ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, dezembro 19, 2007

O melhor momento de Humor natalicio de produção nacional.

Brilhante!

Quando o Herman era o Herman...



terça-feira, dezembro 11, 2007

Ok, Somos homens....


E então???





Os relatos sobre os comportamentos disfuncionais entre casais dão que pensar. Especialmente no campo sexual, porquanto leva a reflexões complicadas. Reflexões que entram pela lógica da relação, pelo partilhar de espaços, pela descoberta mútua, pelo ensinamento do corpo e a percepção do outro através de coisas tão básicas e essenciais como o cheiro ou os movimentos típicos.

A verdade é que ouço todo o tipo de histórias. De mulheres pouco interessadas em sexo, de homens sempre cansados, de relações que se vão defrontando com problemas derivados, quero eu crer, não do conhecimento mútuo, mas da entrada nas vivências quotidianas, e dos seus efeitos. O elemento confiança e partilha parece ter aí uma espécie de campo minado, pois aos que vão conhecendo, mostra-se a dimensão daquilo que não se reveste necessariamente de mistério ou sofisticação. Ao aceder ao nosso básico, as imperfeições sobem como uma espécie de crachá brilhante, e torna-se impossível que este não ofusque o olhar de quando em vez.

Mas se pensarmos, as disfunções sexuais, as incompatiblidades, a montanha russa dos interesses mútuos não se colocam nunca nos relatos de situações limitadas no tempo ou na disponibilidade. Também é um mito que a aventura não assuste ou intimide, porque bem vistas as coisas, a percepção de alguém novo, de um calor de corpo que não conhecemos, de um cheiro que não nos é familiar, coloca toda a espécie de ansiedades em jogo, o que acaba por poder provocar problemas "funcionais".

Mas a verdade é que a mais das vezes cavalga-se sempre na lógica da descoberta, e a disfuncionalidade fica de fora quando a confiança é sempre limitada. Talvez alguns considerem que isso é uma espécie de opção instintiva, de ganhos e perdas necessários a qualquer fenómeno relacional.

Nunca generalizando, a verdade é que conheço cada vez mais casos em que a convivência sã ( ou não) ganha um poder considerável sobre as pulsões. Mas a verdade é que elas vêm ao de cima, mais cedo ou mais tarde. Podem ou não concretizar-se, mas é a capacidade de equilibrar os variados instintos que safará a pessoa. O contra-balanço, porque é inegável que o amor progride na sua dupla face de fenómeno ternurento com dentes.

Em consequência, multiplicam-se os relatos, especialmente de mulheres (que são os que mais me intrigam e interessam), que expressam em alto e bom som a dureza da sua condição face à sua auto-determinação e ganho social. E algumas dessas histórias parecem demasiado caricatas para serem reais, mas a expressão nos olhares e o tom das palavras parecem deixar pouca margem para dúvidas. A sua frustração emerge, não raras vezes, como a manifestação do inegável poder sexual que assombra o homem desde a antiguidade, e como tal, escora-se na força de uma emocionalidade sexuada, que é bem mais complicada de satisfazer devidamente. E quem é quem para poder negar aquilo que cada um acha satisfatório? Há uma margem de tolerância ou parcimónia? De selecção de argumentos e atributos da pessoa? Brincando, diria que o tamanho interessa sempre, não importa o que me digam as visadas. Mas também interessa o tamanho do interesse instilado, da variação das perspectivas, da criação de caminho para caminhar, passo a redundância, ao que se junta um pouco de sorte. E aí todos são responsáveis, perdedores ou vencedores. Perguntar e exigir não são petulâncias. São rações de sobrevivência.

As disfunções, às quais chamaria apenas desencontros parciais e cronológicos, surgem-me muitas vezes como pecados de preguiça, mas também é certo que a natureza pessoal de cada um pode ser mais ou menos consentânea com a capacidade e vontade de retirar várias águas da mesma fonte, e sempre frescas e correntes.

Ao estagnar, surge o cheiro, e nada sobrevive.

Fácil?

Claro que não!

Possível?

Parece que sim...



segunda-feira, dezembro 10, 2007



É complicado quando a nossa natureza combate o que deveriam ser os nossos instintos. Especialmente quando essa natureza abarca em si genuinidades que se mordem entre si, como irmãos conflituosos mas de essência necessariamente conjunta.

Resta-me então amar o que posso, da forma que me é possível, sentir que viajo, e agradecer dando aquilo que me surge natural, conquistado sem rendição.

Pé ante pé, cá vem, e lá vai.

Estou cá, sou eu, e no meio que fica entre este e aquele espaço mais além, estou, não mais pedra, mas mudando em pulsações entre o toque da carne, as palavras do que tenho o descaramento de chamar de alma, e a herança ígnea.

O mistério nunca somos nós, mas aquilo que provocamos em quem poderia fazer, ser e dar tantas outras coisas a tantos outros.

E no entanto.

Cá estamos. Naturalmente presentes, e sensíveis.

A todos aqueles que ainda que se julguem idos, permanecem, e aos que estando, ainda mais entram.

Siga.

Sou português, mas a antiquíssima e belíssima "Scotland the Brave" provoca-me sempre arrepios.
Tirando o facto de que há um álbum novo dos Puscifer (MJK está definitivamente a passar-se, mas nada do que ele faz tem o mínimo de banalidade) e que vêm aí os Ashes Divide, o que são grandes notícias para os amantes, como eu, dos saudosos Perfect Circle, hoje é um dia estranho. A meio caminho da vida útil da quadra, vejo que o espírito generalizado tarda a instalar-se. E isto não seria para mim uma perplexidade que não achasse que tal situação contamina grande parte das atitudes e das lógicas com que me confronto no dia a dia.
Os míudos passam a vida a dizer-me que isto de crescer é uma seca, o que, em meio ao terrorismo ocasionalmente saudável que são as mentes livres das criancinhas, parece ter alguns argumentos a favor. Vejo muito cansaço, muita manutenção de lógicas vivenciais, muita procura por algo que vai sendo minado por um cansaço subtil mas omnipresente.
Tenho a perfeita noção, talvez porque esteja doente e o dia não esteja assim a correr grande merda, que isto não passam de maus fígados de uma tarde demasiado parada devido à paralisação antecipativa de grandes mudanças, mas a verdade é que o entusiasmo tarda, derivado talvez da paralisia urbana que observo à minha volta, relativa, claro está, aos fenómenos de puerilidade que a espaços julgo tão necessário. O estritamente adulto parece-me seco, cinzento e perdido numa amálgama de coisas inertes, de sequências, dos dias que se seguem uns aos outros como dominós demasiado roídos por dentes entediados.
Mas, claro está, há um audiobook no carro, e talvez a noite precoce traga os brilhos das cores de encontro ao cenário que se pinta de escuro. Em casa há embrulhos para fazer, acompanhado a filmes (que não há treino hoje), algo quente numa chávena, e a ideia de que existem um ou outro par de malucos que também vêem coisas onde elas não estão, e deixam-se enlevar num espírito que, nos dias de hoje, reúne um estranho e organizado concenso detractor.
Isto é só um mau dia com expectativa de gripe.
Passando, passa tudo.
Espero.

quinta-feira, dezembro 06, 2007



No outro dia, quanto seguia de carro, ouvia um programa na rádio (estatal) chamado conversas de raparigas, o qual me causou alguma estranheza, confesso.
Primeiro porque no painel se ouvia uma voz masculina e profundamente afectada, para quem tudo era uma seca. Tudo. E depois porque o tom que sobressaiu de alguns membros da tertulia radiofónica foi tradutor de uma ideia que, à falta de melhor termo, me parece idiota, como tudo o que se torna moda porque sim.
Tornou-se cool falar mal do Natal. Maldiga-se aquele que caia na piroseira de gostar da quadra, de achar piada às cores, ao escuro, ao nevoeiro, à comida e a mimar um pouco aqueles de quem gosta. O que fica bem é denunciar o mercantilismo, achar que a atitude enfadada a relembrar velhos tempos (que provavelmente para alguns eram be piores que estes) e assumir uma nostalgia quase cínica pelas couves e o caldo de galinha de outros tempos.
Tornou-se sofisticado pôr todos os rituais em causa, porque, de certa forma, é no esclarecimento da era moderna que se produz a magnífica ideia de que tudo é uma seca. Tudo é enfadonho, e ai daquele que por acaso até sentir um calor qualquer no espírito com as decorações citadinas de Natal.
Sinceramente não percebo, e tenho uma teoria já anteriormente referida por muitas pessoas, estou certo. E esta assenta na falta de capacidade de suportar o peso da culpa. Como alguém me disse, as ausências constantes e absolutas não podem ser compensadas com uma aparição anual, por muito bom que seja o bacalhau. Mas parece-me que são precisamente aqueles que tanto denunciam o quão "un cool" é a quadra natalícia que mais parecem surgir com uma consciência pesada. São aqueles que não perdem tempo algum realmente a escolher algo para alguém especial, seja no Natal seja durante o ano. Ou são outros que nao tensão que a quadra inflige, que sucumbem perante os descasos que não quiseram colmatar no seu comportamento anual.
Claro que toda a gente tem direito e legitimidade para gostar ou não da quadra, mas falha-me entender este tom demolidor relativo à mesma, muitas vezes numa tentativa de denúncia que não tem de facto essa aplicabilidade generalizadora. Há quem, felizmente, possa e queira sentir-se bem nest altura, ou deveria dizer, sentir-se melhor. E para os que apanham a seca há umas viagens muito baratas para destinos tropicais, ou o interior de casa com qualquer electrodoméstico que não seja a a televisão, ou qualquer livro sem menção ao mês de Dezembro.
E assim agrada-se a todos. O cool, e os absolutamente bregas, como eu, que já montei a árvore e leio o Cântico de Natal do Dickens, anualmente, desde há vinte anos. Por falar nisso...
"Marley was dead: to begin with. There is no doubt whatever about that. The register of his burial was signed by the clergyman, the clerk, the undertaker, and the chief mourner. Scrooge signed it: and Scrooge's name was good upon 'Change, for anything he chose to put his hand to. Old Marley was as dead as a door-nail.(...)"

segunda-feira, dezembro 03, 2007




«Pais e Educadores Reforçam campanha contra "A bússola dourada", filme que promove ateísmo entre crianças

WASHINGTON DC, 30 Nov. 07 / 12:00 am (ACI) .


A Liga Católica dos Estados Unidos lançou uma campanha para advertir dos perigos do novo filme "A bússola dourada" (The Golden Compass) que se estréia na próxima semana e que pretende "conduzir aos crianças ao ateísmo".

O filme, interpretado por Nicole Kidman e Daniel Craig, é a adaptação do primeiro de três livros intitulados "Os Reinos do Norte", no qual o poder está nas mãos do "Magisterium" (alusão ao Magistério da Igreja) que deveria ser uma espécie de "ordem religiosa que sufoca a individualidade e controla as almas das crianças , atitude contra a qual se erige a menina Lyra Belacqua, possuidora da bússola dourada" que contém a verdade suprema.

Conforme explica o Presidente da Liga Católica dos Estados Unidos, Bill Donohue, Pullman promove assim o ateísmo e busca "denegrir a cristandade aos olhos das crianças" com sua trilogia intitulada "Fronteiras do Universo". Por essa razão exorta aos cristãos a "afastar-se deste filme, porque sabe que o filme incitará a ler os livros: Pais ingênuos que levam seus filhos a ver o filme podem ser impulsionados a comprar os três livros como presente de Natal".

O segundo livro, "A Faca Subtil" é mais "explícito no seu ódio ao cristianismo que o primeiro, e a terceira entrega ("A luneta âmbar") é mais flagrante" destaca Donohue, quem também explica que o filme está apoiado na menos ofensiva das três obras.

Ante esta agressão à fé católica, a Liga põe à disposição dos fiéis o relatório "A bússola dourada: propósitos desmascarados", que se pode adquirir na Internet.»





O disparate completo está aqui. O artigo e as palavras de Donahue seriam rísiveis, se a sua ridicularia não fosse perigosa. É disparate atrás de disparate, próprio de quem nao tem ideias para combater ideias, mas sim a censura e dogmas como resposta à discordância com a cartilha.


Não só o teor de todo site é assustador (para além de involuntariamente cómico) , como de resto faz lembrar aquilo que os católicos não gostam de relembrar, que ainda hoje em dia existe algo impensável, ainda que em conceito, designado "Index Librorum Prohibitorum."

Este index vigorou até 1966 enquanto parte da lei canónica, mas que ainda assim, tendo sido banido como norma, permaneceu como sustentáculo de referência moral contra o que será supostamente conhecimento passível de ferir as ideias pré-feitas da doutrina católica. Nessa data, a Congregação para a Doutrina da Fé cessou a publicação desse Index, mas afirmou que o conceito subjacente ao mesmo ainda serviria como "guia moral para relemebrar as consciências dos fieis para que estes evitem ler aquilo que pode ser perigoso para a fé e a moral", podendo a Igreja emitir um Admonitium ou um aviso aos fiéis sobre a suposta periculosidade de um determinado livro. Referências aqui.



Eu sempre pensei que o verdadeiro perigo fosse a ignorância e a ingerência na liberdade de pensamento individual, mas estou certamente errado. Ou segundo estes moços, herético, o que já não me chateia nada. Se Cristo realmente existir, eu pergunto-me se ele estará realmente preocupado com o que eu leio, se isso representar pensamento ou o impulso para crescer e aprender, com o contributo de ideias novas, e a capacidade de perguntar para avançar. Se realmente for essa a posição dele, não contém comigo para o pão e vinho.



Estes amigos da Liga Católica Americana (que se diz protectora dos direitos civis.. hum... censura, direitos civis... há aqui qualquer coisa que não joga...), que já antes perseguiram o desgraçado do Harry Potter (com os resultados que se viu - JK Rowling deve uma boa fatia do seu pecúlio aos irados do Vaticano, com certeza. A ironia faz bem ao sangue e estes moços, melhor do que ninguém, deveriam saber que Deus não dorme...), resolveram agora virar-se para a saga de Phillip Pullman, começar a descascar na suposta "anti-religiosidade" que a obra encerra, e a óbvia censura que deve ser feita à mesma. Sobre a manutenção pelo menos do espírito do Index, ler por exemplo aqui a propósito da antiga polémica Dan Brown...


Se eu já tinha vontade de ler as obras, confesso que a mesma redobrou. Porque aquilo que qualquer religião organizada ataca tão ferozmente é normalmente interessante e faz pensar. Pensar nem que seja no que levará instituições que já deveriam ter crescido a continuarem ataques pífios e ridículos à liberdade de pensamento, enfiando a carapuça cada vez que alguma obra supostamente ataca uma religião de massa. Dir-se-ia mania da perseguição, ou outra coisa mais sinistra, em meu ver. Pullman agradecerá. Quanto mais a Igreja descascar nas suas obras, mas elas se venderão, o que em meu ver parece um tiro no pé, mas enfim. A verdade é que argumentação para tais virulentos ataques é, normalmente, pouco menos que ridícula.

A verdade é que as religiões de massas, de cariz ainda profundamente dogmático, continuam a dar contínuos passos atrás, e se de facto é verdade que até partilho de muitos valores das designadas religiões "principais" - Amor ao próximo, exercício da bondade, etc - a liberdade de pensamento é algo que deveria ser sagrado, embora para muitos na comunidade religiosa, continue a ser sacrílego.
E assim não me parece que cheguem lá...







É uma grande verdade, e sem ponta de ironia, juro-vos.

É uma raridade absoluta e de uma estranheza a toda a prova... Mas, e não sei porque razão, não gosto do Seinfeld.

E ando há anos a tentar perceber porquê.
A sério!

sexta-feira, novembro 30, 2007

Reconhecendo, por alguma estranha e antiga razão, que esta época faz de mim um idiota ainda mais crente do que é habitual, a verdade é que não se trata da diminuição de algum pessimismo, mas a capacidade de equilibrá-lo com algo de inexplicável e positivo nas pequenas coisas.

Coisas que não sei definir, e até me embaraçam um pouco, mas para quem já leu vinte vezes o Conto de Natal, já não há lugar para vergonhas. Espero sempre que corra melhor. E de quando em vez, lá acontece.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Fotografia: Anne Arden Mcdonald "#46"



E eis que chegamos ao final do ano. Não, ainda não vou dissertar sobre o Natal, nem entupir o blog com referências à quadra, as quais certamente irritarão algumas pessoas mais avessas ao período do ano em causa (embora o vá fazer, claro!).

Mas é chegado um tempo, juntamente com o frio tardio, onde as consciências para várias coisas se intensificam. Os temidos balanços, as falhadas tentativas de despreocupação, a intensificação dos ganhos, a hiperbolização das perdas.


E é curioso verificar, três anos após mudar de perspectiva de vida, que a ideia da maturidade e do alcance das coisas no pico da vida alternam entre a materialidade e a fragilidade ilusória. Há de facto, muito mais confusão, infantilidade e desadequação do que eu julgava. Sinceramente. Recordo uma faixa do Springsteen, a qual ouvia insistentemente há mais de 15 anos, e trauteava o refrão com a ausência de percepção exacta daquilo que ele lá dizia. "Andar como um homem", dizia ele, referindo-se a um trejeito involuntário que indicava uma condição. A condição de quem supostamente sabe o que faz, e fá-lo no lugar que lhe é devido pela forma como o ganhou.


E no entanto, passados esses anos, decorridas as vivências, os conflitos, as perdas e as lógicas contraditórias daquilo que a ilusão nos alimenta como evidente, ainda recordo essa música com perplexidade. Junto-a, talvez, ao que o Alan Ball disse no filme da minha vida.


"Janie's a pretty typical teenager. Angry, insecure, confused. I wish I could tell her that's all going to pass, but I don't want to lie to her."


A verdade é que, pelo menos em parte, este chapéu servirá a todas as pessoas que conheço. Em muitos casos, o chapéu cabe-lhes integralmente, com uma dose visível de desnorte e sofrimento pessoal num tempo onde me parece que se confunde capacidade e autonomia com desenrascanço a todo o custo.

Vejo as ideias que as pessoas tinham, e a tentativa de fazer algum sentido das mesmas, ainda que mais pareçam estar a tentar correr numa passadeira que anda no sentido contrário ao da passada. E olham à volta, conscientes de que o impacto do que provocam, e não só, parece dançar enlevado numa arbitrariedade que arranca dores de injustiça e incompreensão confusa.

Nesta época do ano, os sofrimentos agudizam-se, bem como as emoções. Por boas e más razões, creio eu, mas sobretudo porque é uma época que se quer de ganho pessoal. Não há sucesso material que suporte as tensões de uma certa forma de solidão nesta altura. Especialmente a solidão acompanhada.


E lá está. Correr atrás do prejuízo, manter a cabeça à tona, e tentar pelo menos perceber metade do que se vai passando. Faz-se malabarismo com os acontecimentos, somos pobres e ricos, anjos e safardanas, vitimas e carrascos, e por vezes perante um mesmo olhar, que se transmuta com a evolução simbiótica estabelecida connosco.


Mas sinceramente, aquilo que mais me parece ver em jeito de mágoa, ainda que suave, nos rostos dos que vou acompanhando mais de perto, é a surpresa perante o abortar do plano. Aquele plano que foi vendido enquanto a vida eram letras e numeros em folhas de papel, triunfos para o futuro. Em que seríamos, provavelmente, estrelas de rock, empresários ainda com mais charme do que dinheiro ou elementos de uma familia que não sofreria as erosões do mundo que a vai puxando como um boneco de trapos cheio de areia que a certa altura se rompe.

Afinal de contas, as pessoas também se magoam, os amores também acabam, a estabilidade também se desmorona, a mudança também existe.


A inércia carregada de emoção pode atenuar-se com uma pergunta certeira e bem intencionada, mas no fundo, ainda que forçada, é inacção.


E custa ver isso em quaisquer olhos que realmente nos digam alguma coisa ao coração.


Eu... eu ainda ando a ver se me entendo com esta coisa de andar de um homem...

terça-feira, novembro 27, 2007


"I wanted you to see what real courage is, instead of getting the idea that courage is a man with a gun in his hand. It's when you know you're licked before you begin but you begin anyway and you see it through no matter what. You rarely win, but sometimes you do."


Harper Lee, To Kill a Mockingbird


Idem...

"She seemed glad to see me when I appeared in the kitchen, and by watching her I began to think there was some skill involved in being a girl."


Harper Lee, To Kill a Mockingbird


E claro está, depois entendo (pela enésima vez) porque este é um dos 5 livros mais importantes da minha vida.

sexta-feira, novembro 23, 2007



Como já o fizeram muitos, certamente, a frase de Sartre surge-me hoje invertida, ou pelo menos, conjugada.


O Inferno somos nós. Ou talvez sejamos todos. Ou talvez isto não passe mesmo de um curso de água feito de correntes desencontradas, onde uma mesma folha anda de um lado para o outro, erraticamente, tentando apenas manter-se à tona.

As previsões normalmente não servem, e abarcam uma possibilidade que a realidade se encarrega de mostrar com dentes afiados.


Esse Inferno é feito das corridas adiante, das visões acerca de destinos, das marcas de emoções e eventos passados, dos desejos de fuga, das fugas efectivas. Forma-se a partir dos efeitos das nossas acções sobre os outros. Das consequências da importância que ganhamos, e como isso altera outros estados, outras formas, outros destinos.

Mas no fundo somos nós. As opções, as facilidades produzidas pelos estados de graça da integração. São os efeitos das pressões, dos cartões de acesso e visita, dos deveres julgados existentes, do silêncio da voz interna que já se sabe que não fará completo sentido. E na despreocupação aparente do passar dos dias, os pequenos crimes entre as pessoas infectam. E na marcha, topam-se os que mancam.


Ver alguém na queda, a meros metros do topo das chamas, silencia. Perdemos a noção do que devemos dizer, precisamente porque sabemos que não há nada a fazer. Porque em certa medida, a dimensão do sofrimento e destino alheio retira-nos qualquer legitimidade para proferir seja o que for, pela horrível ineficácia de que acabamos por padecer. Os juízos anteriores reforçam-se, mas a censura finda perante a dimensão do dano emergente.


E não temos um Vergílio para retirar de lá seja quem for...


Enfim, dia triste e grave...






quinta-feira, novembro 22, 2007



E a Natureza depois faz disto...

Rhona Mitra... Talvez se recordem dela na série "Boston Legal", ou como estudante maquiavélica que simula uma violação em "The Life of David Gale".






Sem mais comentários.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Ronda Byrne e os carros desportivos de cor vermelha.

Estou já a visualizar o meu barco nas Bahamas... comigo lá dentro, não me posso esquecer... e o título de propriedade em cima da mesa onde está o cognac e as chaves do meu Aston Martin...
Desafio:

Conseguir reparar na cor do céu quando se vem à tona tentar respirar.


(Em tempos, e sempre, julgo.)

terça-feira, novembro 20, 2007

Perfection, of a kind, was what he was after,
And the poetry he invented was easy to understand;
He knew human folly like the back of his hand,
And was greatly interested in armies and fleets;
When he laughed, respectable senators burst with laughter,
And when he cried the little children died in the streets.

W.H. Auden
("emprestado" do sempre excelente
Modus Vivendi )


Sou um homem mais à esquerda, e isso é incontroverso, nem que seja para mim, mas a eleição democrática de Chavez não limpa os efeitos da sua ditadura supostamente democratizada. E não entendo a simpatia silenciosa de alguma esquerda por posturas como estase governantes como estes. Sinceramente.

terça-feira, novembro 13, 2007



Confessando a minha profunda ignorância em termos de designação de peças de vestuário, só há alguns dias é que descobri o que eram "leggings" (em sei se isto está correctamente soletrado, mas enfim...)

Leggings = Collants sem pés, que como o próprio nome indica, se cola às pernas e zona genital feminina como se de uma collant se tratasse. Normalmente, dizem-me as almas caridosas mais informadas, usa-se com tunicas ou camisolas que ficam abaixo da linha do rabo, supostamente para cobrirem o perfeito delinear do mesmo e da zona da vulva, zonas que ficam completamente delineadas por um tecido completamente "coleante".

Até aqui, nada a assinalar.
Mas foi a conversa tida acerca deste tipo de vestuário, numa noite do passado fim de semana que me deixou algo surpreso.
Estava com um grupo de amigos, e passou uma moça (que por acaso nem vi), a qual supostamente levaria umas collants sem pés ( ok.. doravante leggings...) só que a camisola acabava onde normalmente acabam as camisolas. Acima ou a meio da zona do rabo.


E foi então que um dos meus amigos comentou que não percebia a razão pela qual a moção não teria acabado de se vestir antes de sair de casa. Não é que não gostasse de ver, mas não achava que fossem maneiras de andar por aí, o que facilmente levou a concluir que para a mulher dele a indumentária em questão não seria equacionável, ainda que ele gostasse de ver.


Como imaginarão, aquilo redundou numa pequena troca de ideias, entre brincadeiras e coisas ditas de forma mais séria, mas uma noção ficou. Uma desconfortável noção do que é "decente" e o que não é, especialmente se aplicado à respectiva cara metade, ou à restante população feminina, numa lógica anacrónica do que é bom para as outras mas não para a minha.


E dou comigo um bocado assustado porque estas observações, esta coisa que parece sair dos anos 50 é proferida por homens da minha geração, e mais novos, os quais, supostamente, deveriam ter uma postura mais aberta, moderna e sobretudo, actualizada. É algo que me arrepia a pele pensar que alguem faz um raciocínio do que é agradável quando verificado noutras mulheres, mas inadequado à moralzinha lá da casa. Esta espécie de bourka amenizada deixa-me perplexo, e o que é pior, parece que faz parte de um subentendido generalizado, no qual, felizmente, muitas mulheres se borrifam completamente.


Nunca entendi o raciocínio do homem querer esconder a mulher, seja atrás de trapos mais grossos, silêncios ou falsos recatos. Caraças, se eu gosto de ver a cara metade de minissaia, porque raios haverei eu de me importar que ela a use? Se gosto de ver o decote, porque não deverá ela usá-lo? Claro que há um limite de bom senso para tudo, mas sinceramente, desde quando é que a indumentária deve ser medida consoante a insegurança do outro, ou a lógica da bourka? Nunca entendi os tipos que se chateiam de cacete quando a mulher leva uma roupa mais descapotável. Ora que diabo, não gostamos de ver? Se passa uma mulher bonita, não olhamos? Porque raios é que há tipos que julgam que ao colocar mais pano na roupa a mulher ficará de alguma forma "controlada"? Pior, que é que quer alguém controlado???


Sinceramente, sempre fui apologista do velho brocardo popular que demonstra que o que é bonito deve ver-se. E se olhar não arranca qualquer pedaço, porque me haverei eu de privar do prazer de ver a mulher que está comigo no explendor da sua beleza? Mas quem é que acha que ao colocar biombos vai evitar seja o que for, se tiver de acontecer?


É a pior forma de utilização conceptual do "for your eyes only", até porque a nudez nunca está em causa, e sentir a provocação da beleza da mulher que nos acompanha, é uma etapa da valorização que lhe podemos fazer. Representa também o orgulho que temos na integralidade da pessoa, e porque não a gostaremos de ver bonita e sensual ao nosso lado? E se isso projectar para fora, não é apenas uma consequência de se ser quem é, e a diversidade que nos leva a ver e prestar atenção a quem nos rodeia?




Não vi as leggings da moça, mas sinceramente, até gostaria de ter visto.


Porque sentir que podemos passar pelos outros sem mais nada, é como que admitir que o mundo nos trespassa como se fossemos vento invisível, e isso parece-me algo triste e até mesmo enfadonho.




Espanta-me que algumas pessoas (muitas pelos vistos) ainda herdem uma noção de moralidade e conveniência que assenta apenas em mecanismos bacocos de domínio, e em meu ver, anacrónicos e inaceitáveis para quem é alvo deles.


Se é bela, que se veja, especialmente se esse bela se sentir bem assim. Ainda mais se essa beleza é também criada para agradar e mimar quem a acompanha. Se uma mulher deseja realmente estar bonita para nós, é demasiada sorte para não se aproveitar. Sinceramente.








A cada dia que passa tenho mais aversão a esta espécie de novo alfabeto ou léxico dito "sms". Para além dos adolescentes, homens e mulheres de vinte e poucos anos escrevem como se reproduzissem o som de uma boca cheia de favas quentes, em suposta afirmação de estilo ou irreverência. Mas nunca julguei que a verdadeira irreverência se confundisse com a burrice. A real irreverência prende-se com o questionar curioso e fundamentado das ideias, com o desafio a uma ordem com uma alternativa a essa mesma construção, e não, em meu modesto ver, com a desconstrução pura e simples.

A linguagem "sms" diz-me logo muito acerca de uma pessoa. Posso ser precipitado, mas revela-me uma atitude perante as coisas com a qual não demonstro simpatia apriorística. Revela um tipo de desordem que não me agrada especialmente, talvez porque as palavras me digam necessariamente muito. Talvez porque quem não se preocupe muito em comunicar de uma forma que não pareça um balbuciar infantilóide, dificlmente dírá algo que me interesse e vice-versa.


"Naum tenhu feitiu pra exas coizax...."


Tenham paciência...

terça-feira, novembro 06, 2007



Está quase aí...

Irmãos Cohen, Cast de luxo - este "No Country for Old Men" promete, e de que maneira.

Só me falta ler um livro de McCarthy, e rapidamente.


foto - Paul Mahder
Alguém se deu ao trabalho de comentar este texto já antigo. Reli-o, e curiosamente, encaixa perfeitamente em situações com as quais me cruzei ultimamente.

À consideração...


"A liberdade não é uma opção. Nem uma dádiva. Nem um pressuposto. É uma naturalidade, é inviolável, e é nela que a pessoa revela o carácter mais genuíno da sua personalidade. Para algumas pessoas é necessário entender que a liberdade que se atribui à cara metade é apenas mais um sinónimo do respeito que lhe tem. A pessoa livre toma de forma natural as suas atitudes, sem constrangimentos que redundam em artificialidade ou, em última instância, conflito.
As pessoas controladoras normalmente demonstram uma insegurança que não é atraente, e uma falta de respeito pela individualidade do outro baseada num juízo de controlo. No fundo, há um tremendo egocentrismo nesta atitude, porquanto se julga que o compromisso que deve ser entregue por amor, passa a ser assumido por obrigação quase contratual. Com cláusulas específicas.


"Não olhes, não faças, não tentes."


Julgo que é mesmo um dos mais gastos dos lugares comuns, mas é na liberdade que as pessoas encontram o seu caminho até nós. É nessa liberdade que cada um de nós encontra realmente a motivação para gostar e exercer essa afeição junto dos outros, e haverá coisa mais satisfatória do que verificar que a pessoa opta por nos incluir, por fazer ou ria algo por nós. Além disso a vida exterior torna-se necessária para trazer contributo a qualquer esfera composta por duas pessoas. Evoluir também significa aquilo que se faz com o que trazemos do mundo para dentro de um relacionamento. Ver a evolução da pessoa de quem gostamos faz parte de tudo aquilo que nela acabamos por prezar, porque é um desenvolvimento das bases que nos apaixonaram.


Os controladores são precisamente os que mais se arriscam a sofrer infidelidades ou desinteresses, porque a liberdade é uma espécie de prisioneira paciente, mas nunca se remete sempre a esse estado. Aqueles que vêm a sua liberdade constrangida tendem a reagir mais cedo ou mais tarde, porque se vêm privados de algo que lhes é essencial. A manifestação da totalidade da sua pessoa. A tentação do controlo é de fácil aceitação interna. Especialmente se num primeiro momento existe um assentimento a essa lógica de corrente e grilhão. Mas como em todas as situações de circuito fechado, a inundação leva á erupção, e com ela, os intuitos que se poderiam conseguir de forma livre, acabam por perder-se em fragmentos de um projecto de controlo que em nada redunda senão perda. O contrário absoluto do objectivo inicialmente prentendido.


Não tenham dúvidas. É na iniciativa não solicitada que reside um dos laços mais importantes entre as pessoas. O querer fazer, querer dar, querer estar.
Claro que um pouco de ciúme também conforta. De preferência muito pouco(!)
Porque quem não se sente, não é filho de boa gente.
Mas é a velha e costumeira história.
Equilibrio e moderação.

Nada de grandes segredos."


23/05/2007



Antes de mais, não escondo que sou um admirador do senhor em causa. Mas lá por ser um admirador de Moore, não significa que não consiga ver as suas fragilidades, embora não me pareça que essas ponham em causa o impacto da sua obra, e sobretudo a discussão ou denúnica geradas.
Fui ver Sicko e saí de lá com a perfeita noção de que as coisas estão mesmo a ficar perigosas, quando o modelo de desenvolvimento que se quer importar dos EUA tem em conta as "maravilhas" da saúde privatizada. E não é necessário ser Michael Moore a mostrar-nos aquilo que é uma evidência nos EUA, ou seja, não ter recursos significa correr muito mais riscos que a fome, a falta de habitação ou a exclusão social.
Sim, obviamente que o retrato dos serviços de saúde europeus ( não vou especular sobre o canadiano) é demasiado floreado. A cena de Cuba é um bocadito esticada. A fila da Caixa é um pesadelo por si só, e alguns hospitais são muito menos que minimamente eficazes. Os serviços de saúde estatal/europeu também fazem merda, e os tempos de espera serão necessariamente maiores que aqueles que são apresentados, mas dez mil vezes isso e ter um serviço de urgência que não deixa que as pessoas morram só porque o não há cartão da Médis. Além disso, tudo isto só funciona como argumento para uma ainda mais intensa melhoria do serviço nacional de saúde como principio socialmente estruturante. Imaginem o acidente de ontem, do autocarro que caiu da ravina. Imaginem que metade daquelas pessoas, que até eram cidadãos de terceira idade, não tinha um tusto. Imaginem que 13 poderiam passar a 25 mortos, simplesmente porque os pacientes não têm guito.
Custa-me muito compreender os detractores do serviço universal de saúde. Custa-me muito entender as lógicas mercantilistas de sustentabilidade quando falamos de saúde, vida ou morte. Uma coisa são taxas moderadoras, outra são 10 000 € para cozer um dedo amputado por uma serra eléctrica. E esta pode ser a ponta do iceberg. Sinceramente, qual é a lógica de uma sociedade? Qual o principio básico da convivência e estabelecimento de um contrato social? Será possível estabelecer uma lógica de salve-se quem puder, ilusoriamente defendida como um reforço dessa mesma sociedade? Qual a justificação para se aceitar a ideia de que a falta de dinheiro é merecedora de enfermidade ou morte?
Por isso reitero que, apesar de algumas flores que até poderiam ser desnecessárias (há algumas lágrimas captadas para a comoção calculada) e omissões de informação que são pertinentes (como por exemplo, quanto custaria aos EUA a implementação de um SNS), "Sicko" é uma obra que realça os efeitos da mercantilização de tudo e mais um par de botas, e que um azar na vida pode significar uma espiral de inferno onde os hamsters que não servem para continuar a girar a rodinha podem simplesmente ser descartados. E assusta-me que haja tanta gente que ache isto normal, que julgue que perante a liberdade do mercado, estas coisas não acontecem, quando é a liberdade do mercado que mostra os efeitos que a concorrência e a busca de lucro podem ter em coisas que não devem nunca ser objecto de reuniões relativas a cortes de custos.
Em suma, dou claramente um "thumbs up" a este filme de Moore, como dei a todos os que vi.
E perante tanta reacção indignidada, algum nervo importante deve ter sido atingido... felizmente.
E isto, claro está, não fica por aqui.
Eu gostaria de saber o que dizem os liberais quanto às vergonhas que ocorrem nas instituições bancárias, onde tenho infelizmente amigos que quase dormem nos escritórios, que, com total impunidade, têm as luzes acesas a horas indecentes, como que desafiando uma inspecção que nunca chega. E sinceramente, fico pasmo quando alguém consegue ter a ingenuidade, ou desonestidade intelectual em achar que a flexibilização nao vai incrementar este tipo de comportamentos. Não sei o que muita da direita tem contra o desenvolvimento do indivíduo enquanto pessoa, fora da esfera produtiva, a mesma direita que depois vem defender a lógica da família e coisas que tais. Mas afinal, para muitos que andam por aí, vida social é um luxo, e a China é o modelo a seguir, aparentemente... Das duas uma, ou colocam a(o) sopeira(o) em casa, ou então não há alternativa, porque os meus amigos no CPP, perante a ameaça de despedimento e toda a espécie de "bullying" possível e imaginário, não conseguem ter tempo do dia para a namorada, a mulher, os filhos, o cinema, os livros, a vida que todos deverão ter direito.

E sim, isto ser necessário pedir ao Estado que faça a barrela . . .





segunda-feira, novembro 05, 2007

Ainda a propósito da polémica MST vs VPV, e tendo em conta um post que encontrei aqui , reproduzo o e-mail que enviei ao autor do blog em causa, porque foi questão que sempre me intrigou. Talvez alguém me possa dar uma ajuda, e isto é dito sem pingo de ironia. Mesmo.


«Li este seu post e quis comenta-lo, embora o blog não o permita, pelo que espero que possa desculpar esta interpelação da minha parte.

Na entrevista a que se refere, a qual também escutei há dias, julgo que MST levanta alguns pontos bastantes pertinentes, sem colocar em causa que o discurso daquele também possa estar inquinado por alguns tiques, mas vejamos.

Julgo, e esta é uma opinião, portanto vale o que vale, que a cultura ou erudição não são nunca desculpa para se ser uma besta ou para, em meu ver, cometer-se um pecado ainda maior que querer ser amado, ou seja, achar-se a dádiva divina para o mundo que o rodeia. E VPV é uma pessoa inteligentíssima, mas há muito que perdeu qualquer objectividade quando fala de qualquer outra coisa que não seja a sua produção e trabalho. Há muito que perdeu a noção de que existem mais fenómenos literários, e que a qualidade pode efectivamente existir em todos os tipos de literatura ou arte. Nunca, ou raramente se vê uma qualquer crítica construtiva de VPV seja ao que for, à excepção do que dele parte ou por ele é criado. Se isto é a característica de um intelectual, então realmente quem tenha um espírito mais aberto e perceba que esta coisa da qualidade raramente se afasta de um juízo subjectivo acerca da verdade daquilo que se quer transmitir, expressar ou criar será um medíocre?

Quando alguém como VPV e seus seguidores fazem da sua missão de vida cascar, (muitas vezes sem qualquer fundamento que não seja linguagem hermética), na obra de outros, (diminuindo e muitas vezes ofendendo quem se calhar para além dele até possa ter alguma coisa para dizer), pergunto-me o que aconteceria a uma carrada de criadores e escritores que sofreram as mesmas (injustas) sevícias e mais tarde vieram a ser grandes? - ocorre-me assim de repente Toole, Bronte, Poe, Dickens, etc...
Uma vez escrevi a um desses sequazes e pedi a grelha ou bitola para calcular a qualidade, uma espécie de escala que tornasse tão explicável as suas frequentes e inexplicáveis invectivas contra tudo e todos. Claro que não recebi nenhuma resposta, porque o meu português sofrível espelhado na carta que escrevi devia ser uma ofensa para tais olhos, mas a verdade é que para criticar e destruir obra alheia convém ter alguns argumentos para além disto, na carta escrita a José Manuel Fernandes:

"Equador" é um romance popular, com a típica obsessão do género pela comida, a roupa, a paisagem, a meteorologia e o sexo. Fora isso, é também uma absurda idealização do autor, entre o patusco e o patético. Esta literatura tem, e merece, o respeito concedido a qualquer indústria alimentar. Mas, para seu mal, e por evidente snobismo, Sousa Tavares decidiu transferir as suas proezas de grande sedutor e a sua famosa "consciência trágica" para o princípio do século passado, época sobre a qual nada sabe. (...)Por mim, uma pergunta: por que razão gasta o PÚBLICO tinta, espaço e trabalho com a incultura quase cómica de Miguel Sousa Tavares? Gostava de perceber. Acredite.Vasco Pulido Valente - Hospital Amadora-Sintra»

Concordo plenamente consigo quando diz que a tiragem e vendas nada dizem da qualidade da obra, mas a verdade é que a obscuridade total ( e sejamos francos, nenhum dos grandes é totalmente obscuro, verdade? - Lee, Coetzee, Tolstoi, Conrad - citando apenas alguns do que gosto) também não indica nada acerca da obra? Wilde dizia que quando os criticos estão em desacordo o artista está de acordo consigo mesmo. Ora para VPV toda a gente deveria estar era quieta, não criar nada, porque acabaria por ofender a sua apurada sensibilidade e a intelectualidade capaz de aferir os misteriosos e supostamente inalcansáveis (excepto para ele) cânones da qualidade aceitável. Isto parece próprio daqueles mestres escola dos tempos da outra senhora, e sinceramente, acho no mínimo, discutível e ausente de qualquer critério de objectividade e bom senso para sequer gerar uma boa discussão.

E sou insuspeito para falar porque não li o livro de MST, mas julgo-me algo legitimado para perceber que há formas e formas de nos dirigirmos às pessoas e suas obras, e sobretudo, quando existem críticas, convém explicar porque é patético e não dizer somente que é patético. E é isso que VPV nunca faz, sendo a última frase da sua carta algo parecido aquele miudo encovado, escondido no fundo da sala e que grita "então é eu? então e eu?? - o que claramente soa a inveja.

Gostei da sua abordagem e da forma como apresentou a questão, e acredite que as minhas questões são genuinas. Que argumentos ou espólio terá alguém para poder cascar assim sem mais em tudo e todos? Onde está a obra que, para além de qualquer contestação, elucidaria a superioridade do inatacável e intratável VPV? Não há qualidade para além de VPV? Se não há qualquer bitola, qual a escala para aferir o que é literatura e aquilo que não é literatura? A que se referem as pessoas quando dizem, "isto é giro, mas não é literatura?" Qual a escala? Existe? Em que se baseia? Haverá alguma teoria racionalizável sobre isto?»

E pergunto genuinamente... haverá?

sexta-feira, novembro 02, 2007

Foto - Thomas Barbey


Não há muito tempo, num café muito simpático situado na D. Carlos I (ao Parlamento), tomava café com uma velha amiga de muitas histórias, quando ela falou do peso da metrópole. Falava das distâncias, e do peso da maralha numa cidade que, devido à sua macrocefalia e imensa população, é paradoxalmente um local de solidão e afastamento entre as pessoas. Aqueles que têm uma família ou uma relação, parece refugiar-se nessa lógica, engrossando a parede invisível e plástica que incrementa a rotina dos pequenos crimes humano/urbanos que muitas pessoas cometem contra si mesmas. Falávamos de um esboroar, da perda de paixões que acompanham décadas, da vivência em função das tarefas, dos dentes afiados da cidade perante aqueles que tombam da roda das auto-rotinas.


Não é novidade nenhuma que as metrópoles podem empurrar as pessoas para uma dicotomia solidão versus procura que se torna muito pior na forma como exclui os desenraizados. Aqueles que não têm para onde fugir, ou onde se refugiar, especialmente quando não deveria haver razão para tal.


Lisboa é, creio eu, e à semelhança de outras metrópoles, um monstro de dentes afiados que lá vai alternando com campo de possibilidades e potencialidades. E no meio da adaptação, num local onde as romarias de trabalho-casa/casa-trabalho estraçalham muita da capacidade de fazer algo de diferente, a procura de um interesse, de algo de diferente, que apaixona e leva a esforços complementares de diversificação. Muitas pessoas seguem o seu plano diário, e ocasionalmente é possível ver aquela angústia desenhada no olhar cansado e acuado de quem caminha em stress no círculo dos seus dias. Mas parece que para muitos, ver-se fora desse círculo é ainda mais aterrador, quando o silêncio dos livros e o som das vozes que não se lhes dirigem tudo são ecos de um descaso tão insuportável como inadvertido.


Mas também há possibilidade nas metrópoles. Existem aqueles que andam por aí, com um livro debaixo do braço, com um sorriso encantador, com uma ideia maluca, com um pequeno truque de salão que nunca mostraram a ninguém, com duas coisas reais para dizer, e três disparates deliciosamente interno e pessoais para expor. Existem detentores de histórias felizes, de feridas mal suturadas, gente confusa, ansiosa, ávida, curiosa, com ornamentos na pele ou nas intenções, cabelos entrelaçados, pessimismos estilhaçados por sorrisos desautorizados.


Esta metrópole, porque nunca vivi noutra, pode estilhaçar-nos, mas os cacos em que podemos tornar-nos também podem tirar sangue de outros locais, e a vida algures acaba por ser comprovada. A duras penas ou no próximo momento em que surge o inédito, mas é o perigo de que nos engula que a torna real.


Por isso recordo o rosto dessa velha amiga, e sorrio. Sorrio porque pensava que ao transmitir isto, lhe passava algum senso de conforto, mas talvez só tenha unido a minha confusão à dela. E da percepção empática das coisas que nunca estão estáticas, verte uma ausência de solidão. E porquê? Porque afinal de contas, o real companheirismo e pertença nunca está no destino, mas em todos os fenomenos que se assemelhem à expectativa de de chegar lá, e que permite que se imagine em conjunto, contando as histórias por acontecer.


Creio que será assim, e é por isso que a metrópole é dual - mulher bela ao entardecer ou bruxa fétida no negro encontrado debaixo do sol. E somos todos metidos nas histórias que delas derivam.


Feliz ou infelizmente...






quarta-feira, outubro 31, 2007



Para alguns, o nome J. J. Abrams não dirá nada, e para outros dirá muito, especialmente os seguidores da série "Lost", que é uma grande falha no meu currículo - simplesmente não tenho tido tempo para me sentar e acompanhar uma série de princípio a fim, desde a segunda caixado Dr. House, já há meses.

Este é o seu novo projecto para cinema, por enquanto sem título, embora os rumores apontem o nome "Cloverfield" como provável. Não sei o que sairá daqui, mas vou estar atento à estreia americana, a 18 de Janeiro de 2008, porque a coisa promete... e muito! O rugido do animal é do mais arrepiante dos últimos tempos, e Abrams, como Joss Whedon ("Firefly" forever!!!) não parece homem para fazer asneiradas.

Esperemos com antecipação.






Autor do fantástico "FAHRENHEIT 451" e mais de 500(!) obras publicadas, Ray Bradubry dá aqui uma visão simples mas, em meu ver, absolutamente acertada acerca daquilo que é um esforço criativo, ou seja, para dar e para tornar a vida melhor, absolutamente distante daquela visão hermética e cheia de caganeirice, onde ninguém se pode atrever a escrever uma frase sem que isso surja como uma espécie de heresia perante "os esclarecidos". Aqueles que massacraram Allan Poe, Kennedy Toole (rejeitado por 12 editoras antes de se suicidar, sem ter sido publicado, tendo vindo a ser Pulitzer em 1981), Dickens ("espancado" por Henry James e Virginia Woolf) Stephen King, etc, continuarão a fazê-lo, felizmente sem resultados visíveis, provocados por pouco mais que inveja.

Bradbury ganhou o "National Book Foundation's 2000 Medal for Distinguished Contribution to American Letters", assim como King, em 2003.

E sobretudo dizem ambos a mesma coisa. Divertem-se quando caem pelo buraco do papel, e escrevem aquilo que sabem, sentem, sempre honestos com a sua própria visão. Julgo que se essa honestidade, em ver "a verdade por trás da mentira que se traduz em inventar uma história", for exercida a todo o custo, há uma voz que terá alguma coisa a dizer, ainda que não agrade a todos.
Eis aquilo que já anteriormente disse sobre Vasco Pulido Valente e seus discípulos lá perdidos na verborreia da vaidade intelectual traduzida na injustificável e gratuita detracção de tudo o que não seja uma estranha e insondável bitola de qualidade - ouvir aqui.

Se já não gostava do personagem, fica a ideia, também magnificamente traduzida
aqui.
E, como diz MST ( pessoa com a qual também discordo e que por sua vez também lança um ocasional arrogância em excesso, mas cuja atitude e visão concordo mil vezes mais do que a de VPV), realmente VPV apenas merece pena, por ver uma inegável e imensa inteligência tão roída pela inveja, pela desonestidade intelectual própria de quem nem sequer se consegue enxergar. A história da secretaria de Estado da cultura é deliciosa e absolutamente conclusiva de uma soberba no mínimo anedótica.

terça-feira, outubro 30, 2007



Já aqui falei do ressabiamento de algumas mulheres, mas juro que cada vez o percebo menos, especialmente porque começa a engrossar fileiras.

É uma espécie de condescendência misturada com acrimónia, e o mais curioso é que é atirado como se de facto pudesse passar por mais do que um preconceito inflamado e em muitos casos, apenas patético. E o pior, é que em nada se diferencia do machismo mais básico, traduzidos ambos numa lógica de inferiorização despida de qualquer argumentação que não sejam as velhinhas quimeras dos "homens todos iguais", e "todos uns bandidos" e por aí fora.


Há tempos tive uma conversa curiosa com uma amiga, onde se debatia uma certa capacidade que alguns (ok... muitos) os homens possuem para ser menos focados num único objecto de afeição do que as mulheres. Além de achar que isso são tretas, porque há mulheres tão capazes de pular a cerca como homens, a verdade é que a predação, caso exista, é produto de personalidade e não hormonas diferenciadas. Está no sangue da pessoa, e na sua capacidade de seduzir, ou não. É assim, simples e pragmático.


Mas sim, admitindo que isso até possa ser verdade, eu gostaria que algumas mulheres fossem homens por uma semana. Que sentissem na pele o que é ser homem, só para verem como é, antes de lançarem generalizações acerca de coisas que nem desconfiam. Que percebessem o que acontece quando a programação genética dá umas ordens absolutamente imbecis, mas incrivelmente convincentes. Assim como algumas mulheres terão com os sapatos e quejandos, ou desculpam tudo com o SPM. (Ou talvez alguma encontre uma explicação perfeitamente racional para ter 50 pares de sapatos em casa...). Umas naturalidades servem, outras já são discutíveis... Enfim...


Brincadeiras à parte, é evidente que é a confronto perante as diferenças que dificulta tudo. Porque de parte a parte existem irracionalidades e coisas que talvez não se entendam perfeitamente, mas enquanto se extremam posições, surgem as incongruências, e muitos idiotas com meia dúzia de lérias acabam por levar à certa quem no fundo deseja ser levada e finge para si mesma crer em historietas coladas a cuspo. E a taxa de sucesso de tais artistas é tal que obviamente não posso associar a falta de inteligência da contraparte, mas sim um desejo de crer, mesmo quando a coisa cheira mal à légua. É exactamente o mesmo raciocínio do macho latino que nunca duvida de todos os orgamos das suas parceiras, ainda que todas tenham fingido. No fundo, há lá a possibilidade, mas a alternativa é muito melhor. Se brilha, soa e por momentos parece ouro, então deve ser. E depois é um asnear que nunca mais acaba...


Recear esta espécie de afirmação de um suposto girl power, é dar-lhe a importância que não tem, e sobretudo, mostrar que perante a inversão de papéis, o simulacro de poder cria maus hábitos e atitudes discutíveis, sejam elas masculinas ou femininas.













Este é o segundo trailer de "I Am Legend", e a coisa realmente promete.

Ao que parece, e ainda bem, a relação com o cão vai ser objecto de atenção pela narrativa, o que embora não corresponda à narrativa original (os que leram o livro sabê-lo-ão), é um dos pontos altos desta pequena jóia feita de páginas.

É daqueles livros de afecto, de história, de vida, que hei-de fazer?

Espero que o filme o seja também.





Excelente...

segunda-feira, outubro 29, 2007








Ao lado de Lisboa, junto ao Estádio nacional, vivem uma série de vilas e pequenas cidades feitas de pessoas que as usam maioritariamente para dormir e deambular nos fins-de-semana. São aglomerados de prédios que crescem e se multiplicam como cogumelos numa floresta húmida, intercalados com alguns tímidos espaços verdes. A mata do Estádio Nacional, felizmente protegida, envolve estes aglomerados dando-lhes uma sensação bipartida. Ilusória no espaço, mas concreta na evasão. Existe no entanto o silêncio no meio da confusão, e as pessoas fogem, embrenhando-se no rumorejar das árvores. Os pinheiros formam um tecto de silêncio e sombra, e no coração de Lisboa ergue-se um local de ausência e distância.


Nestas cidades ou vilas a vida corre mais ou menos calma, sem grandes vicissitudes ou alegrias, sem glórias ou desgraças dignas de mais que uma semana. Na grande maioria do tempo nada ocorre senão as idas e vindas daqueles que lá vivem, ou as visitas dos que escolhem a casa de um nativo amigo para visitar. Começam e acabam vidas, praticam-se crimes mais ou menos graves, embora com mais ênfase nos primeiros, as pessoas juntam-se e separam-se, traem-se e reconciliam-se. Os heróis do quotidiano têm as suas glórias passageiras, assim como os seus habitantes mais violentos. As coisas ocorrem com a naturalidade sequencial do dia e noite.
Um homem de passo saltitante impede um miúdo de ser atropelado no caminho de casa da amante. O filantropo da vila aperta o cinto de couro entre as mãos antes de chamar a filha à sala de estar. Um grupo de miúdos ajudam uma velhota a atravessar a rua enquanto um deles corta a alça de couro da bolsa com uma navalha de ponta e mola sem que esta perceba.


No jardim, uma rapariga beneficiária da generosidade estética da natureza arrasa o mais delicado dos seus pretendentes antes de se apresentar para o voluntariado. Atrás deles, o bombeiro mais condecorado da região corre para o carro, sabendo que faltam cerca de três horas para largar o turno e ver aqueles filmes com miúdas muito novas que chegaram naquele dia por encomenda. O padre da vila abençoa a paróquia após um sermão comovente, apressando-se a tirar a sobrepeliz e a túnica antes partir para o carro e se encaminhar para a Ericeira. Lá espera-o uma casa à beira mar e uma mulher que coloca no frigorífico duas garrafas de um óptimo vinho branco antes de mergulhar na banheira de água quente e sais.
O sol sobe, apesar de ser a terra que se mexe, e segue-se-lhe a noite. As coisas vão acontecendo na sua sequência normal embora toda a gente olhe pela janela em direcção ao crepúsculo de Verão, com a noção expectante de um dia seguinte que seja de alguma fora diferente. A pouca brisa que existe arrasta algumas folhas carcomidas pelo sol, e os cães aproveitam o fresco para andar um pouco e procurar comida. As vilas estão latentes, sem saberem se vivem calmamente, ou morrem em vago e lânguido estertor. Há uma aura de distância em todos os rostos, de espera, de antecipação, de teimosia numa crença inconsciente.


Nem sei que vejo mais, e continua tudo a desfilar...