já que não acertar implica uma necessária e dolorosa punção.
As exigências são um elemento fulcral da nossa identificação perante os outros, e a nossa tentativa de evolução também acaba por ser a trilha de progressão que nos faz crescer perante o olhar alheio.
No entanto, nunca estamos preparados para ser ou parecer insuficientes. Especialmente perante situações em que a vulnerabilidade ofertada abre caminho para desbravamentos mais brutais. E estamos sempre no fio da lâmina empunhada por aqueles a quem damos o flanco. É chato "com'á" merda, aparentemente contraditório, e por vezes cria-nos a sensação de que a intimidade que dispensámos foi utilizada da pior forma.
Mas sejamos honestos e claros. A intimidade é como a pele nua, e se a lâmina encostar, acaba por cortar. Sem filtros, somos como patos sentados num campo de tiro.
É perante o acarinhar dos detalhes que vacilamos, e nunca podemos arguir que somos enganados. Todos sabemos que perante a abertura da porta, entram as visitas, mas também o vento cheio de pó ou os odores de uma urbanidade doente.
Mas é essa diversidade que deve ser bem gerida. É a procura das coisas importantes, aparentemente pouco visíveis, que faz a diferença. A dor pungente que se possa sentir perante aquilo que é desnudado por quem conhece a pele debaixo da roupa, é apenas uma consequência daquilo a que chamo a vivência dual. Estamos sempre sujeitos a levar um beijo ou uma bujarda nos cornos. No fundo, fecha-se os olhos e entra em acção o wishfull thinking. Se for a pensar bem, talvez seja essa a ilusão perfeita da proximidade entre pessoas, ou seja, que no rosto sejam mais visiveis as marcas dos lábios que dos nós dos dedos. A diversidade é essa tatuagem desenhadora desses efeitos contrários. E na compensação das tendências contrárias, reside o carimbo emocional dos poucos equilíbrios que ficam connosco, e nos constroem a cada passo da vida que, erroneamente, julgamos ser só nossa.
E eu farto-me de meter a pata na poça.

terça-feira, novembro 07, 2006

Ouvi no outro dia, e não faço mesmo a mínima ideia se a ideia é maioritária ou não, de que talvez não possamos ser gratos ao Amor. Ao sentido, ao recebido, ao partilhado. Talvez porque segundo essas pessoas, talvez estivéssemos então num plano obrigacional, e não da espontaneidade tão própria e característica de algo que se quer genuinamente sentido.
Faz sentido. De alguma forma a criação de uma vontade de dar prende-se com o descontrolo, maior ou menor, que é criado na nossa esfera pessoal pela acção de outrém. Essa acção, e a piada está aí, é própria muitas vezes de comportamentos desconhecidos pelo próprio, mas que criam, juntamente com as dádivas conscientes, um todo que nos torna ineficazes contra a sua acção.
Mas não estou bem certo que seja somente assim.
Acho sinceramente que podemos, e quem sabe, podemos ser gratos. Não gratos por educação ou obrigação, e muito menos por constrangimento. Gratos pela percepção dual da acção de outra pessoal. Agradecidos porque o Amor recebido, a atenção dispendida cria uma consciencia racional do Bem que nos é feito, somado ao descontrolo criado por elementos tão díspares como defeitos, virtudes e pancadas. Coisas que geram a reacção atractiva. Que isolam uns poucos em meio a um universo de pessoas.
Aliás, vou mais longe, mas aí o problema é mesmo meu.
Acho que em certa medida somos genericamente pouco gratos. Pouco conscientes de alguma sorte que por vezes temos em ter ganho a afeição de uns eleitos que nos escolhem, que nos querem por perto e que se riem dos nossos disparates e inconsistências. E tendo em conta o quão insuportáveis podemos ser a espaços, no meu caso pessoal, tenho de estar grato por sentir que essa parte é aturada, e espante-se, acarinhada. Embalada com uma desdramatização bem humorada, com gestos simples, com afeição surda mas vísivel.
Deveremos ser gratos?
Talvez sim. Em muito mais coisas, em muito mais formatos.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Árbitros. No meu caso pessoal, árbitros de basquetebol.
Uma corja execrável, comparável aos fiscais da EMEL, normalmente constituída
por teóricos do jogo, que nunca estiveram lá dentro, em competição, a levar castanhada da forte e feia, e que não têm qualquer noção da dinâmica dos contactos. Os que foram ex-jogadores têm uma postura e visão completamente diferente, como por exemplo se vê no caso do Tó Zé Coelho ou o Araújo (em dias bons), mas a grande maioria são de uma mediocridade que roça o anedótico.
Provocadores, autistas e completamente dissociados de uma postura pedagógica e de cooperação que todos em campo devem ter, exercem ali uma autoridadezinha mesquinha, sem respeito pelas outras pessoas. Chateiam-se a eles, e chateiam os outros, e ainda por cima, com a sua inacção, colocam a integridade física dos jogadores em risco.
Uma verdadeira vergonha, mas já instituida e aceite como comum pela Federação Portuguesa e Basquetebol. Algo que, a somar a tantas outras questões, contribui para o afastamento das pessoas dos espectáculos desportivos.
A falta de formação, de jeito e de respeito ou educação presente em tantos árbitros, como de resto também acontece no futebol, coloca as pessoas à margem do desporto, ou dá a péssima imagem de que um palhaço com um apito (ou alguma espécie de poder) pode fazer tudo sem sair minimamente penalizado ou sequer advertido.
É, como noutras coisas, o espelho de um certo país que temos...
Enfim...

quinta-feira, novembro 02, 2006



O último filme de Alfonso Cuaron, realizador responsável pelo surpreendente e tocante "Y Tu Mama Tambien", é um soco no estômago simultaneamente belo e assustador.
Toda a estética do filme (e o ambiente claustrofóbico e sujo) apontam para uma cor baça de desespero ou irreversibilidade, onde as pessoas perderam espaço para nada mais que um temor e tristeza crescente por um mundo que parece não ter qualquer remédio.
E o mais complicado é sair do filme e tentar colocá-lo na prateleira dos pesadelos, abrindo os olhos e ouvindo os miudos à volta à bulha pelas pipocas. Não é possível sacudí-lo. Ainda hoje tento, e as imagens estão lá.
É uma história de uma beleza e crueldade dilacerante. Quando o filme acabou, uma moça ao meu lado limpava as lágrimas dos olhos. E arrisco a dizer, pela expressão que tinha no rosto, que eram lágrimas de medo, de tristeza, de comoção, de reconhecimento de coisas tão comuns noutros momentos da história, já que os campos de extermínio não são novidade nenhuma no decurso daquela.
Clive Owen é, em meu ver, dos melhores actores no presente momento, e arranca uma interpretação contida, dura, fantástica. Não há nada de herói convencional, mas sim de pessoa que perante o desespero e o encurralamento, segue o único caminho possível. Michael Caine mostra-se mais uma vez um camaleão terrivelmente convincente, e todos os outros estão igualmente bem.
É um filme que tem tido pouquíssima divulgação, mas é um objecto de reflexão e emoção duro de engolir, simultaneamente belo e horrível. No entanto não descarta alguns dos melhores reflexos humanos, e é isso que, no meu modesto ver, o afasta de uma visão niilista (a qual normalmente não tem grande valor para mim).
Fala da esperança exactamente como um nascimento. Duro, doloroso, sanguinolento, sujo, mas também belo, espantoso e fortíssimo.
A ver, definitivamente...