ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, fevereiro 28, 2007

A propósito deste texto, muito bem escrito, como é hábito, mas com o qual concordo apenas em alguns elementos parcelares, "parou-se-me" aqui uma reflexão, que só tem a ver com o texto de forma indirecta. Deve-se à conjugação do mesmo com factos recentes.
Acho que existe um elemento de identificação primordial e preferido em cada pessoa. Aquilo com que preferimos ser conotados. A avaliação externa que ratificamos interiormente quase que por instinto.

E é curioso como a avaliação positiva feita a outras coisas que não a tal ou tais poucas eleitas pelo nosso juízo estético acaba por encolher à dimensão de um detalhe. Torna-se pouco importante, e pode ser, (não raras vezes até é), mais justa que a nossa própria avaliação, ou desejo da mesma. No fundo tudo tem a ver com a capacidade de atracção ( e atenção que não está obviamente circunscrita ao elemento sexual), com a forma como estão organizadas as nossas características e como estas criam magnetismo pessoal.

Se queremos sentir-nos atraentes, o reconhecimento da capacidade de gerar amizade parece curto, parcelar e insuficiente. Se somos atraentes à partida, a simpatia vem sempre acompanhada com um aroma a desconfiança, porque essa unidimensionalidade pessoal acaba sofrer das mesmas insuficiências, e a incapacidade de estabelecer afeição contida na amizade gera dúvidas dolorosas.
Claro que a ideia do "ensemble" é preferível, e já conhecida, mas a verdade é que ao longo dos anos e das vivências, existem fases em que as tendências se substituem. Nuns certos anos, a primeira é mais importante, ou pelo menos de presença obrigatória entre outras, noutros será a segunda.

Mas o que me deixa algo confuso é a razão pela qual a criação de desejo, empatia, atracção, amizade está, por vezes, tão desfasada da mera possibilidade de a concretizar. É óbvio que é agradável sentirmo-nos genericamente atraentes ou agradáveis. Mas porque será que em alguns casos o reconhecimento da atracção, (por exemplo, por parte de uma pessoa que não achamos atraente) que não queremos nem consideraríamos concretizar, acaba por ser tão "uplifting"? O reconhecimento das qualidades através da verificação do desejo criado parece-me um pouco parecido com aquela ideia de mexer para estragar e não para desfrutar. Algo como acenar a cenoura em frente do animal, não para o fazer correr, mas para lhe mostrar o que a cenoura o poderia levar a fazer.

Uma coisa é reconhecermos a capacidade que outras pessoas têm, o seu poder atractivo, o seu cariz. Outra bem diferente é o exercício de um ascendente em abstracto quando não há a mínima intenção de o concretizar.
E claro está, depois existe outro fenómeno, em que aqueles que de alguma forma respondem ao estímulo sofrem as consequências, no fundo, de agirem em conformidade com o que lhes agrada, mesmo que isso implique uma simples demonstração factual do seu sentido e juízo estético.

Atenção, sempre fui partidário de que o que é bom é para se ver e o que é de qualidade é para apreender. Mas de alguma forma, julgo que também há que ter algum cuidado em gerir as capacidades, porque por vezes o respeito (e como é forçado às vezes!) não significa desinteresse, mas tão somente a adaptação ao enquadramento possível. Não morder mais que a boca, no fundo.

Concluindo, para mim, e sem qualquer ideia de generalização que não seja o da minha experiência pessoal, não entendo muito bem as pessoas que gostam de passear o seu charme, que apreciam uma espécie de adoração abstracta (mesmo por aqueles que não consideram seus pares), e que gerem isso com uma falta de cuidado próprio de quem tem uma certa incapacidade de se colocar no papel do outro.

Adoro as pessoas que se sentem bonitas, ou charmosas, ou inteligentes, ou capazes, ou habilidosas, ou genericamente confiantes, e o demonstram. A confiança é um sinal de coerência e verticalidade do ser, e aprecio-o. E não tenho problema nenhum em admitir superioridade de quem efectivamente o é pela sua qualidade.
Seja homem, mulher, vegetal, animal ou mineral.
E gosto de gostar deles(as)!

Mas já tenho dificuldades em entender as pessoas que desejam que o impacto dessa sua confiança seja materialmente verificável. Aqueles que desejam efeitos fenomenológicos, sem que a sua atitude não seja mais que uma aprovação abstracta e regojizada porque mais alguém que reconheceu as qualidades.

Como dizia uma amiga minha, "Adorar, adora-se o menino Jesus".

E sendo eu agnóstico a coisa parece-me ainda mais confusa.





Com asas nas tuas costas, e voos por cima dos incêndios de que és feita, transformas-te na surpresa dos dias em que te fazes unicamente de ti, e por isso, teimosamente infinda, emersa em delícia escarlate...

terça-feira, fevereiro 27, 2007

A dialogue inside a story...


(...)

"She was right. That was exactly what I thought. Some people just seem invulnerable to the common heartache stories. You look at them and see smiles, capability to choose no matter what, and no chance for scars. It’s like a glorious summer day with some occasional cloud. She seemed like one of those people who are not constantly happy, for perennial happiness is impossible, but somehow breeze through life wearing an invisible coat that shields them from difficulty and the constant threat of plausible heartache. And when you find them as vulnerable as any other person, with as many imperfections and incoherence as you can imagine, they become suddenly human. And that’s tough to register in five minutes.

“News flash, I’m not a marble statue. Sometimes I just want to hit you on the head with a shovel. What did you think? I’m some kind of princess sheltered from harm in a glass bubble?”

“Well, no but….”

“What? I never felt rejection, is that it?”

“Well, did you?”

“Hell, my sweet moron, there are a lot of types of negative response from others. Yes, most man I met wanted to fuck me, but I’ve been rejected in other ways. And there are harder forms of rejection than that. I’ve made my mistakes, and got hurt like everybody else, so where in the hell did you get that idea?”

“I’m sorry. I simply didn’t think you were the kind of person to have difficulty in getting what you want out of people.”

“Well, what’s that? If it’s praise, you’re sucking at it. And you’re getting on my nerves.”

“Well miss smart pants, give me an example.”

“Of rejection?”

“Yes.”

“You’ll find them all out, I can assure you. And eventually pay for them, and challenged to mend them. So you’re in for a tough ride.”

“I never thought otherwise.”




year in a hostile place
I hear your face start to call
and If you think that I've been loosing my way
that's because I'm slightly blinded
If you think that I don't make to much sense,
that's because I'm broken minded
But don't keep it...INSIDE
if you believe it
don't keep it all inside
strong words in a ganges sky
I have to lie
shadows moves in pairs


Podemos ajudar alguém com simplicidade. E podemos fazê-lo com a ideia clara acerca da forma como podemos ver a realidade de uma outra forma, com a experiência dos resultados obtidos ou o simples discorrer da vida com eventos que, embora talvez não perdurem, fizeram parte da construção de vida que nos caracteriza.
Existem amigos que apetece salvar. Ou conduzir a qualquer lado. Ou simplesmente oferecer uma outra perspectiva, na lógica do que eles significam e do que de bom desejamos para eles. E claro que existem formas e forma de o fazer, mais ou menos cuidadas, mais ou menos assentes na aplicação de métodos à nossa própria vida.
A ideia assenta no pressuposto de que essas pessoas não conseguem chegar onde querem em algumas coisas, ou pelos menos aos estágios intermédios. Aos instantes em que parece que a vida até vale a pena, equilibrada num degrau ascendente para que possa valer mais ainda. No fundo, talvez a simplicidade da ajuda que se oferece em nada adiante. Talvez só conforte ou mostre um cenário alternativo onde a pessoa não se vê como possivel protagonista. Talvez seja só uma intenção.
Mas acho formidável quando alguém recorre a nós pelo que julga que podemos fazer. Pelo pouco que talvez possamos adiantar, nem que seja aliviar a corda da roldana onde se suspende um segredo pesado. Nem que seja para deixar a pessoa desejar, ver a criação das suas vontades e imaginar encaixe para elas. A companhia real assenta no acolhimento e na distribuição possível da verdade própria. Nunca na condescendência.
Por isso acho, como já disse, que podemos ajudar alguém com simplicidade. Ter um gesto que embora não seja capaz de resolver coisa alguma, cria uma plataforma de apoio onde afinal de contas, aquilo que a pessoa diz acaba por ter um eco, espelhado naquilo que sabemos e aprendemos a gostar nela.
E quando ela o reconhece, a simplicidade é afinal o que somos e podemos fazer.
E este é um caso clássico (mais um!) em que a acção, por mais dispersa que possa ser, ultrapassa claramente a inacção cómoda disfarçada de respeito pelas opções próprias. ´
Ajuda-se como se pode, quando se pode, mas sempre com a ideia de que a objectividade exterior se traduz na amostragem de alternativas, com fundamentos, não na pregação de máximas.
E há quem o faça na perfeição, mesmo com a lâmina da objectividade.
Nem acho que haja outra forma de o fazer, sinceramente.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Felizmente deram o Oscar a Scorcese por um filme absolutamente brilhante, e não por questões de consciência pesada. À 7ª foi de vez. E que bem merecido!
"The Departed" pareceu-me realmente o melhor filme do ano, mesmo perante a fortíssima concorrência.
As compatibilidades podem ser uma porra. Especialmente quando chocam com aquela noção primordial do que somos, ou achamos que somos ou devemos ser. Quando a naturalidade da nossa forma de agir nos aponta para um caminho onde supostamente nos sentimos confortáveis.

Mas a questão que fica no ar traduz-se no antagonismo entre a forma de ser e aquilo que desejamos obter enquanto pessoas. Certamente que a individualidade e integridade não são objecto de negociação. Nem devem ser, porque a encenação pega fogo com uma facilidade incrível, e a recuperação dos automatismos empáticos pode nunca ser possível perante a queda da máscara.

Outra coisa completamente diferente é a capacidade de evolução, de adaptação, sem perda da tal individualidade. Se os vincos de personalidade não surgem como ferramentas capazes de nos levar mais em direcção ao que desejamos, ou nos escondem dessas coisas, até que ponto a manutenção de uma teimosia comportamental é racional ou mesmo producente? Até que ponto se pode amarrar o burro e esperar que alguém ache piada a um isolamento ou ocultação das características que nos tornar algo mais aos olhos daqueles a quem desejamos chegar?
As pessoas são definidas também pelo que fazem, não só pelo que pensam ou sentem, e se deixarem esses elementos ocultos, não passam de uma intenção de si mesmos, e como tal, invisíveis.

A ideia de que devemos ser apreciados por quem somos não pode nunca significar imobilidade ou inactividade. A teimosia na inacção, ou na forma de ver as coisas que já se sabe que não funciona, deve levar a querer evoluir, a querer ser mais, e sem termos de sair de dentro da tal integridade ou individualidade. Mas é irrefutável que as moléculas alheias não trepidam com silêncio, introversão e neutralidade. É na interacção que somos nós, e sem ela, não passamos a nossa mensagem, não deixamos a nossa marca, não nos tornamos um acrescento na vida seja de quem for. Sermos quem somos, e fiéis a isso mesmo, passa pela defesa da nossa tese, pelo acrescento ao nosso manancial de gostos, taras e peculiaridades, pelo acrescentar da nossa matéria humana aos olhos de quem nos interessa. Passa por por os dentes no mundo antes que ele nos morda, deslumbrarmo-nos por ele antes que nos devore pela nossa gorda e diáfana inacção.
À distancia, tudos podemos ser tudo, mas a manutenção dessa mesma distância torna-nos passáveis, inertes e olvidáveis. Parece-me claro que só podemos passar por quem realmente somos, na demonstração da singularidade que somos, ao dar aos poucos que elegemos para nos acompanharem, cada vez mais do nosso melhor.
Evoluindo, claro.
A inacção é solidão.
Julgo eu.
E desnecessária, ainda por cima...

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

ASTROLOGIA OU EFEITO FORER?
TALVEZ MAIS PREVISÃO "ESPERANÇOSO-VAGO-CONVENIENTEMENTE ADAPTATIVA...?




Há um enorme debate sobre intuição, categorização de personalidades e verificação padronizada de tendências. E claro, a capacidade de prever futuro por verificação de supostos padrões ou tendências.

As ideias dividem-se entre a denúncia de impostura ligada a uma espécie de esoterismo defensor de mecanismos pré cognitivos e diferenciadores de personalidade que permitem antecipar eventos, e a inspirada concepção de coisas que não se explicam, de sentimentos que parecem antecipar factos ou inatismos que formam personalidades e as suas tendências verificáveis e logo previsíveis. No fundo, o choque entre cepticismo racional e, por exemplo, a astrologia.

É curioso como a astrologia (e outras variantes de esoterismo estudado, como medicinas alternativas), a qual tem séculos de existência, estudiosos e curiosos na matéria que vão desde Paracelso ao nosso Fernando Pessoa, granjeia ainda uma popularidade tão grande.
Eu sou um céptico empedernido nestas coisas. Não consigo entender como raios é que Mayas e Paulos Cardosos conseguem fazer as fortunas que fazem conseguindo convencer tanta gente que amanhã é melhor vestir azul senão podemos ser responsáveis pelo afogamento de todos os patos e cisnes na lagoa do Campo Grande.

E muita gente fica no entanto espantada com aquilo que a astrologia consegue "acertar", especialmente nas análises de perfis de personalidade. A frase "bolas, é mesmo isto" é recorrente quando alguém saca de um livro onde se disseca a personalidade dos signos do Zodíaco e curiosamente nos vemos retratados em muito do que lá está. Claro que mais de metade não tem rigorosamente nada a ver com o que somos, e muitas das conclusões que lá encontramos estão tão a leste do núcleo da nossa personalidade que chegamos a reconhecer noutra pessoa que nasceu seis meses depois, mas as coincidências levam a melhor, e a simpatia de muitas dessas coincidências deixam-nos contentes com a análise. Acho que em muitos casos, o "wishfull thinking" entra em acção e damos connosco a pensar que ainda que não sejamos assim, atingir tal estágio comportamental está na calha porque "é coisa própria dos Aquarianos" ser assim ou assado.

Mas toda essa panóplia de avaliações faz lembrar o pouco que descobri há cerca de um ano sobre o Indicador de Tipos de Myers-Briggs (que se inspiraram em várias teorias de Jung), e a refutação feita através da explicitação do Efeito Forer ou Efeito Barnum (EFB) também conhecido pelo efeito da validação subjectiva ou pessoal.

No primeiro caso ( trata-se da aplicação dos modelos de avaliação a tipos de personalidade supostamente classificáveis e a utilização desses padrões para criar coisas como "profecias auto-realizadas", que no fundo são a chave dos horóscopos e quejandos.

No segundo caso (EFB), e assim denunciando as primeiras como falácias (auto-indulgentes, diria eu) surge o efeito Forer, que simplesmente verifica que dando uma definição suficientemente genérica mas aparentemente detalhada, toda a gente encontrará sua personalidade num conjunto de premissas elaboradas com diligência suficiente e com detalhes diferenciadores que talvez até se apliquem a 30% dos supostos sujeitos a que se destinam, validando por exemplo, as análises astrológicas e coisas que tais.

No fundo acaba por ser curioso, porque a astrologia reclama um campo científico e correspondente dignidade, e aparentemente acaba por ir buscá-la a partir de um método indiciário de avaliação psicológica e tipificação de personalidades. Mas a astrologia precede em muitos anos estes métodos, e supostamente fazia a transposição dessas tipificações por padrões nos movimentos dos planetas e coisas que tais.

Quem foi buscar o quê a quem? No fundo parece-me que a ideia da análise, ou mais do desejo de análise, partilha uma premissa comum, algo parecido a lançar o barro à parede a ver se cola. Sinceramente parece-me mais algo assim:

1 - Se eu deixar algo num determinado local, e der a volta à terra numa linha perfeitamente recta, vou acabar por encontrar esse algo.

2 - Um relógio parado também acerta nas horas pelo menos duas vezes ao dia.

Concretizando, a panóplia de especulação sem fundamento comprovável própria dessas avaliações genéricas e supostamente esotéricas acabará, eventualmente, por acertar algumas vezes. E quando no meio da nossa avaliação de personalidade feito naquele livrinho giro de astrologia acerta três coisas em cada sete, temos a tendência para sublimar as correspondências e ignorar as desconformidades. Concordo que é bem giro por vezes vermos alguém acerta no vinte no que diz respeito a algo que reconhecemos em nós, seja algo de chapa ou mais obscuro, embora absolutamente característico.
Mas há malta que faz rios de dinheiro com isto. Há gente racional que despeja carradas de dinheiro nas contas de tipos que desenham uns mapas e aconselham a cor da roupa e personalidades a evitar nas semanas subsequentes. E só me ocorre o que dizia a revista MAD na versão brasileira, numa edição que li há uns anos.

"O que raio têm os planetas situados a zilhões de quilómetros a ver com o que devo vestir amanhã?"

A astrologia e quejandos parecem funcionar como uma espécie de placebo, ou modelação do acaso através de cruzamento de estatísticas. Se cruzarmos dados suficientes, chegamos à conclusão que os tipos que calçam sapatos número 43 são mais propícios a gostar de endívias. Se alguém mentir com suficiente convicção, a certa altura chega mesmo a crer que fala verdade. Se a história contada for boa, convincente e bonitinha, até apetece dá-la por real... mas não é.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

"Pain pays the income of each precious thing"

Shakespeare - The Rape of Lucrece



Yup.. I guess that's it...

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Alguém dizia que é difícil fazer com que estranhos se importem aquilo que que é relevante para nós.
Por vezes, talvez não nos expliquemos bem.
Mas julgo sinceramente que tudo redunda não na capacidade de ver, mas na vontade. No tique de vontade que pode significar a diferença entre o balbuciar de maluquices internas e a revelação das estruturas da personalidade.
Perceber não é apenas um juízo intelectual movido a lógica. É um querer feito das pequenas coisas que constroem uma confiança, e através dela, do que nos preparamos para enfrentar e conhecer.
Importamo-nos com aquilo que é significativo para alguém é um processo de conquista, no qual ganhamos uma de duas coisas:
Um amor partilhado e descoberto por essas coisas;
Ou um respeito tão profundo pelo juízo afectivo que anhamos empatia pelo acto objectivo e não o objecto dessa afeição. Como nos fascinarmos pela capacidade de saber, e não exactamente pelo que a pessoa sabe. É como a pessoa consegue perceber, e não exactamente os enunciados que resolve.
É extremamente difícil fazer com que aquilo que julgamos importante seja objectivável para quem não nos conhece. E no entanto fazêmo-lo, deixamos sair.
Estamos vivos, e alguém percebe pelo simples acto de vontade que consiste em ver e ouvir a história.
No fundo confia-se em quem percebe. O juízo intuitivo tempera essa percepção ao nível do irressistível, mas não o constitui. É no meio dos efeitos novos e mágicos do que já se percebe, que nasce a empatia. Com ela, o real entendimento no silêncio daquilo que e tão importante para nós.
O que somos.
Obrigado.
Alberto João Jardim demitiu-se?
Não, o fedor de Lázaro político era previsível.
Se era para isto mais valia deixar a palhaçada como estava. Ver a Madeira a reeleger pela enésima vez a vergonha da classe política nacional é muito mais triste do que a manutenção do circo.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Stephen King - "Different Seasons" - 1982
Se for possível perceber isto, quase todos os mecanismos de isolamento são passíveis de refutação.
E ainda bem, digo eu.
Este texto aparecerá aqui mais umas vinte vezes, acho eu.
É como voltar a um instante em que me vejo em sintonia com algo, e com o desejo de a universalizar.
Recorrências.
"A year ago, Ms. Larsen, 36, and Mr. Langlois, 37, were hopeful New Orleanians eager to rebuild and improve the city they adored. But now they have joined hundreds of the city’s best and brightest who, as if finally acknowledging a lover’s destructive impulses, have made the wrenching decision to leave at a time when the population is supposed to be rebounding.
Their reasons include high crime, high rents, soaring insurance premiums and what many call a lack of leadership, competence, money and progress. In other words: yes, it is still bad down here. But more damning is what many of them describe as a dissipating sense of possibility, a dwindling chance at redemption for a great city that, even before the storm, cried out for great improvement.
“The window of opportunity is closing,” Ms. Larsen said, “before more people like us give up and say it’s too little, too late.”
Ler resto do artigo aqui
Bem, ao que parece até nas grandes potencias mundiais, nos modelos civilizacionais que são supostamente referências, acontecem coisas que parecem impossíveis.
Nova Orleães foi deixada ao desbarato pela administração Bush após a devastadora passagem do Katrina, no que muitos analistas classificaram de negligência e incompetência quase criminosas. Mas ao que parece, as coisas não ficaram por aí. A cidade está a ferro e fogo, e a reconstrução é continuamente adiada por factores como elevada criminalidade e o preço da habitação. A estes factores junta-se a fuga de cérebros e pessoas com qualificação que simplesmente não conseguem combater a ausência de liderança e ordem que grassa na cidade. Uma dessas pessoas fugiu após o assassinato do conjuge na sua própria casa, o que leva a crer que a cidade em reconstrução continua abandonada à sua própria sorte. Mas aqueles que poderiam ser fundamentais na sua reconstrução e responsáveis pela inversão dessa sorte, são precisamente aqueles que dela fogem.
Mas caraças, tem de haver dinheiro para mais 20 000 homens no Iraque...
Portugal tem algumas excrescências que tomam forma de homens, alguns deles com projecção pública.
Essas excrescências têm vários nomes, vários cargos, várias características.
Mas a maior tumefacção do regime democrático português chama-se Alberto João Jardim. É impressionante até que ponto vão os disparates deste idiota que se julga monarca, que insiste num discurso separatista absurdo (se lhe cortarem a torneira do dinheiro do Continente, pouco mais lhe resta senão beber água do mar e comer calhau), e que a cada semana diz novo disparate ou dislate que passa sempre incólume.
Eu, como Português, tenho vergonha de ter tal personalidade na minha classe política. Um cabotino idiota, boçal, que inacreditavelmente continua a manter a Madeira debaixo do seu controlo. Será com esta a identidade que os Madeirenses se identificam? Será esta a mensagem de gestão política e de imagem que os Madeirenses deseajm para si? E será que as vitórias eleitorais justificarão esta mancha vergonhosa na clase política do PSD e a sua condescendência perante tanto chorrilho de disparates e insultos que ficam impunes?
Esta alimária vem agora dizer, no Público de hoje, que o referendo não é vinculativo, e que Portugal "não tem testículos" ( diz logo colhões, pá! Tem mais a ver com o teu léxico!) para o reconhecer.
Well duuuhhhh!!! Que novidade, que visão politica brilhante. Analise jurídica de primeira água. SAbe ler a lei reguladora dos referendos. Uau! Estou estarrecido.
A abstenção foi demasiado alta novamente, devido à ausência de de consciência cívica dos portugueses, mas votaram quase 5 milhões de pessoas. E de acordo com aquilo que tinha sido dito pelas autoridades responsáveis, caso a mensagem política fosse inequívoca, como foi, a lei seguiria essa mesma mensagem, à guisa do que aconteceu no primeiro referendo.
(Recorde-se que Guterres não alinhou com a posição oficial da sua ala política na altura, e disse-o directamente. Que terá dito então o Sr. Jardim? É engraçado vir falar em vinculação jurídica quando a coligação PSD/PP beneficiou de eleições antecipadas precisamente por uma responsabilização política e posterior demissão governamental do mesmo cariz após a derrota nas autárquicas. (E o mais engraçado é que a câmara da coligação (Lisboa) vai de escândalo em escândalo, começando a ombrear seriamente com a falta de vergonha, respeito da menina de Felgueiras).
Assim sendo, o que se tornou um sinal de vontade política da população nacional, associado ao que foi anunciado pelo governo como caminho a tomar em face à lei, caso o referendo indicasse um ou outro sentido (Sócrates jogou tudo aí), fosse ou não vinculativo, dará origem à alteração da lei penal relativa à IVG, numa lógica de coerência com o que motivou o referendo desde o início. Portanto, não são os portugueses que não tem testiculos, mas sim esta personagem abjecta que pelos vistos não tem um cérebro.
É uma vergonha que Portugal tenha um personagem destes como parte da sua classe política, e ainda por cima com responsabilidades governativas.
Como português, envergonha-me que esta pessoa governe uma parte importante do meu país, e que lhe seja dada cobertura por uma população, e por um partido político que tem historial e responsabilidades como alternativa de governo.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Quando as pessoas ficam genuinamente surpresas pelo facto de lhes fazerem bem, e encolhem os ombros em reconhecimento quase indiferente quando lhes fazerem mal, algo está definitivamente mal.
Há uma espécie de aceitação comum perante as imperfeições maldosas ou a preguicite empática, o que me faz uma confusão tremenda. Além disso, é triste.
Claro que todos fazemos merda. Todos metemos a pata na poça, e todos somos melhores num dia e piores noutros. Mas sinceramente, é a ausência de disponibilidade para pensar numa pequena originalidade, ou no estabelecimento da empatia minima com alguém que me assusta. A ausência de vontade de fazer bem apenas porque sim é uma modorra social que muitos atribuem a crescimento, mas que para mim redunda numa dormência emocional medonha. E normalmente tem resultados complicados, como mortes pessoais prematuras produtoras de fantasmas rotineiros e olhos baços e dias vazios.
E sim, sei que por vezes os esforços que fazemos perante algumas pessoas, ou muitas, saem furados. Mas tentar é sempre possível. Há sempre uma ave rara parecida connosco, algures, que entende as nossas maluqueiras, e por mais difícil que seja fazer com que estranhos se preocupem ou estimem o que é importante para nós, tal fenómeno é possível. E a diversão que existe em conseguir estabelecer real empatia com uma personalidade dá por si mesma um senso de pertença, um gozo pela viagem conjunta em direcção a algo. Dure uma semana, ou a vida inteira, existem alguns gatos pingados que, sendo tão alienados como nós próprios, entendem uma linguagem. E se o nosso esforço, em coisas pequenas como um telefonema, uma prenda, uma ideia ou um gesto, as puder fazer sentir proximidade real, então algo de válido já foi feito.
Se pudermos apanhar a surpresa por um agrado, ao invés do enfado pela normalidade mais negra, julgo sinceramente que se consegue alguma coisa.
O mundo não é salvo, nem nada que se pareça.
Mas a recusa em aceitar a normalidade do escurecer mantém a vela acesa em vento mais forte.
Quando fazer algo por alguém querido se torna um imperativo da espontaneidade, cria-se um laço real. E são esses que nos dão a mais perfeita ilusão de perenidade, ou a verdadeira surpresa da solidez sem prazo de validade.
Qualquer desculpa para a inércia é falaciosa.
Ou então não se gosta realmente de pessoa alguma.
O que também é perfeitamente legítimo.
Mas deve ser triste e terrivelmente enfadonho.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

À semelhança do que disse acerca de outras efemérides do ano, o dia dos namorados só chateará provavelmente dois tipos de pessoas. Aqueles que justificadamente até gostariam de ter uma desculpa para (mais) um jantar ou (mais) uma prenda, mas lhes falta a cara metade, ou os que encaram a suposta obrigação como uma compensação pelo que não fizeram nos outros 364 dias, e deviam ter feito.
Para mim, uma desculpa para um agrado e uma celebração junto às pessoas de quem se gosta, neste caso a cara metade, é sempre uma coisa boa. Uma desculpa para uma prenda é igualmente boa, já que é mais uma num rol de atenção que não é descurada.
Mas se as pessoas andam todo o ano a pensar em tudo e mais um par de botas, se não há uma palavra constante, um agrado recorrente, uma surpresa e provocação reiterada, então tudo aquilo que o São Valentim traz é uma consciência culpada, e a recordação de uma obrigação onde deveria existir entusiasmo espontâneo. O amor pode até ser espicaçado pela saudade, mas nunca pelo descaso, ou pela ausência de mais uma coisa a fazer ou dizer.
Claro que não há pachorra para os ursinhos fofinhos e os corações de peluche cheio de ácaros, ou, como diz uma amiga minha, a porra da comédiazinha romântica que continua tão inócua neste dia como em todos os outros. Mas a verdade é que é mais um momento para poder fazer um agrado. Os restaurantes ficam cheios de casais que genuinamente se divertem, ou daqueles que mantêm o temível silêncio mal disfarçado por um cumprimento de calendário.
A velha ideia do consumismo só poderá aplicar-se a quem faz desta a terceira e última justificação para uma prenda ou surpresa durante todo o ano. É normal que pareça obrigação consumista, porque se a vontade de dar alguma coisa à pessoa de quem se gosta é impelida por pudor ou conveniência social, a merda já está feita há muito tempo. E meus amigos, se só recebem ou dão prendas à vossa cara metade no Natal, aniversário ou neste dia, é tempo de reavaliação, porque alguma coisa está podre no reino da Dinamarca.
Eu comprei prendas. Eu fiz prendas. Eu pretendo comemorar. Porque não o faço no espírito (supostamente obrigatório) do dia, mas faço-o como mais um evento, mais uma prenda, mais uma situação impelida pela vontade que tenho em criar e dar atenção reiteradamente. Curiosamente, a comemoração será adiada por uns dias, o que até faz com que factualmente, este princípio seja mais aplicável que nunca.
A lógica amorosa (parece um contrasenso em termos, mas não é) reside na vivência das coisas boas, transformadas pela imaginação que as faz brotar de formas que aparentam ser diferentes. E se as pessoas continuarem a sentir que conseguem fazer essas celebrações, dentro ou fora de dias convenientes, então a desculpa para fazer mais um parece-me óptima.
Jantem, falem, comam-se, divirtam-se, embebedem-se, encontrem aquela prenda ou gesto diferente. Se este for apenas mais um dia em que o fazem, então que este seja o melhor possível, sublimado pelo espirito da comemoração e balanço que até ao amor chega. Porra façam-no por respeito ao Santo, que talvez tenha sido o primeiro homem a tornar-se famoso por literalmente perder a cabeça pela sua musa.
O meu dia?
É Vermelho.
Tem Lua.
E um nariz irrequieto... :)


terça-feira, fevereiro 13, 2007

As mudanças de humor e a endocrinologia estão intimamente ligadas. Nos dias que correm, os disturbios mentais são sobejamente diagnosticados como desequilibrios internos de substâncias que as glandulas se esquecem de produzir, ou simplesmente produzem em barda.
O que faz pensar, julgo eu.
É normal que as tristezas e debilidades que pareçam surgir de lado nenhum, acabem necessariamente por ter uma explicação. Mas ficará por aí? Será que a explicação pragmática se torna suficiente para explorar fenómenos que parecem residir em necessidades e ausências tão dificeis de explicar na mente como relações de causa e efeito de cariz naturalístico?
Assim sendo, as hormonas parecem ser capazes de criar os mecanismos de imaginação que acompanham tais estados, funcionando quase como um alucinógeno interno. Como se o corpo se agredisse a si mesmo pela reacção a produzir.

Mas é curioso.
Por vezes não sabemos mesmo nada acerca da razão pela qual as cores parecem mais baças ou pardacentas. Nada acerca de copos meio vazios, de um torpor reactivo onde antes existia uma fornalha comburente. Nada acerca da
criatividade que é gerada por tais distúrbios, das imagens e contornos que permitem ver e sentir.

Se aceitarmos a totalidade da explicação pragmática, então a imaginação criativa é um acaso glandular, e somos reféns da causa-efeito na tirania das suas lógicas sequenciais. Mas se por outro lado, aceitarmos que as explicações racionais não abarcam todos os pedaços dos fenómenos, é na criação das explicações para o que escapa que reside toda a tentativa e efectividade criativa.

De uma forma ou outra, somos responsáveis sempre, e só culpados às vezes.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

SIM!!!
É com profundo alívio e genuína alegria que constato sermos um país menos terceiro mundista. Um país que escolheu ter uma perspectiva humanista, a favor da preferência pela escolha consciente e dignificação de algo tão importante como a escolha para ter ou não uma prole.
Não vou sequer falar do discurso de vitimização da facção do não, das tácticas de ultima hora para confundir a opinião pública, e do inenarrável discurso de Ribeiro e Castro ou do movimento Norte pelo Não.
Acabou por vencer o fim da criminalização de algo que era impassível de tal valoração jurídica, acabará a hipocrisia, diminuirão os cenários de vão de escada e horror quase medieval, e a opção da mulher, dentro do período onde ainda a pode tomar, será respeitada. A dignificação da qualidade mínima de vida e a possibilidade de tomar uma decisão tão importante como essa acabaram por vencer. Felizmente. Já era tempo.
Achei engraçado que alguns dos movimentos do não tenham dito que os que não votaram, caso o tivessem feito, teriam votado no não. É curioso que em 1998 tenham ganho graças a uma abstenção muito maior que esta, e agora, quando quase metade da população portuguesa votou, a expressão do sim ganhou 20 pontos percentuais. Eu não tenho conhecimentos exactos sobre estatística ou métodos de probabilidades, mas a tendência parece clara.
Como alguém disse, o referendo não é juridica, mas sim politicamente vinculativo. Sócrates jogou tudo, e a lei será alterada até ao Verão.
Deu-se um passo em frente e a consciência civica e democrática evoluiu. 56,7 % das pessoas achou que nada tinha a ver com isto, ou que o debate não lhes dizia respeito, o que é um perfeito disparate. Paulo Portas dizia que as pessoas têm direito a abster-se, o que é verdade, mas este assunto diz respeito a todos, e a sua importância não justifica um olhar para cima e assobio de despreocupação. A democracia e o país mereciam (ainda) mais participação, votassem em que sentido votassem. Muitas pessoas desconhecem com certeza a quantidade de países onde as pessoas vertem sangue para poder fazer as suas cruzes no papel. Mas isso é outra discussão.
Para mim é um dia de alegria como cidadão, democrata e pessoa.
Hoje somos um pouco menos terceiro mundistas.

sábado, fevereiro 10, 2007

O conceito de pessoas danificadas não é novo.
Alguns consideram que tal coisa não existe. Que somos todos passíveis de remendos que nos transportam para uma dimensão imaculada da personalidade que supostamente temos. Mas os que o pensam, estão errados. Perigosamente errados. E alguns deles são também idiotas.
A evolução não aponta apenas para um sentido. E as pessoas danificadas não estão de forma alguma incapazes. Ou tolhidas. Se for a pensar bem, elas simplesmente colocam um problema complicado aos que ainda assim as amam e aceitam. Abanam a cabeça em segredo, aceitam a punição, e fazem o melhor que podem.
A danificação pode tornar a pessoa diferente, evoluida e pejada de uma percepção de si mesma ao ponto de nem sempre fazer aquilo que supostamente faz sentido. A dor é de marés, e ninguém pode parar a rotação da terra. Simples.
Mas a sua humanidade condicionada é real. Por vezes, aposta fortemente.
E é efectivamente capaz de sentir.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007




Ok... esta é, para mim, a novíssima coqueluche.
Talvez seja pela personagem, mas a verdade é que esta moça junta-se ao restrito panteão das miúdas mais giras da notoriedade artística actual. A série em que participa é, novamente para mim, a melhor do momento. Sem rival à altura.

No entanto é a terceira a chamar-se Jennifer...

Padrões, padrões...

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Este é o primeiro dia em que consigo olhar para um ecrã e escrever alguma coisa sem que a cabeça se assemelhe a algo prestes a explodir.
Digamos apenas que foram dias para verificações, choques, alegrias, e exaustão.
Verifica-se que o serviço nacional de saúde e a organização subjacente funciona como uma linha de montagem onde a doença, (excepto se significar risco de vida, e nem mesmo aí por vezes) é vista como peças a despachar à velocidade do Simpósio Terapêutico.
Verifica-se também que ficar cinco dias em casa custa uma pipa de massa, o que faz com que ficar doente não signifique apenas desconforto e mau estar, mas também um relevante condicionamento financeiro. Castiga-se quem fica doente, como se isso fosse uma espécie de moralização do sistema.
Verifica-se igualmente quem está minimamente interessado no que nos ocorre, ou naquilo que pode significar um desvio à nossa rotina. Tempos modernos, acho eu.
Tem-se um choque pela mudança daqueles que se transformaram perante os nossos olhos, e que a cada passo parecem mais irreconhecíveis. É algo no qual quase não se consegue crer, mas está lá. E daria um mundo de análise. Talvez mais tarde.
Surge a alegria que nos é dada por aqueles que reforçam ainda mais todas as coisas boas que já pensávamos e sentiamos por eles. Vemos a medida da nossa sorte, e ela sorri-nos. É bom.
E fica a exaustão.
Razão pela qual só voltarei aqui quando a cabeça não estiver a estalar como agora, após dez minutos a escrever.
Sine Die, mas para breve, certamente.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007



Alguém fora deste mundo mostrou-me este anúncio.

E deixo-vos a apreciar a absoluta maravilha que os verdadeiros criativos de publicidade podem construir, respeitando e fazendo evoluir o nosso cérebro, sensibilidade e estética.

Não consigo comentar mais, porque a excelência do anúncio tornaria quaisquer palavras redundantes.

Assombroso.

P.S. - O senhor mais idoso, que usa óculos e que tão sabiamente fala de espírito de equipa, ou muito me engano ou dá pelo nome de John Wooden. Trata-se de um dos maiores e mais vitoriosos treinadores de basquetebol universitário americano de todos os tempos. E o que diz é pura verdade, numa simplicidade arrebatadora, de sabedoria plena, e que tanta gente insiste em ignorar. Falarei do espírito de equipa numa outra altura, com base no que diz este senhor. Mas fica a merecida vénia.




"High is the way, but all eyes are upon the ground.
You were the light and the way they'll only read about.
I only pray, Heaven knows when to lift you out.
Ten thousand days in the fire is long enough;
You're going home.

You're the only one who can hold your head up high,
Shake your fists at the gates saying:
"I've come home now!
Fetch me the spirit, the son, and the father.
Tell them their pillar of faith has ascended.
It's time now!
My time now!
Give me my, give me my wings!"

You are the light and way that they will only read about."

And you must know it, Red Fire!






Ao lado há musica, sendo que a mesma será mudada com regularidade.
Os controlos da jukebox virtual não permitem que a musica entre logo assim que se acede à página, portanto tem de ser o visitante a ligar o gira discos. Ou então enganei-me em alguma coisa.
Seja como for, já há banda sonora.
Enjoy!



DIREITO/DEVER
À CONSCIÊNCIA (?)
Embora seja apartidário, é por demais evidente que me inclino para a perspectiva mais à esquerda das coisas. A ideia do humanismo possível seduz-me incomparavelmente mais que o separatismo pragmático do salve-se quem puder e depois logo se vê que a mão invisível regula tudo. Claro que a visão é muito mais abrangente e complexa do que esta, mas para já é apenas uma pequena brincadeira que não anda assim muito longe da verdade, julgo eu.

Mas esta pequena explicação prende-se com o facto de ter amigos de direita. Sim, tenho, e as conversas são sempre inflamadas porque as argumentações acumulam-se e degladiam-se com base em princípios de vivência quotidiana, e aí existem os choques de tolerância e definição dos fenómenos consoante esses princípios.

Mas existem ainda algumas coisas que me deixam perplexo.

A primeira é o facto de alguns irredutíveis ainda defenderem a intervenção americana no Iraque. É um desastre pegado, e já ninguém nega, julgo eu. As notícias de morte, destruição e caos são mais reiteradas que algumas telenovelas diárias.

A segunda é o silêncio conveniente que a economia lança sobre a defesa de princípios civilizacionais. A China, regime totalitário/comunista e absolutamente repugnante em tantas matérias de direitos humanos e civis, é o Eldorado económico. Já nem vou falar em mais um disparate do Ministro da Economia, que me parece o gajo mais incompetente num Governo desde o Santana Lopes ou a Mariana Cascais), mas na complacência de um mercado tão vasto, situado num país que tão grave e frequentemente estraçalha liberdades e direitos que consideramos fundamentais.

A intervenção no Iraque, (hipocrisia mor e historicamente trágica) é defendida pela administração americana com base do "derrube" de um sistema totalitário e
sem respeito pelos direitos humanos. Mas a China é o maior mercado interno do mundo. E isso é absoluta e horrendamente relevante, fazendo com que nenhum país com uma balança comercial viável ou viabilizável se possa dar ao luxo de os afastar da lista de fornecedores ou compradores.

Os EUA, e aqui temos de ser justos,deram o ar da sua graça, e deram o seu contributo através de sanções económicas como retaliação a certas políticas. Mas, relembrando Martin Amis no seu "Koba", a denúncia da complacência criminosa da Europa perante o grande horror stalinista parece aqui, (numa escala menor?) reproduzida por parte das facções que supostamente o denunciaram. A economia, a promessa de mercados e os negócios retiraram a indignação da boca da malta do lado direito, precisamente pelo apoio na inexorabilidade dos mecanismos económicos.
Ou seja, o mercado fala, e a consciência ouve, e encolhe-se os ombros porque, meus amigos, "a vida é mesmo assim." Mas para mim a máxima do Burke ( "All that is necessary for the triumph of evil is that good men do nothing.") é irrefutável, e olhem que é insuspeito porque o gajo é um dos fundadores do conservadorismo, o mais diametralmente oposto da minha orientação política. Não há resposta economicista para a expansão de um estado que é responsável ( à excepção do louco furioso na Coreia do Norte e de alguns regimes africanos) por um regime politico responsável por tudo o que possa ser atropelo a liberdades e direitos fundamentais.
É por estas e por outras que me mantenho mais pegado ao outro lado. Compadeço-me daqueles meus amigos de direita que comigo, por vezes, encolhem envergonhadamente os ombros e olham para a movimentação de um mecanismo que é demasiado grande para vozes individuais.
Aquilo que não posso aceitar é que se defenda essa postura como certa, como justificada do ponto de vista da sua essência. O bombardeamento de Dresden foi desnecessário, e uma carnificina como Guernica. O último foi visto por Picasso, o primeiro contado por Kurt Vonnegut. A denúncia prova que certas coisas são impassíveis de relativismo, e que o direito à indignação é claro e inegável.
Talvez seja pouco, mas a consciência colectiva é o que mais cedo ou mais tarde, muda sociedades. E ainda que por muitos "tenha de ser", não significa que aceitemos como certo. Quando vão pela goela abaixo, sabemos que é um sapo, e não um pedaço de faisão que resolveu espernear.
A malta tendencialmente de esquerda(moderada) também sabe ver a realidade.
E acha que a mesma pode efectivamente sofrer alterações.
"Our integrity sells for so little, but it's all that we really have.
It is the very last inch of us, but within that inch, we are free."
Larry and Andy Wachowski
Por vezes pergunto-me com o que as pessoas realmente se preocupam?
Tirando as questões pragmáticas de sobrevivência ou ritual de subsistência diária, pergunto-me muitas vezes o que preocupará as pessoas. O que as fará parar, pensar um pouco, desencontrar sentimentos na cabeça, e produzir reflexões de racionalidade e emoção "siamesadas"?
Quando o tempo mo permite, tenho as minhas preocupações, os meus anseios. Olho para o que sou ou tenho, e vejo o plano de evolução. Franzo o cenho, dando comigo emerso em preocupações que estão bem encerradas no plano intangível da minha personalidade. Segredos, mortes conceptuais, memórias, auto-exames, you name it.
E dou comigo a preocupar-me com coisas distantes da minha esfera. Não sei bem porquê, especialmente do ponto de vista da impossibilidade de contribuição positiva para esses fenómenos. Acho-me por vezes no seio da vergonha feita da preocupação com coisas que provavelmente não diriam nada a mais ninguém.
Por vezes pergunto-me.
Com que se preocupam as pessoas?

quinta-feira, fevereiro 01, 2007



"Age como se a máxima da tua acção (tendente ao Bem como expressão de liberdade plena) se devesse tornar, pela tua vontade, em lei universal da natureza".

Kant

(parentesis meu, com base noutras ideias do autor)

Religião para quê, meus amigos?

Para quê?
Ao visitar as palavras de uma amiga, recordei uma ideia muito concreta, mas admito que é igualmente muito pessoal, acerca do conceito de saudade.

A saudade é necessária.

Fundamental, e absolutamente necessária.

A saudade intensifica a nossa capacidade de desejar, e comporta os elementos de novidade que reformulam a pessoa na nossa capacidade de a amar. A saudade é uma espécie de muda de roupa interna, ou a repetição evolutiva do maravilhamento pelo outro.
A saudade faz-nos sonhar com o toque, e transforma a antecipação num prato de sabores dissociados. Magoa, mas com a doçura da inspiração imaginativa. Traz a melancolia embalada do anseio, o filtro catalizador do que de mais intensamente sensorial que podemos experienciar.

A saudade é necessária.

É necessário sentir o impulso de vontade pelo toque da pele, ou o gosto da boca que não está ali. É necessário perceber e imaginar, (por vezes além, por vezes aquém do real) quem por ali virá, e como nos achamos maravilhados pelo misto de reencontro e descobrimento que a saudade traz. É, no fundo, necessário fazer dessa pessoa criação do nosso anseio, e deixá-la repousar no desejo renovado pela falta, viajando bem alto no reencontro.
É por isso que julgo que a saudade é necessária.
Porque assim como os ponteiros do relógio precisam de um intervalo feito de nada na passagem de um segundo para o outro, chegamos aos outros precisamente através dos hiatos em que os imaginamos e desejamos, incendiados pela ausência.
A saudade é necessária, porque nos olhos dos que reencontramos há toda a explicação de um desejo imaginado que cresce no real. E o que essa vida traz de novo, no posterior, é factor de crescimento do seu conceito dentro de nós.
Por vezes é preciso ir buscar lá fora fora para aumentar o que temos cá dentro.