ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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domingo, dezembro 31, 2006

Não poderia deixar o ano velho sem lhe dizer alguma coisa enquanto vive.
Foi, como de resto tem sido a minha vida desde 2004, um ano estranho, complicado, cheio, interessante e diferente.
No entanto, 2006 trouxe-me alguma consciência acerca da percepção que tenho das coisas, das pessoas, e do quão valioso pode ser o contributo daquilo que finalmente percebemos ser, face ao que tão generosamente algumas pessoas nos dão.
Este foi um ano de descobertas, de ganhos perenes e que trazem a paz própria das coisas belas e valiosas. Foi um ano de dádivas e perdas, de tristeza, confusão e cansaço, mas também de descoberta, bondade e generosidade.
Em 2006 percebi também que aquilo que somos, e que de alguma forma acho que deveriamos ser sempre, é apenas o melhor que pudermos. Sempre em esfoço, em evolução, no respeito e seio da afeição daqueles que a merecem, e fazendo por merecê-la.
Eu percebi aquilo que sou. Aquilo que nunca deixo de tentar fazer, sempre admirado com as coisas, boas ou más, que o tempo resolveu colocar no meu caminho. 2006 é um ano de percepção dos pecados e faltas, das lógicas menos boas, mas da tentativa de seguir sempre a noção de respeito pelo elementar, pelo precioso de cada pessoa.
Por isso, aproveito este ano para pedir uma profunda desculpa às falhas e faltas em que com certeza terei incorrido, e agradecer cada segundo de afeição sincera e verdadeira daqueles que adoro, e que fazem um enorme esforço por me dar algo que sinot não poder agradecer devidamente. Não na medida em que o fazem.
Por isso, 2006 findará hoje. Deixa sempre aquele sabor estranho de tempo que com certeza não se repete.
Mas quero desejar a todos um Feliz Ano Novo. Boa primeira passada em 2007.
E possam esses ser tempos interessantes.
Obrigado.

quinta-feira, dezembro 21, 2006



Tirando as pessoas que, por dor familiar/ pessoal ou falta de inserção social passam tempos ainda mais difíceis no Natal, sinceramente, começo a ficar um bocado cansado daquele discurso natalício de depressão e suposta denuncia esclarecida da corrida às lojas e partilha de tempo com família de quem se é menos próximo mas que se tem de aturar na mesma. Daquela conversa de quem afinal de contas esperava que esta quadra fosse uma espécie de revelação extra-sensorial dos verdadeiros motivos de uma qualquer aproximação entre as pessoas e não um suposto condicionalismo da lógica de vida em sociedade. Daquela prosápia de quem não gosta nada destes rituais mas depois simplesmente acentua a depressão na admissão de que o período de tempo nada mais faz que intensificar sentimentos complicados de solidão e alienação. Mas o que não gosto mesmo é de uma espécie de evangelização oposta, onde toda a gente é corrida à mesma avaliação de pobres patetas que se limitam a obedecer ao gatilho da época, como bonequinhos movidos a pilhas.
Essa generalização é idiota e injusta, e sobretudo precipitada.
As pessoas têm todo o direito e legitimidade em viver a quadra como entendem, e qualificá-la para si como acham melhor ou mais adequado.
Mas sinceramente, ou se calhar sou eu que tenho sorte, não faço ideia onde essas pessoas que até têm familia, amigos, entes queridos, um cão, seja lá o que for, passam a quadra. E sinceramente, se é assim tão penoso, há umas casitas em Vilarinho das Furnas, isoladas no meio da natureza, onde o tempo passa sem que se saiba o que há lá fora. Inscrevam-se já, mas apressem-se. No Ano Novo há muita malta nova que vai para lá embebedar-se e o chavascal é tremendo, mesmo no meio dos pinheiros.

Talvez eu tenha sorte, mas eu compro os meus presentes para quem gosto realmente. Recuso-me absolutamente a dar presentes de conveniencia. Mas a viagem em busca de algo para alguém de quem gosto realmente, é um prazer. Mesmo no meio da molhada (que sempre se pode evitar se a malta levantar o cu da cadeira e não deixar tudo para a ultima semana), ou do stress, ou da indecisão da escolha, ou do malabarismo da conta bancária, escolher algo com carinho para alguém é, para mim, um prazer. Aquece por dentro. Chegar a casa, embrulhar as ditas prendas, ouvir o Natal do Sinatra enquanto se escrevem algumas palavras sinceras num cartão, olhar para as luzes da árvore e sentir o brilho oposto à escuridão precoce lá fora, são, para mim, tudo fontes de prazer.

Jantar várias vezes com amigos, pois felizmente tenho vários grupos de pessoas com quem tenho o prazer de manter uma amizade viva, beber uns copos, rir, sentir que, à semelhança de outros jantares que se fazem durante o ano, este é apenas um pouco mais especial porque anda qualquer coisa no ar, é algo que me faz antecipar a época. Este ano não tive um único jantar onde não sentisse isso, talvez porque os meus jantares de Natal do trabalho são apenas feitos com Amigos, e não aquela espécie de filhos da puta que nos tramaram com o chefe e coisas do género.

Poder estar com o meu irmão, os meus pais, a minha sobrinha ( e por vezes um casal de tios já velhotes mas geniais), e ficar por aí porque a tradição é família nuclear e ponto final, enquanto se bebem uns copos valentes e se comem as mais variadas vitualhas. Existem os desenhos animados, e é claro, Dickens. Este ano pela 17ª vez, e no entanto parece sempre uma história nova, com um detalhe que não se viu na leitura anterior.

Dar um enorme beijo à namorada, ver-lhe os olhos arregalados com as coisas que me esfalfei por arranjar porque estive atento ao que ela ia cobiçando de tempos a tempos. Escrever-lhe. Vê-la sorrir.
Ter encontrado duas irmãs. Incondicionalidade e gargalhadas. Felicidade e real pertença.
Abraçar os meus amigos mais antigos amanhã e embebedar-me com eles, enquanto marcamos uma farra quase pós natalícia para a noite de 25.

Mas para além de tudo isto, sair à rua, ver as iluminações que trajam a cidade de gala, e até mesmo aquele foguetão imenso na Praça do Comércio. Perceber que toda a gente dá conta do que se está a passar, e que, condicionalismo social ou não, existem aqueles que se dão ao trabalho de amenizar um pouco mais as dores dos mais desfavorecidos nesta altura. Recordo afinal de contas, o que dizia o Dickens:

"At this festive season of the year, Mr. Scrooge," said the gentleman, taking up a pen, "it is more than usually desirable that we should make some slight provision for the Poor and Destitute, who suffer greatly at the present time. Many thousands are in want of common necessaries; hundreds of thousands are in want of common comforts, sir."
(...)
Under the impression that they scarcely furnish Christian cheer of mind or body to the multitude," returned the gentleman, "a few of us are endeavouring to raise a fund to buy the Poor some meat and drink and means of warmth. We choose this time, because it is a time, of all others, when Want is keenly felt, and Abundance rejoices. "

Perceber que nesta altura também há gente que festeja, que celebra, que aproveita esta altura apenas como mais um momento para dar graças ao facto de estarem vivos e numa situação que lhes permite escolher se querem saborear ou escarnecer da quadra.
Aceitar que muita gente poderá dizer "Humbug!!", mas outros simplesmente sorriem sem saber muito bem porquê, e que disso é feita a necessária alternatividade e diversidade de personalidades.


Por tudo isto, associado a algo de invisível que anda lá por minha casa e se faz sentir, aproveito para inverter o discurso suposta e legitimamente cínico, por escolha, mas injustamente generalizador, por pressupor que certa forma de magia simples, ainda que imaginada, está ausente de todas as cabeças.

Por isso, a quem tem dores e dificuldades reais nesta altura, o meu respeito e compreensão pelo facto desta ser uma quadra complicada, porque intensifica sentimentos de saudade e quejandos. Infelizmente sei o que é perder.

Mas a todos os outros cujo enquadramento não é este, passem o melhor Natal possível. Aproveitando tudo o que de bom pode haver, ou amuando a um canto perdidos de bêbados. Mas estes últimos não generalizem. "Humbug!" não é aplicável a todos, e as luzes coloridas iluminam de forma diferente quem escolhe vê-las à sua maneira. E sinceramente, já não há pachorra para o discurso da desilusão urbana face ao destroçar das pequenas magias.

Get a Life!

A todos aqueles que fazem desta quadra mais um instante em que posso dizer-lhes ainda um pouco mais a forma como é importante que cá estejam, e a todos os utilizadores compulsivos de boa vontade:

FELIZ
NATAL!!!!!!

segunda-feira, dezembro 18, 2006

E nos instantes em que percebemos que o tempo existe, ele pode arrastar-se vazio, ou zumbir veloz como o prelúdio de uma explosão.
O que é chato, é que na maioria dos casos, após uns passos dados para além da esquina, os primeiros momentos sobrepõem-se em muito aos segundos.
Há tempos não seria chato, mas triste.
E há quem diga que não há muitas definições de crescimento.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

"There are some people who want to throw their arms round you simply because it is Christmas; there are other people who want to strangle you simply because it is Christmas."

Robert Lynd
1892-1970 - American Sociology Author

Sinceramente, parecem-me manifestações do mesmo conceito. Amor ganho, amor perdido, algo invejado, alguém rendido.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

"There was much of the beautiful, much of the wanton, much of the bizarre, something of the terrible, and not a little of that which might have excited disgust."

E.A.Poe, falando de muito do infelizmente comum...

Existem certas coisas em nós próprios que se tornam complicadas de explicar. Pedaços de nós deixados num local que ecoa para o tempo presente no qual se vive.
São feitas de uma espécie de lealdade a elementos primitivos e internos. Como fios entrelaçados do tecido que nos constitui, não obstante os cortes e os rasgões feitos por mão própria ou alheia.
Essa lealdade leva-nos a fazer um compromisso com coisas que demos como assentes em dado momento da vida, como a inauguração de um comportamento ou uma forma de ser. Essa inauguração abre algo que assim fica indefinidamente, embora o conteúdo desse algo se possa transformar. Assenta na forma de ser, e em última instância, temos de lhe obedecer sempre que a necessidade o justificar. Como se deixassemos algo naquele instante, e a ele retornássemos, como um daqueles heróis de western que voltam à cidade berço para corrigir injustiças.
São esses momentos no tempo que nos fazem incondicionais e fiáveis para algumas (poucas) pessoas e situações. Tornamo-nos como que aquele porto pouco visitado, mas que é sempre seguro. Guardamos as pequenas maravilhas da afeição que motiva essa lealdade, e mordemos suavemente o sabor da surpresa ao acharmo-nos entregues e sem rancor.
Pode parecer algo de virtuoso ou feito de generosidade. Mas no fundo não o será totalmente. É feito de algo do qual simplesmente nos tornamos capazes, e que se efectiva com a graça e naturalidade que advém de todos os recortes cruciais da pessoa que se é. Como a orientação sexual ou o gosto por um determinado alimento. Como sentir a beleza da natureza com a clara consciência de que a entidade em causa até desconhece esse conceito.
É algo que temos de fazer, porque um dia nos tornámos assim.
Porque no fundo, acaba por ser profundamente humana a lógica que lhe está subjacente.
De algo que foi dado no momento, e se prolonga pela vivência da personalidade.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

O Sexo pode comprar-se.
A Intimidade só se ganha.
A Atracção é claramente siamesa do Afecto.
E o Amor poderá ou não ter alguma coisa a ver com isto.
A imaginação não é um luxo, mas uma sorte.
Afinal de contas, é ela que nos permite ver coisas onde as mesmas não existem, e argumentar furiosamente em favor da realidade concreta dessa intuição intelectual.
Acho que era o Kant que dizia que intui é lançar uma luz rápida sobre os conceitos e guardar na memória o máximo de detalhes que a breve iluminação permitiu ver.
A imaginação é uma espécie de prolongamento da percepção, permitindo que esta nos deixe reinventar os outros, trazendo-os para perto de nós, e mantendo-os durante mais tempo.
O Amor de nada vale sem imaginação.
Se bem que alguns confundem com delírio, e é aí que os problemas começam.
Quando começamos a ver detalhes e argumentos adultos, onde eles nem sequer foram concebidos.
E depois há o vermelho.
Onde a imaginação desenha muitas coisas.
Devido a uma enchente de trabalho, aulas, treinos, jantares de Natal, e demais assuntos relacionados com a quadra, a produção tem sido incipiente. Bem sei que muitos esfregam as mãos a esta altura, ansiosos pela continuidade da paragem, mas há uma ou outra coisa que me suscitou comentário. E prende-se com a única altura em que vejo televisão, ou seja, normalmente a partir das onze e meia, meia-noite. E a panorâmica é, na produção nacional, assustadora.
No outro dia, os meus pais, generosamente como é seu hábito e minha sorte, convidaram-me para jantar lá em casa depois do treino. Sentado à mesa de casa dos meus pais por volta das dez e meia onze horas, ouço o que a televisão da cozinha vomita em catadupa, e ouvi a mais asinina metáfora dos últimos tempos numa das (argh) novelas. Vou transcrever porque é tão pobre, tão idiota e sem sentido, que me ficou gravado. A memória nem sempre é amiga, e há coisas que preferiríamos esquecer, mas enfim.
"Então o que vais fazer?"
"Bem, se os vietnamitas expulsaram os americanos, e os Taliban fizeram o mesmo com os russos, vou lutar. Lutar pelo amor (já não sei de quem)."
Jesus, Santa Maria!!! O que se passa com estes argumentistas? Há assim uma crise de qualidade tão grande que petardos de inanidade mental como este sejam publicamente dispostos perante toda a gente? Mas que raio de escritor de argumentos é este? Estava bêbado? Pedrado? Ouviu o CD inteiro do Graciano Saga?
Chocado e traumatizado, afundo os olhos na revista que está em cima da mesa e tento comer, anulando qualquer ruído exterior.
Acabo de jantar, converso um bocadito com a minha mãe, dou-lhe um beijinho, e abalo.
Casa. Onze da noite.
Roupa do treino no cesto da roupa suja, dentes lavados e cama.
Livro - excelente biografia do mestre Hitchcock - até que os olhos começam a pesar do dia que já teve trabalho e aulas para além do treino.
Televisão. É perto da meia noite, ou já é meia noite.
Zapping.
Série da SIC onde a malta não faz mais nada senão esfregar-se de manhã à noite, com especial ênfase num tipo com ar de cretino engraçadinho que, a cada passagem pelo canal, come uma amiga diferente, que supostamente são casadas com os amigos dele.
Mas a “piece de resistance” foi um diálogo à porta onde esse tal Don Juan tem uma conversa que nem aos dezasseis anos funcionava, ou seja, sugeria a uma amiga que dormisses agarradinhos, sem que acontecesse nada. O resto é de uma indigência de tal forma inenarrável, que foi a incredulidade que me fez ver os cinco minutos restantes daquilo. Em breve começaria o House, e pronto, lá adormeci quase à uma da manhã, mas desta vez com pena.
Em Portugal as coisas com pés e cabeça, que mexem minimamente com os neurónios, são apresentadas de madrugada. Sinceramente, faltam-me os comentários para tanta falta de qualidade e respeito pelos espectadores, passados como modernidade ou coisa que o valha. Coloca-se uns gajos e gajas giras a pinar, e está feita audiência. Enredo e esforço para quê?
Triste...

terça-feira, dezembro 12, 2006

Tu, que te assemelhas a um fósforo, fazes-me lembrar as velas sem tinta, que ao arderem, derretidas em gotas, queimam, mas não magoam, nem ferem.
If Hands Could Free You

If hands could free you, heart,
Where would you fly?
Far, beyond every part
Of earth this running sky
Makes desolate?
Would you cross
City and hill and sea,
If hands could set you free?
I would not lift the latch;

For I could run
Through fields, pit-valleys, catch
All beauty under the sun--
Still end in loss:
I should find no bent arm,
no bedTo rest my head.

Philip Larkin

"Roubado" indecentemente aqui, onde a qualidade é a de sempre. A melhor.

quinta-feira, dezembro 07, 2006



No outro dia recordava o filme "Flatliners", em especial numa cena na qual um dos protagonistas diz simplesmente que os pecados por vezes voltam, em matéria, e vêm fodidos da vida connosco.
E penso realmente que de certa forma, a capacidade que temos ou não de incorporar as nossas falhas no nosso tecido pessoal, de as desculpar, de permitir que façam parte da experiência, não é assim tão fácil.
Existem instantes em que os momentos nos voltam à mente, e no instante da escolha aparentemente simples, a suposta lucidez lançou-nos num caminho contrário às nossas convicções, ideias, e certezas. E vejo que muitos carregam isso consigo, como um segredo, uma falha, uma rachadura no concreto da identidade pessoal, e em muitos casos, dificil de conter ou reparar.
Edgar Allan Poe abordava esta ideia a propósito da consciência clara do espirito da perversidade na acção no próprio, mas ao passo que ele fundamentava essa ideia como tendo a sua génese na doença do álcool, eu prefiro tirar um pouco da gravidade do termo ou intensidade à ideia e falar da vulnerabilidade necessária da falha enquanto recorte caracteristico do conceito de humanidade pessoal, e desde logo, finita.
Talvez pareça uma muleta conveniente, mas o perdão parcial que os afectos externos podem ir concedendo ao "culpados", é directamente proporcional à fornalha intensa onde a culpa os vai assando. O merecimento desse afecto parece esbarrar na percepção de aceitação do próprio perante si mesmo. Dói pensar que a paixão intelectual que nos torna filhos dedicados das nossas opções possa ser traída por quem a fundamenta dia após dia no cimentar do esquema de valores pessoais.
No fundo, a ideia de humanidade, na sua perspectiva finita, tem, em meu ver, de abarcar os recortes lunares de cada uma das nossas perspectivas. É na vulnerabilidade dos nossos erros, e na tentativa quotidiana de ser melhor do que fomos nesses instantes que está o encanto de alguém com uma história. O passado de alguém também nos pode apaixonar por aquilo que a sua engenhosidade teve de fazer para o tornar sustentáculo daquilo em que a pessoa se torna. Há algo de fantástico na parcela limitadamente ilícita de uma personalidade, porque lhe dá todo o peso de algo real, táctil e evolutivo.
A culpa interna, a má relação de cada um com os seus (pretensos) pecados, pode arrastar-se durante tempo infindo. É uma calhauzada no senso de missão que está aliado ao mais fundamental elemento de identificação pessoal. É a parte do nosso quadro que pincelada alguma oculta de forma conveniente.
E cabe aos que entendem a lógica da indesculpabilidade, acarinharem essa percepção, combatendo-a, mas tendo sempre a noção de que parte da redenção está sempre para além do amor e compreensão dispensados, e que provavelmente poderemos somente observar essa parte da história pessoal.
Porque a redenção interna aparece na justificação não dos actos em si, mas do enquadramento humano que nos fez imperfeitos, e por isso amáveis porque tangíveis e reais.
Ela não é fácil.
Por vezes nem sequer é totalmente possível.
Mas aos que a observam, esse nunca deve ser um argumento de concordância. Cabe aos que observam, nunca fazê-lo sem protesto. Porque embora a redenção esteja para além da nossa capacidade de acção directa, concordar com a culpa seria fundamentá-la numa perfeição dos que amamos, mas a qual nunca desejaríamos.
Deve sempre tentar-se fazer o melhor possível.
Porque o problema não são os erros, mas sim a inércia perante os seus efeitos e possíveis repetições.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Quando penso no valor como pessoa que cada tem, ou julga que tem, tenho sempre a ideia de que esse valor está associado a uma sazonabilidade emocional. No fundo somos os mesmos, com mais ou menos variantes, mas passamos de bestiais a bestas num segundo de alternância comportamental. Somos o mundo num segundo, e o vácuo espacial no outro. E o reconhecimento do valor passa por pre-disposições que resultam numa avaliação feita no momento, perante determinadas circunstâncias.
As emoções sublimam as qualidades dos seus destinatários, mas também tornam os escudos contra radiações lunares muito menos eficazes. Atitudes ou traços pessoais que desculpamos a uns na base da tolerancia mais fraternal da amizade, tornam-se espigões em pneus a alta velocidade quando são oriundas daqueles que entraram de pés sujos no palácio da intimidade.
E a duvida é pertinente.
Será o desejo de objectividade nos olhos daqueles que nos amam ou estimam desejável? Talvez se o forem, estejam menos sujeitos a variações de conjuntura, porque embora possamos mudar muito, existem elementos pessoais que fazem parte do tronco comum, e os alicerces duram normalmente mais que o edificio que sustentam, "come hell or high water".
No fundo, e como creio que evoluímos sempre, por vezes até em direcções que não sabemos bem se são desejáveis, pergunto-me realmente se a qualidade que podemos ter pode estar sujeita às variações de perspectiva.
Espero que não, porque isso faz-nos essencialmente relativos, e tão inconstantes na nossa massa humana que nos pode levar, em última instância, a duvidar de qualquer olhar benévolo, emocional ou simplesmente avaliador.
E a voz interna da auto-confiança não consegue aplacar tudo.
Nos casos mais complicados, acaba por não remediar nada.
Já levei, nas palavras de uma certa ruiva, uma carga de lenha de muita gente por umas variações desta ideia. Mas para mim é clara.
A procriação ou vontade de ter uma prole, relógio biológico e o diabo a quatro, nunca, mas nunca devem ser o motivo para ter uma relação. Ter alguém apenas porque se quer criar uma espécie de atmosfera conveniente ou "familiar" em torno do futuro ser é instrumentalizar a outra pessoa, e, no limite, torná-la um boneco numa maquete de projecto. É idiótico, desonesto, e em meu ver, execrável, e em ultima análise, prejudicará o petiz.
A prole é sempre consequência do Amor por alguém, nunca a justificação, causa ou génese do mesmo. Tem-se filhos porque se gostou de alguém ao ponto de querer uma continuidade, e não o contrário, que me parece a pior forma de instrumentalização e engano possível.
E garanto-vos que assegura um ressentimento inultrapassável, caso o desgraçado(a) algum dia perceba a sua função de peça na engrenagem.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Talvez eu não passe de um vendido a essa enxurrada de teoria consumista, mas a verdade é que gosto de dar e receber prendas. Não sei se terá alguma coisa a ver com a noção infantil de expectativa ao olhar para um embrulho, ou se simplesmente gosto de aproveitar a altura para procurar algo de significativo para alguém, só para ver o rosto aquando da pequena surpresa.
A verdade é que gosto de procurar algo para alguém, com ou sem stress, ter a noção de que se cira um pequeno prazer expectante em alguém, talvez porque seja isso que sinto ao ver as cores do papel de embrulho quando as luzes das árvores resolvem incidir sobre os mesmos.
Há quem reclame com esta coisa dos presentes, e do consumismo, e blá blá blá. Para quem não se lembre só de os oferecer nesta quadra, quem tenha atitudes e comportamentos que realmente mostrem a estima por aqueles a quem agora presenteiam, esta é apenas uma altura em que damos um mimo a alguém, em que existe uma desculpa para o fazer. E no fundo, é só mais uma ocasião, entre muitas.
E se há uma desculpa e um abrandamento social que permite que a malta até se divirta, beba uns copos, e aproveite uma certa atmosfera para celebrar algumas coisas com mais intensidade, qual é o problema?
Aceito que para quem tenha perdido entes queridos , situações, ou amores, esta seja uma altura mais complicada. Para mim estará sempre associada a um dos períodos mais dificeis que vivi, e há uma espécie de sentimento agridoce em toda a panóplia de emoções que aparecem. Mas embora respeite esse sentimento por parte de quem sente mais na pele a vergasta acrescida pela quadra, acho que existe algo de genuíno num período de tempo que nos faz sempre pensar mais um pouco, e olhar para o lado.
A questão das prendas, para quem pode, pode ser multifacetada, mas que querem? Gosto dos embrulhos debaixo da árvore. Os que lá pus, e os que têm o meu nome.
Na esperança dos dias, na companhia do que fazes, sou o que posso ser, e não tenho alternativa.
Mas a verdade é que sendo assim, e vendo o caminhar, passo a passo, das coisas em que te tornas, porque sempre as foste.
Só posso agradecer-te, dando-te, porque uma rocha na água é sempre um perigo, especialmente para embarcações conduzidas por alguém para o qual as ondas de altura mortifera rechaçada pelas rochas não passam de um banho inconsequente em quem é feita de fogo.
Não sou monstro suficiente, talvez só de rocha porosa.